O homem mais triste do mundo

hugo_sanchezA Copa do Mundo de 1986 deixou muitas marcas no futebol. Além da magia de Diego Maradona ficou a ola, que até hoje é vista nos estádios brasileiros. A ola, onde os torcedores levantam-se e sentam-se numa sequência, que parece uma onda marinha, veio de um comercial da Coca Cola apresentado em todo México de forma insistente. Ola em espanhol é onda. E lá, como cá, onda pode ser do mar, ou um modismo.

Eles passavam então a mensagem de que Coca Cola era a ola, ou onda, daquele mundial, enquanto um estádio cheio fazia o famoso movimento. Fiquei por lá, entre alguns escombros de um terremoto, que abalara o país meses antes, por mais de 50 dias.  Aí você entra na vida dos moradores. E naqueles dias o México endeusava um jogador. Mais do que um ídolo, Hugo Sanchez era um orgulho nacional. Um programa humorístico mostrava um rapaz sentado atendendo um telefone, que não parava de tocar. Ele dizia sempre a mesma coisa. Alô. Quem é ? É o presidente ? Quer falar com Hugo Sanchez ? E caia na gargalhada. O Papa também queria, naquele quadro de humor, os principais políticos e até o presidente dos Estados Unidos, o mundo todo, queria falar com Hugo Sanchez.

O México não venceu a Copa, mas guardei o respeito do país pelo atacante, que se transformou no terceiro maior da história da Liga Espanhola, jogando pelo Real Madrid, Atlético de Madrid e Rayo Vallecano, por dez anos. Nas poucas aparições públicas, Hugo era visto ao lado de uma bela esposa, Emma Portugal e de um garotinho de pouco mais de dois anos, também chamado Hugo. Era o cara mais invejado do planeta.  Exemplo de felicidade plena. No último sábado veio uma notícia chocante. Aquele garotinho, agora com 30 anos, foi encontrado morto em seu apartamento, provavelmente vítima de um vazamento de gás.

Hugo Sanchez estava longe. Mora em San Diego nos Estados Unidos. A mãe, que  já não vive mais com ele, é casada com um ex jogador brasileiro, Antonio Carlos Santos. Hugo Sanchez Portugal morreu sem jamais ser feliz. Tentou jogar futebol por três anos. Só conseguiu atuar cinco vezes, quatro com o pai como treinador, no time do Pumas. Não fez gols. Virou beque. Desistiu. Tornou-se comentarista da Televisa e modelo. E tinha uma imensa mágoa do pai. Alegava que para comprar o apartamento onde foi encontrado morto, teve que posar nu e pegar algum dinheiro do pai, que em troca não passou o imóvel para o nome dele. Tempos depois de dizer, que não conheceu o pai durante seis anos e que ele era violento e infiel, deu nova entrevista pedindo perdão ao grande artilheiro, mas clamando pelo carinho dele.

Nos últimos tempos Hugo Sanchez Portugal trabalhava como diretor de Educação Física e Esportes em Miguel Hidalgo, uma das 16 províncias da cidade do México. No sábado não compareceu a um evento. A namorada chegou na casa dele e o encontrou morto, ao lado de um primo. Não havia sinais de violência. O Ídolo mexicano veio dos Estados Unidos e não quis falar com ninguém. A mãe desmaiou várias vezes no velório. Hugo Sanchez, o homem mais feliz do mundo em 1986, ficou o tempo todo cabisbaixo, vestido de preto, enterrado em pensamentos. Deve ter feito um grande balanço da vida espetacular que teve.

Não sei porque ele e o filho não se entendiam bem. Mas, imagino o tamanho da dor, que está sentindo. É bem provável que trocaria tudo que teve, pela amizade e boa relação com seu filho mais velho. Não tem mais jeito. O herói mexicano, Hugo Sanchez, vai ter muita dificuldade para voltar a  sorrir. Hoje ele é o homem mais triste do mundo.

De Kombi, no Morumbi

Foto: Acervo/Gazeta Press

Foto: Acervo/Gazeta Press

Estávamos no final dos anos 60, começo de 70. Na periferia da cidade, os campos de futebol colavam-se uns aos outros. Entre a Vila Ré e a Penha, minha região, tínhamos o Vila Esperança, o Macalé, o América, o Rio Branco, o Triângulo, o Vila Matilde,o Nacional.

A bola rolava aos sábados e domingos, com milhares de atletas amadores, que pagavam recibos, para defender suas equipes. E não foram poucos os que passaram da várzea para os grandes estádios. Julinho Botelho foi maior de todos. Mas jogaram por lá em várias épocas, Ataliba, Nelsinho, Casagrande, Osvaldo Ponte Aérea e tantos, que se perderam no tempo.

O futebol rolava de dia e de noite. Os esburacados e carecas campos de várzea, eram também usados pelos meninos mais novinhos, depois do horário das aulas. Valiam tubaínas, as vitórias de sonhos. Veio o metro. Sumiram os campos. Agora há asfalto onde havia lama. O som dos festivais, das manhãs de domingo, morreram com os ecos saudosos de quem os viveu. Até das brigas a gente sente falta.

O metro, que agora leva multidões aos estádios, sob forte vigilância policial, substituiu as Kombi alugadas, duas ou três vezes por ano, no máximo, pelas limitações financeiras, que nos levavam para ver jogos de futebol. O Morumbi era muito longe. Não havia a Marginal Pinheiros, então o trajeto levava duas horas ou mais. Iam todos juntos. Tricolores, palmeirenses, corintianos, santistas e quem estivesse disposto e com uns trocados a mais.

Apostava-se tudo. Quem faria o primeiro gol, o placar do segundo tempo, a renda, qual time jogaria com o uniforme principal, etc. No final dos clássicos, as gozações na Kombi eram o melhor do dia. Pagar o churrasquinho de gato ao vencedor era doído. Quando chegávamos de volta à casa, já passavam das dez da noite.

No trabalho, ou na escola, na segunda feira, tínhamos lindas histórias. E no outro final de semana muita bola rolava, de  novo, pelos campinhos e campões da periferia. Hoje temos Arenas, reuniões de policiais com uniformizados, jogos truncados e clássicos sem público. É o progresso. Mas, como custou caro.

Adeus, Gente Boa.

Tem pessoas que entram na sua vida e conseguem modificá-la de tal modo, que se não as encontrasse você não seria o que é. Quando cheguei a Tv Record em 1977 com Milton Peruzzi e Galvão Bueno eu era apenas um moleque procurando caminho. No ano seguinte estava na Copa do Mundo da Argentina e, ao lado de Silvio Luiz e Hélio Ansaldo, percebi que poderia ser um bom repórter de campo.

Com o passar dos anos era preciso saber fazer matérias também. Meu jeito radiofônico não servia para a televisão com suas técnicas próprias, formatos e embelezamentos. Os responsáveis por essas técnicas são os editores. No começo do anos 80 um novo grupo de pessoas foi trabalhar na Record. Entre elas, Michel Laurence. Ele era editor chefe, mas punha a mão na massa. E como sabia fazer bem. Minhas simples entrevistas viravam obras primas nos programas da hora do almoço. Certa vez, sem tema específico, Michel Laurence sugeriu que eu fosse ao Instituto Butantã e comparace cada espécie de cobra a um time de futebol.

Fui até lá meio cético, porém sabendo, que aquilo viraria coisa boa. Quando vi no ar, não acreditei. Michel transformara minhas comparações de cobra coral com São Paulo, jiboia com Santos e jararaca com Corinthians, ou algo assim, em agradáveis 2 minutos, que deram o melhor índice de Ibope do jornal. E terminava com uma musiquinha de muito sucesso na época “depois que mataram a jiboia, jararaca deita e rola”.

O genial Michel Laurence deve ter ouvido a música em algum canto, pensou na matéria e fez o que fez. Virei um repórter bom de matéria. Na verdade eu era um repórter ótimo de editor. Saímos juntos da Record e ele me levou para a Bandeirantes. E depois, no final da Jovem Pan TV, novamente me recolocou na televisão, então na TV Cultura, onde eu viraria apresentador do Cartão Verde. Devo muito a Michel Laurence. Nunca pude pagar o débito, até porque seria impossível.

Ele nunca me chamou pelo nome. Sempre, sei lá porque, de “Gente Boa”. Perdemos o contato nos últimos anos. Nem sabia das internações e doenças dele. Separações da vida, porém lamento não ter podido lhe dar algum conforto, nesses momentos difíceis. Até saber da morte dele, hoje. Fiquei muito triste. Quando um mestre morre o mundo fica mais pobre. A televisão brasileira está bem mais pobre. Sei que Deus recompensa aqueles que ajudam pessoas durante suas vidas. Agora eles estão juntos e Michel levou vários bônus do que fez por mim. Obrigado querido amigo.

Adeus, Gente Boa.

Vergonhosa convocação

Foto: CBF

Principais times da Série A ficarão sem jogadores devido a um torneiozinho na China

Terminava o jogo da verdade, o 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil na Copa do Mundo e o que mais se ouvia é que, agora, as coisas iriam mudar. Pouco mais de três meses depois segue tudo igual. Nenhum plano estratégico para o futebol brasileiro, nenhuma mudança de postura e a CBF limitou-se a trazer Dunga de volta.

Os clubes seguem desamparados, nas mãos dos empresários e, alguns, com dirigentes desonestos, até vendendo lugares para pais endinheirados nos times de base e mesmo nos elencos principais. Apesar dessa esculhambação surgem bons jogadores. E os treinadores, sem grande material humano, tratam de antecipar etapas utilizando os nascidos da combustão espontânea nas equipes principais.

De repente, no momento mais importante do Campeonato Brasileiro e na decisão da Copa do Brasil, chega a CBF. Ela não produz nada, não gasta nada, não serve para nada, mas aproveita a safra. A convocação do Alexandre Gallo para um torneiozinho na China, chega a ser acintosa. Não pelo treinador, que tem que fazer o trabalho dele. Mas pelas condições.

De novo a CBF vai ganhar uma grana preta e desfalcar os times principais. Nas rodadas 33 e 34 e nas finais da Copa do Brasil, não estarão disponíveis Gabigol do Santos, João Pedro e Nathan do Palmeiras, Malcom do Corinthians, Carlos do Atlético Mineiro, Andrey e Yuri Mamute do Botafogo, Auro do São Paulo e também o artilheiro Thalles do Vasco na hora de definição da Série B.

Essa seleção vai fazer jogos sem importância, o dinheiro não virá para os clubes e alegação, vejam só, é a preparação da seleção para a Olimpíada de 2016. Parece gozação é, porém, imposição de força contra um bando de frouxos. Esse abuso só acontece porque os clubes se borram de medo da CBF. Acatam tudo, cabisbaixos. São usados, desrespeitados e estão sempre de joelhos.

Enquanto essa covardia persistir, nosso futebol não sairá do lugar. O que José Maria Marin e Marco Polo Del Nero resolverem será concedido com reverência, por todos. E pela competência deles já sabemos o que deverá acontecer. Os 7 a 1 da Alemanha poderão virar rotina.

Depois que perde, valoriza.

AFP

AFP

Ninguém sente falta do que não conhece. E muitos não conseguem avaliar o que tem, até perder. Hoje, vendo tambores rufando pelo Neymar, lembro de quantas brigas tive, no ar e fora da televisão, defendendo o talento e a importância do Neymar para o futebol brasileiro. Depois de um jogo beneficente, que fizemos juntos em 2009, percebi que tínhamos um gênio por aqui. Quando disse isso fui massacrado. Mas nada comparado ao que fizeram com o garoto. As dancinhas, os dribles, as burlas malandras, próprias do futebol, tudo servia de pretexto para críticas pesadas contra ele. O craque era o Ganso. Ele um mero coadjuvante. Pior é que tem gente que ainda pensa assim.

Neymar foi perseguido pelas arbitragens, que o expulsavam por tudo. Se punha máscara, na festa do gol, era cartão. Se tirava uma camiseta,que estava por baixo, outro cartão. Quando, de fato,  pisou na bola com Dorival Junior, só faltou ser deportado. Fez do Santos um Circo de Soleil como dizia o presidente Luiz Alvaro com precisão. Transformou André, Zé Love, Wesley, Kardec e o próprio Ganso de jogadores comuns a bons, em protagonistas. O Zé Love chegou a ser cogitado pelo Milan e o Palmeiras fez rifa para contratar, por uma fortuna, o Wesley. Palmeiras e São Paulo brigaram pelo Kardec e o São Paulo se pendurou em dívidas para ter o Ganso. Mas nenhum rendeu nem dez por cento do que rendia na Vila Belmiro, porque o fator Neymar não estava junto.

E aí ele foi embora, de novo debaixo de polêmica devido a uma, realmente, esquisita negociação. E, rapidamente, vai se transformando num dos maiores do mundo. Em 2018, por certo, já terá sido escolhido como melhor, pelo menos uma vez. Ou seja, também em 2018, o sucesso da seleção brasileira depende dele. Mas agora o papo é outro. Com 22 anos e 40 gols na seleção, o oitavo maior artilheiro de todos os tempos no time brasileiro, o enfoque sobre ele mudou. Os críticos fazem referências. Só que agora é tarde. O mundo dele ficou grande demais para o futebol brasileiro. Virou estrela mundial e o Brasil não soube aproveitar os 3, 4 anos do que ele mostrou aqui, preocupando-se  mais com a  ira e a  inveja, do que curtindo os shows dele nos campos de futebol.

Depois que o Brasil o perdeu, passou a valoriza-lo. Tarde demais. O patamar de Neymar agora é lá em cima. Quando surgir, se surgir, outro como ele, que se mude a ótica. Eu não acredito nisso, porém torço. Embora saiba, que num país de medíocres, o talento, em qualquer área, incomode muito. Como Neymar incomodou, quando desfilava por aqui.

Por que me candidatei?

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Quando comecei a trabalhar com futebol ia muito a Federação Paulista de Futebol. O presidente era José Ermírio de Moraes Filho.  Quando ele saiu virou uma confusão. Os clubes do interior se reuniram e perceberam que o voto era unitário. Corinthians e Ponte Preta, por exemplo, tinham o mesmo peso eleitoral. O inteligente presidente do Juventus, José Ferreira Pinto, criou o Grupo do 13. Ou seja, 13 times do interior contra os grandes de São Paulo. E elegeram Alfredo Metidieri, do São Bento de  Sorocaba. Entre 1976 e 1979 o interior comandou. Mas isso não agradou, sei lá porque, a ditadura militar, que tratou de colocar um político no cargo.

Entre 1979 e 1982, Nabi Abi Chedid foi o dono da cadeira presidencial. A grande exposição criou a  cobiça entre outros políticos e aí começou uma briga intensa, pelo cargo, entre Nabi e José Maria Marin, esse mesmo de hoje na CBF. Quer dizer, o futebol estava nas mãos, nada recomendáveis de políticos. Então veio a ideia. Unimos um grupo de jornalistas, gozadores e resolvemos lançar Silvio Luiz, que estava arrebentando na TV Record, à presidência da FPF. Eu era o vice.

A chapa, que se chamava “Meu Chapa” tinha como plataforma ser o contrário do que os políticos ofereciam pelos votos. Não dávamos bolas, uniformes, iluminação de estádios, nada. E prometíamos escolher alguém efetivamente capaz e levá-lo ao poder. Algum executivo, ou coisa do tipo. Na “Meu Chapa” tínhamos Osmar Santos, José Silvério, Wanderley Nogueira, Juca Kfouri e outros companheiros. Era um tempo de economia de combustível. Então resolvemos descer a Brigadeiro Luis Antonio, onde era a sede da FPF, de carroça.

E como virávamos cartolas, fomos de fraque e cartola, Silvio Luiz e eu. Uma tremenda gozação. Tivemos 2 votos. Um da Lençoense, do Chico Gordono, dono de uma usina, onde se comprava cachaça na volta dos jogos e outro do grande Antonio Leme Nunes Galvão, presidente do São Paulo, que não gostava de ver políticos na Federação. Ficou para a história. Era o nosso protesto e sonho de dias melhores para o futebol. Políticos, não.

Marin ganhou e ficou no cargo até 1988. Aí veio um “civil”, Eduardo José Farah, que tragicamente presidiu a entidade até 2003, quando sofreu um golpe de outro “civil”, Marco Polo Del Nero. Del Nero não só continuou a tragédia de Farah como assumirá a CBF, no lugar, exatamente do político que combatíamos aqui, José Maria Marin. Reparem, virou, virou, virou e tudo continuou igual. Até alguns nomes seguem. Eleição é necessária, é a vida de um país. Mas, não muda nada sozinha. Os clubes seguem submissos aos mandatários e agem como cordeirinhos. O poder troca de mãos, porém está tudo igual. Nós que votamos precisamos pensar nisso. A postura do povo tem que ser firme, diferente. Caso contrário, fica tudo como antes, ou até pior. Como aconteceu quando saiu Marin e entrou Farah, na FPF.

O que começa errado…

Foto: Vitor Silva/SSPress

Foto: Vitor Silva/SSPress

Emerson Sheik e mais três jogadores foram afastados pela direção do Botafogo. É patético. Desacertos fazem parte de qualquer ambiente de trabalho, mas a reversão de papéis dos últimos meses no clube, não poderia gerar outra situação, que não essa.

Sheik cansou de emprestar dinheiro aos companheiros, que não recebiam. Virou quase um provedor, quando as necessidades básicas do jogadores não podiam ser cumpridas, porque a direção não conseguia honrar com os pagamentos dos salários em dia.

Se o presidente não tem capacidade para cumprir com suas obrigações e os funcionários ocupam esse lugar, é claro que está tudo errado. Mauricio Assumpção não é o único culpado. As finanças do clubes estão deterioradas e o Botafogo não é uma exceção. O que assusta é o amadorismo.

O caso Sheik mostra, de novo, que passou da hora de virarmos profissionais. Empresas em tal estado seriam fechadas. O paternalismo com os times de futebol, impede que se evolua. Pobre Botafogo de tantas histórias lindas. O que se passa hoje, por lá,  é vexatório. Infelizmente numa proporção quase geral no Brasil e não apenas localizada.

Único no mundo

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

Já houve tempo em que o futebol brasileiro era visto como único no mundo pela beleza, criatividade e revelações, aos montes, de jovens jogadores. Os tempos mudaram. Com o fim da várzea e a incompetência dos clubes em descobrir e lapidar garotos, o trabalho passou para os empresários, que faturam muito e quase sempre com a sociedade de alguém dentro dos próprios times.

Então aparecem jogadores lá fora dos quais nunca ouvimos falar. E eles seriam muito úteis aqui para nós. Só para pegarmos um exemplo atual, o grande José Mourinho está apaixonado pelo “brasileiro” Diego Costa. E com razão. O cara faz gols de todo jeito, enquanto no Campeonato Brasileiro não sobram artilheiros.

Já falamos outras vezes sobre o ritmo lento nos nossos jogos. Em alguns casos parece outro esporte. E uma nova demonstração de incompetência, agora da Comissão de Arbitragem, gerou a sensação, ainda mais clara, de que aqui se joga algo diferente dos outros lugares do mundo. O festival de pênaltis marcados, absurdamente, transformou a regra do futebol em queimada. Bateu na mão, marca. Puseram a culpa no uruguaio Jorge Larrionda, que teria ensinado errada a pequena mudança na redação da Board. Mas, no Uruguai, o número de pênaltis marcados é o mesmo de sempre. Aqui subiu 150%.

A instrutora brasileira, Silvia Regina, disse no Mesa Redonda que “se o cara der azar da bola bater na mão dele, o pênalti tem que ser marcado”. Ou seja, uma reversão plena do espírito da regra e do que a Board manda que se faça no universo todo do futebol. Enfim, temos um jogo muito mais lento, parecendo mesmo outro esporte e praticamos outra regra. O Brasil continua sendo único no futebol.  Só que agora de forma bem negativa.

Sempre andando para trás

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

A conversa foi ouvida no metrô entre as Estações Penha e Carrão, ou seja, bem no meu pedaço. Dois garotos, entre 14 e 16 anos conversavam com entusiasmo sobre futebol. Minha aproximação foi natural e a surpresa também. Não falavam do último jogo do Corinthians, ou da recente contração do Santos, nem do São Paulo ou do Palmeiras. O papo era sobre a janela de transferências da Europa.

Os nomes fluíam com naturalidade. Discutiam sobre James Rodriguez no Real Madrid, a suspensão de Luiz Suarez, a estreia de Lewandowsky no Bayern e coisas do gênero. Pouco metros a frente um outro jovem usava uma camisa do Chelsea e o rapaz a minha frente, lia sobre o sorteio da Champions League.

Claro que o futebol brasileiro ainda tem prioridade nos papos de botequins. Mas é inegável que as novas gerações já têm olhos com visões maiores. Falar de torneios da Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália, etc, virou rotina para eles. Muitos gostariam de usar camisas dos clubes de seus pais. Mas temem pela violência e até por comodismo comprar as  das equipes, que eles assistem dando shows na televisão e com as quais jogam os seus vídeogames. E aí que entra o tema da nossa conversa. O futebol brasileiro, por sua legislação falha, não estará no Fifa 2015.

A Electronic Arts, que comercializa o game, não se sentiu segura para usar os nomes e imagens dos jogadores do Campeonato Brasileiro, apesar dos acertos com as equipes. Ou seja, nossos principais clubes, que já são pouco conhecidos no exterior, pois  a CBF só pensa na seleção e tirou deles a possibilidade de intercâmbio, perderam talvez a única fonte de divulgação internacional.

Os jogos do Brasil só são vistos em horários alternativos, mundo afora e os principais craques, que estão no exterior, são ligados, quase sempre, somente a seleção, não aos clubes. Então, fica difícil alguém usar uma camisa do Flamengo, ou do Vasco,  ou do Palmeiras, no metrô de Paris, simplesmente porque não há contato com esses times, mesmo sendo amantes do futebol. E nossos garotos vão jogar vídeogame com os amigos,  incorporando Messi, Ibrahimovic, Cristiano Ronaldo, Tomas Muller e outros lá de fora.

Daí a torcer por eles é um passo. Incrível como se anda para trás no futebol brasileiro. Os clubes deixaram de ganhar dinheiro, divulgação, prestígio e espaço. Os jogadores amplitude mundial. E a própria empresa, porque gostaria de contar com essas marcas. Todos perderam. Talvez em 2016 os brasileiros voltem ao game global. Mas o prejuízo já estará feito. Cada dia mais veremos conversas, como aquela do metrô entre a Penha e o Carrão, pelas nossas cidades. E gente trocando os times daqui pelos  lá de fora.

Milionários ou meninos?

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

Cada um tem o seu jeito. Eu prefiro o jeito alemão. Os dois maiores campeonatos do mundo são o inglês e o alemão. Enquanto os ingleses apostam alto em estrelas de primeira linha, os alemães dão força aos meninos da base. Para a formação de seleções, é claro que o jeito da Alemanha é melhor. Já os ingleses conseguem ter um Liga de provocar inveja até em santo.

No Brasil não se faz nem uma coisa e nem outra. Não há uma filosofia. Aqui cada um tem de uma forma, e essa forma muda de acordo com o vento. Vamos falar do Santos, o que mais tem revelado craques na base. De repente investe um caminhão de dinheiro, numa transação mal explicada, em cima do Leandro Damião. Não esqueçam que o Gabigol foi para o banco por causa disso. Quem pode render mais para o clube, dentro do campo e numa futura negociação?. Claro que o Gabigol. Então para que o Leandro Damião?. Depois veio o Robinho custando 500 mil reais líquidos por mês. Impossível ter retorno disso. O público dos jogos santistas continua o mesmo, média de 5 mil pessoas na Vila e os patrocinadores, talvez esperados, não vieram.

Igual raciocínio se aplica a Kaká no São Paulo. O clube apregoa a estrutura de Cotia. Então para que trazer um jogador, já em fim de carreira, ou mesmo um Ganso num custo absurdo, que jamais será reposto? Ou você tem um trabalho de revelações, como fazem os alemães, ou aposta em estrelas, como os ingleses. Mas aí precisa ter muita grana, para trazer gente, que lote estádios e não estrelas (de)cadentes.

Robinho já se machucou no quarto jogo, Valdivia segue enganando, Pato ferrou o Corinthians, Kaká joga uma e para outra. Enfim, o caminho deve levar a criação de estruturas onde os jovens possam, pelo menos, serem testados nos seus times do coração.

Infelizmente a cada 3000 garotos que pensam em jogar futebol, no Brasil, somente um consegue. E já entra pensando em ir para a Europa, com a cabeça feita, pelos seus empresários. Conclusão, ficamos com um campeonato fraco e uma seleção, que além de dar vexame, não tem identidade nacional. É isso que queremos para o nosso futebol ?