OITENTA ANOS VIVENDO A SÃO SILVESTRE

Foto: ReproduçãoGostei do novo percurso e do horário da última São Silvestre. Vê-la longe da Av. Paulista era uma grande desilusão para mim que, por esta prova, tenho uma grande ligação afetiva que dura há mais de 50 anos.

Na minha primeira infância, com sete anos eu já acompanhava a atuação de Nestor Gomes, o maior fundista dos anos 30. Lembro-me quando ele perdeu a São Silvestre de 1934; abrindo os braços, na atitude típica de um vitorioso, ele deixou passar por baixo deles o atleta Alfredo Carletti, que vinha atrás em um grande Sprint.

Menino ainda, consegui aos quinze anos de idade permissão de meus pais para presenciar a chegada de 1941, vencida pelo mineiro José Tiburcio dos Santos e bem pertinho de mim assisti à transmissão entusiasmada de Blota Júnior para a rádio Cruzeiro do Sul.

Como voluntário, estive ligado a A Gazeta organizando eventos populares, como a Prova dos Bairros. A partir de 1947, comecei a trabalhar na A Gazeta Esportiva, que por sua vez passou a circular diariamente. Logo no primeiro ano, fui incluído no staff organizador da corrida.

Numa época em que não se contava com o apoio dos meios eletrônicos e nem se sonhava com o computador, a classificação era feita através da inserção de uma ficha de papel com o nome dos atletas em um espeto localizado na chegada. Não havia como evitar um embolo no funil e a chegada simultânea de muitos corredores.

Mais tarde, conheci pessoalmente quase todos os vencedores das quinze primeiras provas e tive, inclusive, a ocasião de entrevistar Alfredo Gomes, o vencedor da primeira São Silvestre. Ele me contou detalhes que mostravam como as disputas iniciais eram despretensiosas. Em 1925, por exemplo, nem o trânsito era interrompido e os atletas corriam ao lado dos bondes elétricos.

Carlos Joel Nelli foi a alma e o coração desta prova, dando a ela o seu prestígio internacional. Foi após o falecimento de Casper Líbero, em um acidente de aviação no Rio de Janeiro em 1943, que Nelli assumiu a gerência da Fundação Casper Líbero e, nessa qualidade, transformou em 1945 a São Silvestre em um evento internacional, com a presença de atletas da América do Sul, especialmente do Cone Sul.

As duas primeiras provas já em nível internacional foram vencidas por Sebastião Alves Monteiro. Em 1947, Oscar Moreira subiu ao topo do pódio e deu início a um grande jejum brasileiro, que somente terminou em 1980 com a grande vitória do garçom José João da Silva.

Até 1947, os locais da chegada e o percurso eram variáveis. Foi nesse ano que A Gazeta transferiu-se para a então R. Da Conceição (hoje Av. Casper Líbero) e a chegada acontecia pertinho da Igreja da Santa Efigênia.

O enorme prestígio internacional se iniciou no ano de 1949, com a vinda ao Brasil de ViljoHeino, da Finlândia, uma das pessoas mais afáveis que já conhecemos.
Nos dias em que permaneceu em nosso país, o campeão e recordista mundial não reuniu em seu redor somente membros da colônia finlandesa. Ele juntou também destacados esportistas do Brasil, entre eles Adhemar Ferreira da Silva.

Dois anos depois, nos Jogos Olímpicos de 1952, a Finlândia viu impressionada um esportista negro cantando as canções mais carinhosas do folclore daquela nação. Este particular tornou Adhemar o atleta mais aplaudido daqueles Jogos Olímpicos, logo após ter vencido a prova do salto triplo.

Em 1953, Emil Zatopek veio participar da São Silvestre. Noticiamos em uma outra crônica desta série muitos detalhes que cercaram sua presença no Brasil.

O espírito olímpico ainda reinava naquela época e ser convidado para concorrer à prova da passagem do ano era uma questão de prestígio. É por isso que nomes como Gastão Roelands, Ken Norris, Victor Mora e outros nada recebiam além da passagem e da hospedagem.

Com o passar do tempo houve uma grande evolução do pedestrianismo africano e atletas da Etiópia, Kênia e outros países desse continente passaram a ocupar o lugar dos europeus.

A quebra do amadorismo olímpico de certa maneira dificultou a presença de grandes astros e estrelas a partir de 1992. Entretanto, se o advento do computador e o aumento da metragem do percurso deslocaram o foco do aspecto rigorosamente técnico, permitiram congregar vinte e cinco mil competidores atraídos pela grandiosidade da história e do prestígio da São Silvestre. Mas, a concorrência de outras atrações na Av. Paulista, para grande tristeza do autor destas linhas, transferiu o horário da realização e da chegada da prova da meia noite, o que constituía o seu grande charme. Mudanças de itinerário visavam ceder espaço para shows da virada do ano.

Voltando para o terreno das recordações, lembro-me de ter ciceroneado em São Paulo os melhores atletas do mundo, entre os quais Wladimir Kuts, Gastão Roelands e muitos dirigentes do atletismo internacional. Vários jantaram em minha residência. Não foram somente os atletas vencedores que deixaram aqui sua estima, mas também outros, como LucienTheis, um carteiro da Bélgica que por muito tempo trocou correspondência comigo.

Durante mais de meio século não soube nunca o que era estar em casa na passagem de ano. Neste particular, contei sempre com a solidariedade e colaboração de minha esposa, professora de inglês.

Um comentário em “OITENTA ANOS VIVENDO A SÃO SILVESTRE

  1. Olá, tudo bem?
    Estou deixando meus cumprimentos e registrando minha alegria em poder acompanhar, através de sua pessoa, a história da Gazeta Esportiva, onde meu pai, Caetano Carlos Paioli atuou por muitos anos.
    Um forte abraço
    Araci Paioli

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