Gazeta Esportiva

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O ano de 2013 marca o início do Quadriênio dos Mega eventos que o Brasil deve sediar até 2016. O primeiro será efetuado em junho deste ano. Trata-se da Copa das Confederações, uma disputa que nos vai testar para a Copa do Mundo de 2014. Ela, certamente, dará ao nosso futebol a oportunidade de voltar ao topo do ranking da FIFA, que reúne quase 200 nações participantes do esporte nacional do planeta. 2016 será também a ocasião dos Jogos Olímpicos, que congregarão mais de duas centenas de países concorrentes.

Não bastasse este big three de eventos, seremos igualmente sede de mundiais de realizações de outras modalidades e ainda da grande reunião de juventude católica no Rio de Janeiro que contará, inclusive, com a presença do Papa.

Bancar todos estes super eventos será razão para o Brasil fixar sua imagem no exterior e demonstrar claramente o nosso pleno desenvolvimento, deixando para trás o subdesenvolvimento e ingressando no primeiro mundo.

De uma imagem de país amadurecido dependem resultados econômicos, como o turismo (somos um país maravilhoso) e maior personalidade no comércio exterior. A auto estima nacional será consideravelmente ampliada se nos organizarmos.Tudo isso em favor do bem estar do nosso povo.

A população consciente de nosso país terá, diante deste quadro, uma sobrecarga de responsabilidades. Além de zelar pela ética, lisura e fair play com os quais o esporte deve ser praticado, terá de se manifestar contra a inidoneidade endêmica de políticos, empreiteiros e figuras governamentais.

A importância de nossa imagem no exterior tem recebido arranhões contínuos, delatados no último ano pela FIFA e pelo Comitê Olímpico Internacional. Não podemos nos esquecer que a corrupção será a principal adversária para atingirmos as nossas metas.

Ainda em 2012, quando os festejos de fim de ano abarrotaram de turistas as praias mais nobres do Rio de Janeiro, os assaltantes preferiram pousadas e hotéis nas quais as vítimas eram ingleses, americanos e viajantes procedentes da área da Europa. Imaginem que os prejudicados disseram nos seus países de origem do nosso Brasil, nação onde perderam o dinheiro que trouxeram, documentos e o passaporte, além de seus aparelhos eletrônicos.

Por todos os meios possíveis temos a missão de divulgar que a imagem do Brasil está em primeiro lugar.

O civismo tornou-se prioridade.

NO PÉ

NOTA ZERO PARA O COB

Não podemos deixar de divulgar a cópia enviada pela honrada SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) ao presidente do COB. Em vez de se preocupar com o enorme problema citado no artigo acima, eles vão intrometer-se em uma causa nobre, tentando atrapalhar ou “melar” uma ação que estimula a educação de nosso país. Leiam este texto:

São Paulo, 08 de janeiro de 2013

SBPC- 138/Dir.

Ilustríssimo Senhor

CARLOS ARTHUR NUZMAN

Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB)

Senhor Presidente,

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), entidade civil, sem fins lucrativos nem cor político-partidária, que atua em defesa do avanço científico e tecnológico do Brasil e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), receberam com espanto e indignação a informação de que o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) notificou extra-judicialmente a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) pelo uso supostamente indevido da palavra “olimpíada”, no nome da competição que organiza, a Olimpíada Nacional em História do Brasil.

Ninguém ignora a importância dessas competições científicas – no país já existem 18 delas – para a divulgação da ciência e o aumento do interesse dos jovens pelas atividades científicas, o que é fundamental para o desenvolvimento tecnológico de qualquer nação e o bem estar econômico e social de sua população.

Sem esquecer que jovens que vencem as olimpíadas nacionais depois vão participar de competições internacionais. E muitos deles têm se destacado, contribuindo para divulgar o nome do Brasil e da ciência e educação do país. É o caso, por exemplo, do jovem Matheus Camacho, de 14 anos, aluno de uma escola de São Paulo, que acaba de conquistar em Teerã, uma medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Ciências, concorrendo com estudantes de 28 países.

Por isso, a proibição do uso da palavra “olimpíadas” para designar competições científicas é uma situação que se configura mais despropositada ainda, quando se sabe que a palavra é empregada mundialmente para designar competições científicas, tais como International Mathematical Olympiad, Math Olympids for Elementray and Midde Schools, The British Mathematical Olympiad Sibtrust, Science Olympiad, entre muitas outras.

Assim, a SBPC e a ABC não concordam com a decisão do COB de ter a exclusividade do uso da palavra “olimpíada”, pois significará um retrocesso trazendo em prejuízo a todas as tradicionais olimpíadas educacionais (matemática, ciências, língua portuguesa, química, astronomia entre outras) que se realizam no Brasil há anos.

Sempre prontas a defender a ciência e a educação brasileira, a SBPC e a ABC subscrevem,

Atenciosamente,

HELENA B. NADER JACOB PALIS

Presidente da SBPC Presidente da SBC

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O Esporte Espetacular divulgou, no dia 30 de dezembro findo, uma excelente matéria sobre os momentos de maior destaque do esporte nacional a partir dos primeiros decênios do século findo.

Esta recuperação da memória esportiva do nosso país não se circunscreveu somente ao futebol profissional, mas abrangeu as principais modalidades esportivas. Não ficou somente nas conquistas do mundial da Suécia, em 1958, a primeira de uma série sob a direção de Vicente Feola, quando apareceu Pelé. A emissora enalteceu nossos feitos em diversos esportes como atletismo, futebol de salão, natação, judô e outros em que o Brasil se destacou. Pessoalmente, dois eventos divulgados despertaram em nós recordações saudosas: 1) a presença de Emil Zatopeck em nosso país em 1953, 2) o primeiro Campeonato Mundial de Futebol de Salão. No primeiro dos casos, fomos coadjuvantes dos fatos e, com grande alegria, escrevemos uma crônica publicada no dia 2 de janeiro, na qual narramos pormenores que poderiam ter enriquecido ainda mais a brilhante matéria da emissora da Rede Globo.

Naquele texto, eu pretendia abordar os dois eventos, mas meus informes sobre Zatopeck eram tantos que “engoliram” o espaço disponível. Prometemos então escrever a outra matéria sobre o Mundial de Salão, que somente hoje tive condições de escrevê-la.

Se no caso da vinda de Zatopeck fomos somente coadjuvantes, na realização do I Campeonato de Futebol de Salão fomos protagonistas.

No início dos anos 70, o Futebol de Salão, num contexto estadual e nacional, estava ainda se estruturando quanto à dimensão da quadra e das traves do gol, ao tamanho e peso da bola, e principalmente quanto à formalização de uma federação específica.

Na época, os brasileiros discutiam com os uruguaios a primazia da criação dessa nova modalidade esportiva. Habib Mafuz, destacado integrante da colônia sírio-libanesa, foi o primeiro presidente da Federação Paulista e conseguiu até um terreno no Parque São Jorge, perto do Corinthians, para a construção de um ginásio (que ainda está lá) para a prática da modalidade.

Entre os dirigentes dos primeiros tempos, figuravam Vicente Piazza, vice-presidente da Confederação Brasileira, Januário D’Alessio, Presidente da Federação Internacional da Fifusa e Ciro Fontão de Souza. O presidente da Confederação Brasileira era o deputado cearense Aécio Borba, que até hoje se encontra no cargo.

Logo depois, para consolidar a primazia nacional, estes dirigentes partiram para a organização de um Campeonato Mundial em São Paulo.

Como faltava “know how”para a implementação um empreendimento de tal dimensão, estes dirigentes recorrerão ao autor destas linhas que, apoiado na experiência obtida na organização da Corrida Internacional da São Silvestre, e em um amplo programa promocional de A Gazeta Esportiva, havia constituído Comunicações Nicolini, uma empresa pioneira neste setor que já tinha organizado a Copa Arizona (com 2500 times de futebol amador), a Copa Natu Nobilis de Tênis (onde houve uma apresentação do campeão mundial Bjorn Borg), o Revezamento Gigante (que reuniu 2 500 nadadores em uma única prova e consta do Guiness Book), a Operação Juventude (que proporcionou o primeiro relacionamento com as pistas para 300 000 escolares de todo o país) e outros eventos.

Aceitamos as condições e convidamos para o primeiro mega evento da modalidade o Uruguai, a Itália, a Argentina, o Paraguai, a Holanda, Colômbia, Tchecoslováquia, Japão, Costa Rica. Com o Brasil foram 10participantes. (Israel participou unicamente do congresso técnico).

Conseguimos alojamento no Ibirapuera e a cessão (naquele tempo, gratuita) do Ginásio do Ibirapuera. No congresso técnico, harmonizaram-se as diferenças das várias regulamentações dos países concorrentes, chegando-se a uma norma mundial única. Havia países que ainda usavam a bola “que pulava”.

O ineditismo levou a uma grande divulgação mundial pela mídia. A Globo transmitiu a maioria das partidas por intermédio de Luciano do Vale, que na época atuava naquela emissora. À medida que os jogos eram realizados, o público aumentava. Como suprema demonstração de prestígio de uma entidade alem do Futebol de Campo, havia até cambistas vendendo ingressos para os retardatários.

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Na peleja decisiva, a final entre o Brasil e o Paraguai, com a presença até dos Gaviões da Fiel, o Ibirapuera reuniu o maior público de sua história em um evento esportivo. Um recorde que não foi ainda superado: o público que se comprimia até nas escadas era calculado em 17 mil pessoas.

As solenidades de abertura e encerramento tiveram alto nível, seguiram padrão olímpico, com pira, bandeiras e hinos. O Brasil saiu robustecido do evento. O prestígio foi tão grande que a FIFA, enciumada, resolveu chamar a modalidade para a sua égide. Januário D’Alessio, presidente da Fifusa, passou a ser o diretor de Futebol de Salão da FIFA.

Algumas Federações importantes não concordaram com a submissão à FIFA e fundaram a Federação Internacional de Futsal, título que não utiliza a palavra Futebol.

Recentemente, para meu grande desaponto pessoal, no último campeonato de Futebol de Salão, a FIFA mandou retirar duas das seis estrelas do uniforme do Brasil, não reconhecendo os dois grandes eventos que vencemos na época da Fifusa, antes da modalidade passar para a sua égide.

Em compensação, foi muito gratificante para nós ver a Globo mostrando e documentando a grandiosidade daquele evento realizado no início dos anos 80, ao incluí-lo entre um dos principais momentos do esporte brasileiro.

Foto: AFP

Abebe Bikila da Etiópia correu descalço e venceu a Maratona dos Jogos Olímpicos de Roma em 1960

Por mais que alguns veículos de comunicação tentem denegrir a Corrida Internacional de São Silvestre, ela possui conquistas históricas responsáveis pelo seu grande prestigio.

Nascida, criada e agigantada pela A Gazeta e a A Gazeta Esportiva, a São Silvestre semeou outras provas na noite de 31 de dezembro, as quais hoje concorrem com a própria disputa do Brasil.

Uma delas é a de Nova York, no Central Park, que este ano reuniu 10.000 atletas. Ela continua sendo disputada à meia noite e conta, para criar clima festivo, com fogos de artifício, ao som da música New York New York. Esta prova tem 34 anos e foi iniciada na época de maior esplendor da São Silvestre brasileira. Antes do lançamento, os organizadores estiveram no Brasil e optaram por implementar o nosso modelo (não confundi-la com a Maratona de Nova York, realizada em ocasião diversa).

Outra São Silvestre bem antiga e prestigiosa é a de Madrid. Dado o grande interesse dos fundistas espanhóis pela nossa corrida, e somando-se ao fato da Fundação Casper Libero convidar somente um representante de cada país, os dirigentes resolveram lançar a São Silvestre espanhola. Este evento conta no ranking de seus vencedores atletas que, em outros anos, também venceram a prova do Brasil.

A ascensão do pedestrianismo africano, após o triunfo de Abebe Bikila, da Etiópia (que correndo descalço venceu a Maratona dos Jogos Olímpicos de Roma em 1960), os países da África começaram aparecer entre os vencedores das principais provas pedestres realizadas pelo mundo, não só na São Silvestre, mas também na Maratona de Nova York, em algumas nações européias e nos Jogos Olímpicos.

É natural que a São Silvestre, com o passar dos tempos e sob maior influência do fator econômico, viesse a sofrer a concorrência de seus filhotes, outros eventos realizados na mesma data. Este fato, porém, não justifica as noticias desanimadoras de alguns veículos nacionais divulgadas sobre a tradicional corrida. Se a prova perdeu a presença de alguns grandes nomes do atletismo, pelo seu prestigio ela está congregando atualmente mais de 25 mil concorrentes voluntários, procedentes de muitas nações do exterior e de 25 dos 26 estados que integram o nosso país.

Continuamos como um grande evento nacional e internacional. A vitória de africanos é normal no noticiário de qualquer prova efetivada neste planeta.

Aos críticos, endereçamos uma frase que Carlos Joel Nelli citava frequentemente: “Existem mil olhos para procurar defeitos e apenas um par de mãos para aplaudir”.

NO PÉ

A Gazeta Esportiva e o interior.

O boletim do Panathlon Club Mococa publicou neste começo de ano um texto que demonstra como o espírito promocional de A Gazeta Esportiva alastrou-se por todo o estado e até pelo país.

Ele nos conta como Lauro D’Angelo, um fotógrafo dos primeiros tempos da Fundação Casper Libero, indo morar naquela cidade levou o exemplo de Carlos Joel Nelli e semeou diversas modalidades esportivas em Mococa. Vejamos o que escreveu o esportista Antonino Silva:

“Na década de 1950, com a vinda de Lauro D’Angelo para Mococa, iniciou-se uma série de atividades nunca vista antes em nossa cidade.

Com o beneplácito de A Gazeta Esportiva, Lauro – juntamente com Malim Zamarian e o Dim Bernardes – incentivou a realização de inúmeros campeonatos populares e outras realizações que motivavam a cidade por todo o ano.

Sob a batuta desses valorosos esportistas, tornaram-se tradicionais os campeonatos de “truco”, “bocha”, “damas” e “braço de ferro”. As célebres corridas de bicicleta, no “9 de julho” e pedestre, na São Silvestre, na época realizada no ultimo dia do ano e no período noturno como mandava a tradição.

Alem destas promoções populares que visavam à participação de toda a população, havia também os campeonatos de futebol, principalmente “Campeonato Juvenil”, onde os clubes amadores participavam com os seus valores emergentes.

Havia também os campeonatos de “bola ao cesto” que envolviam clubes amadores e unidades escolares.

Com o retorno de Zezinho Pereira para Mococa, iniciou-se uma nova fase com a criação da “Olimpíada Estudantil” (Escolas: Oscar Villares, Comércio, Industrial e o Tiro de Guerra), culminando em 1968 com a “Olimpíada Infantil” (Escolas: Primário, Hilda Silva, Godoy, Barão, Maestro e dos distritos de Igaraí e São Benedito).

Convém salientar que, por ocasião da Olimpíada Infantil, eram também realizados o Concurso de Robustez e o Concurso de Fanfarras.

São bons tempos que podem retornar, já que se aliando “educação – esporte – cultura”, podemos massificar no desporto toda uma geração que, no futuro, poderá ser a base do nosso desporto competitivo. Isto sem contar que pode ser realizado um amplo Concurso de Fanfarras, com a participação de todas as unidades escolares do município pois, sem que ninguém perceba, possuímos uma cultura de “tocar bumbo”.

Foto: ReproduçãoGostei do novo percurso e do horário da última São Silvestre. Vê-la longe da Av. Paulista era uma grande desilusão para mim que, por esta prova, tenho uma grande ligação afetiva que dura há mais de 50 anos.

Na minha primeira infância, com sete anos eu já acompanhava a atuação de Nestor Gomes, o maior fundista dos anos 30. Lembro-me quando ele perdeu a São Silvestre de 1934; abrindo os braços, na atitude típica de um vitorioso, ele deixou passar por baixo deles o atleta Alfredo Carletti, que vinha atrás em um grande Sprint.

Menino ainda, consegui aos quinze anos de idade permissão de meus pais para presenciar a chegada de 1941, vencida pelo mineiro José Tiburcio dos Santos e bem pertinho de mim assisti à transmissão entusiasmada de Blota Júnior para a rádio Cruzeiro do Sul.

Como voluntário, estive ligado a A Gazeta organizando eventos populares, como a Prova dos Bairros. A partir de 1947, comecei a trabalhar na A Gazeta Esportiva, que por sua vez passou a circular diariamente. Logo no primeiro ano, fui incluído no staff organizador da corrida.

Numa época em que não se contava com o apoio dos meios eletrônicos e nem se sonhava com o computador, a classificação era feita através da inserção de uma ficha de papel com o nome dos atletas em um espeto localizado na chegada. Não havia como evitar um embolo no funil e a chegada simultânea de muitos corredores.

Mais tarde, conheci pessoalmente quase todos os vencedores das quinze primeiras provas e tive, inclusive, a ocasião de entrevistar Alfredo Gomes, o vencedor da primeira São Silvestre. Ele me contou detalhes que mostravam como as disputas iniciais eram despretensiosas. Em 1925, por exemplo, nem o trânsito era interrompido e os atletas corriam ao lado dos bondes elétricos.

Carlos Joel Nelli foi a alma e o coração desta prova, dando a ela o seu prestígio internacional. Foi após o falecimento de Casper Líbero, em um acidente de aviação no Rio de Janeiro em 1943, que Nelli assumiu a gerência da Fundação Casper Líbero e, nessa qualidade, transformou em 1945 a São Silvestre em um evento internacional, com a presença de atletas da América do Sul, especialmente do Cone Sul.

As duas primeiras provas já em nível internacional foram vencidas por Sebastião Alves Monteiro. Em 1947, Oscar Moreira subiu ao topo do pódio e deu início a um grande jejum brasileiro, que somente terminou em 1980 com a grande vitória do garçom José João da Silva.

Até 1947, os locais da chegada e o percurso eram variáveis. Foi nesse ano que A Gazeta transferiu-se para a então R. Da Conceição (hoje Av. Casper Líbero) e a chegada acontecia pertinho da Igreja da Santa Efigênia.

O enorme prestígio internacional se iniciou no ano de 1949, com a vinda ao Brasil de ViljoHeino, da Finlândia, uma das pessoas mais afáveis que já conhecemos.
Nos dias em que permaneceu em nosso país, o campeão e recordista mundial não reuniu em seu redor somente membros da colônia finlandesa. Ele juntou também destacados esportistas do Brasil, entre eles Adhemar Ferreira da Silva.

Dois anos depois, nos Jogos Olímpicos de 1952, a Finlândia viu impressionada um esportista negro cantando as canções mais carinhosas do folclore daquela nação. Este particular tornou Adhemar o atleta mais aplaudido daqueles Jogos Olímpicos, logo após ter vencido a prova do salto triplo.

Em 1953, Emil Zatopek veio participar da São Silvestre. Noticiamos em uma outra crônica desta série muitos detalhes que cercaram sua presença no Brasil.

O espírito olímpico ainda reinava naquela época e ser convidado para concorrer à prova da passagem do ano era uma questão de prestígio. É por isso que nomes como Gastão Roelands, Ken Norris, Victor Mora e outros nada recebiam além da passagem e da hospedagem.

Com o passar do tempo houve uma grande evolução do pedestrianismo africano e atletas da Etiópia, Kênia e outros países desse continente passaram a ocupar o lugar dos europeus.

A quebra do amadorismo olímpico de certa maneira dificultou a presença de grandes astros e estrelas a partir de 1992. Entretanto, se o advento do computador e o aumento da metragem do percurso deslocaram o foco do aspecto rigorosamente técnico, permitiram congregar vinte e cinco mil competidores atraídos pela grandiosidade da história e do prestígio da São Silvestre. Mas, a concorrência de outras atrações na Av. Paulista, para grande tristeza do autor destas linhas, transferiu o horário da realização e da chegada da prova da meia noite, o que constituía o seu grande charme. Mudanças de itinerário visavam ceder espaço para shows da virada do ano.

Voltando para o terreno das recordações, lembro-me de ter ciceroneado em São Paulo os melhores atletas do mundo, entre os quais Wladimir Kuts, Gastão Roelands e muitos dirigentes do atletismo internacional. Vários jantaram em minha residência. Não foram somente os atletas vencedores que deixaram aqui sua estima, mas também outros, como LucienTheis, um carteiro da Bélgica que por muito tempo trocou correspondência comigo.

Durante mais de meio século não soube nunca o que era estar em casa na passagem de ano. Neste particular, contei sempre com a solidariedade e colaboração de minha esposa, professora de inglês.

Foto: Acervo/Gazeta Press

Zatopek no topo de pódio no dia 31 de dezembro de 1953 (Foto: Acervo/Gazeta Press)

No dia 30 de dezembro, quando eu passava férias na minha casa de praia em Peruíbe, minha filha Augusta chamou-me atenção para um excelente programa de reconstituição da memória esportiva do país desde o início do século passado.

Era uma produção do Esporte Espetacular, da Rede Globo, que não se circunscreveu somente ao futebol, mas ao esporte em geral, notadamente às modalidades mais praticadas em nosso país.

Entre muitos tópicos daquela grande matéria, não faltaram o desaponto do mundial de 1950 e a alegria do Tri em 1970.

Dois temas, entre os que foram expostos naquela verdadeira história do esporte brasileiro, evocaram a mim muitas recordações e me estimularam a escrever outros pormenores não citados pela emissora: a presença de Emil Zatopeck na São Silvestre de 1953 e a realização e vitória do Brasil no Campeonato Mundial de Futebol de Salão.

No primeiro destes dois, eu fui coadjuvante e, no segundo, atuei como protagonista. Zatopek não foi o primeiro recordista mundial a participar da Corrida Internacional de São Silvestre. O grande prestígio internacional da então “corrida da meia noite” começara em 1949, quatro anos antes com a participação do então campeão e recordista mundial, o finlandês ViljoHeino, provavelmente também campeão mundial da simpatia. Não somente a colônia da Finlândia radicada em São Paulo recepcionou à altura o renomado visitante, mas também o público e os principais esportistas brasileiros, como Adhemar Ferreira da Silva, que com a proximidade dos nórdicos aprendeu palavras e canções folclóricas finlandesas. Este contato rendeu a ele, nos jogos de Helsinque, em 1952, o status de atleta mais aplaudido após sua vitória no salto triplo.

Enquanto, ViljoHeino veio sem nenhum dirigente acompanhante, e andava sozinho, livremente pelas ruas de São Paulo, em uma atmosfera diametralmente oposta, Zatopek veio acompanhado por um membro do órgão de segurança da Tchecoslovakia. Era muito grande o medo de que a “locomotiva humana” quisesse ficar por aqui, escolhendo a liberdade que não havia no governo de sua terra e com a qual ele vivia às turras. Na época da guerra fria, era grande o medo dos países de além da “cortina de ferro” que houvesse uma debandada de seus campeões esportivos, motivo para a propaganda do regime.

Os treinos de Emil Zatopek eram acompanhados com grande interesse por atletas e técnicos de atletismo nos dias que antecediam a São Silvestre. Esses treinos eram realizados na pista do C.R. Tietê. Zatopek mostrou ao vivo o interval training. Ele dava grande número de sprints de 100m, em vez de correr como os demais atletas que faziam grandes percursos ininterruptos. Neste particular, a contribuição de Zatopeck foi de trazer para o Brasil uma aula prática de modernidade.

Nós, pessoalmente, como membro do staff da prova, cujo diretor geral era Carlos Joel Nelli, tivemos de dar assistência a Zatopek. Sua popularidade era tão grande que um elevado número de jornalistas estava em seu encalço, pois muitos queriam conseguir declarações sobre a política do seu país. No ano de 1953, a largada da São Silvestre foi dada na Praça Oswaldo Cruz e a chegada na Av. Casper Líbero. Coube a mim, levar o famoso atleta com meu carro particular (um Ford Canadense daquele ano) até o local da partida, evitando os veículos da frota da Fundação Casper Líbero. Coube também a mim levá-lo, nos dias seguintes da prova que vencera com galhardia, para jantar em uma das churrascarias tipo rodízio existentes em São Paulo. Escolhemos a mais farta e sofisticada da Capital. A segurança de Zatopek estava reforçada pela presença de um diplomata do Consulado Geral da Tchecoslováquia, seu guia em São Paulo. Era impressionante ver o deslumbramento do então mais famoso corredor do mundo diante da abundância de um cardápio com mais de 20 tipos diferentes de carne e um buffet também diversificado com a oferta de quase tudo o existente na cozinha brasileira. O atleta tcheco havia saído de um país no qual ainda existia enorme racionamento de víveres.

O Brasil mostrava naquele momento que também era um campeão, o campeão da fartura.

Uma das maiores emoções da minha vida de militante do esporte foi-me dado no dia 1º de janeiro de 1954, quando se realizou no auditório da Fundação Casper Líbero, com o Prédio da Gazeta ainda em construção, a solenidade da entrega de prêmios.

Por um beneplácito de meus colegas, coube a mim entregar o troféu de campeão ao fundista mais famoso (até hoje!) da história do atletismo. A foto desse momento inesquecível até hoje é guardada como uma relíquia.

Eu pretendia, e anunciei no início desta crônica, que iria falar sobre o primeiro Campeonato de Futebol de Salão realizado em 1982, mas Zatopeck chegou antes e engoliu todo o espaço disponível. Melhor….uma outra história de pioneirismo do Brasil terá brevemente uma crônica especial, só para ela.

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Durante o encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres, na euforia dos brasileiros ao receberem a incumbência de organizá-los em 2016, eu escrevi um artigo dizendo que nós somente poderíamos igualar ou superar Londres se todos os recursos estatais disponíveis fossem empregados nas obras. O nosso sucesso dependia do espírito público dos dirigentes esportivos e das autoridades governamentais, que teriam o encargo cívico de evitar a corrupção e as “caixinhas”. O dinheiro público, às vezes retirado de outras prioridades, deveria ser despendido exclusivamente em obras e serviços e não dividido com aproveitadores inescrupulosos.

Naturalmente este princípio mencionado na temática dos Jogos Olímpicos, é igualmente válido para o mundial de Futebol, para a Copa das Federações e ume série de eventos internacionais que o nosso país sediará no próximo quadriênio.

Entretanto, a expectativa patriótica de milhões de brasileiros, enquadrados entre os que têm uma visão sedimentada dos prejuízos que o malbarato de recursos poderá causar à imagem do Brasil perante um consenso internacional, recebeu um choque, uma grande desilusão: a mídia divulgou que a Arena de Brasília, programada para os mega eventos, passará de um bilhão de reais. O estádio de Brasília será o mais caro de todas as arenas atualmente em construção [um bilhão e quinze milhões].

A alegação para este custo desproposital foi que as licitações efetuadas em 2010 foram feitas através de itens isolados e não incluíam – imaginem- a cobertura do gramado e cadeiras. A outra causa foi o aumento em 25% do custo da mão de obra, quando sabemos que a mais alta correção monetária anual não passa de 6%.

O Itaquerão, que partiu do zero, e atenderá um estado com a pujança de São Paulo, ficará em 804 milhões e conta com uma forte presença da iniciativa privada, fato que não ocorrerá em nove das doze sedes da Copa do Mundo.

O civismo deve partir agora da mídia, denunciando qualquer irregularidade ao Tribunal de Conta da União.
Parece que a atitude corajosa do ministro Geraldo Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal ainda não deu um alerta aos aproveitadores do dinheiro público. É preciso que alguns figurões sejam encarcerados em decorrência do processo do mensalão para que a volúpia do dinheiro dos Jogos Olímpicos e do Mundial seja arrefecida.

Dada a impossibilidade de um comparecimento pessoal à exposição do Secretário de Esporte, Lazer e Juventude na Assembléia Legislativa, realizada no dia 11 de Dezembro, solicitamos ao nosso amigo e leitor constante Walter Silva, que informasse à nossa coluna o que de importante acontecera na prestação de contas do Sr. José Benedito Pereira Fernandes;
Eis o relato de Walter Silva:

“O Secretário procurou mostrar como aconteceram os diversos eventos da Secretaria e o número de participantes em cada programa. Em que pese o esforço do Secretário e sua equipe para desenvolver o Esporte no Estado de São Paulo, a falta de sensibilidade por parte do governo central continua a manter o orçamento do Esporte em níveis muito baixos, nunca ultrapassando 0,1% e projetando para 2013 a parcela ainda menor de 0,09% do Orçamento do Estado de São Paulo.

Uma das principais reclamações dos presentes à reunião esteve voltada para a Lei de Incentivo, cujas inscrições deveriam ser abertas no mês de Fevereiro. No entanto, elas só aconteceram no mês de Setembro. Com isso, os projetos que poderiam se beneficiar da renúncia do ICMS por parte das empresas ficaram restritos aos meses de Novembro e Dezembro. Ora, além do pífio orçamento da Secretaria, dos 60 milhões que o governo disponibilizou para a Lei de Incentivo só puderam ser contemplados R$ 14 milhões.

Em relação a Lei de Incentivo ocorreu um outro problema. No ano passado, a Secretaria recebeu por volta de 350 projetos para serem analisados. Neste ano, as inscrições a partir de Setembro chegaram num único mês totalizando mais de 700 Projetos. Algumas entidades passaram a noite às portas da Secretaria de Esporte para protocolarem seus projetos no dia seguinte. A surpresa veio depois, quando o projeto de nº 30 foi analisado sem seguir a ordem de inscrição, pulando para 60, depois 100 e em seguida para o nº 534 (aproximado). Essa situação levou um grupo de atletas a ter uma audiência com o Governador do Estado, para as devidas reclamações. Lá, receberam a promessa que as inscrições no próximo ano se iniciarão no dia 02 de janeiro.

Na oportunidade nós (Walter Silva) fizemos um questionamento: lembramos que, na primeira administração do Governador Geraldo Alckmin, foram colocadas como prioridade para o Esporte a reforma do Ginásio do Ibirapuera, a reforma do Baby Barioni e a conclusão da Vila Olímpica Mário Covas (na Raposo Tavares). Passaram-se dez anos e nada aconteceu. Ou melhor, no Governo Serra iniciou-se a reforma do Complexo Vaz Guimarães, agora na sua fase final, com a surpresa que esse Complexo está incluso entre os 550 imóveis que o Estado pretende colocar em alienação, como garantia para a Companhia de Parcerias Público Privadas. O Secretário disse que não se trata de venda, mas da alienação como garantia para a referida Companhia. No entanto, não há nenhum dispositivo que impeça a Companhia de se desfazer do imóvel. O Baby Barioni terá no início do próximo ano o projeto de reforma aprovado. Até agora, entretanto, está tudo desativado. A Vila Olímpica tem ampliado a oferta de atividades à população, mas ela está longe de estar totalmente concluída. Foi feita a observação de que o novo prefeito da cidade, Fernando Haddad, sinalizou o interesse da Prefeitura em fazer uma parceria com o Governo do Estado para a conclusão da reforma dessa Vila Olímpica.

Há um programa na Secretaria que se chama “Jovem em Foco”, com o valor projetado para 2013 de R$ 1,6 milhões. Como o esporte não é utilizado na formação de crianças e adolescentes, o Estado acaba correndo atrás do prejuízo, investindo R$ 1,105 bilhões na Fundação Casa, onde ficam jovens infratores que não tiveram oportunidade de acesso aos instrumentos que contribuem para a formação da cidadania.

Um dos poucos programas da Secretaria voltados para inclusão social de crianças e adolescentes através do Esporte tem a denominação de “Esporte Social”. No Governo de José Serra, essa ação teve o seu orçamento cortado em 50%. No orçamento de 2013, a proposta orçamentária projeta o valor de R$ 3.432.275,00 para atender 8.000 pessoas. Como o programa oferece a participação de 100 crianças e/ou adolescentes por núcleo, só é possível atender 80 entidades e/ou municípios do Estado de São Paulo. Todavia, nem isso deve acontecer, já que neste ano de 2012 a Secretaria de Esporte empenhou nessa ação R$ 980 mil até o mês de Novembro, ou seja, 21,4% do seu valor constante no orçamento.

Embora haja bons Projetos da Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude, os resultados nunca serão positivos, considerando-se o orçamento pífio destinado ao Esporte”. Assim terminou o nosso colaborador Walter Silva.

NO PÉ

POR QUE CRESCEM O VÍCIO E A DELINQUÊNCIA

Sob este título em nosso blog, o prezado leitor poderá complementar a visão que queremos divulgar sobre a importância do esporte e o ímpeto indomável das autoridades estaduais para se apropriar dos recursos dedicados ao esporte, esforços que, além de contribuírem para a saúde da população, afastam a juventude da bebida, das drogas, da criminalidade e da perversão dos costumes.
O texto acima citado foi publicado em 11 de dezembro, coincidentemente no mesmo dia em que o Secretário de Esporte falava na Assembléia Legislativa.

CÁSSIO PRECISA SER BEM EXAMINADO

Escreve-nos um leitor, com importante currículo na nossa medicina, que observando Cássio, seus dois irmãos e a sua genitora teve a forte suspeita que ele deve ter acromegalia, um tumor benigno na hipófise, mas que pode provocar no atleta morte precoce, hipertensão e cardiopatia. Foi o que aconteceu há muitas décadas com o grande pugilista italiano Primo Carnera.

Diz o provérbio “cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”. Por isso é conveniente que ele seja examinado com alguma urgência por um endocrinologista. É importante um esclarecimento conclusivo das condições físicas “do bola de ouro” da Copa dos Campeões, para que ele e os corinthianos se acalmem, e se for o caso, dar início a um tratamento especifico.

EFEITO MULTIPLICADOR

Nosso artigo, publicado em 11 de dezembro com o título “Por que crescem o vício e a delinquência”, teve um efeito multiplicativo. Ele foi reenviado a muitas centenas de integrantes do cadastro do CEV Panathlon.

Igualmente, o esportista Laércio Pereira, de Manaus, que coordena provavelmente o maior CEV esportivo do país, também mandou para mais de mil destinatários a matéria sobre o nosso dirigente olímpico Ferreira Santos, escrita há 50 anos e publicada no dia 15 de dezembro.

É altamente gratificante para o autor do artigo este efeito multiplicador, reencaminhando matérias da sua coluna para um público especificamente vinculado aos temas do esporte ético, do fair play e do esporte como fator de saúde e cidadania.

Após a inesquecível festa anual da ACEESP, eu chamei a mim a tarefa de localizar um artigo escrito num 15 de dezembro, há exatamente meio século, no dia seguinte ao falecimento do Dr. Ferreira Santos, então presidente do Comitê Olímpico Brasileiro e membro do Comitê Olímpico Internacional.

Nele eu descrevi toda a minha emoção assim que cheguei à redação, retornando do funeral de um dos dirigentes mais idôneos que o Brasil já teve.

Ao relê-lo, cinqüenta anos depois, eu o achei ainda atual e, ao republicá-lo abaixo, dedico este texto aos leitores jovens e a todos os familiares do grande esportista.

“Bom velhinho!

Descanse em paz bom velhinho! Repouse que você merece, bem merecido, como muito poucos!

Descanse em paz Dr. Ferreira Santos que a sua obra aqui ficou como exemplo a uma juventude, a uma geração!

O seu Esporte sempre começou com “E” grande, muito muito grande, tão grande que muita gente não chegou a enxergá-lo inteiro. O seu Esporte era de anéis entrelaçados, era de elos ligando continentes e pessoas, era de louros, justo e único prêmio do esforço. O seu Esporte era bonito, bonito mesmo, tão bonito que todos se cumprimentavam antes e depois da luta.

Talvez fosse por isso que ontem o céu estava triste. Era uma garoa triste. Era um céu de quem queria chorar. Na Consolação, uma viúva inconsolável imaginava a vida sem o companheiro ao lado e um filho altivo sofria o duro golpe de cabeça erguida. Centenas de esportistas, fulminados pela surpresa não sabiam dizer nada mais do que um reticente:

- Pois é…!”

Havia flores e havia uma bandeira de cinco anéis que foi com ele até a tumba, como um ideal que não se abandona nem na morte. As flores – paradoxo! – não quiseram deixar a bandeira só: as coroas de diferentes cores queriam na coincidência formar também anéis olímpicos em sua forma circular. A mãe natureza prestava uma homenagem ao bom velhinho, o velhinho que, em seu ideal de servir se Esporte bem grande, nunca teve inimigos – somente as preocupações…

Sim, preocupações o esporte lhe dava em penca e em quantidade.  Ainda estamos vendo o bom homem de óculos de aros grossos dizendo:

- Ontem eu assinei uma letra de doze milhões para nossa delegação ir a Melbourne!

E “cochichou”:

- Eu não posso dar nada de garantia, mas assinei… O Brasil não pode deixar de participar.

Parece que foi ontem, em Chicago, com um sorriso nos lábios que ele me dizia:

- És o primeiro jornalista a saber: o Brasil vai ser sede dos IV Jogos Pan-americanos.

E depois, em tom de confiança:

- Sabes que eu estou com um medo danado!

E assim prosseguiu a vida de Ferreira Santos, o bom velhinho de fala pausada, a própria pira olímpica feita gente.

Ainda estamos vendo o nosso homem de avental alvo, deixando os clientes resmungando na sala enquanto nos falava de Coubertin, da estima de Baillet Latour para o Brasil, ou da amizade pessoal que o ligava ao Governador Azuma, de Tóquio, seu colega de Comitê.

Que orgulho ele tinha…! Era o número dois na antiguidade olímpica. Desde 1920 frequentava aquela grande festa da confraternização.

Bom velhinho, como é o destino… Tanta viagem, tanto congresso na casa dos outros. Desta vez você iria ser o anfitrião. Esquecendo as preocupações que a Vila Pan-americana lhe tinham dado, dentro de três meses você iria receber muitos que já haviam lhe hospedado. Era a sua festa, era o dia de ter todos em sua casa. Os Jogos Pan-americanos estão lá.

É uma pena. Em vez de receber seus companheiros da América com abraços bem latinos, estes é que irão deixar uma coroa lá no cemitério da Consolação, não suficientemente distante do local dos Jogos para que alguns acordes do hino olímpico deixem de chegar até sua tumba.

Descanse em paz, bom velhinho, não se preocupe mais como antes. Seu nome, agora, é a bandeira. Os que aqui ficaram não irão desapontá-lo…”  H.N.  

AFP

AFP

Embora a solenidade de abertura destes Jogos Olímpicos tenha acontecido na última sexta-feira, o espetáculo apresentado para 4 bilhões de expectadores vai ser tema de comentários e observações por muito tempo, possivelmente anos.

Na cerimônia inaugural, a Grã Bretanha não perdeu a excelente oportunidade para contar a sua história e exibir seu patrimônio cultural. Deu o recado que é a pátria de Shakespeare e dos Beatles, recordando a todos que foi o berço da revolução industrial.

O Reino Unido entregou a um cineasta a tarefa de implementar um roteiro, cuja aprovação do público não foi unânime. Os elementos do cerimonial olímpico em si não receberam no contexto o realce que seria esperado. Para os amantes do Olimpismo e do Esporte (entre os quais se inclui o autor destas linhas), o valor social destes temas pareceu-me ter sido tratado como um sub-produto. O recado das magnitudes do país anfitrião deveria ter sido dado após o cerimonial olímpico propriamente dito, e não mesclado a ele.

INTERMINÁVEL

O fato que mexeu com uma convicção há tempos arraigada em mim foi uma frase publicada na primeira página de um dos principais veículos de comunicação impressa do país. Na matéria que cobria a inauguração dos Jogos, após citar minuciosamente as dezenas de artistas que apareceram no roteiro, o autor da reportagem escreveu: seguiu-se um “interminável“ desfile das delegações participantes.

Consistiu somente nesta ínfima linha a referência à parte principal do cerimonial da abertura do acontecimento de imensa significação que representa a união e a confraternização de toda a humanidade: na única manifestação de unanimidade existente em um mundo atual tão desigual, conturbado e dividido entre paixões, desamores e ódios.

Os privilegiados sentados em uma cadeira do estádio olímpico viram ao vivo o mundo passar diante de seus olhos, o que também ocorreu com os expectadores televisivos de maior sensibilidade do planeta Terra.

LIÇÃO DE GEOGRAFIA

Todas as nações, dos Estados Unidos ao Sudão Sul, da mais rica às mais pobres eram identificadas por uma tabuleta de medidas iguais. Eram iguais também nas competições disputadas entre elas. As dezenas de modalidades de que participavam tinham regras idênticas. Elas não concediam vantagem a nenhum concorrente, seja qual fosse a potencialidade econômica do país de sua proveniência. Na prova de 100 metros rasos, a distância a percorrer é a mesma para os concorrentes da Europa Central, da África, ou de alguma ilha perdida na imensidão do Pacífico. Também no futebol “association” nenhum participante tem o privilegio sobre os demais de poder pegar a bola com as mãos.

As rivalidades entre as nações existem, mas elas se resolvem com a aplicação das regras universalmente reconhecidas para as diversas disputas.

Quem viu o desfile “interminável” passar, repetimos, viu o mundo. Teve condições de entender como o esporte difundiu-se na totalidade das nações por mais minúsculas que elas sejam. Um fenômeno social gerador de saúde e recreação, por meio de uma capilaridade extraordinária, chegou a todos os cantos povoados de nosso planeta. A parada cívica que inaugurou os Jogos Olímpicos valeu como lição de geografia e, por mais culto que fosse o expectador, sempre havia uma ou outra nação que ele não sabia onde se localizava ou ignorava até a sua existência.

Atrás da uniformidade de cada tabuleta indicadora do nome do país desfilante, víamos a diversidade de aparência dos habitantes de nosso mundo. As delegações da Suécia, Finlândia ou Dinamarca, mostrando gente de cabelo loiro, de aparência característica dos nórdicos, completamente distinta daquela dos que participavam pelas nações do extremo oriente, como China e Japão, de olhos amendoados identificavam os povos orientais.

PREPONDERÂNCIA AFRICANA E DOS AFRODESCENDENTES

O que me impressionou muito neste desfile foi a presença quantitativa da raça negra no conjunto dos disputantes dos Jogos Olímpicos. É certo que não existe estatística desta presença, mas cremos que bem mais de sessenta por cento dos concorrentes olímpicos ou são negros puros ou mestiços, fato que indica uma ascensão sócio cultural da raça através dos tempos e, indiscutivelmente, é uma evolução da isonomia da humanidade. Eram minoria os países que não possuíam afrodescendentes em suas delegações olímpicas.

Um desfile olímpico é, de fato, “interminável”. Ele não para de mostrar realidades sociais de significação profunda e bela, como as que citamos.

No aspecto técnico, este equilíbrio transforma-se em superioridade. A final de algumas provas, principalmente no atletismo, chega a ter cem por cento de disputantes de ascendência africana (fato que se dá inclusive nos recordes olímpicos e mundiais), a ponto de sugerir um conceito exatamente oposto à ideia hitlerista da superioridade da raça ariana.

TODAS AS RELIGIÕES E ATÉ PAÍSES EM GUERRA

Talvez o mais belo de tudo naquele “interminável” desfile, na terminologia de um jornalista cego, foi mostrar como o Olimpismo eliminou qualquer radicalidade, ao fazer passar uniformemente gente de religiões diferentes: católicos, protestantes, seguidores de seitas do islamismo, espíritas, umbandistas ou xintoístas, e os seguidores de tantas outras crenças, até os que não acreditam em Deus nenhum.

Lá estavam países ligados às mais diferentes doutrinas políticas, mas aceitando sem discutir a beleza do Olimpismo e do Esporte. Ditadores aceitando sem questionar a igualdade democrática do Olimpismo. Países em guerra aceitavam a bandeira de cinco aneis e, num universo cheio de discórdia, juraram ser concorrentes leais.

Na Vila Olímpica, toda esta gente de origem tão diversa, concorrentes, técnicos e dirigentes vão desfrutar de intercâmbio saudável, falando uns para os outros o que acham sobre tudo. Vão ver os que os outros comem, o que cantam e o que dizem.

Fogos de artifício e outras exibições na festa inaugural são, sem dúvida uma atração, mas não se pode superar o mais importante que é o espírito olímpico. Usando a terminologia aristotélica, confundir essência com acidente.

Dizia o filósofo grego: “essência é a qualidade que faz que uma coisa seja o que ela é; acidentes são qualidades que podem ser ou não atribuídos a ela, mas que não alteram a essência”.

NENHUM “ROJÃOZINHO”

Na região em que eu moro está disseminada a comemoração por intermédio do rojão. Não exemplifiquemos apenas pelo jogo em que o Corinthians venceu a Libertadores da América e no qual o foguetório superou qualquer festa junina. A cada gol, não só a favor ou contra do alvinegro, mas de qualquer outro time de destaque como o Palmeiras ou o São Paulo, e até a Portuguesa tem, na minha quadra, alguém transformando em estouro a sua euforia.

Ficamos entristecidos em observar que quando o Brasil, o nosso país, marca seus gols nos jogos de futebol ou triunfa em qualquer outra modalidade, nestes Jogos Olímpicos não se ouve o espocar de nenhum “rojãozinho”, não se sente nenhuma demonstração sonora de nossa felicidade. A conquista de nenhuma medalha encontrou reciprocidade popular sonora.

Eu atribuo este fato a uma questão de cultura. O Olimpismo e o Esporte, vistos em sua globalidade, ainda não são escala de valores da maioria de nossa população. A transformação desejável é missão dos veículos de comunicação e principalmente das escolas. Eis uma meta para os Ministérios da Educação e dos Esportes e para a direção dos Conselhos Diretivos dos grandes jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão.

HUMOR DA HORA ERRADA

Sou amigo do humor, da piada e da gargalhada, mas igualmente acho que brincadeira também tem hora. Acredito que foi bastante impróprio quando, no desfile inaugural dos Jogos Olímpicos, foi mostrada a presença do humorista famoso Mr. Bean, praticamente “contracenando” com a Orquestra Sinfônica de Londres.

Nada contra incluir algo de hilário na programação, mas não junto a uma das maiores sinfônicas do mundo que demonstrava seu brilho em um momento apoteótico.

O diretor do espetáculo inaugural dos Jogos, Danny Boyle, deveria ter estudado antes de seu “script” um pouco mais da história e do significado do esporte do Olimpismo e a importância das partes que integram o cerimonial.

Foto: Gazeta Press

Henrique Nicolini já cobriu quatro Olimpíadas e ficou na retaguarda em outras quatro, inclusive em Londres-1948

Decidimos, nesse período de Jogos Olímpicos, aumentar a frequência da inserção do nosso Blog em A Gazeta Esportiva Net. Em nossa vida jornalística, cobrimos quatro jogos: Munique (1972) Los Angeles (1984), Seul (1988) e Barcelona (1992). Trabalhamos na “retaguarda” das disputas de Londres (1948) Helsinque (1952) Melbourne (1976) e Moscou (1980).

Muitas vivências integram uma experiência, com pormenores nem sempre divulgados no imenso universo do olimpismo.

Acesso a fontes de informação
Junto aos conhecimentos do lado jornalístico propriamente dito, existe ainda um acervo proveniente da minha vida na imprensa. Fui presidente da Federação Paulista de Natação, do Conselho Técnico de Esportes Aquáticos da Confederação Brasileira de Desportos (ao qual a natação estava vinculada), fui membro do Comitê Olímpico Brasileiro e Chefe da Comissão de Comunicação do COB durante os Jogos Olímpicos de Seul, funções diretivas que me permitiram tomar conhecimento de aspectos administrativos que somente no dia de hoje podem ser abertos ao conhecimento público.

Foi na olimpíada de 1948 em Londres, que o Brasil obteve a sua primeira medalha olímpica realmente válida. Em meu livro “Moacyr Daiuto Cátedra e Quadra”, publicado pela Editora Phorte, damos amplos detalhes desta conquista.

Desde 1948
Desde o estabelecimento dos Jogos da Era Moderna,  A Gazeta Esportiva cobriu os jogos com Caetano Carlos Paioli – Londres (1948) Helsinque (1952) Roma (1960) Tóquio (1964) México (1968) Montreal (1976) Moscou (1980); com Henrique Nicolini cobriu Munique (1972), Los Angeles (1984) Seul (1988) e Barcelona (1992); e com Olímpio da Silva e Sá cobriu os Jogos de Sidney (1956).

O termo olimpíada
Carlos Arthur Nuzman está processando o governo pelo uso do termo “Olimpíadas”. Há tempos, quando Monique Berlioux era secretária do Comitê Olímpico Internacional, este órgão registrou “Olimpíadas” como termo de sua propriedade, prerrogativa que passou para os Comitês Olímpicos Internacionais.

Agora, o presidente do COB abriu um processo na justiça contra o Ministério da Educação pelo uso do termo na “Olimpíada da Matemática”.

Esta atitude chega justamente, segundo o Estadão num momento em que Aloízio Mercadante pretende lançar a “Olimpíada do Conhecimento” que seria efetuada concomitantemente com os Jogos Olímpicos.

Achamos simpático o uso deste termo em eventos culturais. Contribuem para a valorização da imagem dos próprios Jogos Olímpicos, transmite a idéia de esforço e luta por uma vitória almejada por muitos.

Sinônimo de quadriênio
Na verdade, a palavra “olimpíada” é uma unidade de tempo. Teria por sinônimo “quadriênio”, isto é, significa o intervalo que quatro anos entre as realizações dos Jogos. Poucos sabem que, conforme a numeração do atual certame de Londres, estão computadas inclusive as Olimpíadas de 1916, 1940 e 1944, anos em que, devido a conflagrações mundiais, os Jogos não foram realizados.   

Livros sobre olimpismo
Em parceria com o Prof. Aristides Almeida Rocha, publicamos em 2008 o livro “Olimpismo no Brasil – Medalhas e Classificações” que completa como fonte histórias, estatísticas e as informações que gostaríamos de passar aos leitores que tiverem a benevolência de nos acompanhar como colunista, desde que a A Gazeta Esportiva passou do papel para o visor.