A fase das promoções

Foto: Gazeta Press

Medalhista de prata em Los Angeles, Ricardo Prado acende a pira durante a abertura da etapa final do IV Pernambucanas de Natação em 1987

As grandes promoções que tiveram divulgação de A Gazeta Esportiva foram realmente efetuadas após a década de 1970. Entre elas, podemos enumerar a Copa Natu Nobilis de Tênis, a Copa Arizona de Futebol Amador, a Operação Juventude, o Torneio Pernambucanas de Natação, os Jogos Colegiais das Pernambucanas, a Copa Tigrão de Futebol de Salão, a Copa Colegial Dan’Up e muitas outras.

Com a adoção do patrocínio, o objetivo não era somente uma maior aproximação com o leitor, o nosso público alvo, mas também o público alvo do próprio cliente. Muitas vezes, portanto, o certame era organizado para estar de acordo com o marketing visado pelo patrocinador.

A própria A Gazeta Esportiva necessitava dos recursos provenientes da comercialização deste patrocínio. Esta ação era tão importante para o equilíbrio financeiro da Fundação que eu mesmo fui aos poucos deixando para outrem a função de editor de esportes amadores que estava exercendo, para participar quase que integralmente do comando do recém-criado Departamento de Promoções.

Este setor era bastante complexo: redigir e diagramar as páginas destinadas às promoções, colher informes junto aos participantes, conseguir locais para a realização das competições, sortear tabelas, informar os participantes, atender aos pedidos dos clientes e conseguir os patrocinadores.

A minha principal missão era comercializar os eventos entre os clientes potenciais, cuidar da modalidade e do aspecto técnico da competição, da escolha do local geográfico que mais interessasse ao patrocinador. Minha formação de professor de Educação Física ajudou-me bastante na infraestrutura técnica da realização do evento.

O Departamento de Promoções ocupava quatro salas no prédio das Folhas onde, por convênio, a A Gazeta Esportiva se localizava (veja artigo anterior desta série).

Foto: Gazeta Press

Carlos Alberto Kirmayr disputa a Copa Natu Nobilis de tênis, Campeonato Brasileiro de 1980

Há quase meio século, não existia a rejeição atual às promoções de bebidas alcoólicas ou de cigarros, de maneira que pudemos conseguir os maiores clientes do país, entre os quais a Souza Cruz (Copa Arizona), a Seagram (com a Natu Nobilis de Tênis) e outros. Toda esta fase dos meus 70 anos de jornalismo está detalhada em um livro que escrevi – “O esporte como instrumento de marketing” – editado pela Phorte e que teve uma boa circulação.

De certa forma, nosso departamento em A Gazeta Esportiva foi pioneiro do evento esportivo patrocinado, hoje tão difundido por diversas empresas especializadas.

Nos próximos artigos vamos detalhar quais e como foram os eventos divulgados pela A Gazeta Esportiva, um deles chegando a constar do Guinness Book e muitos agraciados pelo “Prêmio Colunistas”, promovido por entidades dos profissionais da publicidade.

 

Promoções na história do jornal

Acervo/Gazeta Press

Alfredo Gomes foi o vencedor da 1ª edição da Corrida Internacional de São Silvestre (Acervo/Gazeta Press)

A tradição de promover eventos esportivos, e não somente circunscrever-se ao noticiário, começou em 1925, com a primeira edição da São Silvestre. Esta disputa foi efetuada sob a égide do jornal A Gazeta, pois a A Gazeta Esportiva somente começou após três anos, em edições semanais de tamanho tabloide. Este jornal somente passou a ser diário, em medida normal e não mais em tabloide, no dia 10 de outubro de 1947.

A programação de provas populares teve início na década de 30, quando Carlos Joel Nelli era redator e tornou-se o grande homem das promoções, principalmente após o falecimento de Casper Líbero, em 1943, num acidente aéreo no Rio de Janeiro.

Carlos Joel Nelli começou a trabalhar quando A Gazeta e A Gazeta Esportiva estavam sediadas na rua Líbero Badaró. Ele lançou torneios populares de bocha, damas, xadrez, bola ao cesto, malha e, mais tarde, voleibol e futebol de salão. Nelli tinha sido atleta, saltador de vara do Clube Esperia, e viajara como participante e repórter para os Jogos Olímpicos de 1928, nos Estados Unidos.

Em 1936, o Governador de Minas Gerais, Ernesto Dorneles, notou o dinamismo de Nelli e levou-o para Belo Horizonte, para gerenciar o Minas Tênis Clube. Seu sucesso naquele clube foi tal que Casper Líbero, em passagem pela Capital mineira, resolveu trazer Nelli de volta, dando-lhe a direção de A Gazeta Esportiva.

Os resultados e a programação de jogos, quando não saiam na publicação semanal de A Gazeta Esportiva, eram divulgados nas páginas de esporte de A Gazeta. Ambos os veículos se complementavam e tinham sempre um ou dois eventos em andamento.

Do ponto de vista de “marketing”, esta programação era benfazeja, pois aproximava da empresa jornalística uma grande diversidade de leitores e praticantes de diferentes modalidades esportivas.

Acervo/Gazeta Press

Acervo/Gazeta Press

A Gazeta Esportiva, que tinha grande circulação e uma enorme publicidade, custeava todos estes eventos.

Deixamos de contar que a sede de A Gazeta sofreu grandes danos, na Revolução de 1932, causados por tropas federais, pois o jornal tinha apoiado a Revolução Constitucionalista. Três anos depois, Casper Líbero ganhou um processo jurídico e teve direito a uma indenização do Governo Federal, com a qual construiu um moderno prédio de 6 andares na rua da Conceição, mais tarde Avenida Casper Líbero. A sede ficava quase ao lado da Igreja de Santa Ifigênia.

O ano de 1968 foi marcado por problemas econômicos do país e despesas com a construção do edifício atual na Avenida Paulista. Ficava oneroso sustentar por conta própria o calendário de promoção de eventos que não podiam deixar de ser realizados.

Foi quando o jornal recorreu a patrocinadores, sendo a primeira delas a Lacta. A seguir, surgiram outros de grande peso, como Brinkan, Souza Cruz, Casas Pernambucanas, Seagram, Banco Itaú, Philips, Tubos e Conexões Tigre, Danone, São Paulo Alpargatas e outros.

Como resultado desta crise de 1968, a Fundação Casper Líbero foi obrigada a estabelecer um convênio operacional com o Grupo Folhas, que passou a imprimir e distribuir o jornal e gerenciava, com comissão, toda a publicidade.

Toda a redação, inclusive nós, também foi para a Alameda Barão de Limeira, onde ficou diversos anos até o novo retorno à Avenida Paulista.

Carlos Joel Nelli, com esta transferência, não continuou no jornal que engrandecera e foi nomeado pelo Governo da cidade como o primeiro Secretário Municipal de Esportes.

Nós continuamos na função de editor de esportes amadores (todas as modalidades menos futebol e turfe) e, consequentemente, fiquei com a responsabilidade de dar continuidade às promoções esportivas patrocinadas, que começavam a ser uma fonte de renda para A Gazeta Esportiva.

Nos próximos artigos contaremos os detalhes dos principais eventos realizados a partir desta nova época.

 

A hora é de prestigiar a polícia

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

Ouvimos ontem na TV uma notícia que nos obrigou a interromper esta série de artigos que estamos publicando sobre os eventos realizados pela A Gazeta Esportiva e que foram responsáveis pela sua aceitação popular.

Um caso grave aconteceu e ajudou a jogar no chão o prestígio internacional de nosso país, justamente neste período que precede a realização dos Jogos Olímpicos em nossa casa.

Um médico cardiologista de 57 anos, que se exercitava na avenida que circunda a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, foi assassinado a facadas por jovens interessados em sua bicicleta.

O fato de o crime ter acontecido em um dos cenários dos próximos Jogos Olímpicos, local das disputas de remo e canoagem, repercutiu como uma bomba no exterior. Segundo o noticiário, o episódio foi divulgado com grande destaque nos principais veículos dos Estados Unidos, propalando que somos um país violento e perigoso para os concorrentes e todo o público que virá ao país anfitrião daquele certame.

Para que fatos como este não se repitam, agravando com a criminalidade os problemas que já temos com nossa situação econômica, com escândalos causados por um governo que já perdeu a confiança popular e outros causados pela inidoneidade de políticos e empresários, é preciso um endurecimento policial e da justiça.

As quadrilhas que dominam os morros e mesmo o asfalto de Copacabana precisam ser contidas para não transformar em vítimas os 10.500 atletas participantes, os dirigentes, além das centenas de milhares de expectadores que receberemos no Brasil para a maior competição esportiva do mundo.

Teremos aqui mais de 8 mil jornalistas, a grande maioria mais interessada em procurar nossos deslizes do que em exaltar nossas excelsitudes, a beleza de nossas praias e a alegria e acolhimento do povo brasileiro.

Este apoio na área de segurança, que necessitamos intensamente, nem sempre recebe a colaboração de muitos veículos de comunicação do nosso próprio país. Sempre que há um entrevero, o noticiário procura culpa na polícia. Se alguém é ferido ou falece por uma bala perdida, são poucos os que dizem que ela partiu dos bandidos, colocando sempre a culpa no policial. Este fato está diminuindo a eficiência dos policiais, que se sentem contidos em sua ação essencial, deixando os morros, as cidades e os subúrbios entregues às quadrilhas de meliantes voltados para o tráfico e a violência, facilitando a ação dos contraventores.

É verdade que alguns militares ultrapassam o limite de sua ação, mas esta minoria não é razão para que a maioria deixe de agir energicamente.

Os visitantes cheios de dólares serão um filé mignon para os nossos bandidos e, se eles não forem contidos, nosso país, que já não está em seus melhores dias, irá definitivamente para a lama.

A hora é de prestigiar o policiamento.

A Travessia de São Paulo a Nado

Na série de relatos sobre a minha vida na A Gazeta Esportiva, nos detivemos em artigos contando a história de minha participação na São Silvestre. Outras promoções do jornal, que tinha por slogan “o mais completo jornal de esportes do continente”, também merecem ser relatadas, como as promoções esportivas que acompanharam este veículo desde a sua fundação.

No texto de hoje falaremos da Travessia de São Paulo a Nado, evento do qual participamos, não como organizador, mas como competidor. Esta disputa deixou de ser efetuada em 1945, nós entramos para os quadros de A Gazeta Esportiva em 1947. Nós competimos nas provas de 1939, 1940 e 1941 e, como bom “perna de pau”, sempre cheguei depois do centésimo lugar.

A Travessia era efetuada em uma distância de 5.500 metros e ia da Ponte da Vila Maria até a Ponte Grande. Na chegada havia um pontão, colocado entre o Tietê e o Esperia. Esta prova já era realizada desde 1924, sob a égide do jornal Mundo Esportivo, que deixou de existir em 1928. Ele era dirigido pelo jornalista J.E. Macedo.

Casper Líbero assumiu a sua realização em 1932, pois ele tinha uma predileção especial por esta competição, chegando a acompanhar de lancha o desenvolvimento da prova, em um rio que serpenteava em seu curso, num tempo em que o Tietê não havia ainda sido retificado.

Eu assisti, aos 6 anos de idade, à chegada da prova de 1932, vencida por Asdrubal de Barros, do CR. Tietê, e me empolguei com a disputa de 1935, quando João Havelange defendeu o Fluminense, e Max Define, o C.A. Paulistano. Havelange ganhou sua popularidade em São Paulo por causa dessa travessia.

Uma década depois, Havelange veio trabalhar na Capital paulista dirigindo a Viação Cometa e passou a integrar a equipe de polo-aquático do Clube Esperia, juntamente com Alcides Ferro, Italo Ricci, Armando Caropreso e muitos outros.

Nesse tempo eu já era jornalista e cobria as emocionantes partidas de polo-aquático marcadas pela super rivalidade entre o Tietê e o Esperia.

A Travessia de São Paulo a Nado deixou de ser disputada devido à poluição do rio Tietê. Em correspondência pessoal, quando eu redigia o livro “Tietê – O Rio do Esporte”, Havelange nos contou que havia sido contaminado por tifo negro, por causa daquela prova aquática.

Quando eu já era editor do jornal promovi uma nova versão da Travessia de São Paulo a Nado, com nadadores da época, mais moderna e homenageando antigos vencedores. Trouxemos até o americano John Kinsela, dos Estados Unidos, mas longe do rio Tietê a prova não era a mesma e não teve continuidade.

Atualmente, esportistas e mesmo inúmeros cidadãos paulistas esperam que as autoridades governamentais promovam a despoluição do rio. É necessário devolver o Tietê para o esporte, para os clubes ribeirinhos e para o turismo.

 

O fracasso do recordista mundial

Foto: Gazeta Press

Wladimir Kutz, as extravagâncias desfrutadas tiveram consequências

Nesta série em que relatamos as principais recordações de sete décadas de jornalismo ininterrupto, teríamos obrigatoriamente de nos deter em vários artigos sobre a Corrida de São Silvestre. Ela nos proporcionou grandes amizades, como a do belga Lucien Theis, carteiro de profissão, com o qual cheguei a manter correspondência após o 31 de dezembro. Após a prova ainda deu tempo de levá-lo ao animado baile de fim de ano do Tênis Clube Paulista.

O episódio mais marcante, entretanto, já foi alvo de um artigo neste blog há alguns anos, mas é importante repeti-lo. Em 1957, no ápice da Guerra Fria, a A Gazeta Esportiva convidou a União Soviética para participar da prova. Aquele país aceitou e mandou uma delegação composta do recordista mundial Wladimir Kutz, o técnico Grigori Nikifurof e o “intérprete” Alejandro Belakof (que falava castelhano).

Desde o momento do desembarque já percebi que aquele trio tinha o objetivo de propagar as excelsitudes do regime soviético, principalmente num país considerado “pobre” por eles. De certa forma eu me tornei para eles um exemplo do padrão de vida dos brasileiros. Ao que parece, o tiro saiu pela culatra.

Eles visitaram São Paulo em meu automóvel, na época um Ford canadense, do último tipo, que eu havia comprado à prestação, com a garantia do Sindicato dos Jornalistas. Belakof até pediu para dirigi-lo.

Em outro dia eles se interessaram em me visitar em minha própria casa para ver o padrão de vida de um jornalista brasileiro. Eu levei-os ao Caxingui, onde morava em uma das casas construídas pelo Instituto de Previdência do Estado (duzentas delas haviam sido destinadas a jornalistas e, por sorte, coube a mim uma das melhores, em uma esquina da Francisco Morato, em um terreno de 400 metros quadrados). A casa tinha três dormitórios, sala living com televisão e um grande jardim gramado, com local para estacionamento.

Eles deixaram escapar a informação de que Moscou atravessava uma crise habitacional e o ímpeto de doutrinação em favor do estilo de vida de seu país foi aos poucos diminuindo.

O ápice da esnobação da vida de um brasileiro de classe média aconteceu com uma viagem ao litoral (Moscou não tem praia). Eles foram comigo a Santos. Trocaram-se num pequeno apartamento de propriedade de meus genitores e viram os belos jardins e as praias santistas. Na hora do almoço, fomos para a Ponta da Praia. Em vez de levá-los ao famoso Jangadeiro, escolhi o simplérrimo Caravelas onde serviram um divino peixe com camarão. Foi a melhor refeição que já comi em meus quase 90 anos de idade. Imaginem o que sentiram os russos naqueles tempos. Diga-se de passagem que estávamos diante de um dos primeiros contatos com os soviéticos após a segunda guerra mundial.

Sobrou tempo depois do almoço e os visitantes manifestaram o desejo de um banho de mar. Para quem estava na ponta da praia, bastava atravessar no ferry boat e tomar todo o sol de verão na famosa praia de Pitangueiras, no Guarujá.

Não é preciso dizer que após duas horas de exposição estavam todos vermelhos como pimentões. Retornamos de lá para São Paulo, pois a prova seria dois dias depois. Evidentemente, as extravagâncias desfrutadas tiveram consequências. Wladimir Kutz, o favorito, tirou o oitavo lugar na São Silvestre e todos mudaram a ideia de converter-nos ao regime adotado pela União Soviética.

Um dia após a prova, acompanhado de minha esposa, fui visitá-los no hotel em que estavam hospedados. Eles nos ofereceram uma vodka, naturalmente legítima, e receberam como presente pessoal meias de nylon, que no Brasil já eram encontradas no comércio naquela época. Imaginem a alegria de suas mulheres ao receberem o regalo e o sucesso que elas fizeram com aquelas meias perante as outras mulheres que não tinham acesso a elas.

Por algum tempo eu fiquei com dor de consciência em ter sido o possível causador do fracasso de Kutz. Acontece que, menos de um ano depois, ele faleceu de câncer no estômago. Na época da corrida, ele já devia estar no começo daquela terrível doença.

A posteriori, também fiquei sabendo que Nikifurof, que o acompanhava, não era o “técnico”, mas o Vice Ministro dos Esportes da União Soviética e Belakof, obviamente, não era somente “intérprete”, mas membro da KGB.

Zatopek na São Silvestre

Na série de minhas vivências dos quase 70 anos ininterruptos de atividades jornalísticas, a Corrida de São Silvestre ocupa naturalmente vários capítulos deste blog. Ela é uma fonte inesgotável de histórias durante as três décadas que atuei na organização daquela prova.

O ano de 1953 foi consagrador para a São Silvestre, para A Gazeta Esportiva e para o próprio esporte brasileiro. O corredor da Tchecoslováquia, Emil Zatopek, recordista e campeão mundial, aceitou participar da corrida da meia noite.

Estávamos num período de Guerra Fria entre o ocidente e a União Soviética e Zatopek veio com um acompanhante, um personagem preposto pelo partido de esquerda de seu país. Não era raro atletas dos países satélites, quando competiam na Europa Ocidental ou nos Estados Unidos, não retornarem a seus países de origem, preferirem a liberdade.

Zatopeck era uma atração, não só por suas vitórias, mas por ter sido o introdutor de um novo modelo de treinamento, o “interval training”, criado pelo fisiologista alemão Woldemar Gerschler, segundo o qual um fundista não fazia longos percursos em seus treinos, mas uma série de “sprints” com 80% de seu esforço. Este procedimento era responsável por sua permanente boa forma.

Naturalmente, os treinamentos de Emil Zatopek antes da prova, na pista do CR Tietê, atraiam dezenas de técnicos de atletismo e centenas de expectadores. Não havia quem não soubesse de sua presença em nosso país, inclusive os leigos em esporte.

O Brasil, como anfitrião, ofereceu a maior receptividade ao visitante. Num dos dias que precediam a prova, eu fui encarregado de convidá-lo, juntamente com seu acompanhante e o pessoal do Consulado da Tchecoslováquia, para um jantar. Escolhi uma churrascaria que se destacava pela fartura do seu “rodízio”. Nessa época já havia muitas delas e de alto nível em nossa Capital.

Num momento de restrição ao consumo de carne na Europa Oriental por razões econômicas, eles ficaram embasbacados com a fartura e a diversidade de mais de 20 tipos de carne, além de um “buffet” que tinha de tudo. Neste momento senti um grande orgulho de meu país.

Zatopek não era um esquerdista convicto e alguns anos depois de ter estado aqui teve problemas ideológicos com o governo de seu país.

Na noite da corrida, obviamente, ele foi cercado por um grande contingente de jornalistas e de fãs. Carlos Joel Nelli, diretor de A Gazeta Esportiva, pediu-me que eu levasse Emil Zatopek da frente do edifício do jornal, onde todos os atletas estrangeiros se reuniram, em meu carro particular até o local de partida, que naquele ano foi na Praça Oswaldo Cruz, despistando assim os curiosos.

No dia seguinte da brilhante e esperada vitória na prova, durante a cerimônia de entrega de prêmios, ocorreu um dos fatos que mais me emocionaram em sete décadas de vida jornalística: coube a mim entregar o troféu de campeão a um dos mais famosos atletas da história do esporte.

 

Acervo Gazeta Press

Acervo Gazeta Press

Histórias da São Silvestre – Viljo Heino e Adhemar Ferreira da Silva

No encerramento do artigo deste Blog, publicado no último dia 4 de maio sob o título “70 anos de jornalismo”, prometemos destacar os principais fatos que aconteceram nestas sete décadas de vida dentro de um jornal esportivo, além de abordar a diversidade de atividades assumidas por mim em um jornal que, além de noticiar, promovia o próprio esporte.

O leitor vai encontrar nas próximas semanas, no setor destinado aos colunistas, de maneira esparsa, capítulos desta série que, na realidade, deveriam ser publicados em sequência ininterrupta.

Hoje falaremos da corrida de São Silvestre, na época em que ela era realizada à meia noite e tinha a presença dos melhores atletas do mundo. Eu fiz parte do “staff” que organizava a prova desde a passagem do ano de 1947 para 1948 e permaneci nesta atividade até 1977. Foram trinta anos sem passar um fim de ano com a minha família.

Exerci várias funções na São Silvestre, mas a principal era a de acompanhar os grandes campeões que vinham do exterior, aproveitando a minha facilidade de comunicação em francês, inglês, italiano e espanhol. Tenho histórias do comportamento e opiniões dos maiores corredores do mundo sobre o nosso país.

Antes mesmo de trabalhar na A Gazeta Esportiva, eu já era um entusiasta da corrida da meia noite. Discutia, quando tinha sete anos, o que acontecera na chegada da prova de 1933 quando Nestor Gomes, o favorito, ao abrir os braços, festejando a vitória três metros antes da chegada, deu a chance a Alfredo Carletti passar por baixo deles e ganhar as láureas do triunfo.

A São Silvestre entre 1925 e 1945 foi disputada apenas por atletas nacionais e, no último ano, o vencedor foi Sebastião Alves Monteiro. Em 1946, Carlos Joel Nelli convidou alguns atletas do Cone Sul para participar, iniciando a internacionalidade. Mesmo assim, o alto do pódio daquele ano ficou novamente com o brasileiro Sebastião Alves Monteiro.

Depois dessa época os estrangeiros assumiram os primeiros lugares e somente muito mais tarde, em 1980, a coroa de louros voltou para a cabeça de um brasileiro, José João da Silva, que tinha a profissão de garçom.

Acervo/Gazeta Press

Acervo/Gazeta Press

O grande astro da Finlândia, Viljo Heino, campeão e recordista mundial, tornou a São Silvestre do ano de 1949 um evento internacional. Heino foi recebido aqui com grande apreço pelas famílias finlandesas e por atletas do Brasil. Entre os finlandeses destacaram-se os componentes do clã dos Letho e entre os atletas brasileiros Adhemar Ferreira da Silva.

Adhemar, neste contato próximo, aprendeu canções do folclore da Finlândia, frases no idioma daquele país, tornando-se um “expert” no assunto. Logo depois, Adhemar participou dos Jogos Olímpicos realizados justamente naquela nação do norte da Europa, onde ele venceu a prova de salto triplo.

Numa época em que não havia televisão, Adhemar deu entrevistas na rádio local, inclusive cantando em finlandês e tocando-as em seu violão.

Durante a volta olímpica que deu após o triunfo, ele foi o atleta mais aplaudido entre todos os campeões.

Ainda sobre a São Silvestre existem fatos interessantes para se contar, como também sobre os recordistas mundiais Emil Zatoppeck, da Tchecoslováquia, e Wladimir Kutz, da União Soviética, que deixaremos para outros artigos.

 

Prêmio mundial do Fair Play para o Brasil

Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal

Um jovem brasileiro acaba de ser escolhido para receber um dos prêmios mais significativos do mundo do esporte: Guilherme Murray foi indicado como o autor do principal gesto de Fair Play do ano de 2014 pelo Comitê Internacional de Fair Play sediado na Hungria, presidido por Jeno Kamuti e reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional.

A atitude que valeu a Guilherme este título de reconhecimento mundial ocorreu no ano de 2014, no Campeonato Pan-americano de Esgrima, em Aruba. Na prova de florete, seletiva para a indicação dos 8 atletas que passariam para a etapa final, o juiz deu um “toque” a favor de Guilherme, mas ele informou ao árbitro que o ponto tinha sido favorável ao seu adversário. Com essa bela atitude perdeu o direito de continuar entre os finalistas daquele importante evento internacional.

Este ato meritório foi reconhecido em primeira instância pelo Panathlon Club São Paulo, que o homenageou em seu convívio de novembro/14, ao qual compareceu quase uma centena de pessoas entre panathletas e familiares do homenageado.

Diante da alta significação do gesto de Guilherme, o Panathlon Club São Paulo encaminhou um pedido ao Panathlon International para inscrever o esgrimista brasileiro de apenas 12 anos na disputa do Prêmio Internacional de Fair Play – categoria juventude, promovido pelo Comitê Internacional do Fair Play.

No dia de ontem a entidade máxima dessa esportividade comunicou a escolha de Guilherme, para enorme alegria de sua família e de todos os brasileiros que propugnam por um esporte limpo e correto.

O prêmio será entregue em Baku, no Azerbaijão, em 7 de outubro deste ano.

Num momento em que os veículos de comunicação estão plenos de notícias de indisciplina, suborno e outros fatos que envergonham o país, a outorga do prêmio a Guilherme gera a esperança de que é possível realizar os Jogos Olímpicos programados para o próximo ano no Brasil em uma atmosfera de Fair Play.

 

O esporte começa na escola

No último post de nosso Blog jogamos a modéstia fora e contamos que, em março do próximo ano, vamos completar 70 anos de atividades jornalísticas com grandes comemorações. Nele citamos alguns fatos que ocorreram em sete décadas noticiando o esporte e cobrindo eventos. Recebemos diversos comentários de leitores, nos cumprimentando e estimulando a continuar.

Queremos acrescentar, entretanto, que enquanto trabalhávamos no jornalismo, exercíamos outras atividades, nas quais também contribuímos para o desenvolvimento do esporte. Fui professor de educação física na rede pública, professor de filosofia, técnico de natação e dirigente esportivo de várias entidades.

Como professor de Educação Física, lecionei na Escola Industrial de Jundiai, na qual Nelson Prudêncio foi meu aluno. A sua primeira medalha foi dada por mim, num campeonato interno. Pelo trabalho desenvolvido nesta escola pública, recebi, da Câmara Municipal, o título de Cidadão Jundiaiense. Trabalhei como professor de Educação Física ainda em São Pedro e Itatiba e na Escola Técnica Getúlio Vargas, da Capital. Mas foi no Colégio Estadual Macedo Soares onde eu me realizei plenamente como professor.

Lá, eu organizava campeonatos internos de diversas modalidades com a participação de todos os alunos. Os que não eram tecnicamente virtuosos também aprenderam a gostar do esporte como recreação e mantiveram o hábito da prática esportiva sem o objetivo de serem campeões.

Os tecnicamente mais destacados foram campeões regionais nos campeonatos estaduais oficiais de basquete, promovidos pelo DEFE. Eles foram aproveitados pela Sociedade Esportiva Palmeiras. Este clube foi a base da seleção paulista durante os anos 60 que se sagrou campeã brasileira.

Ainda no período de 1955/1956, aproveitando minha amizade pessoal com o Major Sylvio de Magalhães Padilha, consegui que a piscina da Água Branca fosse cedida ao Colégio Macedo Soares para aulas de natação. Durante algum tempo, das duas aulas semanais do currículo de Educação Física, uma era de natação. A piscina ficava relativamente perto do colégio, localizado na Barra Funda. Todos os alunos de uma escola pública daquela época aprenderam a nadar.

Os colégios onde lecionei sempre participavam dos campeonatos colegiais e das demonstrações anuais de Educação Física da Semana da Pátria, que se realizavam no Estádio do Pacaembu.

Hoje, a preocupação com o esporte nas escolas está muito reduzida e é a responsável pelo preocupante aumento do uso de bebidas alcoólicas e drogas pela juventude. Toda a energia excedente dos jovens está parcialmente direcionada para as baladas (causa da violência e criminalidade) deixando quadras e outras praças esportivas inaproveitadas.

Continuo, mesmo caminhando para os 90 anos, lutando com todas as minhas forças e usando minha influência para conseguir que o esporte, mesmo sem objetivo de profissão, entre definitivamente na escala de valores de nossa sociedade, principalmente pelo incentivo da escola.

O meu entusiasmo pelo esporte estudantil é tão grande que estiquei o tema e não sobrou espaço para abordar outros assuntos propostos na abertura deste blog. Vou necessitar escrever outros artigos para atender ao que me propus. Aos poucos chegaremos lá.

 

Rumo aos 70 anos de Jornalismo

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

Na segunda quinzena de março e nos quatro primeiros dias de abril do próximo ano, quando faltarem três meses para a inauguração dos Jogos Olímpicos em nosso país, estarão acontecendo duas datas de uma profunda significação pessoal. Em 16 de março estarei completando 70 (setenta) anos de atividades jornalísticas e em 4 de abril farei 90 anos de idade.

Se estiver vivo, na ocasião, e com o vigor atual, vou juntar as duas datas em uma única comemoração. Creio que me tornarei o jornalista esportivo com a carreira ativa mais longa do nosso país. Sou o associado mais antigo da Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo (ACEESP) e também o funcionário não aposentado com mais tempo de casa da Fundação Casper Líbero.

Em sete décadas, juntei muitas histórias para contar e acumulei um sem número de amigos que pretendo convidar para uma festa única que deverá ser realizada no Clube Esperia.

Já os 90 anos vão mobilizar toda a minha família, filhas, netos, quatro bisnetos, além de irmão, sobrinhos e parentes da minha excepcional esposa Lillian, com a qual, na mesma ocasião, estarei festejando 63 anos de casamento.

Tenho dez meses para me lembrar de todos os colegas de imprensa, dirigentes esportivos, atletas, presidentes de clubes, federações e confederações, além de amigos do Panathletismo que jamais poderão ser esquecidos. Viver muito cria um acervo de recordações para quem, no jornalismo, não pensa em se aposentar.

Peço desculpas por falar de mim neste texto, mas não resisto à tentação de dividir com os leitores do meu Blog esta emoção resultante de um balanço do que aconteceu desde quando eu cobri o Campeonato Sul-americano de Natação, no Rio de Janeiro, em março de 1946, na primeira semana de trabalho, ou os primeiros Jogos Desportivos Pan-americanos, em Buenos Aires, no ano de 1951, ou ainda dos 30 anos em que participei do “staff” da organização da Corrida de São Silvestre, ou dos quatro Jogos Olímpicos que me levaram a Munique, Los Angeles, Seul e Barcelona.