Gazeta Esportiva

Era hora do banho de sol naquele retiro de velhinhos no Rio de Janeiro. Alguns se movimentam com dificuldade, outros são falantes, boa parte precisa de cadeiras de rodas e alguns de amparo pleno, quase que atados, para não tombarem no gramado.

Do lado de fora, separados por uma grade, um grupo de meninos joga uma animada pelada. De repente um deles erra e a bola cai dentro da clínica. Bate num senhor, que parece alheio ao mundo. Ele percebe algo, mas segue no seu sossego. A bola retorna aos meninos, só que logo volta e toca naquela mesma cadeira de rodas.

Menos de cinco minutos e a cena se repete. Dessa vez pousa no colo do senhor, até então sem qualquer reação. Para surpresa de todos ele abre os olhos, faz um movimento difícil e chuta com o pé direito, com tamanha perfeição, que parece ter naquele pé o complemento da própria bola. E aí ela não volta mais. E ele também não. Retorna ao seu silêncio, a sua indiferença, a sua espera de não se sabe o que.

Acervo/Gazeta Press

Acervo/Gazeta Press

O que foi descrito acima, talvez não tenha acontecido. Porém, deveria. A enciclopédia do futebol, Nilton Santos, hoje não consegue mais qualquer conexão com o mundo, onde ele sempre foi rei. Tomado pelo Mal de Alzheimer, passa seus dias muito longe dos estádios lotados, das glórias fantásticas e dos momentos de magia. As visitas são raras. Os filhos precisam cuidar da mãe, também bastante doente, no entanto com plena conciência de tudo. Quem sabe a bola, que ele domou tantos anos, pudesse trazê-lo de volta. Ele hoje, talvez nem saiba o que é aquele objeto esférico. Ela porém, sabe perfeitamente quem ele é. E por certo guarda grandes lembranças dos tempos em que  jogar futebol, se confundia com arte.

Que grande artista foi esse Nilton Santos.

A Lei Geral da Copa é um grande conluio de políticos com a Fifa, envolvendo interesses menores e esquemas pouco recomendáveis. Mas, como tudo tem um outro lado, dentro dessa Lei Geral da Copa, foi aprovada ontem aquele aposentadoria prometida aos campeões mundiais de 1958, 1962 e 1970. O então presidente Lula fez um escandalo, anos atrás, anunciando esse reconhecimento, porém, ninguém recebeu um centavo até o momento. Agora, no entanto, tudo está, finalmente, resolvido. Ontem essa premiação passou pela última comissão, hoje será referendada e aí só faltará a assinatura da presidente Dilma e a publicação no Diário Oficial. Em um mês o dinheiro chegará na conta dos nossos maravilhosos antigos craques, que nos deixam cada vez mais saudades, a cada atuação medíocre, como a de ontem, da seleção brasileira. Cada campeão mundial receberá 100 mil reais, como se fosse um atrasado e, a cada mês, $ 3.670,00, que é o teto máximo da Previdência Social. Os que tiverem aposentadorias com valores menores, receberão apenas o complemento para que se chegue a esse total. Os 100 mil de cada um, será assumido pelo Ministério dos Esportes, que, ufa, servirá para algo, pelo menor uma vez. O principal responsável pela conquista é Marcelo Neves, filho do maravilhoso goleiro Gilmar, que fundou uma associação para ajudar os nossos grandes ex jogadores. Há casos dramáticos de senhores pobres, com doenças graves, esquecidos, passando necessidade. Alguns podem ter gastando demais, no entanto, a maioria vive há mais de 30 anos com o dinheiro, que ganhou jogando futebol. Mais velhos, mais doentes e com entradas financeiras bem menores. Não é fácil para ninguém. Esse dinheirinho vai melhorar bastante a vida dos maiores jogadores que já tivemos. Nada mais justo.Eles nos deram muitas alegrias, coisa difícil de se esperar das seleções brasileiras que temos visto nos últimos tempos. A justiça foi feita, outra coisa rara no Brasil de hoje.

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

O São Paulo caiu em desgraça na Federação Paulista de Futebol depois do, até hoje, mal explicado caso Madonna em 2008. Jurou que seria oposição ríspida, que não daria tréguas e que passaria a exigir mais respeito. Nada disso ocorreu. Ao contrário, o São Paulo tem sido prejudicado, faz tempo e mantém uma postura de carneirinho. O inimigo ideal, aquele que fala, porém não tem coragem de agir. Novamente o Tricolor está sofrendo com isso e, de novo, não parece esboçar reação. A transferência do clássico de domingo para Presidente Prudente gera prejuízos e desconfortos ao clube, que, com uma postura firme poderiam ser evitados. O Palmeiras, entenda-se Federação, que parece ter convênio com a cidade, mudou seu mando do Pacaembú para o Farazão. As despesas do mandante são pagas. As do visitante, não. Se o São Paulo reagisse, uma vez que fosse, a esse tipo de coisa, por certo essas retaliações já teriam acabado. Com é mansinho, continua pagando, para dar renda ao adversário, beneses aos políticos de Prudente e dividendos para Marco Polo Del Nero. E nada seria mais simples. Era só esvaziar o jogo. Time totalmente reserva. Mesmo que perdesse não teria grandes problemas, já que vai se classificar facilmente, como todos os outros grandes, nesse campeonato de nível tão baixo. Isso diminuiria público, ibope da tv e as cobranças iriam parar na FPF. O São Paulo mostraria sua verdadeira força. Ao invés disso, chegou até a pensar em levar Luiz Fabiano, sua grande atração, para o evento . A viagem será brava. Na volta, por exemplo, vai ter que descer em Campinas e seguir de onibus até a Capital. E bancando tudo. Está na hora do presidente Juvenal Juvencio deixar a retórica bonita de lado e sair para a ação. Quando ele brigou com Andrés Sanchez foi tão retalhado, que não há mais clássicos no Morumbi. Os patrocínios estão mais difíceis e o adversário tirou de lá a Copa do Mundo e consegue incomodar até na hora dos alvarás para shows. Esse é um inimigo complicado. Enquanto isso, o São Paulo faz o jogo de Del Nero. Protesta, porém aceita. Em síntese, passa recibo. Até consigo ver o presidente da FPF rindo do documento enviado, como o máximo que o “inimigo” pode fazer.  Parece que Juvenal perdeu a noção da força do São Paulo. Talvez seja o caso de fazer as pazes com Andrés e pedir a ele alguns conselhos de como se faz para incomodar, aqueles que não lhe agradam.

Os comentários sobre uma possível renúncia de Ricardo Teixeira são fortes. Espero que isso ocorra o quanto antes. Mas, o futebol precisa de bem mais que  isso. Não resolve só tirar o presidente. É preciso limpar a área completamente. Se Teixeira sair e não se fizer uma grande intervenção na CBF, quem assumirá o comando será José Maria Marin, ele mesmo, o Zé das Medalhas. E caso ele se manque e caia fora, tem um filho do José Sarney, na linha sucessória. Ou seja, Ricardo Teixeira cercou-se de iguais e sua simples saída nada resolverá, mesmo entendendo que o ar fique bem mais respirável. Caso a ótima notícia da renúncia se concretize, será o momento exato para uma mudança radical no perfil de administração do nosso futebol. Não adiantará nada somente trocar a mosca.

Foto: AFPInacreditáveis as diferenças entre a nossa Libertadores da América e a Liga dos Campeões da Europa. E um equivale ao outro dependendo do lado do mundo, que voce estiver. Os clubes brasileiros morrem pela nossa Copa continental e com  razão. Ganhar muda qualquer clube de patamar. Mas, nos últimos tempos começamos a ouvir que, financeiramente, a competição é deficitária.

Fui me informar e fiquei assustado. O Santos, campeão da Libertadores de 2011, ganhou 8 milhões e 300 mil reais. Isso equivale, mais ou menos a um quinto do que recebeu o último colocado da Champions, que ficou com mais de 17 milhões de euros. Vou reafirmar para que você entenda a loucura. O campeão daqui, recebeu o equivalente a um quinto do que o último colocado de lá.

O vice europeu, Manchester United, ganhou dez vezes mais do que o nosso campeão, Santos. Antes que você diga que aqui temos Venezuela, Perú, Bolívia, etc, lembro que, lá,  participam Chipre, Romenia e a falida Grécia. Aliás, praticamente toda a Europa está quebrada. Só que, o evento deles, é grandioso. Assistindo uma partida da Champions a pessoa se emociona na entrada dos times, na cerimonia de abertura e vendo estádios bonitos e uma organização impecável. Aqui os estádios são mal cheirosos até pela televisão. A técnica é boa, porém os jogos são bagunçados, cheios de confusões, impunidades e, acima de tudo, falta de transparência.

Enquanto a Uefa é super profissional, a Conmebol não publica sequer o seu balanço. É uma verdadeira caixa preta e com um caudilho eterno. Quem mantém a competição são os clubes brasileiros e  mexicanos com suas televisões poderosas. No entanto, aceitam essa antiga dinastia, pacificamente. Por que será? Dentro da lógica, Leoz  já deveria ter tomado um pontapé nos fundilhos, faz tempo. No entanto, é tratado como rei, recebendo títulos de cidadania das nossas principais cidades. É bastante estranho.

Ele é incompetente, não cuida do seu principal evento e não presta contas a ninguém. De onde vem esse poder? Com a palavra os presidentes dos principais times da América, que nunca se mobilizaram para mandar esse Nicolas Leoz, no mínimo, para casa.

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

O  Corinthians cometeu um grande erro ao contratar Adriano. Eu entendo que só o profissionalismo resolve. Não adianta você ser bom no que faz, caso não tenha senso de responsabilidade. E o Adriano deixou de ser profissional de futebol, faz tempo. O número de vezes, que ele foi citado na crônicas policiais, nos últimos meses, supera, em muito, os bons trabalhos em campo. Jogando ele fez um gol em 16 meses, esteve sempre fora de forma ou “em recuperação”. Divulgou-se uma mentira, quando ele veio. O que foi avisado é que ele tinha um contrato especial, por produtividade. Agora, o presidente em exercício, Roberto de Andrade, confirmou que não há nada disso. Se ele for mandado embora receberá até junho. Então tenta-se de tudo. Agora vão colocá-lo como um brother. Trancado na concentração, com observação constante na comida, bebida e sem as tradicionais saídas, Adriano não será Adriano. Esperar que ele vá se concientizar é querer demais. Ele está longe de ser má pessoa, porém não se gosta e está sempre procurando pelo próprio rumo. Não vejo vantagem em inscrevê-lo na Libertadores. Seria seguir sonhando com um Imperador que não existe mais, faz tempo. Parece que a história dele ficará limitada ao gol contra o Atlético Mineiro no Brasileiro passado. Foi mesmo decisivo, mas isso até o Cachito Ramirez fez. Mais que isso, o Cachito fez outro gol dias desses. Quando um jogador com a história de Adriano começa a perder até para um peruano, é sinal que não tem mais jeito. Infelizmente, nem nesse Big Brother o Adriano voltará aos seus melhores dias. A menos que surja uma incrível surpresa.

Sai cedinho de casa. E as manhãs de domingo são especiais na periferia. Grupos de moleques misturam-se a senhores gordões pelas ruas, com uniformes coloridos, rumo aos sobreviventes campos de várzea. Os papos são animados. As chuteiras, quase sempre com travas barulhentas, batem forte nas calçadas mal conservadas, provocando um som único, que me remete à infância, quando a Penha inteira era repleta desses campinhos, criados e cuidados, pelos próprios moradores. Onde hoje passa o metro, viam-se festivais de futebol  começando na Vila Guilhermina e chegando até a Rua Guaiauna, espécie de divisa dos “estados unidos” da Penha com o vizinho Tatuapé. Tinha o Ruve, o 5 de julho, o Guarani, o meu querido Macalé, que virou Miolo da Vila e perdeu o campo por acreditar, que a Marta Suplicy,então prefeita, daria uma outra área para o clube. No lugar do velho campo fez-se um buraco fedido, que chamam de piscinão. Voltando aos times, vale falar da parte de cima do hoje metro da Zona Leste.  Lá destacavam-se o Vila Matilde e o  Triangulo e, um pouco mais abaixo, Ameriquinha, Palmeirinha e Rio Branco, esse último, time do maior nome da história do bairro, o grande Julio Botelho. Os tempos mudaram. Porém, a  várzea ainda teima em sobreviver. São raros os “olheiros”, que antes sobravam pelos campinhos. Os “craques” saem das escolinhas de futebol. São mais delicados, mais cuidadosos e não sonham com Corinthians, Palmeiras, São Paulo ou Santos. Eles agora querem Barcelona, Milan e Manchester United. Aliás, os próprios times, até da várzea, usam uniformes, que se referem as equipes européias. Difícil encontrar os corintinhas, palmeirinhas, flamenguinhos e portuguesinhas. Mas, a sofisticação nos nomes não muda o conceito varzeano de sempre. O que valem são as histórias, do que se fez e do que se quis fazer, no rachão.  Já no boteco  rolam também as apostas nos jogos dos profissionais, do período da tarde. Isso não mudará nunca. É  por essa razão, que o futebol continua sendo a coisa mais importante na vida do brasileiro, tendo ele dinheiro no bolso, ou não. Lazer tão amplo, tão misturado e tão barato, não se encontra em nenhum outro lugar do planeta.

Foto: AFP

Foto: AFP

Quase cem mortos, um montão de feridos. O que aconteceu no Egito pode ocorrer no Brasil, facilmente. Lá, como cá, gangues acompanham os times, com a teórica desculpa de amor às equipes. Na verdade amam seus grupelhos e sua violência. Também no Egito havia tolerância plena com essa “gente”. Até que deu nisso. Por certo agora falarão em “providências enérgicas”, investigações rigorosas e outros que tais. Não vai acontecer nada de prático. Os países de terceiro mundo seguirão aceitando a bandidagem  no futebol, como algo natural do nosso tempo. Não é. E os ingleses provaram isso. Há um monte de vandalos lá também. Só que eles foram enquadrados pelas leis. Não há perdão. E hoje o melhor e mais belo espetáculo de futebol do mundo, vem de lá. Os estádios egípcios não se parecem em nada com os da Inglaterra, porém lembram muito os do Brasil.

Eduardo José Farah (à direita) em almoço com Ricardo Teixeira, presidente da CBF, na Copa de 1998 (Acervo/Gazeta Press)

Os olhos do velho senhor não têm brilho. Ele passa horas sentado no quarto ou na sala, com pijama e chinelinho estofado, entre cochilos, divagações e, às vezes, resmungos. Deve pensar onde errou. Difícil dizer. Pela  minha forma de ver a vida, ele fez tudo errado. Passou por cima de muita gente, criou uma máquina de dinheiro, com métodos nada convencionais, que lhe trouxe poder, soberba e temor dos inimigos, que, no entanto, estavam ao lado dele, o tempo todo, sem que desconfiasse. Num ambiente onde não há ética, respeito, solidariedade, e somente o dinheiro vale, é muito normal que os adversários se aproximem, aguardando o momento do bote fatal. E o golpe contra ele, foi mesmo mortal. Esse senhorzinho, que hoje vive quase solitário, não recebe visitas, perdeu todo glamour e encanto, depois de ter tanta gente lhe lambendo as botas, por muitos anos, é Eduardo Farah.

O ex-presidente da Federação Paulista de Futebol faz, hoje, três hemodiálises por semana. A rotina de sofrimento difere totalmente dos dias de glória, onde caravanas de presidentes de grandes e pequenos clubes cercavam sua sala, em busca de benesses e favores, e seu grito significava desespero para todos. Farah teve que sair do cargo para amainar uma investigação da Receita Federal. Queria passar o poder para José Reinaldo, em quem ele confiava. Mas o estatuto dava o comando a Marco Polo Del Nero.

Como Farah ainda tinha voz forte, Del Nero prometeu-lhe tudo. Até permanência na mesma sala, motorista, salário régio etc. Aos poucos foi cortando tudo. Até que Farah sumiu, enquanto José Reinaldo se aliava a Del Nero. Durante algum tempo ainda falou-se dele. Hoje, ninguém pergunta mais. As botas a serem lambidas são de Del Nero, e os serviçais fazem isso com a mesma maestria exigida, tempos atrás, por Farah. O reino continua de pé. Agora os gritos do nosso monarca é que assustam.

O velho rei vive seu crepúsculo, quase anonimo. Raríssimas visitas e a luta pela volta da saúde é  tão difícil, ou até mais, do que o retorno aos dias magistrais. Assim é a vida. Não há reinado eterno, para ninguém. Mas você pode fazer o bem enquanto reina, ou criar cobras, que, em algum momento, vão lhe picar. Farah não deixa nenhuma saudade no mundo da bola. Del Nero segue fazendo o que ele fazia. Com aprimoramentos, é claro.

Foto: AFP

Foto: AFP

Salvador Cabañas está voltando ao futebol. Ele atuará no 12 de outubro, time paraguaio, onde começou. Desde que tomou um tiro na cabeça, dia 25 de janeiro de 2010, Cabañas foi só luta, primeiro pela vida, depois pela volta à alegria de jogar futebol. Confesso que torci pela vida dele, porém, nunca acreditei, que ele pudesse voltar a ser futebolista profissional. A notícia de sua volta  é surpreendente e fantástica, ao mesmo tempo. Exemplo de vontade de viver plenamente, a qualquer custo, mesmo que a vida tenha lhe preparado uma emboscada. Se eu tivesse acesso ao Adriano, do Corinthians,  faria um video especial desses dois anos de luta do paraguaio. Com um problema muito mais grave, já que Adriano se entregou depois da morte do pai, Cabañas tornou-se um vencedor, enquanto o brasileiro perde pontos a cada dia, apesar das inúmeras chances. Sei que cada um sente de um jeito e reage à sua maneira. Mas, muitas vezes o bom exemplo abre cabeças. Adriano sempre foi muito mais jogador, que Salvador Cabañas, porém, nessa luta para voltar a jogar em alto nível, o gordinho paraguaio está ganhando, de mil a zero, do gordinho brasileiro.