O Brasil é um País capitalista, com o que isto significa de bom e de ruim. O fato de vivermos numa democracia permite que se possa atenuar um pouco os aspectos amargos do regime, já que permite a luta por reparação de eventuais injustiças. Assim, por exemplo, um trabalhador pode recorrer à Justiça contra uma decisão do empregador. Claro, todos sabemos, que o acesso ao Poder Judiciário, a começar pela contratação de um bom advogado, é muito desigual. Quem tem mais recursos obviamente tem chances maiores de vencer uma disputa nos tribunais.
O escrito acima é para lembrar que, há mais de 30 anos, no POP, um jornal esportivo que não existe mais, fez-se uma série de discussões sobre os salários dos jogadores de futebol, que no final da década de 1970 estavam “muito altos”. Os debates foram transmitidos por uma rádio da época – me perdoem, mas não lembro qual, era uma emissora pequena.
Na ocasião, um dos debatedores, depois de tomar o cuidado de dizer que “ninguém tem nada a ver com o salário alheio”, mandou brasa: “Mas tem exageros, soube que tem jogadores que ganham mais que o Presidente da República.”
O antigo colega era bom repórter, mas não acompanhava bem os bastidores. Já à época, a maioria dos jogadores dos “times grandes” ganhava bem mais que o Presidente, então o general João Figueiredo.
Imagino a surpresa do mesmo jornalista a partir do começo dos anos 1990. Agora ainda deve estar aturdido, se leu nos últimos dias que Thiago Neves estaria trocando o Flamengo, onde – estava escrito na matéria dos melhores sites do ramo – ganhava R$ 580 mil, para voltar ao Fluminense, com salário mensal de R$ 720 mil.
Admito que os altos salários dos jogadores de futebol não são novidade, mas assustam. Mas quando vejo que um jogador realmente bom, sem dúvida, mas que, a bem da verdade, não é um craque, ganha mais que R$ 700 mil por mês, fico preocupado. Em algum momento a conta não tem como fechar. Aí entram as denúncias já antigas, tão antigas que poucos ainda comentam, de que o futebol, assim como o cinema e outras atividades, é o mundo onde o dinheiro é “lavado”, ou seja, ganha cara legal. Pois é, as estrelas do cinema também ganham milhões. Li que o cachê de Julia Roberts (quando estava no auge) chegava a 15 milhões de dólares.
Voltando ao capitalismo. Se fosse legalmente possível pensar num projeto de lei que limitasse os salários abusivos, os advogados dos atingidos reagiriam com um argumento fatal: “Se a lei não impõe limite ao lucro, pode limitar os salários?”
De qualquer forma, sobra para muitos este descontrole, como o aumento dos custos dos produtos e serviços, casos dos ingressos para o cinema ou jogos dos campeonatos. E especificamente, no caso de Thiago Neves e Fluminense, sobra para os clientes Unimed, patrocinadora da equipe e, acho, maior plano de saúde do Brasil. Quem é cliente Unimed sabe das restrições impostas ao atendimento e os aumentos nas mensalidades.
E aí? Aí não tem jeito.