Depois que perde, valoriza.

AFP

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Ninguém sente falta do que não conhece. E muitos não conseguem avaliar o que tem, até perder. Hoje, vendo tambores rufando pelo Neymar, lembro de quantas brigas tive, no ar e fora da televisão, defendendo o talento e a importância do Neymar para o futebol brasileiro. Depois de um jogo beneficente, que fizemos juntos em 2009, percebi que tínhamos um gênio por aqui. Quando disse isso fui massacrado. Mas nada comparado ao que fizeram com o garoto. As dancinhas, os dribles, as burlas malandras, próprias do futebol, tudo servia de pretexto para críticas pesadas contra ele. O craque era o Ganso. Ele um mero coadjuvante. Pior é que tem gente que ainda pensa assim.

Neymar foi perseguido pelas arbitragens, que o expulsavam por tudo. Se punha máscara, na festa do gol, era cartão. Se tirava uma camiseta,que estava por baixo, outro cartão. Quando, de fato,  pisou na bola com Dorival Junior, só faltou ser deportado. Fez do Santos um Circo de Soleil como dizia o presidente Luiz Alvaro com precisão. Transformou André, Zé Love, Wesley, Kardec e o próprio Ganso de jogadores comuns a bons, em protagonistas. O Zé Love chegou a ser cogitado pelo Milan e o Palmeiras fez rifa para contratar, por uma fortuna, o Wesley. Palmeiras e São Paulo brigaram pelo Kardec e o São Paulo se pendurou em dívidas para ter o Ganso. Mas nenhum rendeu nem dez por cento do que rendia na Vila Belmiro, porque o fator Neymar não estava junto.

E aí ele foi embora, de novo debaixo de polêmica devido a uma, realmente, esquisita negociação. E, rapidamente, vai se transformando num dos maiores do mundo. Em 2018, por certo, já terá sido escolhido como melhor, pelo menos uma vez. Ou seja, também em 2018, o sucesso da seleção brasileira depende dele. Mas agora o papo é outro. Com 22 anos e 40 gols na seleção, o oitavo maior artilheiro de todos os tempos no time brasileiro, o enfoque sobre ele mudou. Os críticos fazem referências. Só que agora é tarde. O mundo dele ficou grande demais para o futebol brasileiro. Virou estrela mundial e o Brasil não soube aproveitar os 3, 4 anos do que ele mostrou aqui, preocupando-se  mais com a  ira e a  inveja, do que curtindo os shows dele nos campos de futebol.

Depois que o Brasil o perdeu, passou a valoriza-lo. Tarde demais. O patamar de Neymar agora é lá em cima. Quando surgir, se surgir, outro como ele, que se mude a ótica. Eu não acredito nisso, porém torço. Embora saiba, que num país de medíocres, o talento, em qualquer área, incomode muito. Como Neymar incomodou, quando desfilava por aqui.

Por que me candidatei?

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Quando comecei a trabalhar com futebol ia muito a Federação Paulista de Futebol. O presidente era José Ermírio de Moraes Filho.  Quando ele saiu virou uma confusão. Os clubes do interior se reuniram e perceberam que o voto era unitário. Corinthians e Ponte Preta, por exemplo, tinham o mesmo peso eleitoral. O inteligente presidente do Juventus, José Ferreira Pinto, criou o Grupo do 13. Ou seja, 13 times do interior contra os grandes de São Paulo. E elegeram Alfredo Metidieri, do São Bento de  Sorocaba. Entre 1976 e 1979 o interior comandou. Mas isso não agradou, sei lá porque, a ditadura militar, que tratou de colocar um político no cargo.

Entre 1979 e 1982, Nabi Abi Chedid foi o dono da cadeira presidencial. A grande exposição criou a  cobiça entre outros políticos e aí começou uma briga intensa, pelo cargo, entre Nabi e José Maria Marin, esse mesmo de hoje na CBF. Quer dizer, o futebol estava nas mãos, nada recomendáveis de políticos. Então veio a ideia. Unimos um grupo de jornalistas, gozadores e resolvemos lançar Silvio Luiz, que estava arrebentando na TV Record, à presidência da FPF. Eu era o vice.

A chapa, que se chamava “Meu Chapa” tinha como plataforma ser o contrário do que os políticos ofereciam pelos votos. Não dávamos bolas, uniformes, iluminação de estádios, nada. E prometíamos escolher alguém efetivamente capaz e levá-lo ao poder. Algum executivo, ou coisa do tipo. Na “Meu Chapa” tínhamos Osmar Santos, José Silvério, Wanderley Nogueira, Juca Kfouri e outros companheiros. Era um tempo de economia de combustível. Então resolvemos descer a Brigadeiro Luis Antonio, onde era a sede da FPF, de carroça.

E como virávamos cartolas, fomos de fraque e cartola, Silvio Luiz e eu. Uma tremenda gozação. Tivemos 2 votos. Um da Lençoense, do Chico Gordono, dono de uma usina, onde se comprava cachaça na volta dos jogos e outro do grande Antonio Leme Nunes Galvão, presidente do São Paulo, que não gostava de ver políticos na Federação. Ficou para a história. Era o nosso protesto e sonho de dias melhores para o futebol. Políticos, não.

Marin ganhou e ficou no cargo até 1988. Aí veio um “civil”, Eduardo José Farah, que tragicamente presidiu a entidade até 2003, quando sofreu um golpe de outro “civil”, Marco Polo Del Nero. Del Nero não só continuou a tragédia de Farah como assumirá a CBF, no lugar, exatamente do político que combatíamos aqui, José Maria Marin. Reparem, virou, virou, virou e tudo continuou igual. Até alguns nomes seguem. Eleição é necessária, é a vida de um país. Mas, não muda nada sozinha. Os clubes seguem submissos aos mandatários e agem como cordeirinhos. O poder troca de mãos, porém está tudo igual. Nós que votamos precisamos pensar nisso. A postura do povo tem que ser firme, diferente. Caso contrário, fica tudo como antes, ou até pior. Como aconteceu quando saiu Marin e entrou Farah, na FPF.

O que começa errado…

Foto: Vitor Silva/SSPress

Foto: Vitor Silva/SSPress

Emerson Sheik e mais três jogadores foram afastados pela direção do Botafogo. É patético. Desacertos fazem parte de qualquer ambiente de trabalho, mas a reversão de papéis dos últimos meses no clube, não poderia gerar outra situação, que não essa.

Sheik cansou de emprestar dinheiro aos companheiros, que não recebiam. Virou quase um provedor, quando as necessidades básicas do jogadores não podiam ser cumpridas, porque a direção não conseguia honrar com os pagamentos dos salários em dia.

Se o presidente não tem capacidade para cumprir com suas obrigações e os funcionários ocupam esse lugar, é claro que está tudo errado. Mauricio Assumpção não é o único culpado. As finanças do clubes estão deterioradas e o Botafogo não é uma exceção. O que assusta é o amadorismo.

O caso Sheik mostra, de novo, que passou da hora de virarmos profissionais. Empresas em tal estado seriam fechadas. O paternalismo com os times de futebol, impede que se evolua. Pobre Botafogo de tantas histórias lindas. O que se passa hoje, por lá,  é vexatório. Infelizmente numa proporção quase geral no Brasil e não apenas localizada.

Único no mundo

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

Já houve tempo em que o futebol brasileiro era visto como único no mundo pela beleza, criatividade e revelações, aos montes, de jovens jogadores. Os tempos mudaram. Com o fim da várzea e a incompetência dos clubes em descobrir e lapidar garotos, o trabalho passou para os empresários, que faturam muito e quase sempre com a sociedade de alguém dentro dos próprios times.

Então aparecem jogadores lá fora dos quais nunca ouvimos falar. E eles seriam muito úteis aqui para nós. Só para pegarmos um exemplo atual, o grande José Mourinho está apaixonado pelo “brasileiro” Diego Costa. E com razão. O cara faz gols de todo jeito, enquanto no Campeonato Brasileiro não sobram artilheiros.

Já falamos outras vezes sobre o ritmo lento nos nossos jogos. Em alguns casos parece outro esporte. E uma nova demonstração de incompetência, agora da Comissão de Arbitragem, gerou a sensação, ainda mais clara, de que aqui se joga algo diferente dos outros lugares do mundo. O festival de pênaltis marcados, absurdamente, transformou a regra do futebol em queimada. Bateu na mão, marca. Puseram a culpa no uruguaio Jorge Larrionda, que teria ensinado errada a pequena mudança na redação da Board. Mas, no Uruguai, o número de pênaltis marcados é o mesmo de sempre. Aqui subiu 150%.

A instrutora brasileira, Silvia Regina, disse no Mesa Redonda que “se o cara der azar da bola bater na mão dele, o pênalti tem que ser marcado”. Ou seja, uma reversão plena do espírito da regra e do que a Board manda que se faça no universo todo do futebol. Enfim, temos um jogo muito mais lento, parecendo mesmo outro esporte e praticamos outra regra. O Brasil continua sendo único no futebol.  Só que agora de forma bem negativa.

Sempre andando para trás

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

A conversa foi ouvida no metrô entre as Estações Penha e Carrão, ou seja, bem no meu pedaço. Dois garotos, entre 14 e 16 anos conversavam com entusiasmo sobre futebol. Minha aproximação foi natural e a surpresa também. Não falavam do último jogo do Corinthians, ou da recente contração do Santos, nem do São Paulo ou do Palmeiras. O papo era sobre a janela de transferências da Europa.

Os nomes fluíam com naturalidade. Discutiam sobre James Rodriguez no Real Madrid, a suspensão de Luiz Suarez, a estreia de Lewandowsky no Bayern e coisas do gênero. Pouco metros a frente um outro jovem usava uma camisa do Chelsea e o rapaz a minha frente, lia sobre o sorteio da Champions League.

Claro que o futebol brasileiro ainda tem prioridade nos papos de botequins. Mas é inegável que as novas gerações já têm olhos com visões maiores. Falar de torneios da Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália, etc, virou rotina para eles. Muitos gostariam de usar camisas dos clubes de seus pais. Mas temem pela violência e até por comodismo comprar as  das equipes, que eles assistem dando shows na televisão e com as quais jogam os seus vídeogames. E aí que entra o tema da nossa conversa. O futebol brasileiro, por sua legislação falha, não estará no Fifa 2015.

A Electronic Arts, que comercializa o game, não se sentiu segura para usar os nomes e imagens dos jogadores do Campeonato Brasileiro, apesar dos acertos com as equipes. Ou seja, nossos principais clubes, que já são pouco conhecidos no exterior, pois  a CBF só pensa na seleção e tirou deles a possibilidade de intercâmbio, perderam talvez a única fonte de divulgação internacional.

Os jogos do Brasil só são vistos em horários alternativos, mundo afora e os principais craques, que estão no exterior, são ligados, quase sempre, somente a seleção, não aos clubes. Então, fica difícil alguém usar uma camisa do Flamengo, ou do Vasco,  ou do Palmeiras, no metrô de Paris, simplesmente porque não há contato com esses times, mesmo sendo amantes do futebol. E nossos garotos vão jogar vídeogame com os amigos,  incorporando Messi, Ibrahimovic, Cristiano Ronaldo, Tomas Muller e outros lá de fora.

Daí a torcer por eles é um passo. Incrível como se anda para trás no futebol brasileiro. Os clubes deixaram de ganhar dinheiro, divulgação, prestígio e espaço. Os jogadores amplitude mundial. E a própria empresa, porque gostaria de contar com essas marcas. Todos perderam. Talvez em 2016 os brasileiros voltem ao game global. Mas o prejuízo já estará feito. Cada dia mais veremos conversas, como aquela do metrô entre a Penha e o Carrão, pelas nossas cidades. E gente trocando os times daqui pelos  lá de fora.

Milionários ou meninos?

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

Cada um tem o seu jeito. Eu prefiro o jeito alemão. Os dois maiores campeonatos do mundo são o inglês e o alemão. Enquanto os ingleses apostam alto em estrelas de primeira linha, os alemães dão força aos meninos da base. Para a formação de seleções, é claro que o jeito da Alemanha é melhor. Já os ingleses conseguem ter um Liga de provocar inveja até em santo.

No Brasil não se faz nem uma coisa e nem outra. Não há uma filosofia. Aqui cada um tem de uma forma, e essa forma muda de acordo com o vento. Vamos falar do Santos, o que mais tem revelado craques na base. De repente investe um caminhão de dinheiro, numa transação mal explicada, em cima do Leandro Damião. Não esqueçam que o Gabigol foi para o banco por causa disso. Quem pode render mais para o clube, dentro do campo e numa futura negociação?. Claro que o Gabigol. Então para que o Leandro Damião?. Depois veio o Robinho custando 500 mil reais líquidos por mês. Impossível ter retorno disso. O público dos jogos santistas continua o mesmo, média de 5 mil pessoas na Vila e os patrocinadores, talvez esperados, não vieram.

Igual raciocínio se aplica a Kaká no São Paulo. O clube apregoa a estrutura de Cotia. Então para que trazer um jogador, já em fim de carreira, ou mesmo um Ganso num custo absurdo, que jamais será reposto? Ou você tem um trabalho de revelações, como fazem os alemães, ou aposta em estrelas, como os ingleses. Mas aí precisa ter muita grana, para trazer gente, que lote estádios e não estrelas (de)cadentes.

Robinho já se machucou no quarto jogo, Valdivia segue enganando, Pato ferrou o Corinthians, Kaká joga uma e para outra. Enfim, o caminho deve levar a criação de estruturas onde os jovens possam, pelo menos, serem testados nos seus times do coração.

Infelizmente a cada 3000 garotos que pensam em jogar futebol, no Brasil, somente um consegue. E já entra pensando em ir para a Europa, com a cabeça feita, pelos seus empresários. Conclusão, ficamos com um campeonato fraco e uma seleção, que além de dar vexame, não tem identidade nacional. É isso que queremos para o nosso futebol ?

Não valem o que custam

Montagem sobre fotos Djalma Vassão/Gazeta Press, Nelson Perez/Fluminense FC e Alexandre Lops/SCINovamente pequenos clubes eliminaram grandões. Numa mesma noite caíram, na Copa do Brasil,  São Paulo, Fluminense e Internacional. O Inter ainda perdeu do líder da Série B. Já o São Paulo foi derrotado pelo décimo oitavo e o Fluminense pelo décimo terceiro, ambos também da Segunda Divisão. E com detalhe de que os dois tricolores tinham vencidos as primeiras partidas nos campos dos adversários.

Não custa lembrar que o campeão paulista é o pequeno Ituano, montado apenas para o torneio e que logo repassou os jogadores e o treinador. O que vemos no Brasil são jogos nivelados por baixo. Qualquer time da Série A, poderia estar na B  e vice versa. Talvez o Cruzeiro mereça entrar como exceção.

A única diferença evidente está nas folhas de pagamentos. Enquanto os teóricos grandes gastam fortunas e estão endividados até a tampa, os outros pagam o que podem, e quando podem, e vão se virando nas competições. Se os salários são tão desiguais, porque o futebol é parecido? Tem algo errado.

Tenho apoiado o Palmeiras na sua política de ganhos por produtividade. Todos deveriam segui-lo. Antes que falem da situação do time na tabela, lembro que o Flamengo está pior e custa bem mais. O nível dos jogos deixa claro que os jogadores não valem o que ganham. Não, pelo menos, os dos times maiores. Eles não conseguem levar público aos estádios, que vivem vazios, não justificam os altos custos dos direitos de imagem e mesmo assim são contratados a peso de ouro.

Seria simplório demais dizer que os cartolas são incompetentes. Talvez não sejam. Quando pagam fortunas a jogadores, que não fazem diferença em campo, podemos não estar lidando apenas com  incompetência. Quem sabe não é  esperteza demais ? Como podemos ter certeza de que tudo que  sai do clube, vai só para os atletas? A quem prestam contas ?

Se os clubes quebrados  seguem com salários irreais, me sinto no direito de perguntar: será que eles são na verdade burros, ou estamos diante de grandes safadezas?

Perdendo espaços

AFP

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O Vinicius é um estagiário da TV Gazeta. Ama futebol e por essa razão está ao nosso lado no Departamento de Esportes. Estuda na Cásper Líbero e conversa sobre bola com os amigos o dia todo. Ele tem 20 anos. Falar de futebol é rotina, mas ela vem mudando a cada ano. Se ele se apaixonou pelo jogo por causa da família e dos nossos certames, hoje tem entusiasmo, apenas, com os  europeus. A molecada usa camisas de clubes estrangeiros, assisti os jogos deles, discute as contratações e nem mesmo se surpreende com os constantes vexames dos brasileiros, em torneios internacionais. Vinicius e tantos outros têm amigos, que não torcem para nenhum clube daqui. Ao contrário seguem o Barcelona, o Real Madrid, o Manchester United e por aí vão. Aliás, também o horário das 22 horas faz com que boa parte deles não assista, nem pela televisão, os jogos do Brasileiro no meio de semana. Já os clássicos da Champions são acompanhados com euforia no período da tarde. A noite, além da escola, há o problema de acordar cedo para trabalhar. Ficar sem dormir até meia noite, para que? A qualidade da competição da tarde já satisfaz, e muito, quem gosta de bola. E se arriscar vendo a noite, normalmente, só significam algumas horas de frustrações. Não ficarei surpreso se as pesquisas começarem a mostrar, que os clubes do exterior, estão com mais torcedores do que boa parte dos nacionais. Se somarmos todos os estrangeiros, creio que já ganharão de quase todos os times daqui. E com o detalhe de se poder andar nas ruas com as belas camisas do Porto, Arsenal, Milan, etc, sem correr risco de agressões ou morte. A decadência técnica é evidente. As audiências das transmissões incomodam. Os confrontos com europeus chegam a ser covardia pela fragilidade das nossas equipes. Estão fazendo tudo para que os jovens se habituem com o futebol estrangeiro e deixem o brasileiro, cada vez mais, em segundo plano. É uma lástima, porém não dá para discutir com os meninos. É questão de bom gosto, de se ter um mínimo de exigência de qualidade, naquilo que se vá acompanhar, diante de tantas opções melhores.

Estou com o Paulo André

Publico aqui manifesto do Paulo André do Bom Senso F. C. , movimento que apoio totalmente. Entendam porque o grupo é contrário a aprovação do projeto de lei de responsabilidade fiscal, que volta a parcelar as dívidas dos clubes brasileiros.

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POR PAULO ANDRÉ, do Bom Senso FC

Vou explicar porque sou CONTRA o projeto de lei de responsabilidade fiscal do esporte que propõe parcelar a dívida dos clubes. Do jeito que está, ele exige apenas a apresentação da CND (Certidão Negativa de Débito), uma vez por ano, como garantia “inquestionável” de uma gestão transparente no futebol nacional. Isso é uma vergonha e justifica o desespero dos dirigentes e a pressão da “bancada da bola” para aprová-lo urgentemente, como ficou claro na última sexta feira, quando os presidentes de clubes se encontraram com a Presidente Dilma.

Além disso, dói só de pensar que mais de R$ 4 bilhões sumiram no futebol e nenhuma alma será punida (exceção aos torcedores que são punidos diariamente por verem seus times capengando por aí). No caso específico dos débitos de que trata a LRFE, se o Governo aceitar parcelar a dívida, os dirigentes que cometeram irregularidades não mais poderão ser acionados por crime de apropriação indébita. Traduzindo burramente, se alguém deve dinheiro ao banco e a entidade, sabendo da dificuldade do devedor em quitar a dívida, resolver parcela-la, assunto encerrado. Basta a pessoa cumprir as condições propostas e o pagamento em dia que ninguém poderá acusá-la posteriormente.

Então é essa a discussão que você precisa entender.

Se o Congresso Nacional e a Presidente Dilma, que representam o povo nesse debate, optarem por tomar o caminho de parcelar a dívida e consequentemente isentar os dirigentes pela infração, que a decisão seja tomada pela certeza da GARANTIA de contrapartidas claras e severas, cuja fiscalização seja eficaz e a punição aos clubes e aos dirigentes seja direta.

Não caiam no papo do Sr. Vilson de Andrade, espertalhão, que diz que eles (dirigentes de clubes) defendem uma punição mais dura do que a que propõe o Bom Senso. “90% da proposta deles (jogadores) está incluída na dos clubes. Eles falam em perda de pontos, nós falamos em rebaixamento. Essa é a grande diferença”, disse, com gigantesca cara de pau, o atual presidente do Coritiba. Ele sabe que, do jeito que está, a LRFE não punirá ninguém. Dizer que há severidade em apresentar a CND uma vez por ano para garantir que os clubes que não pagarem em dia as parcelas do “financiamento” sejam rebaixados de divisão é coisa de quem está mal intencionado. E achar que isso é suficiente para moralizar o futebol brasileiro é uma ofensa à inteligência alheia.

Sr. Vilson, cadê o controle de déficit sob pena de punição esportiva? Cadê a garantia do cumprimento dos contratos de trabalho sob pena de punição esportiva? Cadê o limite do custo futebol sob pena de punição esportiva? Cadê a padronização das demonstrações financeiras e a reavaliação do endividamento sob pena de punição esportiva? Cadê o parcelamento da dívida trabalhista já transitada sob pena de punição esportiva? (Desculpe os termos técnicos mas são cinco pontos imprescindíveis, propostos pelo Bom Senso F.C e ausentes no projeto dos clubes).

Ora, chega de enrolação! Tratemos o assunto com a seriedade com que ele deve ser tratado. Vocês são presidentes de clubes de futebol, não estão acima do bem e do mal!

Então, amigo, Secretário do Ministério do Esporte, Toninho Nascimento, temos que correr para quê? “Tem clube que não chega ao final do ano se esse projeto não for aprovado”, disse ele. E daí? Há clubes que estão há sei lá quantos anos se apropriando do IR e INSS de atletas, usando esse dinheiro “sujo” para contratar mais jogadores e aumentar suas dívidas à espera do “perdão” do Governo e somos nós que temos que correr? O clube escocês do Glasgow Rangers, mais vezes campeão nacional no planeta, quebrou, recomeçou na quarta divisão e sua torcida não o abandonou por isso. O Napoli, a Fiorentina e o Racing também.

Se querem moralizar, façam direito. Parem de correr e pensem. Não é isso que se pede aos jogadores “brucutus”? Estamos tratando com alguns dirigentes “brucutus” então chegou a nossa vez de lhes pedir: Parem de correr e pensem. Será que vale tudo nesta terra de ninguém? É preciso restringir a possibilidade de erro, de corrupção e defender melhores práticas de gestão que refletirão diretamente na qualidade do produto final, dos clubes e do espetáculo do futebol brasileiro.

A Presidente e o Congresso Nacional estão entre a cruz e a espada: Ou se apoiam numa possível benção do voto do torcedor apaixonado (desprovido de razão) e deixam passar tudo como está (inclusive via MP – um absurdo), ou se aproveitam da maior oportunidade de se reformar e de se modernizar o futebol brasileiro, optando por incluir as emendas levantadas pelo Bom Senso à LRFE para garantir de verdade uma gestão melhor e mais transparente no nosso futebol. Esta decisão deverá sair esta semana e nós acompanharemos de perto para saber quem está jogando para quem. Que cada um escolha o seu lado, porque o meu, já escolhi.

Acabou o luto

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Voltamos à rotina. Depois dos 7 a 1 contra a Alemanha a impressão que ficou  é que, finalmente, algo sério seria feito em benefício do futebol brasileiro. Foi assim também depois da goleada sofrida pelo Santos por 4 a 0 no Mundial. E novamente quando o Barcelona dobrou e fez 8. A derrota do Internacional para o Mazembe,  primeiro  encarou-se como um acidente. Mas quando o Atlético Mineiro também perdeu para o africano Raja Casabranca, percebeu-se que esse era o nosso nível atual no jogo da bola.

O vexame da Copa do Mundo voltou a acender o sinal amarelo, caminhando para o vermelho. Mas só durou alguns dias. Retornamos aos clássicos mal jogados, aos árbitros que seguram o jogo, às torcidas uniformizadas e aos dungas da vida.

Acabou o luto. Brasileiro esquece fácil. Logo teremos novo papelão. Não será no Mundial de clubes, porque ninguém chegou, nem mesmo, às semifinais de Libertadores.

Porém, em algum momento, um time brasileiro voltará a encontrar outra escola moderna de futebol. E aí vai ser, de novo, como uma morte, o baile que os brasileiros levarão. Virão outras gritarias e outro luto, que o tempo tratará de apagar rápido.

Aqui não se aprende com nada. Não se tem vergonha na cara. Seguimos com os marins e marcos polos. A tecnologia é abominada. Não se admite estudar, aprender, criar metodologias de treinamentos. Afinal o Brasil é o país do futebol. Que descanse em paz.