O choro do Bernardo

Foto: Divulgação/Vasco.com.br

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Chorar de alegria é raro. As lágrimas, normalmente, vêm acompanhadas de notícias tristes, momentos doídos. Na rodada do final de semana do Campeonato Brasileiro, o que se viu foi um rio de lágrimas de felicidade. Primeiro dos corintianos com o gol do Liedson, seguido do frio no estômago no de Alecsandro e o choro despencando com o empate do Fred. Muitos, nem perceberam, que ainda tinha tempo no Rio e a comemoração foi engolida com o gol mágico do Bernardo. Mágico porque levou toda definição para a última rodada, aumentando em mais uma semana o mar de emoções de um certame tão disputado. E ele comemorou também chorando. Deve ter lembrado do pai, que foi boleiro, dos gritos dados e adiados, da sorte de estar no lugar certo, na hora certa. O gol do Bernardo não deverá mudar o rumo do título. Creio que o Corinthians conseguirá pelo menos um empate frente ao Palmeiras ficando com a Taça. Porém, foi daqueles momentos inesquecíveis para esse jovem. Porisso lágrimas. Foi um gol, que,  como uma varinha mágica, jogou milhões de sonhos para o outro domingo. Bernardo puxou o choro de emoção dos vascaínos, parou a festa corintiana e mostrou, mais uma vez, que quem se mete com futebol, precisa ter um coração tão forte, que consiga transformar, em fração de segundos, lágrimas alegres em lágrimas tristes.

Que saudade de voce

Ontem fui informado pelo twitter, que fazia 13 anos, que meu amigo Ely Coimbra tinha morrido.Não guardei a data da morte,talvez por não ter, intimamente acreditado, que aquilo ocorreu de fato. Ely foi meu maior “inimigo”. Amigo ou inimigo? Era um misto dos dois. Não sei porque, ele e eu vivíamos sacaneando um ao outro.Primeiro coloquei peixe no carro dele, que ficou tão mal cheiroso, cercado de gatos vira-latas,que ele teve que vendê-lo a preço de banana. Aí ele deu o troco, me oferecendo vários brigadeiros, não de chocolate, mas de pimenta. Meu próximo ato foi mandar um grupo de travestis esperá-lo no aeroporto na volta da Olimpíada de Seul em 88, com faixas saudando o “presidente da Associação Paulista dos Gays”. A revanche foi brava. Ele conseguiu doar todo meu décimo terceiro salário para a Legião da Boa Vontade. E o Natal foi pobre, lá em casa. Porque isso começou eu não sei, mas brigávamos e ríamos muito entre  ”gozaçõeszinhas” com outras pessoas. Ely era mestre em encher a comida dos outros de coisas indesejáveis. Certa vez em Baurú, Carlos Alberto Torres queria matá-lo após experimentar uma polentinha recheada de pimenta malagueta. Era “bullyng” para todo lado. Mas, estávamos sempre juntos. Na Brunella do Guarujá, que era dele,  eu vivia levando bandos de amigos, para comer de graça os doces. Na sacanagem mesmo. Mas, todo dia a gente se visitava e sempre fomos parceirões em tudo. Quando soube da notícia da morte do Ely, pensei que fosse outra palhaçada. Nós tínhamos mania de dizer, aos menos avisados, que amigos distantes tinham morrido,só para vermos o susto dos que tinham perguntado, ao reencontrarem, em algum lugar, o teórico morto e ligar xingando nossas mães. Tanto o “morto” como o assustado. Só que naquele 25 de novembro de 1998 o Ely passou da conta. Fez a tremenda safadeza de ir embora para sempre. Inacreditável. Ele faz uma falta enorme para mim. É difícil o dia,que não falo dele ou não conto uma de suas histórias incríveis. Dessa vez passou da conta. Estou com uma saudade insuportável. Será que não dá  para parar com essa brincadeira e voltar aqui para nós,velho e querido irmão ?

Esporte de Meninas

Semana de Fórmula Um em São Paulo. Meus amigos que gostam, no entanto, não parecem entusiasmados. Não bastasse a decisão tão antecipada e o do mau momento dos brasileiros,  todos reclamam da falta de competitividade. Eu sou futeboleiro, ou seja, não entendo, nem acompanho, outros esportes, mas, até por dever de ofício, fico relativamente informado. E após esses bate-papos desanimadores, comecei a lembrar de algumas declarações interessantes, que li ultimamente. Quando Juan Pablo Montoya, que voava na Indy, parou com a Fórmula Um, deu uma entrevista dizendo ter sido obrigado a fazê-lo. “Estão me impedido de fazer o que mais gosto, que é correr”. Dias depois o grande e sincero Nelson Piquet respondeu sobre as normas atuais do F 1. Ele analisou os detalhes, os regulamentos restritivos e foi enfático. “Virou um esporte de meninas”. Sei lá se eles foram radicais demais ou não, mas que as decisões sairam das pistas para os boxes, isso até eu, que não entendo nada e mal acompanho, já percebi.

Choque-Rei mais barato que rachão

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Ingresso a 5 reais. Nem no bailão do Estrela de Sucumba ou nos cinemas de praça do interior,  paga-se tão pouco. Era melhor dar de graça para instituições de caridade, pois assim teríamos pessoas necessitadas aproveitando um evento de porte. Esse nível de preço, para um Palmeiras x São Paulo,  rebaixa completamente a partida. Para que se tenha uma idéia, como me informa meu amigo Odilon, empresário dos Demonios da Garoa, domingo é dia de rachão no Flamenguinho da Vila Maria. Entrada: 12 reais. É vergonhoso relegar o Choque-Rei ao custo de duas doses de pinga em botecos de periferia. Há toda uma história, uma tradição e, mesmo que, hoje, o Palmeiras não arranque suspiros, isso não poderia acontecer. Sei que esse valor é para meia entrada de arquibancada, porém, todo mundo tem carteirinha de estudante, que, aliás, nem deveria valer para futebol. Mas mesmo o ingresso inteiro é menor que o do Rachão da Vila Maria. Se você não valoriza seu produto, caminha para ser considerado insignificante. E o Palmeiras é grande demais para isso. Nem populismo barato pode ser considerado. É falta de noção do todo, mesmo. Reduziram o preço do Palmeiras a um show do Zé Manguaça, nos áureos tempos do Macalé, na várzea da Zona Leste. Só espero que, não aceitem vale transporte, vale refeição ou latas vazias como forma de pagamento. Embora eu não ficasse tão surpreso assim, depois de tantas bobagens e desrespeito com o mais precioso espetáculo do nosso país, o futebol.

Planeta dos Macacos

A Ponte Preta voltou à primeira divisão. Estava mais do que na hora.Esse é um time especial, onde se grita,se xinga e se chora com intensa paixão. Estava vendo o jogo contra o ABC na pilha total. Quando veio o gol deles e os resultados estavam quase empurrando a Ponte para fora dos quatro finalistas, fiquei transtornado. Parecia que os filmes, que vimos tantas vezes iriam voltar. Mas, no segundo tempo, uma magia tomou conta de tudo, vieram os gols da Nega Véia e outros, que nos favoreceram. E lá está a Macaca de volta a Série A. A Ponte dá mais audiência, em São Paulo, do que muitos times badalados, tipo Grêmio e Atlético Mineiro. Quem é Macaco não tem segunda opção.É como se não existisse nenhuma outra equipe, em volta, só inimigos tentando nos conquistar. A Ponte é um mundo a parte, de amor e raiva, de decepções e orgulho, talvez do que se desejaria ser, sem ser. Conheci e conheço grande figuras desse incrível mundo paralelo da bola, que canta músicas próprias, o hino do clube com a mão no peito e que tem fé e sonhos até nas mais incríveis derrotas. Chorei muito sábado à tarde junto com esse Planeta maluco. Lembrei do meu pai, do Renato Silva, da Doana, da Conceição do Mineirinho e tantos outros, que sempre estiveram por lá. Alguns já se foram da Terra, outros seguem na luta, mas cantam, lá em cima ou no Majestoso, o hino do Planeta, sempre com grande arrepio na alma. “Estandartes desfraudados, preto e branco é sua cor…” Valeu Nega Véia. O Planeta dos Macacos vai invadir a primeira divisão em 2012.

Largura de campeão

Depois do primeiro tempo, que o Corinthians jogou, ou melhor, não jogou. E com Ramirez fazendo o gol que fez, mesmo sendo um jogador tão fraco, as coisas parecem caminhar muito em direção a novo título corintiano no Brasileiro. A equipe tem sido irregular, porém nenhum outro esteve tanto tempo na liderança. E ganhando do jeito que conseguiu no Ceará, dificilmente o título escapará. O Tite tem conseguido mexer bem as peças. É um trabalhador e tem sido recompensado pelos deuses da bola.  Também Julio Cesar, o criticado goleiro,  foi fundamental nas dificuldades de Fortaleza. É um grupo que trabalha, se mata em campo e tem procurado pela sorte. E ela está respondendo à altura.Largura também faz parte, mas não vem por acaso.

O maior jogador do mundo

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Sempre gostei de bater papo com os vendedores dos semáforos. Pobres trabalhadores, mesmo na informalidade, lutam pela sobrevivência e até nos dão proteção em locais onde, na falta deles, poderíamos ser assaltados.

Vendem boas balas, bons panos de prato, carregadores para celulares e muitas vezes capricham na limpeza dos nossos vidros dianteiros. Mas, na semana passada um garoto me chamou a atenção. Não comprei a bala dele por causa do calor intenso, que a derretia, mas conversamos rapidamente. Ele disse que me via na TV, e que eu deveria marcar o nome dele.

Ao contrário de muitos, não queria nenhum alô ou recadinho. Disse apenas, que seu nome é Bruno Souza e que iria ser o maior jogador de futebol do mundo. Gostei do que ouvi e retruquei se ele estava fazendo algo, para que esse sonho virasse verdade. E ele me informou, que está treinando, intensamente, no Nacional A.C., depois de faturar algum dinheirinho com as balas no semáforo. Gostei demais da convicção e da força de vontade do Bruno Souza.

Não sei se ele será o maior jogador do mundo um dia, mas tem uma meta e luta por ela. Assim surgem os vencedores. Não está esperando nenhum caçador de talentos e nem lamentando nada. Está lutando. Esse é o segredo do sucesso. Sou fã do Bruno Souza. Se ele seguir agindo assim será um vencedor no campo ou fora dele. A vida pede sacrifícios e recompensa quem topa encará-los. Vou ficar muito envaidecido se entrevistar o Bruno Souza, algum dia, no Mesa Redonda, ou até entregar-lhe, quem sabe, um troféu de melhor. O mundo é dos batalhadores e ele está firme, na batalha.

O pé do Pelé

Foto: Flávio Prado/Gazeta Press

Foto: Flávio Prado/Gazeta Press

Não curti a Xuxa na infância. Sou bem mais velho do que ela e meu olhar era outro, para a loirinha, que surgia na antiga Rede Manchete, mostrando talento, como namorada do Pelé. E ela cresceu, encantou gerações, tanto que está na televisão até hoje, na grande Rede Globo. Ela é vítima de fofocas, invenciones, tristezas, que passam até pela pequena Sasha, filhinha maltratada na internet. Não é fácil ser Xuxa e eu respeito demais uma profissional como essa. Mas, confesso que levei um choque. Ao entrevistar Neymar ela comentou  sobre o pé do Pelé. Falou é que feio, unhas pretas, algo insuportável. Pelé levou numa boa e até sorriu. Mas, eu fiquei pensando no que seria do Brasil, sem esse “pé feio” do Pelé. Talvez as varinhas mágicas do desenhos animados, que passaram anos a fio no programa da própria Xuxa, também fossem feias, mas operavam milagres. Gigantes viravam anões, fracos viravam fortes e até príncipes transformavam-se em sapos. O pé do Pelé equivale mais ou menos a isso. Como uma varinha de condão, transformou o desconhecido Brasil num nome mundial. Colocou o futebol brasileiro no mapa principal do planeta e, até hoje, é um dos poucos símbolos de grandeza da nossa nação. Falar mal desses pés é complicado. Eles foram abençoados ainda na barriga da Dona Celeste. Seus raios de magia fizeram a nação abandonar o “complexo de cachorro vira-latas” citado pelo Nelson Rodrigues. Talvez se fossem feitos pelas mãos, também deformadas do grande Aleijadinho, tivessem uma beleza estética que agradaria mais ao gosto exigente da linda apresentadora. Mas, e os gols, e os dribles e a maestria? Quero prestar a minha homenagem ao pé do Pelé, que, descalço, nunca vi, ao contrário da Xuxa. Mas, calçando chuterias, meu Deus do céu. Nunca apareceu nada mais valioso no nosso país.