O jogo da década!

Depois deste Santos 4 x 5 Flamengo vai ser difícil assistir futebol daqui para frente. Os 3 gols iniciais e fulminantes do Santos indicavam uma goleada histórica. Até que Ronaldinho Gaúcho começou a mudar o enredo da partida e, junto com Neymar, trouxe de volta a alegria aos nossos gramados naquela noite memorável de 27 de julho de 2011.

Luxemburgo comentou, após a partida, que “parar Neymar é só na bazuka”. Gostei muito da coletiva do Muricy Ramalho. Esperava aquele sujeito marrento, bravo, grosseiro (atitude que, sabemos, é apenas para poupar o treinador de expor seus atletas e manter o jeito folclórico de falar com a mídia após os tropeços do time). Desta vez, apesar da derrota, Muricy estava satisfeito com a equipe do Santos. Depois de um espetáculo daquele, realmente, não tinha como ficar com o humor virado. O resultado, os números da partida, tudo ficou para um segundo, terceiro, quarto, quinto plano.

O que valeu, mesmo, foi a magia do futebol brasileiro voltar, assim, sem avisar, numa noite de inverno no gramado da Vila mais famosa do país: a que trouxe o Rei Pelé para o mundo!

A condição psicológica do Flamengo foi digna das melhores notas. A equipe não se abateu em campo – nem com os 3 gols iniciais do Santos. Teve calma, soube construir o placar, foi extremamente disciplinada em todos os sentidos e manteve-se concentrada e ativada adequadamente durante os noventa minutos.

No lado do Santos, o futebol moleque, travesso, rápido, fantástico de uma equipe cuja escalação faz os olhos de qualquer boleiro brilhar, prendeu a atenção dos presentes e deixou todo mundo grudado diante da tv.

O lado dramático do jogo ficou por conta de Elano que tentou – visivelmente – mostrar ao mundo que havia superado a perda da penalidade pela Seleção e, no momento mais crítico e decisivo da partida, tentou uma cavadinha e entregou a bola de presente ao goleiro Felipe. Depois pediu desculpas publicamente e reconheceu o erro. A melhor forma de revelar a tranquilidade naquele momento , sem dúvida, era cravar a bola no canto do goleiro e sair para o abraço. Como o “se” não entra em campo, fica a dura lição para o atleta que – após a partida – revelou chateação com as vaias e que seu pai foi perseguido por bandidos após a eliminação da Seleção. Elano chegou a cogitar deixar o clube – o que seria uma grande pena dada sua identificação com o clube e a importância de sua história nos títulos recentes do Santos. Tomara que ele reveja esta posição e a torcida tenha a devida paciência com o atleta.

Perto do centenário do nascimento de Nelson Rodrigues, fico aqui pensando o que o jornalista e dramaturgo teria escrito sobre esta partida. Mesmo tricolor de coração , Nelson teria escrito uma daquelas crônicas de tirar o fôlego e sorrir a alma. Seu irmão, Mario Filho (este sim, rubro-negro) estaria até agora estático, em frente à televisão vendo e revendo as jogadas de Neymar e Ronaldinho Gaúcho. O saudoso Armando Nogueira – no alto das estrelas – sorriu poeticamente para aquele iluminado 27 de  julho de 2011.

Obrigado a todos os atletas, atores, treinadores, malabaristas, artistas e gênios pelos noventa minutos que ficarão eternalizados em nossa memória!

Num jogo como aquele, não apenas o Flamengo saiu vitorioso…

Copa BH – goleiro do Sport e a Justiça Comum!

Tentativa de assassinato. Assim defino a voadora do goleiro do Sport Recife (que não merece ter nem o nome citado neste espaço) em cima do jogador Elivelton, do Vasco da Gama.

A questão é: até onde vai a Justiça Desportiva e começa a Justiça Comum?

Ora, amigos, durante uma discussão (normal e rotineira) entre os atletas de ambas as equipes, surge, de forma covarde e desprezível um sujeito que jamais deveria estar dentro de  um campo de futebol  e, numa voadora típica de quem não honra a vida, agrediu Elivelton que foi parar no hospital.

O jogador do Vasco poderia ter ficado, inclusive, paraplégico, uma vez que o golpe do cidadão foi bem na nuca do atleta carioca, o que poderia ter ocasionado algo pior que não quero nem imaginar.

Dois colegas me escreveram dizendo que este sujeito está muito mais para um jogador de capoeira que para futebolista. Discordo dos amigos. Para se jogar capoeira – ou qualquer outra forma de interação humana (esportiva ou não) é preciso conceitos e condutas humanas e civilizadas que passam longe do horizonte deste garoto do Sport.

Envergonhado, o presidente do Sport pediu desculpas ao Vasco da Gama e, em nota, disse ter demitido o atleta do clube. Por que, então, não cuidou do mental antes desta barbaridade? Onde está o departamento de Psicologia do Esporte do Sport de Recife? Alguém sabe me informar?

O departamento de Psicologia Esportiva do Vasco da Gama está em ordem, em pleno funcionamento e com profissionais de alto gabarito. Embora, devo considerar, há coisas que nem nós, psicólogos do esporte, poderíamos alterar.  Características ligadas ao caráter de atletas, quando solidificadas, só a vida mesmo para colocar os devidos limites.

No entanto, nada, nada, mil vezes nada justifica uma atitude primitiva e selvagem como esta do goleiro pernambucano. As desculpas do presidente do Sport – para alívio dele (e nosso) – serviram só para encerrar um caso que,  por Deus, não terminou de uma forma pior.

Vale ressaltar que, na visão de muitos, o caso se encerra onde, na verdade, deveria ser iniciada uma reflexão objetiva de caráter social, psicológico, comportamental e cultural na formação dos jogadores de futebol. Não adianta os clubes priorizarem seus cofres se aqueles que correm atrás das riquezas estão cada dia mais pobres!

Uruguai é o melhor da América! E muito…

Amigos, há tempos eu não via uma seleção tão fantástica de se acompanhar como esta do Uruguai. Os argentinos não estão lá muito contentes. Afinal, os uruguaios passaram à frente no número de títulos da Copa América e, de quebra, fizeram a festa em Buenos Aires.

A equipe foi dirigida de forma fantástica pelo comandante Oscar Tabárez. Calmo, ponderado, atuante de forma positiva e equilibrada na medida em que um técnico deve ser, Tabárez, deste a última Copa do Mundo quando a Celeste ficou em 4o. lugar, começou a colocar a seleção do país nos trilhos novamente.

O seleção  não tem craques do calibre de Messi, Neymar, Ganso, Aguero e tantos outros. Por outro lado, tem um time fechado, que joga de forma conjunta, sem vaidades, com excelente comunicação dentro de campo e um entrosamente digno de nota!

Ainda bem que a alguém parou o futebol do Paraguai (apesar de termos sido eliminados por eles, não deixa de ser um futebol feio, de resultados e que lembrou muito o Once Caldas naquela Libertadores em que foi campeão). A criatividade, inspiração e determinação tática, técnica e equilíbrio emocional dos uruguaios temperaram esta Copa que mostrou a evolução do futebol em países como o Peru e a Venezuela (aliás, estes dois terminaram o torneio na frente do Brasil e Argentina).

É bom ver o Uruguai de volta! O povo daquele país – apaixonado e fiel por este esporte e que amargou anos de descaso de seus dirigentes – agradece ao treinador Tabárez e a aplicação de seus atletas dentro de campo!

Um exemplo a ser seguido, certo?

Faltou a cabeça na ponta da chuteira – mais uma vez!

Tive a certeza do toque de meu celular após a eliminação do Brasil na Copa América. Em menos de uma hora, foram alguns telefonemas para entrevista (como de costume quando nosso esporte perde para o emocional).

A pergunta era a mesma de sempre: “o que teria havido com os nossos atletas no momento das penalidades e ao longo de toda a partida?”.

Acho desnecessário (e me tornaria repetitivo) falar novamente sobre as carências psicológicas das equipes de futebol de um modo geral. No caso da Seleção, não foi diferente.

Nos últimos 20 anos, é até curioso ler meus depoimentos. Seja em rádio, televisão, livros publicados, debates, congressos, aulas e palestras. Me sinto um gravador reproduzindo sempre a mesma mensagem. E as demandas insistem em surgir nos momentos mais críticos.

Não farei deste, mais um post em que reafirmo a importância da Psicologia do Esporte – especialmente aplicada ao futebol.

Desejo, por fim, que toda a ciência estudada, pesquisada e que – utilizada adequadamente e de forma ética – saia da teoria e entre, de fato, na prática.

Dr. Renato Gaúcho afasta psicólogo do Furacão e assume comando técnico e psicológico

Amigos, acompanhem esta notícia que saiu no jornal Paraná Online e que, mais uma vez, revela a total e completa falta de valorização do trabalho psicológico por boa parte dos comandantes da bola no nosso país.

Em um momento crítico e delicado, em que o emocional dos atletas está completamente desmantelado, o novo treinador do Atlético chega e faz o que? Manda desligar o profissional responsável pelo fortalecimento e aprimoramento desta área.

Sim, pessoal, acreditem se quiser: o técnico Renato Gaúcho já começou a implantar no Atlético sua maneira de trabalhar, tanto dentro como fora de campo. Uma das primeiras medidas foi a interrupção do trabalho do psicólogo Gilberto Gaertner – contratado logo após a chegada de Adilson Batista, para melhorar o lado emocional dos jogadores com atividades em grupo e individual.

Gaertner está trabalhando agora com a categoria de base e fazendo eventuais consultas individuais com os jogadores do elenco principal. Para Renato, nada melhor que alguém que conhece bem a realidade de um atleta para trabalhar a parte emocional em uma situação tão delicada.

Por isso, ele mesmo assumiu o papel de psicólogo do grupo. O pedido de mudança aconteceu antes mesmo de Renato assinar o contrato, ainda no período de negociações com Alfredo Ibiapina, no Rio de Janeiro.

“Respeito muito a profissão deles, mas não é o momento melhor. O psicólogo para o meu grupo agora sou eu, porque já passei por essas situações, estive desse lado por 20 anos. Eu sei o que eles precisam ouvir nesse momento. Volto a repetir: com todo respeito aos psicólogos, o psicólogo para o jogador de futebol nesse momento no grupo do Atlético sou eu”, frisou.

Mesmo considerando importante a atuação de um psicólogo, Renato Gaúcho deposita maior empenho no trabalho de aperfeiçoamento do time em campo neste momento.

“O trabalho psicológico é importante, mas o trabalho de finalizações, tático, técnico e físico também é importante. Em cima disso tenho que trabalhar também a cabeça dos jogadores, porque quanto mais eu tiver o jogador de cabeça boa, mais ele vai render”, afirmou o comandante.

Com uma semana de Furacão, o técnico também tem mudado algumas outras rotinas no clube. Uma delas é liberar os atletas para as coletivas de imprensa apenas depois da banheira de gelo.

Para zelar, e até mesmo blindar ainda mais o elenco, Renato Gaúcho tem evitado que a imprensa tenha acesso a todo o trabalho – mesmo em dias pré-definidos de abertura do CT do Caju.

A medida, que também serve para esconder a tática escolhida para enfrentar os adversários, será mantida até que ele tenha mais intimidade com o grupo. “Preciso dar um pouquinho mais de tranquilidade aos meus jogadores, dando mais atenção para mostrar a maneira que quero que se comportem dentro de campo e com vocês. De repente alguém vai ficar inibido ou vocês podem filmar alguma coisa que não é necessário, para ajudar o adversário”, explicou Renato Gaúcho,ontem, em conversa com a imprensa.

Atuar psicologicamente já está mais banalizado que chuchu na serra. Qualquer  um se sente no direito de fazer. Afinal, a palavra é  bonita, o status, interessante e, na prática a ação é completamente vazia!

A conjugação deste verbo mudou. Eu atuo, tu atuas, ele atua. Nós atuamos, vós atuais, eles atuam.

E os órgãos regimentares – pelo visto – continuam fazendo vista grossa. Só por Deus!

Pai de Santo e o imediatismo no futebol

Escrever sobre eventos sobrenaturais em plena lua cheia pode não ser uma boa idéia. No entanto, não tive como evitar. Li que o  Pai-de-santo Guarantã descreve em livro, “trabalhos” que fez para grandes clubes brasileiros

A presença de pais-de-santo no ambiente do futebol sempre alimentou especulações e fofocas. O seu efeito real é contestado numa frase famosa, atribuída a Neném Prancha, mas na realidade de autoria do jornalista e técnico João Saldanha (1917-1990): “Se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminava empatado”.

Pai Guarantã sorri ao ouvir a frase de Saldanha. Em seu livro, o pai-de-santo relata, sem reservas, situações em que atuou por times sem conseguir bons resultados. Foi o caso, por exemplo, da final da Libertadores de 1974, entre São Paulo e Independiente, vencida pelos argentinos numa melhor de três.

No último jogo, em Santiago (Chile), o jogo estava 1 a 0 para o Independiente quando o São Paulo teve um pênalti a seu favor. Poy mandou Zé Carlos bater. “Senti que ele não estava bem espiritualmente”, escreve Pai Guarantã. “E gritei para o Poy deixar o Forlan bater, mas acho que ele não me ouviu e o inevitável aconteceu”.  O jogo terminou 2 a 0 para os argentinos.

O futebol sempre foi um espaço marcado por crenças, folclores, fanatismos e uma salada de frutas religiosas com credos de todos os tipos. Tudo o que é mais imediato faz sucesso numa sociedade marcada pela necessidade do imediatismo e das respostas prontas.

A noção de processo, mudança, desenvolvimento e crescimento é pouco conhecida – ou reconhecida – no mundo da bola. Talvez por isso os pais de santo, psiquiatras, animadores culturais e uma porção de áreas fazem a farra na lacuna aberta infelizmente por muitos dirigentes do nosso futebol.

Alguns treinadores optam pela atuação de pais de santo em vez de creditar aos psicólogos do esporte,  a importância e a participação em resultados mais reais e consistentes.

Os poucos cartolas que compreendem este esporte dentro de uma filosofia moderna em que os aspectos humanos são considerados e valorizados estão léguas à frente dos demais.

Afinal, como muitos gostam de dizer: ” em terra de cego, quem tem um olho é rei”.

Reprodução

  • Capa do livro “Magias no Futebol”, assinado por Pai Guarantã

Vasco e Flamengo – Departamentos de Psicologia do Esporte

Semana passada participei de uma matéria para o jornal “A Tribuna” de Santos – em que relatei a importância dos departamentos de Psicologia do Esporte nos clubes de futebol.

Na ocasião – comentei que não tinha conhecimento de clubes com departamentos de Psicologia do Esporte estruturados em sua totalidade ( categorias de base e profissional) .

No entanto, estas estruturas existem no Vasco da Gama e Flamengo. No Flamengo, desde 1990 e criado pelo brilhante psicólogo do esporte Paulo Ribeiro (atualmente e sem explicação plausível – afastado do futebol do clube) – a instituição mantém profissionais de gabarito no clube – entre outros – como os casos de Adriana Lacerda e Erick Conde (este último , para minha alegria, participou de um capítulo de meu último livro na área da Psicologia do Esporte).

Já, no Vasco da Gama, a psicóloga do Esporte Maria Helena Rodriguez atua no profissional do clube e conta com o apoio de outros profissionais da área para o trabalho com as categorias de base do clube.

Sem a menor sombra de dúvida, estes dois casos deveriam servir de exemplo para os demais clubes de futebol do país. A Psicologia do Esporte precisa ser vista e concebida com a mesma importância da preparação física, serviços médicos e demais áreas que fortalecem a saúde dos atletas.

Especialmente no Estado de São Paulo em que a Psicologia do Esporte, infelizmente, é desvalorizada e concebida de forma equivocada e secundária.

Psicologia ou Psiquiatria do Esporte?


Nos últimos anos tornou-se bastante comum a presença de psiquiatras nos clubes de futebol. Profissionais formados em Medicina com foco no trabalho da mente e das emoções e conhecidos por atuar em casos de patologias graves e administração de remédios.

O  que mais chama a atenção neste caso é que o próprio futebol é refém de um preconceito gigantesco quando as questões mentais e emocionais demandam cuidados especiais. A própria Psicologia Esportiva sofre e já sofreu por conta deste preconceito que poucos fazem questão de esconder.

Em vez de atuar com psicólogos do esporte, as agremiações optam pelos médicos da alma. Boa parte deles, sem o menor conhecimento da dinâmica da mente do atleta. A diferença básica, aqui, é a concepção de ser humano. A psiquiatria (especialmente a clássica) concebe o homem como uma fusão de reações químicas neurológicas que resultam em comportamentos mais ou menos aceitos socialmente. Depende, claro, da época em que está inserida.

Já a Psicologia tem a atenção e campos de estudos voltados diretamente para o comportamento e  realidade em que ele ocorre. A falta de esclarecimento e discernimento com que a Psicologia Esportiva é compreendida chega a ser assustadora. As palestras isoladas continuam imperando neste mercado que insiste em banalizar as questões do ser humano.

A Psiquiatria tem um foco específico de trabalho – e é extremamente importante neste setor. A Psicologia do Esporte – em sua vertente séria e científica – atende diretamente às necessidades dos atletas e das equipes. Por hora, como que por uma hipnose antiga – os médicos e seus aventais brancos escapam dos corredores clínicos e hospitalares e vestem as chuteiras das emoções vaga ou superficialmente atendidas.

Afinal, uma palestra ou um comprimido contra a depressão parecem jogar no mesmo lado.