A mordida de Suares diante do mundo

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Fico aqui imaginando o que se passa na cabeça de um jogador para morder o adversário. Confesso que nem nas mais profundas elucubrações consigo encontrar uma resposta plausível com a atitude do Soares, do Uruguai, que poderá valer sua (justa) expulsão da Copa do Mundo.

Psicologicamente há de ter algum sentido, um significado – um porque disso. Mike Tyson já provou do mesmo veneno ao arrancar a orelha de Evander Holyfield numa luta disputada em Las Vegas. Na época, ganhou as manchetes de todo o mundo e ninguém conseguiu entender – nem explicar, a reação digna de um canibal.

A mordida de Luis Soares, hoje, no italiano, colocou mais tempero nesse banquete humano do descontrole e dos absurdos que esses rapazes protagonizam diante das lentes do mundo. Soares, aliás, já se envolveu em tantas manchetes de terror que, pra falar a verdade, ninguém mais liga muito para isso.

Ali, no campo de jogo, acontece de tudo. Acreditem! Rola tanta coisa que até as câmeras mais modernas não captam – nem as tais invasivas leituras verbais são incapazes de traduzir. Agora, uma mordida deixa as marcas de um vampirismo semelhante ao que esses atletas são submetidos quando mudam o status econômico e social. A identidade que é suprimida para dar lugar às demandas dos holofotes da fama – cedo ou tarde – manda sua conta. E não adianta morder nem espernear. Aqueles que estudam o comportamento humano no esporte entendem a mensagem.

Soares faz parte daquela geração de malucos que está, aos poucos, terminando. E não é por conta de uma nova postura dos clubes diante da possível valorização das ciências humanas na preparação esportiva. Muito pelo contrário. Dirigentes e treinadores de futebol (ou boa parte deles) fazem vistas grossas para o avanço nas pesquisas e intervenções psicológicas, sociológicas ou vinculadas a Assistência Social e familiar. O que ocorre, pessoal, é, no bom “psicanalitiquês” – a velha e boa sublimação. Sim, a reversão da agressividade por carros poderosos, lindas mulheres, a fama e a tênue sensação de poder. Soares, no entanto, preferiu a atitude mais crua, basal – ontológica. Foi logo dando seu recado – e não com as palavras – mas sim, com os dentes.Enquanto Soares morde, tem sempre o senso comum para assoprar.

Alguma dúvida?

Spurs: excelência esportiva no basquete

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Excelência. Essa é a palavra que melhor define a equipe do San Antonio Spurs – campeã da NBA 2013/2014. Uma equipe que conseguiu segurar o time do Miami Heat e, de quebra, deu verdadeiras aulas de basquete – senso de grupo – união de equipe, merece todas as reverências possíveis e imagináveis.

Confesso que há tempos não acompanhava um time com esse nível de esportividade, espírito guerreiro, atletas talentosos e um treinador absolutamente inspirado e com o conhecimento individual e coletivo do grupo que comanda. Não posso – e nem conseguiria – falar de cada jogador dessa equipe fantástica. Até porque, a unidade que esses garotos fabulosos criaram é tão indescritível como genial.

Soube que boa parte dos times da NBA conta com trabalhos psicológicos desde as categorias de base até o profissional. Em especial – departamentos de Psicologia e laboratórios de treinamento mental através da utilização de técnicas extremamente modernas e atuais como o biofeedback e neurofeedback. Bem diferente do modelo e das crenças de boa parte dos dirigentes brasileiros sobre a importância e metodologia correta, atualizada e científica atribuída a Psicologia do Esporte.

O título conquistado pelo Spurs reforça a estrutura esportiva bem administrada – dentro e fora das quadras – desde as ações publicitárias (pontuais e bem elaboradas), passando pelas equipes de supervisão técnica, política, administrativa e da área da saúde.

O que conheço em termos de excelência esportiva foi descrito item a item pela equipe do San Antonio. Prontidão competitiva (ação e reação nas partidas), concentração, foco, reflexo, comunicação de grupo, modernidade, tecnologia, treinador atualizado e com o time nas mãos, patrocinadores, marketing, união e coesão de grupo – enfim, os atletas jogam por música e agradeço demais pelos presentes que o time do Spurs nos ofereceu e vem oferecendo há algum tempo nas quadras norte americanas.

Minha cota de satisfação em termos de excelência na ação esportiva, concepção de atleta e trabalho de equipe está satisfeita por um bom tempo.

Obrigado, Spurs. Que bom ter vocês! Nós, que amamos o esporte de verdade, agradecemos pelas aulas e apresentações inesquecíveis. Parabéns também ao Miami Heat – um time também sensacional. Por lá, o segundo lugar é comemorado e valorizado.

O ano já pode terminar.

 

A bola fora de Oscar Schmidt

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Oscar Schmidt – meu querido “Mão Santa” – hoje, infelizmente, você cometeu um “air ball” daqueles! Aquela bola arremessada que não pega nem no aro.

Fiquei triste com suas declarações preconceituosas e desinformadas sobre a Psicologia do Esporte no programa da Fox na Copa do Mundo.

Você, melhor que ninguém, sabe como as emoções são demandadas e colocadas a prova em cada jogo, campeonato e novo desafio esportivo (dentro e fora das quadras e campos).

Afirmar que “isso é bobagem” ou “isso é desnecessário” ou “isso não funciona” depõe contra o avanço do esporte e de uma ciência importantíssima na preparação esportiva dos atletas.

Já não bastasse as informações desencontradas e tão banalizadas pela mídia esportiva em relação à Psicologia do Esporte, você, Oscar, que tão bem nos representa no mundo esportivo (nacional e internacional) – uma das maiores e mais importantes referência do nosso esporte – por gentileza, procure se informar melhor sobre os trabalhos psicológicos de grande tecnologia que são realizados na NBA – aqui na NBB (trabalhos individuais e coletivos) – no tênis, nas piscinas, no futebol e em tantas outras modalidades.

Afinal, você sempre teve uma cabeça muito forte para o esporte e fora dele. Nem todos se motivam da sua maneira – com seu talento e numa gama tão diversa de possibilidades.

Com isso, espero que você possa pesquisar melhor os benefícios que um trabalho científico, ético e bem estruturado da Psicologia do Esporte pode gerar no basquete e em todo o mundo dos esportes.

Sua opinião fez, faz e sempre fará a diferença no nosso esporte. As conquistas e exemplos que você nos brindou merecem uma continuidade e, tenhas certeza, esperamos de você posicionamentos atualizados de quem estuda, conhece e tão bem viveu o esporte.

A Psicologia do Esporte é uma realidade de apoio e desenvolvimento (vanguarda) e não sinal de fraqueza ou insegurança. Ela é aliada, parceira e via fundamental de fortalecimento dos nossos atletas.

Tenho certeza absoluta que você repensará suas declarações.
Com meu respeito e eterna admiração e agradecimento,

Seleção: Psicologia do Esporte ou senso comum?

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Amigos, recebi inúmeros emails e mensagens de colegas e psicólogos falando sobre o trabalho da Psicologia Esportiva na Seleção. Gostaria de deixar claro alguns pontos:

1.) Trabalho de véspera não faz milagre – sempre digo em meus cursos e palestras: o trabalho psicológico no esporte precisa de tempo, acompanhamento, aprofundamento e vínculo positivo (confiança) com os atletas. Isso tudo demanda tempo e dedicação. No caso da Seleção, não houve tempo disponível para isso. Foram feitos apenas os mapeamentos psicológicos – relatórios para o Felipão e um conjunto de palestrantes motivacionais – o que, certamente, não representa 10% do que a ciência “Psicologia do Esporte” pode produzir em termos de benefícios no rendimento individual e coletivo do grupo. Os campos psicológico, emocional e motivacional foram absolutamente reduzidos e banalizados ao senso comum uma vez que – faltando duas semanas para o início do Mundial, o grupo de psicólogas “entrou em ação”.

2.) Falta de valorização da área nas entrevistas e reportagens – o grupo de psicólogas, alegando que, por uma questão de ética profissional, não daria entrevistas, perdeu uma IMENSA oportunidade de falar, elevar e estimular o trabalho psicológico no esporte nesse país que anda tão pobre e desatualizado aos olhos dos dirigentes, atletas e treinadores. Pensaram apenas no trabalho delas e não no conjunto de profissionais, na sociedade científica e no desenvolvimento da área no Brasil. É preciso aproveitar essas chances para falar sobre os benefícios, o caráter científico, a ética e, sobretudo, da importância dessa área no treinamento esportivo.

3.) Um trabalho coerente, científico, consistente e profundo deve envolver:
a) Mapeamento de perfil psicológico;
b) avaliação sociométrica (níveis de confiança entre os atletas e atribuição do papel de liderança dentro de campo);
c) acompanhamento de jogos e treinos;
d) frequentar a concentração e vestiários (muita coisa importante acontece no clima dos vestiários! E é preciso ter acesso a esses fatos);
e) reuniões periódicas com a comissão técnica;
f) trabalho multi e interdisciplinar;
g) gerenciar o campo motivacional (as próprias psicólogas) com palestras de acordo com o repertório motivacional do grupo previamente estudado e analisado;
h) trabalhos de orientação psicológica individual de acordo com as necessidades mapeadas e daquelas que surgirão durante o torneio.

4.) Se o Brasil ganhar a Copa – a Psicologia do Esporte ficará conhecida, concebida e reforçada nas esquinas do senso comum, cada dia mais comum. Se a Seleção perder, vão ter a certeza que a Psicologia do Esporte “não funciona” ou “não precisa no futebol” – como já pensam muitos jogadores e treinadores de futebol. A culpa, sim, é do sistema cultural do futebol, altamente empobrecido por representações sociais que afastam a ciência de seu posto de atuação e também de psicólogos que aceitam condições distantes do ideal científico de intervenção para ocupar postos de grande importância no esporte brasileiro. Em ambos os casos – a Psicologia Esportiva perde para si mesma. O sistema (status quo) agradece e os profissionais da área, lamentavelmente, terão ainda mais obstáculos para chegar ao futebol.

Por outro lado, quem já teve psiquiatras, comandantes do BOPE, engenheiros, comediantes, artistas e animadores culturais à frente da “Psicologia Esportiva” do futebol brasileiro – deve estar feliz por contar com psicólogas formadas no grupo de trabalho. Uma pena que seja diante de um trabalho tão pouco profundo e efetivo frente a tudo o que essa ciência produz em termos de metodologia, resultados, auxílio e fortalecimento além da modernidade que já chegou em vários países do mundo. Menos por aqui.

Alguma dúvida?

 

Homens e máquinas – supremacia na Formula 1

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Quem vai vencer o campeonato de F1 em 2014? Rosberg ou Hamilton?

Com essa pegunta, Galvão Bueno me despertou uma reflexão: até que ponto o fator humano é dominante na Fórmula 1?

Essa modalidade tem promovido verdadeiras dinastias. A última e mais recente foi a de Sebastian Vettel, pela Red Bull. Após as mudanças no motor e na aerodinâmica – em 2014 – a Mercedes se tornou absoluta.

Sim, tão absoluta a ponto da equipe alemã colocar uma volta em cima do sétimo colocado da prova. A Mercedes dá provas que vive, de fato, em outro planeta – diferente do da Fórmula 1.

Pois bem. Imaginem os oito melhores pilotos da atualidade. Vocês não acham que qualquer um desses oito atletas venceriam igualmente as provas – como Hamilton e Rosberg – se tivessem a oportunidade de pilotar a Mercedes?

Ou seja: quem tem mais dinheiro, vence? é isso? Vejam: não quero nem pretendo tirar o mérito dos rendimentos fantásticos dos pilotos da Mercedes que, inclusive, contam com o suporte de um ótimo psicólogo do esporte na equipe.

O profissional acompanha as provas, aplica técnicas de bio e neurofeedback para o controle da concentração e gerenciamento da ansiedade – mais um imenso diferencial da Mercedes que outras equipes deveriam seguir.

Creio que, em outras modalidades, o fator financeiro também é importante, mas não tão determinante – finalista, conclusivo como no caso da Formula 1.

Em modalidades esportivas de grupo, por melhor que sejam os atletas e treinadores – por mais dinheiro investido por patrocinadores, podem ocorrer derrotas inesperadas ou a superação das equipes adversárias. O capital institucional, no basquete, volei, futebol e tantas outras modalidades é extremamente importante – mas não é tão contundente como na formula 1.

Os dias de glória da época de Ayrton Senna – e até mesmo antes do ídolo brasileiro – tem sido lembrados de forma saudosa pelos amantes da F1 – muito por conta da superação dos pilotos – várias surpresas nas corridas e, acima de tudo, na maior contribuição do talento e dos aspectos técnicos dos atletas. Era mais humano e menos máquina.

Atualmente, o brilho da modalidade está se apagando porque os valores se inverteram. O ser humano não gosta do previsível.

Ao menos, não no esporte.

 

Nota mil para Lula Ferreira

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Além de dar os parabéns à equipe do Paulistano – semi finalista da LNB – quero exaltar a brilhante atitude do treinador Lula Ferreira – que resgatou a ética e o respeito no esporte.

Faltavam 58 segundos de um jogo tenso – e o Paulistano vencia por 10 pontos de vantagem. No tempo pedido por Gustavinho, treinador do Paulistano – Lula Ferreira reuniu a equipe de Franca – e disse:

“Pessoal, perdemos o jogo. Não há mais o que ser feito. Parabéns pelo trabalho realizado. Não quero que ninguém brigue aqui. Temos de saber ganhar – temos de saber perder. Vamos para quadra com dignidade. Não precisa fazer falta. Apenas troca bola. Eles jogaram melhor e mereceram a vitória. Estão todos de parabéns”.

E assim terminou o playoff que garantiu o Paulistano na semi final do Liga Nacional. Os confrontos contra o São José, do treinador Zanon serão eletrizantes.

Lula, sempre tive respeito por seu trabalho e conduta. Sabemos que o basquete é um esporte com poucas condições de competição num ambiente internacional – mas sua história e dedicação a esse esporte certamente deixarão muitas lições.

Agora, tenha certeza, meu respeito triplicou. Depois de um jogaço dentro de quadra – e uma vitória brilhante do Paulistano – Lula coroou o evento através do espírito esportivo no final da partida.

Isso, sim, é esporte. Foi de arrepiar!

Parabéns a todos!

Felipão: jovens sentem pressão, sim senhor!

Human brain illustrated with millions of small nerves

O treinador da Seleção Brasileira, Felipão, disse hoje que “jovens não sentem pressão” por jogar uma Copa do Mundo em casa. Longe de ser um teórico ou conhecedor da alma e psique humana, o treinador demonstra não ter aprendido absolutamente nada ao longo de mais de duas décadas convivendo com uma psicóloga do esporte. Aqui, tentarei, em poucas linhas, descrever alguns aspectos dessa relação entre jovens e pressão esportiva.

A teoria do vínculo de Pichòn-Rivière postula que os indivíduos se orientam numa tríplice direção: a psicossocial (representada pelo mundo interno de dentro para fora); a sociodinâmica (o grupo como estrutura), e a institucional (que descreve e considera as ações e relações das esferas grupal e institucional) como objeto de investigação. Essa tríplice direção configura uma estrutura dinâmica em continuo movimento, que Pichòn-Rivière traduz através de motivações psicológicas, resultando daí determinadas condutas que tendem a se repetir tanto na relação interna como na externa com as coisas/objetos.

As condições vinculares, por conseguinte, exercem enormes influências na formatação e no desenvolvimento dos padrões de comportamentos seguidos pelos atletas/técnicos dentro da sociedade do esporte de rendimento. Nesse contexto, aparecem os indivíduos/atletas/técnicos, que a cada dia tendem a apresentar maior capacidade de produzir resultados. E, não menos importante, a descoberta por parte desses agentes que não podem ignorar que as vitórias (sucessos) e as derrotas (fracassos) representam a vida e a morte deles dentro da sociedade do esporte.

A derrota (insucesso/fracasso) sob a forma de frustração constante – pode levar um atleta(s) ou um grupo/equipe, a baixar não só os níveis de expectativas de desempenhos mais eficientes, como também dos níveis autoafirmação e autorreconhecimento social. Significa que o nível das pressões sociais é maior quanto mais baixo for o nível desempenho apresentado tanto pelos atletas quanto pelas equipes esportivas.

A pressão para ganhar a qualquer custo habita a vida dos atletas por seus elementos de vivencia social e competitiva, pelo uso do corpo e da mente e de toda esfera sensorial dos estados de tensão/emoções. Por conseguinte, atletas encontram respostas para seus problemas e angústias, quando conseguem produzir bons resultados.

A ânsia de ser competitivo e vencedor está associada à realização pessoal do próprio atleta/técnico e aí lembramos que os ídolos, heróis e mitos fazem parte de um contextual que incluem as origens míticas dos Jogos Olímpico. O diálogo entre o “Atleta como Ser Humano” e o “Atleta como Máquina” produtora de resultados qualificados, confirma que a personalidade é, pois, o agente primário do fator psicossocial esportivo. De acordo com a literatura, podemos encontrar traços de personalidade em todas as atitudes e condutas levadas adiante pelos atletas, técnicos, entre outros agentes nas situações esportivas. Os traços de personalidade são elementos estruturais – uma espécie de predisposição dos indivíduos para emitir determinados padrões de respostas.

A verdade é que todo atleta necessita satisfazer-se através de uma organização dinâmica dos sistemas psicofísicos – traços enquanto constantes e estáveis – que determina o comportamento e pensamento característicos dos indivíduos. As respostas psicológicas, por exemplo, colocam em ação, diversos mecanismos de defesa (formação reativa, negação, repressão, projeção, etc.) que demonstra que os indivíduos (atletas, técnicos) podem se utilizar de diversos mecanismos que ativam suas respostas ante as situações esportivas competitivas.

As condutas instintivas, por exemplo, estão ligadas a um conjunto de elementos que se estende desde o plano biológico até os planos mais elevados em termos de atividades sociais e psicológicas. Essa noção realça que os atletas se caracterizam por ter uma vida biopsiquica, psicofisiológica e psicossocial ativa – sempre no caminho da superação dos desafios, e sempre em busca dos seus limites atléticos e mentais.

E, no final de um domingo, em rede nacional, o treinador da Seleção Brasileira afirma que “jovens atletas não sentem pressão”. Assim se fortalece o senso comum – disseminado pelas mídias e engrossado pela distância diante dos avanços científicos.
Ficou claro?

 

Sombra para Renato Augusto resolve?

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Amigos, em vez de trazer uma “sombra” para o Renato Augusto – que tal montar um departamento de Psicologia Esportiva? Certamente seria muito mais barato e efetivo – de quebra, atenderia todo o elenco. Esses casos de reincidência de lesões é bastante comum e, não raro, encontra origem em fatores psicológicos e emocionais. Será que é tão difícil assim de perceber uma situação pra lá de óbvia?

O futebol brasileiro ainda caminha nas trevas da ciência e da preparação esportiva. Lembram da parte mental quando convocam comandantes do BOPE para dar palestras – ou animadores culturais para motivação. Enquanto isso, boa parte da Europa e Estados Unidos conta – e não é de hoje –  com departamentos de Psicologia do Esporte nos clubes, realizando e facilitando a transição dos atletas desde as equipes de base até o profissional.

Por aqui, o pessoal prefere contratar “sombras” para atletas que, visivelmente pedem ajuda profissional especializada. Ou seja, em vez de atender as necessidades do jogador, cria-se ainda mais pressão – naquela visão curta e superficial que o sujeito, pressionado, vai e deve render mais. É aquela coisa: “em terra de cego, quem tem meio olho é Rei”.

Quantos talentos já foram desperdiçados e quantos ainda perderemos por conta da ignorância e preconceito diante das demandas psicoemocionais?

Incontáveis, infelizmente!

 

Neymar: lesão, Psicologia e expectativas nacionais

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Capitão da seleção brasileira no título da Copa de 1970, Carlos Alberto Torres está preocupado com a lesão sofrida por Neymar no pé direito durante a final da Copa do Rei, entre Barcelona e Real Madrid. Além dele, boa parte da nação está aflita com a lesão de Neymar. O atacante brasileiro sofreu um edema no metatarso – um osso do dedo do pé esquerdo – que a CBF, prontamente, tratou de colocar panos quentes e garantir a boa presença do jogador na Copa. E não seria diferente.

Na prática, a participação de Neymar no Mundial exige um olhar mais cauteloso e muito além da delicadas demandas físicas. Hoje conversei com um especialista em quiropraxia – ciência que se dedica ao diagnóstico, tratamento e prevenção das disfunções mecânicas no sistema neuromusculoesquelético e os efeitos dessas disfunções na função normal do sistema nervoso e na saúde geral. No Brasil, a profissão está em processo de regulamentação, ao contrário de diversos outros países onde já se encontra estabelecida, como EUA e Canadá. Ainda assim, existem dois cursos universitários de Quiropraxia reconhecidos pelo MEC. Há uma ênfase no tratamento manual incluindo a manipulação articular ou “ajustamento” ou outro tipo de manipulação articular e terapia de tecidos moles.

Esse mesmo profissional garantiu que, para uma total recuperação da lesão, Neymar necessitará de seis meses. Como faltam apenas sete semanas para o apito inicial, o atleta deverá realizar sessões intensas de fisioterapia e ter o máximo de cautela no início do Mundial para não lesionar ainda mais a região – o que representaria o fim de sua participação no torneio. Sabemos que existem as tais infiltrações (injeções com compostos analgésicos de grande escala) para casos emergenciais e que não podem – nem devem – ser ministrados com uma periodicidade alta.

Fico imaginando como está a cabeça do garoto. No Barcelona, Neymar dificilmente voltará a atuar antes da Copa. Por aqui, a pressão e expectativa por seu grande futebol são imensas e intensas. Pior: não há o menor acompanhamento e fortalecimento psicológico para o jogador que recém saiu da adolescência para o estrelato.

Neymar poderá, em apenas uma Copa, passar de vilão a herói (ou vice-versa). Tudo dependerá de como o jogador se sentirá física, emocional e psicologicamente nos jogos da Seleção. Acho uma temeridade depositar tantas expectativas num atleta apenas – que já demonstrou todo talento e criatividade – porém, com pouca idade e experiência internacional. Se compararmos os números de títulos conquistados (nacional e internacional) – prêmio de melhor jogador e tantos outros triunfos – diante dos alcançados por Cristiano Ronaldo e Messi, teremos uma dimensão mais exata do que esperar do atleta.

O problema maior é a falta de referência no grupo. Neymar é, sem dúvida, a grande aposta de Felipão. Eu tenho minhas dúvidas. Creio que a grande Copa de Neymar será na Rússia, em 2018. Até lá, ele terá a oportunidade de criar mais casca nas costas – aprender mais com o mundo, amadurecer, reconhecer e aprimorar os pontos a serem desenvolvidos.

Enfim, Rivaldo e Ronaldo também se lesionaram antes do Mundial de 2002 e deram um show nos jogos do Brasil – quando trouxemos o penta. Os casos, importante que se diga, eram bem diferentes do de Neymar – assim como as lesões. De toda forma, Neymar terá, sem dúvida, o maior desafio de sua vida e carreira: atender e responder positivamente às pressões e expectativas de um país que receberá o grande evento futebolístico mundial. Genial dentro de campo, Neymar será testado e exigido em várias esferas do seu treinamento e de suas capacidades esportivas.

Certamente um malabarismo para gente grande e que exige autoconhecimento e confiança plena de suas habilidades e forças de ação e superação.

É esperar para ver…

Adriano: fama ou Vila Cruzeiro?

Adriano teve seu contrato rescindido no Atlético Paranaense após faltar duas vezes nos treinamentos.
Encontrei um texto por mim escrito em 17 de março de 2010. Portanto há QUATRO anos!
Incrível como as coisas continuam as mesmas. A tal “síndrome do fracasso neurótico” – ou a interminável busca de si-mesmo – perdido em algum castelo de Milão e longe da Vila Cruzeiro.
Na ausência do sentido, acompanhem, abaixo, a reflexão de 17/03/2010 -

Que Deus perdoe estas pessoas ruins
Escrito por João Ricardo Cozac
Qua, 17 de Março de 2010
 

 

Os últimos dias na vida de Adriano não foram nada fáceis. Após brigar com sua namorada, faltar aos treinamentos, ter o nome associado ao álcool e às denúncias de comprar motos para traficantes, o atacante do Flamengo mostrou sua indignação ao comemorar o gol marcado na vitória diante do Vasco. Adriano usava uma camiseta branca por baixo do uniforme com os dizeres “Que Deus perdoe estas pessoas ruins”.
Certamente o amigo leitor tem a mesma dúvida do colunista. Afinal, a quem Adriano pede a clemência divina? Aos jornalistas, traficantes, pessoas que tentam desviá-lo do bom rendimento dentro de campo, profissionais que estão ao seu lado para ajudá-lo a interagir socialmente de forma mais positiva ou, com a maestria de Fernando Pessoa, no poema “A Prece”, o desabafo culposo de um caminho que parece não ter mais volta: “Senhor, livra-me de mim”.
O companheiro de ataque, Vagner Love, também ganhou as manchetes. Love foi flagrado em um baile funk ao lado de traficantes fortemente armados no morro da Rocinha e, ao ser abordado por repórteres, confirmou que tem muitos amigos por lá e que sente saudades de todos que fizeram parte de sua infância.
Uma outra dúvida recorrente para muitos: por que estes rapazes – que recebem rios de dinheiro e tem total possibilidade de construir novas referências de mundo – insistem em manter o elo com o passado? Na teoria, a resposta não me parece difícil. A identidade desta garotada está presa ao ambiente psicossocial da infância. Não conseguem, de forma alguma, estabelecer novos vínculos de relacionamento sem a necessidade de cultivar as antigas e pouco construtivas amizades.
Estes meninos cresceram ouvindo tiros de fuzis, corre-corre no morro, briga entre gangues de traficantes e uma realidade diametralmente oposta àquela aberta enquanto nova possibilidade de vida. A fama e o dinheiro não necessariamente obrigam a mudança de comportamento. Pelo contrário: estes dois perigosos ingredientes podem ser facas bem afiadas no (sub)mundo destes atletas constituídos por corpos de aço e fincados em bases de barro.
Numa entrevista a um programa esportivo na televisão, Adriano confessou seu amor pelos carros e relógios. Mostrando um lindo Rolex de diamantes e atestando manter três carros na Itália e outros três no Brasil, o jogador se torna alvo perfeito para os sequestradores. Será que este iminente perigo colabora para que o atleta mantenha uma boa política de relacionamento com os amigos do morro e sua imagem associada aos manos? Afinal, o poder parece ter mudado de mãos neste país. E não é de hoje.
Ao som do Rap “Eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente na favela onde eu nasci. E poder me orgulhar, e ter a consciência que o pobre tem seu lugar” – o abismo entre a luxúria e pobreza agoniza o coração de todos os desavisados que insistem em viver os devaneios de um mundo que, a olhos vistos, tenta afastá-los de seus elos de legitimidade presos em alguma favela do passado.
Que Deus perdoe estas pessoas ruins – mesmo!