Era hora do banho de sol naquele retiro de velhinhos no Rio de Janeiro. Alguns se movimentam com dificuldade, outros são falantes, boa parte precisa de cadeiras de rodas e alguns de amparo pleno, quase que atados, para não tombarem no gramado.
Do lado de fora, separados por uma grade, um grupo de meninos joga uma animada pelada. De repente um deles erra e a bola cai dentro da clínica. Bate num senhor, que parece alheio ao mundo. Ele percebe algo, mas segue no seu sossego. A bola retorna aos meninos, só que logo volta e toca naquela mesma cadeira de rodas.
Menos de cinco minutos e a cena se repete. Dessa vez pousa no colo do senhor, até então sem qualquer reação. Para surpresa de todos ele abre os olhos, faz um movimento difícil e chuta com o pé direito, com tamanha perfeição, que parece ter naquele pé o complemento da própria bola. E aí ela não volta mais. E ele também não. Retorna ao seu silêncio, a sua indiferença, a sua espera de não se sabe o que.
O que foi descrito acima, talvez não tenha acontecido. Porém, deveria. A enciclopédia do futebol, Nilton Santos, hoje não consegue mais qualquer conexão com o mundo, onde ele sempre foi rei. Tomado pelo Mal de Alzheimer, passa seus dias muito longe dos estádios lotados, das glórias fantásticas e dos momentos de magia. As visitas são raras. Os filhos precisam cuidar da mãe, também bastante doente, no entanto com plena conciência de tudo. Quem sabe a bola, que ele domou tantos anos, pudesse trazê-lo de volta. Ele hoje, talvez nem saiba o que é aquele objeto esférico. Ela porém, sabe perfeitamente quem ele é. E por certo guarda grandes lembranças dos tempos em que jogar futebol, se confundia com arte.
Que grande artista foi esse Nilton Santos.






