O futebol brasileiro parou no tempo

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Acumulamos, nesse Mundial, os recordes mais tristes de nossa história futebolística. A Copa que mais gols levamos – a maior goleada sofrida pela Seleção – o goleiro mais vazado em Copas do Mundo (Julio César que, se já chegou para esse torneio traumatizado pela eliminação da Copa em 2010 – agora deve estar um pouco pior depois desse vexame absurdo protagonizado por todo time, comando técnico e setor administrativo).

Em relação à preparação psicológica – creio que já descrevi exaustivamente em diversos textos. O exemplo, sem dúvida, vem da Alemanha – que mantém um departamento de Psicologia do Esporte desde 2002 – atuante, presente – nos treinos, competições, jogos e na concentração da equipe. Por aqui, ainda se atribui o papel da Psicologia do Esporte de uma forma absolutamente limitada. O que não consigo entender é como os dirigentes – no momento em que fomos anunciados como país sede da Copa – não criaram um departamento de Psicologia Esportiva com tempo suficiente para trabalhar com a Comissão Técnica. Sabíamos que a emoção estaria a flor da pele – a pressão seria, de fato, grande – assim como a imensa expectativa do povo brasileiro em relação ao hexacampeonato que, uma vez mais, não veio.

Se as coisas não mudarem – e rápido, corremos o risco de nem classificar para a Copa da Rússia, em 2018. Afinal, equipes como Colômbia, Uruguai, Argentina, Chile estão em franca evolução e, certamente, complicarão o caminho da Seleção nas Eliminatórias da próxima Copa.

O futebol brasileiro agoniza a pior crise e o momento mais crítico de seus cem anos de existência. Política, publicidade, interesses financeiros e um caos na preparação esportiva são os principais temperos desse espetáculo patético e sem prazo para terminar.

Lamento por esse artigo final sobre a participação do Brasil na Copa. Da mesma forma, não há efeito sem causa. E as infindáveis causas devem ser analisadas com critério e tranquilidade. Do contrário, a cada quatro anos, perderemos um pouco mais do brilho que nos transformou na saudosa “pátria de chuteiras”.

Muitos ficaram chateados com minhas críticas – quase sempre contundentes – em relação a Seleção Brasileira nesses últimos meses. Especialmente quando, por tantas vezes, afirmei que “Copa das Confederações é sempre muito diferente de uma Copa do Mundo”. Não foi por falta de avisar e expor as barbaridades que aconteceram desde o momento em que o treinador Felipão assumiu o comando da equipe. Afinal, o seu passado recente (última década) apontou apenas uma decadência indiscutível que culminou no rebaixamento do Palmeiras no campeonato brasileiro. Como prêmio, o treinador foi convidado para dirigir a Seleção. Não conheço um país no mundo que realize tamanha proeza. Pior: até o último instante, não admitiu o fracasso dentro de campo e, dentro da conhecida e insistente teimosia, foi incapaz de manter um discurso coerente com esse vexame histórico. É sempre mais fácil colocar o fracasso num tal “apagão de seis minutos” ou até na arbitragem. E isso não é de hoje. Sim, amigos, a arbitragem na Copa foi caótica. O futebol brasileiro, no entanto, foi um pouco pior.

Confesso que essa foi a primeira Copa que não comprei a camisa da Seleção – não consegui me empolgar em nenhum jogo nem, muito menos, vibrei com os raros gols da nossa equipe. Quando li a convocação dos atletas para a Copa, tive a certeza absoluta que o fracasso seria inevitável. Era apenas uma questão de tempo. O time do Felipão não tem empatia, raça nem, muito menos, apelo de identificação com a torcida. Entendo os que batem no peito e dizem: “Ora, somos pentacampeões!”.

Por outro lado, os erros foram tantos que é quase impossível descrevê-los em apenas um texto. Pra começar, um time não pode jogar em função de apenas um jogador nem, muito menos, sob a tutela de ter conquistado cinco títulos mundiais. Esse discurso ufanista só mascara ainda mais as atrocidades do nosso futebol que – se não se modernizar com urgência – será ultrapassado muito em breve. Afinal, até mesmo os grandes museus precisam se modernizar. Do contrário, serão obras – relíquias admiradas por novas gerações que já se reinventaram em todos os planos e direções. Corremos o risco de virar um “eterno gigante adormecido” – passível de chacotas e desrespeito.

Sobre a possível continuidade do atual treinador no comando da Seleção, prefiro não comentar. Afinal, o torcedor merece respeito – assim como nosso futebol.
Por fim, falou-se tanto em fantasmas do passado nessa Copa e agora, temos outro para encarar: a crença central que jamais vencemos um ouro olímpico no futebol. E não duvido: vão esperar uma ou duas semanas antes da competição para lembrar de mais essa tatuagem emocional do nosso futebol. E aí, novamente, nada poderá ser feito com seriedade e efetividade. Assim é o futebol no Brasil. Pelo visto, continuará por muito mais tempo.

A humanidade só muda através de tragédias. E mesmo assim, com muita resistência.

 

Psicologia do Esporte é levada a sério na Alemanha

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Para os que não sabiam como funciona o trabalho psicológico esportivo na Seleção da Alemanha – aí vai (mais) uma goleada que levamos deles. Explicarei, além da matéria divulgada no Jornal Nacional de hoje, informações que recebemos sobre o trabalho de Hans Herman – psicólogo do esporte, cientista e pesquisador da área – profissional altamente qualificado que, há muito tempo, trabalha com o futebol alemão.

Herman conta com uma equipe de 12 psicólogos que atuam desde as categorias de base da Seleção da Alemanha até o time principal. São realizados trabalhos de acompanhamento psicológico – orientação familiar – mapeamento de perfil – reuniões com os departamentos médico e de preparação física – além de contar com o apoio e suporte dos dirigentes e treinadores locais.

Por lá, o psicólogo do esporte é um parceiro do time. Ele permanece – de forma permanente – com a Seleção por onde ela atua. A cada ano, inicia o trabalho na pré-temporada dos times – da mesma forma que os preparadores físicos. Na equipe alemã, mente e corpo tem a mesma importância e recebem os mesmos cuidados.

Agora, o melhor: a Alemanha conta com laboratórios de Psicologia do Esporte – com trabalhos de realidade virtual – controle e monitoramento de fenômenos psicofisiológicos (concentração e ansiedade) – utilização de técnicas relacionadas com o biofeedback e neurofeedback para o equilíbrio emocional.

Aqui no Brasil, na USP – temos o laboratório de Psicossociologia do Esporte que conta com boa parte dessa tecnologia do preparo psicológico e recebe atletas de ponta para o trabalho de acompanhamento e fortalecimento mental.

Além da Seleção principal, vários times locais contam com a presença de psicólogos do esporte nas bases dos clubes e também nos times principais. Tanto na primeira divisão como na divisão de acesso – os clubes apostam no trabalho psicológico. E não é de hoje. Desde de 2002 – houve uma verdadeira revolução no conceito de esporte e ser humano (“ser atleta” no futebol daquele país).

O treinador da Seleção da Alemanha comentou que Hans Herman é “seu braço direito” dentro do grupo e não abre mão do trabalho e da presença do psicólogo nos treinos, viagens e competições.

Em qual parte dessa verdadeira lição de modernidade científica e conceitual – nossos amados cartolas da CBF – e boa parte dos treinadores – não entenderam?

Acompanhem a matéria no link abaixo:

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/07/selecao-alema-tem-acompanhamento-psicologico-desde-base.html

Crônica de uma catástrofe anunciada

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Pane coletiva ? Naufrágio do grupo? Falta de comando e/ou preparo técnico e psicológico?

Fato é que quando o presidente da FIFA, Blatter anunciou o Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 – imaginei – ingenuamente – que um departamento de Psicologia do Esporte pudesse ser criado imediatamente pela CBF – antes mesmo de ser anunciado o treinador da equipe. E motivos não nos faltam: sangue latino, cobranças e expectativa da torcida, atletas com pouca idade e, sobretudo, diante da evidente, clara e manifesta fragilidade emocional do jogador brasileiro.

Há 22 anos falo na mídia, nos cursos e congressos que os processos psicológicos necessitam de tempo, espaço, trabalho e dedicação. Assim como o departamento de preparação física, a esfera psicológica tem suas demandas igualmente importantes e – em alguns momentos, decisivas. A presença de um psicólogo do esporte ou de um departamento não garante a vitória – mas a ausência, quase sempre, é desastrosa.

O treinador da Seleção disse – num congresso realizado numa universidade em São Paulo – que “seria ele o psicólogo representante do trabalho dentro do time”, assim como o Renato Gaucho, quando assumiu o Atlético Paranaense, demitiu o psicólogo e disse que seria ele o “psicólogo” do time.

O conceito e método estão equivocados. A presença de psicólogos deve ser permanente e não em momentos pontuais ou mais nevrálgicos de jogos e campeonatos. Quando os dirigentes e treinadores de futebol entenderão que a base da preparação esportiva deve ser a valorização da parte mental em suas contribuições científicas e de igual valor às demais áreas do processo? Por que tanto preconceito e desinformação para encarar essa realidade de frente e com coerência?

O futebol brasileiro vive um movimento circular que parece não ter mais fim. Após o desastre da Copa de 1950, quando perdemos o Mundial para o Uruguai em pleno Maracanã, o saudoso Nelson Rodrigues descreveu nossa “síndrome de vira lata” dentro e fora de campo. Essa síndrome, hoje, parece ter recebido mais um reforço: a Copa de 2014. E ainda bem que pouca gente está falando da ausência do Neymar. Hoje, certamente, nem com ele teríamos chances de parar o excelente e pragmático futebol alemão que, aliás, lembra os bons tempos de nosso futebol: vistoso, alegre, talentoso, com raça e determinação. Os alemães, para quem não sabe, contam com equipes multi e interdisciplinares na área da saúde no futebol e não montou um departamento de psicologia para a Copa do Mundo. Esse departamento já existia e eu tive o prazer de ministrar uma palestra na USP onde estavam presentes alguns desses profissionais – entre eles, uma psicóloga especializada no trabalho com goleiros. Sim, psicólogos para todos os atletas e um exclusivo para os goleiros. Eles estão divididos em departamentos desde a base até o profissional. Por aqui, como todos sabem, os psicólogos do esporte no futebol são sempre lembrados quando o circo está no auge do incêndio e muito pouco pode ser realizado efetivamente.

A vergonha que o futebol brasileiro viveu no jogo de hoje é mais que um sinal amarelo: uma luz vermelha sinalizando que muita coisa está errada. Desde os conceitos técnicos e táticos até as concepções de atleta e ser humano – absolutamente ultrapassadas e nada produtivas.

Quem sabe, depois desse atropelamento sofrido pela equipe brasileira, os dirigentes repensem o caminho de suas administrações e os treinadores se livrem de uma vez da ideia que psicólogos são bombeiros – mapeadores de perfil ou socorristas. O psicólogo do esporte deve ser um parceiro da Comissão Técnica, observar jogos e treinos, estar na concentração da equipe, ir a vestiários, conhecer o clima do grupo – conhecer as relações dos atletas entre si e diante do treinador. É preciso tempo e conhecimento do método para se obter os resultados desejáveis.

Estou cansado de ler e ouvir durante as transmissões que “a ansiedade atrapalhou”, que “faltou concentração”, que “o emocional estava abalado” e tantas outras constatações psicológicas do senso comum, tanto no futebol, como em outros esportes. Pior: chegam a essa (óbvia) conclusão e definitivamente nada é feito para trabalhar essas emoções que tanto atrapalham nossos atletas e nossas equipes.

Acredito que os jogadores fizeram tudo aquilo que era possível e o sofrimento é legítimo. Uma pena, no entanto, que havia uma bomba relógio pronta para explodir… e explodiu! Mas não podemos e não devemos nos apegar somente ao emocional para entender a queda vergonhosa no Mundial, os atletas convocados pelo treinador e seu esquema tático me pareceram anos luz distantes de uma equipe competitiva e preparada para os desafios de encarar uma Copa do Mundo em casa. Lamento muito por nosso futebol que sofreu um novo, duro e inesquecível golpe em sua história. Fruto de uma necessidade emergente de mudanças em todos os seus níveis. Do contrário, outros vira latas chegarão para aumentar nossa matilha de emoções desgovernadas.

Hoje, o futebol morreu um pouco mais. Se é que isso seja possível. Só nos resta juntar os cacos e reconstruir através de novos conceitos, métodos e atitudes!

 

Psicologia e emoções a toda prova

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O treinador da Alemanha, Joachim Löw, afirmou na semana passada que “o Brasil tem o emocional como o grande diferencial diante dos rivais europeus”. O comandante alemão está absolutamente correto em sua afirmação. A emoção bem trabalhada é um combustível dos mais importantes na ativação mental, autocontrole e equilíbrio interno. Por outro lado, quando existe um grupo com uma emotividade evidentemente elevada, é preciso um cuidado maior para que ela não jogue contra o próprio grupo. Creio que o treinador da Seleção Brasileira já aprendeu que passar vídeos apelativos momentos antes de grandes decisões opera um efeito contrário ao desejado. Afinal, de combustível inflamável já bastam os onze jogadores em campo e a pressão e expectativa de outros duzentos milhões que estão ao redor do time.

Ainda dentro dessa questão, a ausência do Neymar certamente será importante no jogo contra a Alemanha. Esse fato pode unir a equipe e até fortalecê-la emocionalmente, desde que os jogadores se apeguem no desejo de vencer e não na necessidade imposta pela mídia e reforçada pela sociedade. É preciso ter espaço para querer – perseguir o sonho, representar o colega, o país, a equipe.

Confesso que fico preocupado com esses boatos que o Neymar – em caso de classificação da Seleção, poderá – quem sabe, atuar na final da Copa. Isso gera – de forma desnecessária – ainda mais expectativas no grupo e, de acordo com a maioria absoluta dos médicos ortopedistas, a lesão do atleta demora de 4 a 7 semanas para a total recuperação. Então, o momento é o de focar no grupo, naqueles que poderão (e deverão) tomar à frente – exercer o papel de liderança, falar mais dentro de campo, compartilhar a confiança e o espírito de grupo (muito daquilo que – apenas a presença de Neymar – era capaz de promover na equipe).

O capítulo Neymar precisa ser superado. E rápido. Obviamente que foi perdida uma referência incrível dentro de campo, embora nos dois últimos jogos da Seleção, pouco se observou em termos do rendimento esperado do atleta. Talvez pelo altíssimo acúmulo de lesões e, claro, pelas seguidas pancadas que o jogador sofreu na primeira fase do Mundial.

Psicologicamente, a baixa sofrida pela Seleção com a ausência de sua maior referência abre caminho para que o grupo possa se reorganizar de uma nova forma dentro de campo. O conjunto de forças representado pela presença de novos jogadores que atuarão na semi-final diante da Alemanha pode ser capaz de gerar um resultado surpreendente – positiva ou negativamente. É como um novo experimento laboratorial – só que realizado com humanos – durante o maior evento esportivo do universo. O resultado é uma incógnita tão indecifrável como o surpreendente comportamento de alguns atletas num momento de extrema pressão e elevação da carga emocional

Se o Brasil jogar com alegria, solto, unido dentro de campo e consciente que a equipe pode superar a ausência de Neymar, existe a chance real de um embate em igualdade de condições com os alemães. Se entrarmos com o sentimento partido – sangue latino aflorado – com choros e emoções desassociados com o momento decisivo da Copa, poderá ser o ponto final para todos nós.

Enfrentaremos um time frio, racional e obediente técnica, tática e psicologicamente. Eles atuam de forma profissional – dentro dos conceitos mais modernos de preparação psicológica. Os alemães trouxeram ao Brasil todos os equipamentos e tecnologias para a preparação física – técnica e psicológica. Essa última, inclusive, com aparelhagens de biofeedback e neurofeedback para gerenciamento da concentração, controle da ansiedade e manejo da energia de ativação interna dos atletas. Em termos de preparação esportiva, eles estão anos luz na nossa frente. Agora, o futebol se decide dentro de campo – com a cabeça e a emoção, equilibrados, na ponta da chuteira. Atleta e ser humano em ação. Vencerá aquele que mais apostou nas duas faces dessa mesma Unidade.

 

Aspectos emocionais e psicológicos da Seleção

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Agora que a pressão arterial de todos os sobreviventes já voltou ao normal, a Seleção já carimbou sua classificação para as quartas de finais – é hora de analisar com um pouco mais de racionalidade e objetividade o desempenho da Seleção.

Na parte técnica, identifico fragilidade e vulnerabilidade imensas nas laterais. Daniel Alves e Marcelo são bons apoiadores, mas falham muito na marcação. O Chile, hoje, cansou de fazer tabelinha (a famosa 1-2) na defesa brasileira. A bola que chutaram no travessão do Brasil – no último minuto de jogo – foi um ataque chileno que pegou nossa zaga absolutamente desatenta. Aliás, a trave jogou a favor da Seleção Brasileira.

Ainda não entendi porque o Paulinho não encaixou nesse time – nem, muito menos, o que se passa com o Fred que está anos luz de distância daquele atacante que conquistou a admiração dos torcedores na Copa das Confederações. Oscar, hoje, parece não ter entrado em campo – assim como Fernandinho que teve uma ótima chance com o Felipão, mas não fez valer essa oportunidade. A Seleção abusou dos erros e chutou raríssimas bolas no gol adversário. A questão é: a defesa do Chile é forte ou nosso meio de campo e ataque estão com dificuldades de interação? Nesse momento Neymar tenta resolver tudo sozinho e, sabemos, nem sempre isso será possível.

No campo psicológico, várias reações de atletas denunciam falta de estrutura emocional adequada para suportar a pressão e responsabilidade de representar o Brasil na Copa. Confesso que fiquei assustado com aquele intervalo entre o final da prorrogação e o início das penalidades. Julio César – herói da partida – e Tiago Silva, choravam e eram acalmados por Paulinho e Henrique. Naquele momento, temi pelo pior. Felizmente o goleiro se recuperou e fez duas belas defesas que garantiram a classificação da equipe colocando um ponto final nas críticas sofridas após a eliminação diante da Holanda no último Mundial.
Ainda nesse aspecto, volto a lamentar que a preparação psicológica tenha sido realizada apenas no período de 13 dias – com aplicação de um teste apenas. Na verdade, o que se divulga como “teste” POMS – Perfil dos Estados de Humor – é um inventário sem validação científica que foi originalmente criado em 1971 num hospital psiquiátrico nos Estados Unidos e adaptado para a língua portuguesa e atualmente utilizado no esporte.

Os recursos que a Psicologia do Esporte oferece vão muito além da aplicação de um simples inventário – de difícil análise (especialmente na auto-avaliação e compreensão dos elementos que ele mensura). Esse trabalho deveria ter sido iniciado um ou dois anos atrás – através de observação sistemático do comportamento dos atletas que tem sido frequentemente convocados pelo treinador – aplicação de diversos inventários e testes, além de entrevistas e acompanhamentos psicológicos para que – no momento em que os jogadores estiverem concentrados em Teresópolis, temas relacionados com as demandas motivacionais e emocionais e demais trabalhos de grupo possam ser realizados pelos profissionais da Psicologia do Esporte e não por palestrantes convidados. Vale frisar que é preciso frequentar vestiários, se juntar a Comissão Técnica – realizar intervenções multi e interdisciplinares – trocar informações com o médico, preparador físico, fisiologista e todos os que atuam na área da saúde do grupo de atletas.

Fiquei realmente preocupado com a falta de preparo psicológico desses meninos nessa “primeira decisão” da Copa. Daqui para frente, o Brasil será cada vez mais testado – em todos os níveis e campos da preparação esportiva – através de jogos difíceis e equipes bem preparadas.

O que é permitido ser realizado pelas profissionais de Psicologia do Esporte na Seleção representa, talvez, 20% de tudo aquilo que essa ciência oferece em termos de recursos, tecnologia e metodologia de intervenções.

Logo em seguida ao jogo de hoje, o telefone tocou. Ruy, meu grande amigo, foi logo falando: “não te falei, João, o Felipão tem muita sorte. Como pode fazer tantas bobagens e seguir em frente no campeonato?” Os erros na escalação da equipe e em algumas alterações ao longo dos jogos reforçam a fé e proteção religiosa de Felipão. De fato, ele é um treinador de sorte. Até quando essa sorte seguirá o grupo e protegerá o treinador não é possível prever. A única coisa que vale reafirmar é que se a Seleção for campeã, os dirigentes do futebol brasileiro entenderão que o trabalho psicológico no futebol é baseado na aplicação de um inventário, confecção de perfil e palestras motivacionais – o que será, sem dúvida, um retrocesso de 10 ou 20 anos na evolução e reconhecimento da importância dessa ciência no futebol.

Como no mundo do futebol, o que vale é ganhar – talvez esse debate – e tantos outros pontos que nosso futebol precisa desenvolver – sejam esquecidos caso o time dirigido por Felipão erga o Caneco dia 13 de julho.

 

A mordida de Suares diante do mundo

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Fico aqui imaginando o que se passa na cabeça de um jogador para morder o adversário. Confesso que nem nas mais profundas elucubrações consigo encontrar uma resposta plausível com a atitude do Soares, do Uruguai, que poderá valer sua (justa) expulsão da Copa do Mundo.

Psicologicamente há de ter algum sentido, um significado – um porque disso. Mike Tyson já provou do mesmo veneno ao arrancar a orelha de Evander Holyfield numa luta disputada em Las Vegas. Na época, ganhou as manchetes de todo o mundo e ninguém conseguiu entender – nem explicar, a reação digna de um canibal.

A mordida de Luis Soares, hoje, no italiano, colocou mais tempero nesse banquete humano do descontrole e dos absurdos que esses rapazes protagonizam diante das lentes do mundo. Soares, aliás, já se envolveu em tantas manchetes de terror que, pra falar a verdade, ninguém mais liga muito para isso.

Ali, no campo de jogo, acontece de tudo. Acreditem! Rola tanta coisa que até as câmeras mais modernas não captam – nem as tais invasivas leituras verbais são incapazes de traduzir. Agora, uma mordida deixa as marcas de um vampirismo semelhante ao que esses atletas são submetidos quando mudam o status econômico e social. A identidade que é suprimida para dar lugar às demandas dos holofotes da fama – cedo ou tarde – manda sua conta. E não adianta morder nem espernear. Aqueles que estudam o comportamento humano no esporte entendem a mensagem.

Soares faz parte daquela geração de malucos que está, aos poucos, terminando. E não é por conta de uma nova postura dos clubes diante da possível valorização das ciências humanas na preparação esportiva. Muito pelo contrário. Dirigentes e treinadores de futebol (ou boa parte deles) fazem vistas grossas para o avanço nas pesquisas e intervenções psicológicas, sociológicas ou vinculadas a Assistência Social e familiar. O que ocorre, pessoal, é, no bom “psicanalitiquês” – a velha e boa sublimação. Sim, a reversão da agressividade por carros poderosos, lindas mulheres, a fama e a tênue sensação de poder. Soares, no entanto, preferiu a atitude mais crua, basal – ontológica. Foi logo dando seu recado – e não com as palavras – mas sim, com os dentes.Enquanto Soares morde, tem sempre o senso comum para assoprar.

Alguma dúvida?

Spurs: excelência esportiva no basquete

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Excelência. Essa é a palavra que melhor define a equipe do San Antonio Spurs – campeã da NBA 2013/2014. Uma equipe que conseguiu segurar o time do Miami Heat e, de quebra, deu verdadeiras aulas de basquete – senso de grupo – união de equipe, merece todas as reverências possíveis e imagináveis.

Confesso que há tempos não acompanhava um time com esse nível de esportividade, espírito guerreiro, atletas talentosos e um treinador absolutamente inspirado e com o conhecimento individual e coletivo do grupo que comanda. Não posso – e nem conseguiria – falar de cada jogador dessa equipe fantástica. Até porque, a unidade que esses garotos fabulosos criaram é tão indescritível como genial.

Soube que boa parte dos times da NBA conta com trabalhos psicológicos desde as categorias de base até o profissional. Em especial – departamentos de Psicologia e laboratórios de treinamento mental através da utilização de técnicas extremamente modernas e atuais como o biofeedback e neurofeedback. Bem diferente do modelo e das crenças de boa parte dos dirigentes brasileiros sobre a importância e metodologia correta, atualizada e científica atribuída a Psicologia do Esporte.

O título conquistado pelo Spurs reforça a estrutura esportiva bem administrada – dentro e fora das quadras – desde as ações publicitárias (pontuais e bem elaboradas), passando pelas equipes de supervisão técnica, política, administrativa e da área da saúde.

O que conheço em termos de excelência esportiva foi descrito item a item pela equipe do San Antonio. Prontidão competitiva (ação e reação nas partidas), concentração, foco, reflexo, comunicação de grupo, modernidade, tecnologia, treinador atualizado e com o time nas mãos, patrocinadores, marketing, união e coesão de grupo – enfim, os atletas jogam por música e agradeço demais pelos presentes que o time do Spurs nos ofereceu e vem oferecendo há algum tempo nas quadras norte americanas.

Minha cota de satisfação em termos de excelência na ação esportiva, concepção de atleta e trabalho de equipe está satisfeita por um bom tempo.

Obrigado, Spurs. Que bom ter vocês! Nós, que amamos o esporte de verdade, agradecemos pelas aulas e apresentações inesquecíveis. Parabéns também ao Miami Heat – um time também sensacional. Por lá, o segundo lugar é comemorado e valorizado.

O ano já pode terminar.

 

A bola fora de Oscar Schmidt

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Oscar Schmidt – meu querido “Mão Santa” – hoje, infelizmente, você cometeu um “air ball” daqueles! Aquela bola arremessada que não pega nem no aro.

Fiquei triste com suas declarações preconceituosas e desinformadas sobre a Psicologia do Esporte no programa da Fox na Copa do Mundo.

Você, melhor que ninguém, sabe como as emoções são demandadas e colocadas a prova em cada jogo, campeonato e novo desafio esportivo (dentro e fora das quadras e campos).

Afirmar que “isso é bobagem” ou “isso é desnecessário” ou “isso não funciona” depõe contra o avanço do esporte e de uma ciência importantíssima na preparação esportiva dos atletas.

Já não bastasse as informações desencontradas e tão banalizadas pela mídia esportiva em relação à Psicologia do Esporte, você, Oscar, que tão bem nos representa no mundo esportivo (nacional e internacional) – uma das maiores e mais importantes referência do nosso esporte – por gentileza, procure se informar melhor sobre os trabalhos psicológicos de grande tecnologia que são realizados na NBA – aqui na NBB (trabalhos individuais e coletivos) – no tênis, nas piscinas, no futebol e em tantas outras modalidades.

Afinal, você sempre teve uma cabeça muito forte para o esporte e fora dele. Nem todos se motivam da sua maneira – com seu talento e numa gama tão diversa de possibilidades.

Com isso, espero que você possa pesquisar melhor os benefícios que um trabalho científico, ético e bem estruturado da Psicologia do Esporte pode gerar no basquete e em todo o mundo dos esportes.

Sua opinião fez, faz e sempre fará a diferença no nosso esporte. As conquistas e exemplos que você nos brindou merecem uma continuidade e, tenhas certeza, esperamos de você posicionamentos atualizados de quem estuda, conhece e tão bem viveu o esporte.

A Psicologia do Esporte é uma realidade de apoio e desenvolvimento (vanguarda) e não sinal de fraqueza ou insegurança. Ela é aliada, parceira e via fundamental de fortalecimento dos nossos atletas.

Tenho certeza absoluta que você repensará suas declarações.
Com meu respeito e eterna admiração e agradecimento,

Seleção: Psicologia do Esporte ou senso comum?

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Amigos, recebi inúmeros emails e mensagens de colegas e psicólogos falando sobre o trabalho da Psicologia Esportiva na Seleção. Gostaria de deixar claro alguns pontos:

1.) Trabalho de véspera não faz milagre – sempre digo em meus cursos e palestras: o trabalho psicológico no esporte precisa de tempo, acompanhamento, aprofundamento e vínculo positivo (confiança) com os atletas. Isso tudo demanda tempo e dedicação. No caso da Seleção, não houve tempo disponível para isso. Foram feitos apenas os mapeamentos psicológicos – relatórios para o Felipão e um conjunto de palestrantes motivacionais – o que, certamente, não representa 10% do que a ciência “Psicologia do Esporte” pode produzir em termos de benefícios no rendimento individual e coletivo do grupo. Os campos psicológico, emocional e motivacional foram absolutamente reduzidos e banalizados ao senso comum uma vez que – faltando duas semanas para o início do Mundial, o grupo de psicólogas “entrou em ação”.

2.) Falta de valorização da área nas entrevistas e reportagens – o grupo de psicólogas, alegando que, por uma questão de ética profissional, não daria entrevistas, perdeu uma IMENSA oportunidade de falar, elevar e estimular o trabalho psicológico no esporte nesse país que anda tão pobre e desatualizado aos olhos dos dirigentes, atletas e treinadores. Pensaram apenas no trabalho delas e não no conjunto de profissionais, na sociedade científica e no desenvolvimento da área no Brasil. É preciso aproveitar essas chances para falar sobre os benefícios, o caráter científico, a ética e, sobretudo, da importância dessa área no treinamento esportivo.

3.) Um trabalho coerente, científico, consistente e profundo deve envolver:
a) Mapeamento de perfil psicológico;
b) avaliação sociométrica (níveis de confiança entre os atletas e atribuição do papel de liderança dentro de campo);
c) acompanhamento de jogos e treinos;
d) frequentar a concentração e vestiários (muita coisa importante acontece no clima dos vestiários! E é preciso ter acesso a esses fatos);
e) reuniões periódicas com a comissão técnica;
f) trabalho multi e interdisciplinar;
g) gerenciar o campo motivacional (as próprias psicólogas) com palestras de acordo com o repertório motivacional do grupo previamente estudado e analisado;
h) trabalhos de orientação psicológica individual de acordo com as necessidades mapeadas e daquelas que surgirão durante o torneio.

4.) Se o Brasil ganhar a Copa – a Psicologia do Esporte ficará conhecida, concebida e reforçada nas esquinas do senso comum, cada dia mais comum. Se a Seleção perder, vão ter a certeza que a Psicologia do Esporte “não funciona” ou “não precisa no futebol” – como já pensam muitos jogadores e treinadores de futebol. A culpa, sim, é do sistema cultural do futebol, altamente empobrecido por representações sociais que afastam a ciência de seu posto de atuação e também de psicólogos que aceitam condições distantes do ideal científico de intervenção para ocupar postos de grande importância no esporte brasileiro. Em ambos os casos – a Psicologia Esportiva perde para si mesma. O sistema (status quo) agradece e os profissionais da área, lamentavelmente, terão ainda mais obstáculos para chegar ao futebol.

Por outro lado, quem já teve psiquiatras, comandantes do BOPE, engenheiros, comediantes, artistas e animadores culturais à frente da “Psicologia Esportiva” do futebol brasileiro – deve estar feliz por contar com psicólogas formadas no grupo de trabalho. Uma pena que seja diante de um trabalho tão pouco profundo e efetivo frente a tudo o que essa ciência produz em termos de metodologia, resultados, auxílio e fortalecimento além da modernidade que já chegou em vários países do mundo. Menos por aqui.

Alguma dúvida?

 

Homens e máquinas – supremacia na Formula 1

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Quem vai vencer o campeonato de F1 em 2014? Rosberg ou Hamilton?

Com essa pegunta, Galvão Bueno me despertou uma reflexão: até que ponto o fator humano é dominante na Fórmula 1?

Essa modalidade tem promovido verdadeiras dinastias. A última e mais recente foi a de Sebastian Vettel, pela Red Bull. Após as mudanças no motor e na aerodinâmica – em 2014 – a Mercedes se tornou absoluta.

Sim, tão absoluta a ponto da equipe alemã colocar uma volta em cima do sétimo colocado da prova. A Mercedes dá provas que vive, de fato, em outro planeta – diferente do da Fórmula 1.

Pois bem. Imaginem os oito melhores pilotos da atualidade. Vocês não acham que qualquer um desses oito atletas venceriam igualmente as provas – como Hamilton e Rosberg – se tivessem a oportunidade de pilotar a Mercedes?

Ou seja: quem tem mais dinheiro, vence? é isso? Vejam: não quero nem pretendo tirar o mérito dos rendimentos fantásticos dos pilotos da Mercedes que, inclusive, contam com o suporte de um ótimo psicólogo do esporte na equipe.

O profissional acompanha as provas, aplica técnicas de bio e neurofeedback para o controle da concentração e gerenciamento da ansiedade – mais um imenso diferencial da Mercedes que outras equipes deveriam seguir.

Creio que, em outras modalidades, o fator financeiro também é importante, mas não tão determinante – finalista, conclusivo como no caso da Formula 1.

Em modalidades esportivas de grupo, por melhor que sejam os atletas e treinadores – por mais dinheiro investido por patrocinadores, podem ocorrer derrotas inesperadas ou a superação das equipes adversárias. O capital institucional, no basquete, volei, futebol e tantas outras modalidades é extremamente importante – mas não é tão contundente como na formula 1.

Os dias de glória da época de Ayrton Senna – e até mesmo antes do ídolo brasileiro – tem sido lembrados de forma saudosa pelos amantes da F1 – muito por conta da superação dos pilotos – várias surpresas nas corridas e, acima de tudo, na maior contribuição do talento e dos aspectos técnicos dos atletas. Era mais humano e menos máquina.

Atualmente, o brilho da modalidade está se apagando porque os valores se inverteram. O ser humano não gosta do previsível.

Ao menos, não no esporte.