Pelé, Garrincha e a revista norte-americana

A notícia já tem alguns dias. Foi uma provocação da revista “Sport Illustradet”. Eles criaram um ranking do futebol mundial e colocaram Pelé, o rei, em 4º lugar. Fez pior. Colocou dois argentinos em 1º e 2º: Messi e Maradona, pela ordem, e em 3º o holandês Cruyff. O segundo brasileiro está na 18ª posição, é Zico.

Ora, alguém já escreveu, com razão, que a revista norte-americana entende pouco de futebol. Também é verdade que não há reparos a se fazer ao futebol dos três primeiros. Mas nós, brasileiros, jamais aceitaremos que possa haver algum outro jogador de futebol tão bom quanto Pelé. E também estamos certos: não houve, não há e não haverá jogador como o rei. Primeiro porque é verdade, depois porque, mesmo que isso fosse possível, nós não aceitaríamos.

Sempre que tenho oportunidade converso com colegas a respeito, daqui e do exterior. Com exceção dos argentinos, apenas um outro colega que colocou Pelé em 2º. Era um jornalista português. Mas italianos, espanhóis, franceses… enfim, essa gente toda acha impossível alguém tirar a primazia do rei.

Mas, além do pecado pesadíssimo de não colocar o rei no topo, a revista ainda colocou Garrincha em 28º lugar! Isso já nem é mais erro, é quase um crime. Nas minhas modestas pesquisas, porém, feita com gente série, Garrincha é sempre colocado como um dos cinco melhores da história. Depois de Pelé, entram Maradona, Garrincha, Cruyff e Beckenbauer.

No futebol há salários de marajá, mas não tem jeito

O Brasil é um País capitalista, com o que isto significa de bom e de ruim. O fato de vivermos numa democracia permite que se possa atenuar um pouco os aspectos amargos do regime, já que permite a luta por reparação de eventuais injustiças. Assim, por exemplo, um trabalhador pode recorrer à Justiça contra uma decisão do empregador. Claro, todos sabemos, que o acesso ao Poder Judiciário, a começar pela contratação de um bom advogado, é muito desigual. Quem tem mais recursos obviamente tem chances maiores de vencer uma disputa nos tribunais.

O escrito acima é para lembrar que, há mais de 30 anos, no POP, um jornal esportivo que não existe mais, fez-se uma série de discussões sobre os salários dos jogadores de futebol, que no final da década de 1970 estavam “muito altos”. Os debates foram transmitidos por uma rádio da época – me perdoem, mas não lembro qual, era uma emissora pequena.

Na ocasião, um dos debatedores, depois de tomar o cuidado de dizer que “ninguém tem nada a ver com o salário alheio”, mandou brasa: “Mas tem exageros, soube que tem jogadores que ganham mais que o Presidente da República.”

O antigo colega era bom repórter, mas não acompanhava bem os bastidores. Já à época, a maioria dos jogadores dos “times grandes” ganhava bem mais que o Presidente, então o general João Figueiredo.

Imagino a surpresa do mesmo jornalista a partir do começo dos anos 1990. Agora ainda deve estar aturdido, se leu nos últimos dias que Thiago Neves estaria trocando o Flamengo, onde – estava escrito na matéria dos melhores sites do ramo – ganhava R$ 580 mil, para voltar ao Fluminense, com salário mensal de R$ 720 mil.

Admito que os altos salários dos jogadores de futebol não são novidade, mas assustam. Mas quando vejo que um jogador realmente bom, sem dúvida, mas que, a bem da verdade, não é um craque, ganha mais que R$ 700 mil por mês, fico preocupado. Em algum momento a conta não tem como fechar. Aí entram as denúncias já antigas, tão antigas que poucos ainda comentam, de que o futebol, assim como o cinema e outras atividades, é o mundo onde o dinheiro é “lavado”, ou seja, ganha cara legal. Pois é, as estrelas do cinema também ganham milhões. Li que o cachê de Julia Roberts (quando estava no auge) chegava a 15 milhões de dólares.

Voltando ao capitalismo. Se fosse legalmente possível pensar num projeto de lei que limitasse os salários abusivos, os advogados dos atingidos reagiriam com um argumento fatal: “Se a lei não impõe limite ao lucro, pode limitar os salários?”

De qualquer forma, sobra para muitos este descontrole, como o aumento dos custos dos produtos e serviços, casos dos ingressos para o cinema ou jogos dos campeonatos. E especificamente, no caso de Thiago Neves e Fluminense, sobra para os clientes Unimed, patrocinadora da equipe e, acho, maior plano de saúde do Brasil. Quem é cliente Unimed sabe das restrições impostas ao atendimento e os aumentos nas mensalidades.

E aí? Aí não tem jeito.

A São Silvestre – resultados naturais

Gostei do novo percurso  da São Silvestre. É mais rápido, isso já se esperava. Os resultados foram normais. Não entendo  os que ficaram decepcionados com os resultados de Marilson dos Santos – 8º colocado com 45:06 – ou mesmo com Martin Lel – 4º com 44:28.

É preciso entender que atletas como Marilson e Lel são essencialmente maratonistas, embora tenham bons resultados em corridas mais curtas, tipo 10.000 m em pista, 15 km e meia maratona na rua.

Foto Fernando Dantas/Gazeta Press

Tariku Bekele, atleta etíope da equipe Nike, durante a São Silvestre 2011. Foto Fernando Dantas/Gazeta Press

No entanto, quando confrontado com fundistas como Tariku Bekele, para uma prova com a distância da São Silvestre, eles naturalmente perdem a condição de favoritos. Porque Bekele – campeão mundial indoor dos 3.000 m – embora resistente, como todo fundista, tem muito mais velocidade que o brasileiro ou o queniano.

Claro que isso não é absoluto, há e sempre houve maratonistas muito rápidos, capazes de vencer provas mais curtas. Vários deles fizeram história em Olimpíadas e na São Silvestre, basta lembrar Zatopek, Franck Shorter, Carlos Lopes, para ficar apenas em três campeões olímpicos também ganhadores da São silvestre.

Mas no geral, um corredor como Bekele, que é muito forte também nos 10.000 m, por exemplo, tende a levar vantagem sobre maratonistas, quando se defrontam numa distância de 15 km.

Penso que Marilson está certo quando diz que tem que pensar acima de tudo na Olimpíada de Londres. Ele está com vaga assegurada, por ser top 30 mundial na prova em 2011. E bem preparado, ele pode obter uma boa colocação na capital britânica.

Já correu a tradicional Maratona de Londres e terminou entre os 10 primeiros. Aliás, seus recordes pessoais ele bateu e depois superou na cidade-palco da próxima maratona olímpica.

Viva 2012, o Ano Olímpico

Nota: Escrevi este texto na tarde do dia 31, mas uma repentina falta de energia me deixou fora do ar e sem condições de postar o comentário, que segue abaixo:

Daqui a algumas horas estaremos em 2012. A maioria de nós estará na mesma casa, no mesmo trabalho, com os mesmos sonhos e preocupações. O costume é desejar sempre que o próximo ano seja melhor do que o que está acabando. E seria estranho se o desejo fosse outro.

2012, porém, tem uma particularidade: ele é bissexto. Quer dizer, fevereiro terá 29 dias. E nos lembra de que será ano de Olimpíada, em Londres. E nos remete ao pensamento de que depois da capital britânica os Jogos serão disputados no Rio, em 2016.

É tempo, portanto, de refletir sobre os anos olímpicos. Pensar no que a realização dos mesmos pode mostrar em termos de evolução do esporte e do próprio ser humano.

Para mim, neste sentido, os Jogos de Barcelona em 1992 foram paradigmáticos. Conheci a cidade antes, em sua preparação para o evento. E fui acompanhar as competições, por “A Gazeta Esportiva”, antecessora do Portal GE.Net.

Sei que o custo foi alto para a cidade e para a Espanha. Mas as melhorias foram inegáveis em benefício dos habitantes e dos visitantes. Os Jogos marcaram a entrada no torneio masculino de basquete do dream team norte-americano, com Michael Jordan, Magic Johnson e cia.

Mas o momento mais emocionante, que lembro, foi eternizado numa foto que correu o mundo. A troca de beijos entre a bela negra etíope Derartu Tulu e a bela branca sul-africana Elana Meyer, ao final dos 10.000 m, prova vencida por Tulu (que anos depois ganharia a São silvestre), com Elana vice-campeã.

Elana que representava ali um país que retornava aos palcos olímpicos, após derrubar o indefensável regime do apartheid, que fazia 18 milhões de negros cidadãos de segunda classe frente à minoria branca.

Não por acaso, um ilustre estadista presenciou os Jogos da tribuna de honra: Nelson Mandela, recém-saído da prisão para a presidência da África do Sul.

Esperemos que Londres e depois o Rio façam Jogos inesquecíveis nas pistas, quadras, piscinas, campos, ringues, raias etc. Mas que as obras sejam úteis para o povo e que o homem possa subir mais um degrau em sua evolução moral. Até porque o custo sempre é alto, assim como foi para Barcelona.