Pi, Pi, Pi, Pi, Pi

Foto: AFP

Foto: Luis Acosta/AFP

Vejo pouco televisão quando o tema não é futebol.  A correria do dia a dia não deixa. Menos num caso. Esteja onde estiver, fazendo o que for, paro para ver o Chaves. Não importa a situação meu estado de espírito sempre melhora, ao ver aqueles grandalhões vestidos de criança, praticando e sofrendo bullying, dando e levando porrada, vivendo a infância que eu vivi, num lugar também humilde.

Ninguém perdoa o gordo, o bochechudo, o pobretão, o malandro, que leva a culpa de todos os males sofridos pelo menino “riquinho” da região, mas burro como uma porta. O professor fuma charuto na sala de aula e ainda canta, ou tenta seduzir, a mãe de um aluno. Aliás, os alunos colam descaradamente, enquanto o mestre, que é apelidado de Linguiça, quase enlouquece com as dificuldades do dia a dia. Seu Madruga, Dona Clotilde, ou melhor, a Bruxa do 71, Chiquinha, Kiko, Seu Barriga, Nhonho, Patty, Jaiminho, são figuras da minha rotina.

Vários amigos meus são chamados por esses nomes, num misto de gozação e homenagem. E foi o genial Roberto Bolaños, que criou esse mundo paralelo na minha vida, como avatares, que me acompanham e me fazem rir, mesmo nos momentos mais complicados.

Morreu Roberto Bolaños. Humano, portanto mortal.

Senti demais. Devo muito a ele. Não foram poucas as vezes, que as palhaçadas dos personagens dele, me tiraram de momentos complicados, passando energia positiva com sua alegria pastelonica.

O Chaves é o menino que fui, ou imagino ter sido. Lutador, atrapalhado, as vezes discriminado, porém, acima de tudo um Chavo, ou seja, um moleque. Sei que aquele moleque da Penha, ou da vila mexicana, segue comigo. Daí tanta identidade.

Obrigado querido Bolaños, o pequeno Shakespeare, ou Chesperito, em mexicanês. Quem me faz rir merece minha eterna gratidão. Quem me faz gargalhar é meu mestre, meu guru. Você separou-se do Chaves. Cada um ficou de um lado. Bolaños mudou de esfera e o menino miserável da vila segue aqui. E sempre seguirá. Afinal, enquanto houver alguém sorrindo com ele, Chaves será imortal.

O que espera Kaká

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

A aventura de Kaká, segundo ato, no São Paulo, acabou. Foram jogos disputados com muita gana, viagens constantes é um bagaço físico, que beirou o insuportável . Correria, falta de tempo para treinamentos, calendário ridículo, tudo concorreu para que ele começasse muito bem e terminasse comum. Em 2015 Kaká muda de ares. Vai para os Estados Unidos. E será tudo ao contrário.

Se lá ninguém chora pelo time, como no Brasil, o futebol vai ganhando espaço importante. A média de público já é quase 50% maior do que o Campeonato Brasileiro. Se aqui a CBF é uma esculhambação, a Major League Soccer desce a detalhes e normas, que exigem o máximo em organização dos clubes, em nome dos frequentadores e do evento. A MLS é uma liga de franquias. As exigências, cobranças e divisões do bolo, são iguais. Para gerar lucros extras os times precisam ser criativos. O Houston, por exemplo, viaja sempre com dois aviões, que são usados por jogadores e torcedores.

Não, nem pense que lá existem esses bandos de vagabundos, como aqui, que exploram as equipes. Sem essa de torcida uniformizada. Os aviões levam jogadores ao lado de simpatizantes, que pagam fortunas para estarem no assento ao lado do seu ídolo. Eles também se hospedam nos mesmos hotéis e tomam café da manhã com o time. Pagando bastante, é claro. Há ainda sessões de fotos, que custam 10 dólares por click. O time do Beckham em Miami vai jogar numa ilha. O acesso a ela será através de pontes, onde carros não entrarão. Você  vai a pé, dentro de um shopping. Nele têm de tudo. Camisas, chaveiros, bolsas, comida, bebida, tudo com o símbolo da equipe e arrecadação total para o franqueador.

Em Orlando torce-se um pouco o nariz para o time de Kaká. Primeiro porque o complexo Disney não é muito afeito a concorrências. E depois porque o “prefeito” está colocando dinheiro da comunidade num dos estádios, que a equipe vai usar. Só Kaká ganhará fora do padrão autorizado pela Liga, que é de mais ou menos 20 mil dólares por jogador, pensando na saúde financeira da franquia. Jovens têm lugar garantido no time, para que possam evoluir. E os campeonatos, nem de outros esportes, se misturam em datas. Calendários práticos e enxutos com marketing intenso. Há quem aposte que logo os americanos estarão entre os melhores do futebol mundial. Não sei com certeza. Mas posso garantir que diversos brasileiros, que não frequentam estádios aqui, vão pagar alguns dólares em ingressos e consumo, por lá. E se Kaká não conseguir levar torcedores, logo será descartado, como ocorreu com Juninho Pernambucano. Recebe, mas sai do esquema. Enfim, a  CBF nós conhecemos. A MLS nem tanto. Que tal um intercâmbio? . Só por esse restinho de século. A CBF vai para os Estado Unidos e os americanos organizam nosso futebol. Será que eles topam a permuta ?

 

Mais um gol da Alemanha

Joe Klamar/AFP

Joe Klamar/AFP

A seleção do Dunga vai bem, é verdade. Mas nada mudou na montagem do futebol brasileiro. O Brasil foi vergonhoso na Copa de 2014. Dentre outros vexames a choradeira dos jogadores ficou marcada.

Faltou trabalho psicológico, sem dúvida. A competente Regina Brandão fez o que pode, de forma improvisada, em cima da hora e sem receber nada.

Mas o que faz diferença é o trabalho constante, a estrutura montada no dia a dia, desde a base até os profissionais. Assim fazem a Alemanha, a Holanda e os países mais civilizados do mundo da bola.

Aqui Dunga elegeu como psicólogos da seleção os ex- atletas. Primeiro foi Mauro Silva, depois Edu e na atual viagem, Oscar Bernardi. É óbvio que eles têm muita coisa a ensinar aos atuais jogadores. Porém, não são psicólogos. Só quem for muito ignorante não saberá diferenciar uma coisa da outra. Nada contra levar os ganhadores, os exemplos. Psicologia é outra coisa. Pior é que o Alexandre Gallo também adotou o mesmo discurso para as seleções de base.

Infelizmente uma ciência, tão útil ao ser humano, é deixada à margem no esporte mais importante para os brasileiros. Enquanto os outros se aperfeiçoam, usam as evoluções científica e tecnológica no trabalho, no Brasil ainda se pensa como na Idade da Pedra.

Hoje não há mais revelações de craques em massa. A várzea sumiu e os praticantes também. Jogador de escolinha é jogador de condomínio. Não segura nada.

E a Seleção Brasileira quer a Psicologia bem longe. Talvez Freud explique melhor o que se passa com os comandantes das equipes brasileiras.

Por enquanto, a Alemanha está fazendo mais um gol, na eterna goleada de 2014.

O homem mais triste do mundo

hugo_sanchezA Copa do Mundo de 1986 deixou muitas marcas no futebol. Além da magia de Diego Maradona ficou a ola, que até hoje é vista nos estádios brasileiros. A ola, onde os torcedores levantam-se e sentam-se numa sequência, que parece uma onda marinha, veio de um comercial da Coca Cola apresentado em todo México de forma insistente. Ola em espanhol é onda. E lá, como cá, onda pode ser do mar, ou um modismo.

Eles passavam então a mensagem de que Coca Cola era a ola, ou onda, daquele mundial, enquanto um estádio cheio fazia o famoso movimento. Fiquei por lá, entre alguns escombros de um terremoto, que abalara o país meses antes, por mais de 50 dias.  Aí você entra na vida dos moradores. E naqueles dias o México endeusava um jogador. Mais do que um ídolo, Hugo Sanchez era um orgulho nacional. Um programa humorístico mostrava um rapaz sentado atendendo um telefone, que não parava de tocar. Ele dizia sempre a mesma coisa. Alô. Quem é ? É o presidente ? Quer falar com Hugo Sanchez ? E caia na gargalhada. O Papa também queria, naquele quadro de humor, os principais políticos e até o presidente dos Estados Unidos, o mundo todo, queria falar com Hugo Sanchez.

O México não venceu a Copa, mas guardei o respeito do país pelo atacante, que se transformou no terceiro maior da história da Liga Espanhola, jogando pelo Real Madrid, Atlético de Madrid e Rayo Vallecano, por dez anos. Nas poucas aparições públicas, Hugo era visto ao lado de uma bela esposa, Emma Portugal e de um garotinho de pouco mais de dois anos, também chamado Hugo. Era o cara mais invejado do planeta.  Exemplo de felicidade plena. No último sábado veio uma notícia chocante. Aquele garotinho, agora com 30 anos, foi encontrado morto em seu apartamento, provavelmente vítima de um vazamento de gás.

Hugo Sanchez estava longe. Mora em San Diego nos Estados Unidos. A mãe, que  já não vive mais com ele, é casada com um ex jogador brasileiro, Antonio Carlos Santos. Hugo Sanchez Portugal morreu sem jamais ser feliz. Tentou jogar futebol por três anos. Só conseguiu atuar cinco vezes, quatro com o pai como treinador, no time do Pumas. Não fez gols. Virou beque. Desistiu. Tornou-se comentarista da Televisa e modelo. E tinha uma imensa mágoa do pai. Alegava que para comprar o apartamento onde foi encontrado morto, teve que posar nu e pegar algum dinheiro do pai, que em troca não passou o imóvel para o nome dele. Tempos depois de dizer, que não conheceu o pai durante seis anos e que ele era violento e infiel, deu nova entrevista pedindo perdão ao grande artilheiro, mas clamando pelo carinho dele.

Nos últimos tempos Hugo Sanchez Portugal trabalhava como diretor de Educação Física e Esportes em Miguel Hidalgo, uma das 16 províncias da cidade do México. No sábado não compareceu a um evento. A namorada chegou na casa dele e o encontrou morto, ao lado de um primo. Não havia sinais de violência. O Ídolo mexicano veio dos Estados Unidos e não quis falar com ninguém. A mãe desmaiou várias vezes no velório. Hugo Sanchez, o homem mais feliz do mundo em 1986, ficou o tempo todo cabisbaixo, vestido de preto, enterrado em pensamentos. Deve ter feito um grande balanço da vida espetacular que teve.

Não sei porque ele e o filho não se entendiam bem. Mas, imagino o tamanho da dor, que está sentindo. É bem provável que trocaria tudo que teve, pela amizade e boa relação com seu filho mais velho. Não tem mais jeito. O herói mexicano, Hugo Sanchez, vai ter muita dificuldade para voltar a  sorrir. Hoje ele é o homem mais triste do mundo.

De Kombi, no Morumbi

Foto: Acervo/Gazeta Press

Foto: Acervo/Gazeta Press

Estávamos no final dos anos 60, começo de 70. Na periferia da cidade, os campos de futebol colavam-se uns aos outros. Entre a Vila Ré e a Penha, minha região, tínhamos o Vila Esperança, o Macalé, o América, o Rio Branco, o Triângulo, o Vila Matilde,o Nacional.

A bola rolava aos sábados e domingos, com milhares de atletas amadores, que pagavam recibos, para defender suas equipes. E não foram poucos os que passaram da várzea para os grandes estádios. Julinho Botelho foi maior de todos. Mas jogaram por lá em várias épocas, Ataliba, Nelsinho, Casagrande, Osvaldo Ponte Aérea e tantos, que se perderam no tempo.

O futebol rolava de dia e de noite. Os esburacados e carecas campos de várzea, eram também usados pelos meninos mais novinhos, depois do horário das aulas. Valiam tubaínas, as vitórias de sonhos. Veio o metro. Sumiram os campos. Agora há asfalto onde havia lama. O som dos festivais, das manhãs de domingo, morreram com os ecos saudosos de quem os viveu. Até das brigas a gente sente falta.

O metro, que agora leva multidões aos estádios, sob forte vigilância policial, substituiu as Kombi alugadas, duas ou três vezes por ano, no máximo, pelas limitações financeiras, que nos levavam para ver jogos de futebol. O Morumbi era muito longe. Não havia a Marginal Pinheiros, então o trajeto levava duas horas ou mais. Iam todos juntos. Tricolores, palmeirenses, corintianos, santistas e quem estivesse disposto e com uns trocados a mais.

Apostava-se tudo. Quem faria o primeiro gol, o placar do segundo tempo, a renda, qual time jogaria com o uniforme principal, etc. No final dos clássicos, as gozações na Kombi eram o melhor do dia. Pagar o churrasquinho de gato ao vencedor era doído. Quando chegávamos de volta à casa, já passavam das dez da noite.

No trabalho, ou na escola, na segunda feira, tínhamos lindas histórias. E no outro final de semana muita bola rolava, de  novo, pelos campinhos e campões da periferia. Hoje temos Arenas, reuniões de policiais com uniformizados, jogos truncados e clássicos sem público. É o progresso. Mas, como custou caro.

Adeus, Gente Boa.

Tem pessoas que entram na sua vida e conseguem modificá-la de tal modo, que se não as encontrasse você não seria o que é. Quando cheguei a Tv Record em 1977 com Milton Peruzzi e Galvão Bueno eu era apenas um moleque procurando caminho. No ano seguinte estava na Copa do Mundo da Argentina e, ao lado de Silvio Luiz e Hélio Ansaldo, percebi que poderia ser um bom repórter de campo.

Com o passar dos anos era preciso saber fazer matérias também. Meu jeito radiofônico não servia para a televisão com suas técnicas próprias, formatos e embelezamentos. Os responsáveis por essas técnicas são os editores. No começo do anos 80 um novo grupo de pessoas foi trabalhar na Record. Entre elas, Michel Laurence. Ele era editor chefe, mas punha a mão na massa. E como sabia fazer bem. Minhas simples entrevistas viravam obras primas nos programas da hora do almoço. Certa vez, sem tema específico, Michel Laurence sugeriu que eu fosse ao Instituto Butantã e comparace cada espécie de cobra a um time de futebol.

Fui até lá meio cético, porém sabendo, que aquilo viraria coisa boa. Quando vi no ar, não acreditei. Michel transformara minhas comparações de cobra coral com São Paulo, jiboia com Santos e jararaca com Corinthians, ou algo assim, em agradáveis 2 minutos, que deram o melhor índice de Ibope do jornal. E terminava com uma musiquinha de muito sucesso na época “depois que mataram a jiboia, jararaca deita e rola”.

O genial Michel Laurence deve ter ouvido a música em algum canto, pensou na matéria e fez o que fez. Virei um repórter bom de matéria. Na verdade eu era um repórter ótimo de editor. Saímos juntos da Record e ele me levou para a Bandeirantes. E depois, no final da Jovem Pan TV, novamente me recolocou na televisão, então na TV Cultura, onde eu viraria apresentador do Cartão Verde. Devo muito a Michel Laurence. Nunca pude pagar o débito, até porque seria impossível.

Ele nunca me chamou pelo nome. Sempre, sei lá porque, de “Gente Boa”. Perdemos o contato nos últimos anos. Nem sabia das internações e doenças dele. Separações da vida, porém lamento não ter podido lhe dar algum conforto, nesses momentos difíceis. Até saber da morte dele, hoje. Fiquei muito triste. Quando um mestre morre o mundo fica mais pobre. A televisão brasileira está bem mais pobre. Sei que Deus recompensa aqueles que ajudam pessoas durante suas vidas. Agora eles estão juntos e Michel levou vários bônus do que fez por mim. Obrigado querido amigo.

Adeus, Gente Boa.

Vergonhosa convocação

Foto: CBF

Principais times da Série A ficarão sem jogadores devido a um torneiozinho na China

Terminava o jogo da verdade, o 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil na Copa do Mundo e o que mais se ouvia é que, agora, as coisas iriam mudar. Pouco mais de três meses depois segue tudo igual. Nenhum plano estratégico para o futebol brasileiro, nenhuma mudança de postura e a CBF limitou-se a trazer Dunga de volta.

Os clubes seguem desamparados, nas mãos dos empresários e, alguns, com dirigentes desonestos, até vendendo lugares para pais endinheirados nos times de base e mesmo nos elencos principais. Apesar dessa esculhambação surgem bons jogadores. E os treinadores, sem grande material humano, tratam de antecipar etapas utilizando os nascidos da combustão espontânea nas equipes principais.

De repente, no momento mais importante do Campeonato Brasileiro e na decisão da Copa do Brasil, chega a CBF. Ela não produz nada, não gasta nada, não serve para nada, mas aproveita a safra. A convocação do Alexandre Gallo para um torneiozinho na China, chega a ser acintosa. Não pelo treinador, que tem que fazer o trabalho dele. Mas pelas condições.

De novo a CBF vai ganhar uma grana preta e desfalcar os times principais. Nas rodadas 33 e 34 e nas finais da Copa do Brasil, não estarão disponíveis Gabigol do Santos, João Pedro e Nathan do Palmeiras, Malcom do Corinthians, Carlos do Atlético Mineiro, Andrey e Yuri Mamute do Botafogo, Auro do São Paulo e também o artilheiro Thalles do Vasco na hora de definição da Série B.

Essa seleção vai fazer jogos sem importância, o dinheiro não virá para os clubes e alegação, vejam só, é a preparação da seleção para a Olimpíada de 2016. Parece gozação é, porém, imposição de força contra um bando de frouxos. Esse abuso só acontece porque os clubes se borram de medo da CBF. Acatam tudo, cabisbaixos. São usados, desrespeitados e estão sempre de joelhos.

Enquanto essa covardia persistir, nosso futebol não sairá do lugar. O que José Maria Marin e Marco Polo Del Nero resolverem será concedido com reverência, por todos. E pela competência deles já sabemos o que deverá acontecer. Os 7 a 1 da Alemanha poderão virar rotina.

Depois que perde, valoriza.

AFP

AFP

Ninguém sente falta do que não conhece. E muitos não conseguem avaliar o que tem, até perder. Hoje, vendo tambores rufando pelo Neymar, lembro de quantas brigas tive, no ar e fora da televisão, defendendo o talento e a importância do Neymar para o futebol brasileiro. Depois de um jogo beneficente, que fizemos juntos em 2009, percebi que tínhamos um gênio por aqui. Quando disse isso fui massacrado. Mas nada comparado ao que fizeram com o garoto. As dancinhas, os dribles, as burlas malandras, próprias do futebol, tudo servia de pretexto para críticas pesadas contra ele. O craque era o Ganso. Ele um mero coadjuvante. Pior é que tem gente que ainda pensa assim.

Neymar foi perseguido pelas arbitragens, que o expulsavam por tudo. Se punha máscara, na festa do gol, era cartão. Se tirava uma camiseta,que estava por baixo, outro cartão. Quando, de fato,  pisou na bola com Dorival Junior, só faltou ser deportado. Fez do Santos um Circo de Soleil como dizia o presidente Luiz Alvaro com precisão. Transformou André, Zé Love, Wesley, Kardec e o próprio Ganso de jogadores comuns a bons, em protagonistas. O Zé Love chegou a ser cogitado pelo Milan e o Palmeiras fez rifa para contratar, por uma fortuna, o Wesley. Palmeiras e São Paulo brigaram pelo Kardec e o São Paulo se pendurou em dívidas para ter o Ganso. Mas nenhum rendeu nem dez por cento do que rendia na Vila Belmiro, porque o fator Neymar não estava junto.

E aí ele foi embora, de novo debaixo de polêmica devido a uma, realmente, esquisita negociação. E, rapidamente, vai se transformando num dos maiores do mundo. Em 2018, por certo, já terá sido escolhido como melhor, pelo menos uma vez. Ou seja, também em 2018, o sucesso da seleção brasileira depende dele. Mas agora o papo é outro. Com 22 anos e 40 gols na seleção, o oitavo maior artilheiro de todos os tempos no time brasileiro, o enfoque sobre ele mudou. Os críticos fazem referências. Só que agora é tarde. O mundo dele ficou grande demais para o futebol brasileiro. Virou estrela mundial e o Brasil não soube aproveitar os 3, 4 anos do que ele mostrou aqui, preocupando-se  mais com a  ira e a  inveja, do que curtindo os shows dele nos campos de futebol.

Depois que o Brasil o perdeu, passou a valoriza-lo. Tarde demais. O patamar de Neymar agora é lá em cima. Quando surgir, se surgir, outro como ele, que se mude a ótica. Eu não acredito nisso, porém torço. Embora saiba, que num país de medíocres, o talento, em qualquer área, incomode muito. Como Neymar incomodou, quando desfilava por aqui.

Por que me candidatei?

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Quando comecei a trabalhar com futebol ia muito a Federação Paulista de Futebol. O presidente era José Ermírio de Moraes Filho.  Quando ele saiu virou uma confusão. Os clubes do interior se reuniram e perceberam que o voto era unitário. Corinthians e Ponte Preta, por exemplo, tinham o mesmo peso eleitoral. O inteligente presidente do Juventus, José Ferreira Pinto, criou o Grupo do 13. Ou seja, 13 times do interior contra os grandes de São Paulo. E elegeram Alfredo Metidieri, do São Bento de  Sorocaba. Entre 1976 e 1979 o interior comandou. Mas isso não agradou, sei lá porque, a ditadura militar, que tratou de colocar um político no cargo.

Entre 1979 e 1982, Nabi Abi Chedid foi o dono da cadeira presidencial. A grande exposição criou a  cobiça entre outros políticos e aí começou uma briga intensa, pelo cargo, entre Nabi e José Maria Marin, esse mesmo de hoje na CBF. Quer dizer, o futebol estava nas mãos, nada recomendáveis de políticos. Então veio a ideia. Unimos um grupo de jornalistas, gozadores e resolvemos lançar Silvio Luiz, que estava arrebentando na TV Record, à presidência da FPF. Eu era o vice.

A chapa, que se chamava “Meu Chapa” tinha como plataforma ser o contrário do que os políticos ofereciam pelos votos. Não dávamos bolas, uniformes, iluminação de estádios, nada. E prometíamos escolher alguém efetivamente capaz e levá-lo ao poder. Algum executivo, ou coisa do tipo. Na “Meu Chapa” tínhamos Osmar Santos, José Silvério, Wanderley Nogueira, Juca Kfouri e outros companheiros. Era um tempo de economia de combustível. Então resolvemos descer a Brigadeiro Luis Antonio, onde era a sede da FPF, de carroça.

E como virávamos cartolas, fomos de fraque e cartola, Silvio Luiz e eu. Uma tremenda gozação. Tivemos 2 votos. Um da Lençoense, do Chico Gordono, dono de uma usina, onde se comprava cachaça na volta dos jogos e outro do grande Antonio Leme Nunes Galvão, presidente do São Paulo, que não gostava de ver políticos na Federação. Ficou para a história. Era o nosso protesto e sonho de dias melhores para o futebol. Políticos, não.

Marin ganhou e ficou no cargo até 1988. Aí veio um “civil”, Eduardo José Farah, que tragicamente presidiu a entidade até 2003, quando sofreu um golpe de outro “civil”, Marco Polo Del Nero. Del Nero não só continuou a tragédia de Farah como assumirá a CBF, no lugar, exatamente do político que combatíamos aqui, José Maria Marin. Reparem, virou, virou, virou e tudo continuou igual. Até alguns nomes seguem. Eleição é necessária, é a vida de um país. Mas, não muda nada sozinha. Os clubes seguem submissos aos mandatários e agem como cordeirinhos. O poder troca de mãos, porém está tudo igual. Nós que votamos precisamos pensar nisso. A postura do povo tem que ser firme, diferente. Caso contrário, fica tudo como antes, ou até pior. Como aconteceu quando saiu Marin e entrou Farah, na FPF.

O que começa errado…

Foto: Vitor Silva/SSPress

Foto: Vitor Silva/SSPress

Emerson Sheik e mais três jogadores foram afastados pela direção do Botafogo. É patético. Desacertos fazem parte de qualquer ambiente de trabalho, mas a reversão de papéis dos últimos meses no clube, não poderia gerar outra situação, que não essa.

Sheik cansou de emprestar dinheiro aos companheiros, que não recebiam. Virou quase um provedor, quando as necessidades básicas do jogadores não podiam ser cumpridas, porque a direção não conseguia honrar com os pagamentos dos salários em dia.

Se o presidente não tem capacidade para cumprir com suas obrigações e os funcionários ocupam esse lugar, é claro que está tudo errado. Mauricio Assumpção não é o único culpado. As finanças do clubes estão deterioradas e o Botafogo não é uma exceção. O que assusta é o amadorismo.

O caso Sheik mostra, de novo, que passou da hora de virarmos profissionais. Empresas em tal estado seriam fechadas. O paternalismo com os times de futebol, impede que se evolua. Pobre Botafogo de tantas histórias lindas. O que se passa hoje, por lá,  é vexatório. Infelizmente numa proporção quase geral no Brasil e não apenas localizada.