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19/06/2008
Montagem sobre foto de Alexandre Arruda/CBV/Divulgação

Foto: Alexandre Arruda/CBV/Divulgação
Inicialmente, Zé reclamou do Grand Prix, mas agora vê a disputa como um bom treino para Pequim.

Por Carolina Canossa

“Lógico que vamos fazer de tudo para ganhar, pois brasileiro não entra em quadra para perder. Mas estamos com a cabeça nas Olimpíadas. Uma derrota no Grand Prix não vai mudar nossa vida, pois a meta do time é Pequim”. A declaração da atacante Mari resume muito bem o espírito da seleção brasileira feminina de vôlei para a disputa do Grand Prix. O tradicional torneio anual inicia sua edição 2008 nesta sexta-feira, com a partida entre Turquia e Estados Unidos no Japão. Pouco depois, o Brasil entra em quadra para fazer sua estréia diante da Tailândia, na cidade chinesa de Ningbo, às 4 horas da manhã (horário de Brasília).

Última etapa antes da disputa das Olimpíadas, o GP está sendo encarado como um treino de luxo pelas meninas do Brasil. Um treino, aliás, que o técnico José Roberto Guimarães já confessou que não queria ter. “O Grand Prix é um pepino que eu tenho que resolver. Nem sei como vamos jogar esta competição, da qual eu não gostaria de participar”, comentou o treinador, durante o desembarque da seleção brasileira em Cumbica no final do ano passado, depois do segundo lugar na disputa da Copa do Mundo - a Rússia, inclusive, não fez muita questão de se empenhar no qualificatório europeu para o GP, no ano passado e está fora da disputa.

Às vésperas da estréia na competição, contudo, Zé Roberto mudou o tom. O comandante da seleção feminina preferiu conscientizar suas atletas sobre o valor de um bom resultado no GP para pegar confiança para Pequim. “É importante estarmos na final do Grand Prix porque essa é a nossa preparação para as Olimpíadas”, comentou o treinador, já em Ningbo.

Ou seja, como a participação do Brasil é obrigatória, a comissão técnica optou por tentar tirar o máximo da competição. “Estamos um pouco ansiosas para as Olimpíadas, mas a gente tem o Grand Prix antes. Queremos aproveitar bastante”, explica a oposto Sheilla, titular absoluta da equipe nacional. Fofão completa com uma revelação. “O Zé disse para a gente que o resultado não vai importar, porque continuaremos com o mesmo tipo de treino físico”, afirmou a atleta, antes de ir para os Estados Unidos, onde machucou o joelho e descobriu que ficará afastada do time até a terceira semana do GP.

Foto: Alexandre Arruda/CBV/Divulgação
De volta à seleção, a versátil Mari alerta que rendimento pode não ser o mesmo durante o GP.

Um dos problemas do Brasil é que, pouco menos de dois meses antes das Olimpíadas, a malhação está pesada, podendo influenciar o rendimento das atletas em quadra. “Imagina levantar todos os dias 70 kg de supino: quando você vai pegar na bola, o braço está pesado, está travado mesmo... Normalmente, quando a gente vai jogar, temos que parar de malhar um dia antes ou malhar um pouco mais leve. Essa vai ser a diferença: talvez vocês vejam uma seleção um pouco mais lenta. Pode acontecer de alguém errar um movimento porque o braço estava meio travado. Não tem com escapar”, admitiu Mari.

Capitã do time, Fofão ainda comentou que a seleção pode mudar sua postura em quadra para não entregar todas as armas para as adversárias pouco antes do torneio mais importante do ano. “É uma das nossas preocupações não demonstrar tudo o que podemos fazer, qualquer mudança tática, por exemplo. Temos que jogar o mais simples possível pra que possamos surpreender nas Olimpíadas. Vamos tentar treinar de um jeito e jogar de outro, porque sabemos que todo mundo vai estar de olho no Grand Prix”, afirmou.

Outra arma do Brasil é um trabalho desenvolvido ao longo dos últimos meses pelo “espião” Zé Roberto. “Como ele não trabalhou de técnico nesta temporada (Zé foi diretor técnico do Pesaro, campeão italiano), ele esteve na Espanha, na Itália... onde tinha uma brasileira jogando, ele ia assistir ao campeonato. Foram feitas filmagens e pegamos todas as informações que podemos usar contra. Temos que aproveitar tudo”, comentou Fofão, que não acredita em uma grande modificação nas principais rivais da seleção verde-amarela. “Acho que o Brasil é o único time que tem mais variações. Nos outros times, pouca coisa pode mudar”, emendou.

Sem contar com Walewska e Fofão, que ganharam folga depois dos Jogos Pan-americanos, além de Mari, cortada da disputa, o Brasil decepcionou no Grand Prix 2007, ao acumular quatro derrotas em cinco jogos da fase final. Uma nova derrota, entretanto, não vai afetar o ânimo para Pequim - pelo menos, é o que garantem as próprias jogadoras. “Em 2004, a China ficou em quinto lugar no Grand Prix, que acabou um mês antes das Olimpíadas. E depois ganhou a medalha de ouro”, observou Sheilla. Na época, o Brasil ficou com o título do GP, mas terminou o torneio de Atenas-2004 na quarta posição.

O GP também vai ser importante para que Zé Roberto faça as observações necessárias para definir as duas jogadoras que serão cortadas do grupo antes das Olimpíadas. E, apesar de ter usado um esquema com quatro centrais no Sul-americano e da Copa do Mundo do ano passado, o técnico já adiantou que uma das jogadoras a serem dispensadas será uma meio-de-rede. A briga é basicamente entre Fabiana, Thaisa e Carol Gattaz, uma vez que o treinador deu como certa a participação de Walewska nas Olimpíadas de Pequim, assim como Fofão e as atacantes Paula Pequeno e Jaqueline.

Carol Gattaz, entretanto, se diz tranqüila e destaca o bom clima do grupo. “A decisão vai ser do Zé e por enquanto só posso ficar feliz por ter sido convocada. Vou lidar com a possibilidade de corte, como sempre lidei. Eu nunca tive vida fácil, mas todas as quatro meios tem condições de estar nas Olimpíadas. É uma felicidade para a seleção e uma sorte termos quatro centrais tão bem”, elogiou.

E é justamente o bom clima do time que empolga Fofão nesta reta final de sua despedida da seleção brasileira - a atleta deixa a camisa amarela logo após as Olimpíadas de Pequim, independente do resultado obtido. “O Grand Prix é uma viagem muito pesada, com um desgaste muito grande, pois cada semana joga-se em uma cidade diferente e longe uma da outra. Minha motivação vem das meninas. Elas lutam todo dia para ser titular, brincam e estão sempre rindo. Às vezes, eu chego cansada e começo a dar risada com elas. Daqui a pouco, eu já esqueci do cansaço. Isso faz muita diferença. Este é um dos melhores grupos com o qual eu trabalhei”, garantiu a veterana jogadora.

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