O Natal de ouro do handball

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Além da brilhante condição física e tática de nossa Seleção, o treinador pediu para que fossem confeccionadas medalhas de prata e foram distribuídas uma a uma antes da final contra a Sérvia. “Quem veio aqui para conquistar a prata, pode ir embora”, falou o treinador Morten Soubak.

A síndrome de vira-lata recebeu o tratamento devido. Obviamente que ser vice-campeão mundial já seria um feito fabuloso. Alcançar quase que o milagre do título precisava de algo a mais. Aliás, estou convencido que essa armadilha emocional tão brasileira precisa de atenção nos momentos mais agudos e inéditos como esse.

Ao receber a medalha de prata, certamente nossas atletas previram a dor e a decepção da derrota. Sentiram o peso institucional e nacional de que “ser vice e nada é a mesma coisa” e, assim, tiveram uma nova chance.

Na quadra, não deram chance para as donas da casa e calaram o ginásio, como pit bulls de primeira linhagem: jogaram pelo ouro – metal que tão bem representou essa conquista.

Será que o nosso ministério dos Esportes e o governo federal tratarão o handball com mais cuidado e incentivo? Se lembrarmos do caso do futebol feminino, a resposta certamente será pouco animadora. Basta ver o apelo frenético da mídia ao Neymar (mesmo distante, no Barcelona) e ao time do Felipão – que disputará a Copa.

Em tempo: o Arthur Zaneti ainda treina com goteira em seu vestiário.
Só pra constar.

Parabéns meninas, guerreiras. Vocês fizeram o país lembrar o significado real de esporte. Pena que, por aqui, o esporte de verdade tem o nome da sujeira e ignorância.

Um Natal de luz, paz, equilíbrios e vitórias a todos!

Atlético Mineiro desmoronou na África

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Parece até que pressenti a catástrofe atleticana hoje pela manhã em minha clínica. Disse ao colega e a uma paciente mineira: gente cuidado com esse time do Marrocos. O Atlético precisa jogar bola. Do contrário, voltará mais cedo para casa.

Dito e feito: eliminado do Mundial Interclubes pelo Raja de Casablanca – o time mineiro esteve irreconhecível durante toda a partida. A equipe africana, por sua vez, apresentou um futebol envolvente e inspirado vencendo a partida por 3 a 1. Mentalmente, o Atlético Mineiro refletiu a imagem e semelhança de seu (ex) treinador, Cuca: apático, nervoso, desconcentrado e extremamente ansioso.

Não me atreveria a dizer que o Galo entrou em campo achando que a fatura estava definida. Aliás, pelo contrário. Parecia que estava jogando a primeira rodada do campeonato mineiro, tamanha a indiferença e ausência mental e emocional dentro de campo. Achei até que Ronaldinho tivesse perdido o avião. Depois me lembrei dele dançando e dando autógrafos aos torcedores nos dias que antecederam a partida contra o Raja. E o que dizer do Pierre e Josué que bateram cabeça o tempo inteiro na marcação adversária? Os africanos brincaram de jogar bola. Era uma na esquerda – outra na direita. Os mineiros não encontraram a marcação, a tática e o jogo. Voltam para o Brasil e assistirão a final pela televisão.

A conquista da Libertadores foi um raio que caiu uma única vez na cabeça do Cuca. Aliás, a partida contra os africanos me lembrou – e muito – aquela contra o Tijuana, do México, em que os atleticanos só não foram eliminados por conta do goleiro Vitor que defendeu uma penalidade aos 45 minutos do segundo tempo. O rendimento do Atlético naquela partida (e em algumas outras da Libertadores) já era preocupante: uma espécie de sinal de alerta que algo precisava mudar, ser reconsiderado, adaptado, trabalhado. Pelo visto, as rezas de Cuca – que não tem (e nunca teve) atitude e sangue de vencedor, foram definitivas. O que vimos na partida contra os africanos foi um treinador inoperante e distante presencialmente dos demais atletas.

Outro absurdo incrível: como um treinador fecha contrato com um time do exterior às
vésperas de disputar o campeonato mais importante da história do clube? Sim, Cuca fechou contrato com um time do China e todos os atletas e membros da comissão técnica já sabiam disso logo quando chegaram no Marrocos para a disputa do Mundial. Um erro amador da diretoria do Galo. Aliás, mais um! Como ficou a cabeça do grupo ao saber que o técnico estava de saída após o torneio?

Os africanos entraram com bastante respeito ao time brasileiro. Respeito esse que durou 20 minutos. Estava evidente, no semblante dos atleticanos que algo não estava bem – não era presente – era distante, equivocado e friamente sombrio. Após a metade do segundo tempo, o Raja encantou o mundo com o futebol alegre e cada vez mais evoluído daquele continente. Que se cuidem todos na próxima Copa do Mundo. Não tem mais ninguém bobo no futebol. Inter de Porto Alegre e Atlético Mineiro que o digam. E essa lista tende a aumentar. Aliás, vocês notaram que nenhum time europeu, até hoje, foi eliminado na semi-final do Mundial Interclubes? Por que será?

Soube que Ney Franco está prestes a vir para o Galo. Seria ótimo. Ney tem a calma e o conhecimento de grupo para fortalecer o elenco visando os desafios de 2014. O treinador considera o lado humano dos jogadores e sabe lidar com situações adversas tão rotineiras no universo futebolístico nacional. Cuca foi para a China – e lá deve ficar um bom tempo. O futebol brasileiro precisa acordar. E logo! Vivemos um caos dentro e fora dos gramados: violência nas arquibancadas – derrotas para times africanos – absurdos e barbaridades no STJD – clubes monopolizando a CBF – falcatruas e desumanidades a todos os que apreciam o futebol.

Metade de Minas dormirá feliz, de azul – e verde. A outra, triste e envolta na bandeira do Galo. O Atlético é maior – muito maior que a pífia apresentação do time no Marrocos. Falta um comandante de peso. Alguém que bata no peito de verdade e faça o sangue esquentar. O grupo, indiscutivelmente, conta com jogadores talentosos. No entanto, quando falta alma, tudo vai por água abaixo.

Enquanto não se considerar a Psicologia do Esporte de uma forma coerente, científica, séria e atuante, escreverei mais 20 anos nesse jornal sobre as catástrofes mundanas no nosso futebol – e olha que aqui estou desde 1998 e já foram incontáveis os desastres que poderiam ter sido evitados ou minimizados se a mente e as emoções recebessem a atenção devida pelos dirigentes.
Outro dia vi uma figura numa rede social que me chamou a atenção. Nela, uma lápide enunciava: “futebol brasileiro: descanse em paz”.

Que assim seja.

Esporte de verdade – a Psicologia ao lado de atletas

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“João, eu não estou nem aí para a Copa do Mundo. Para mim, atleta que precisa de empresário não é atleta de verdade. Não acredito que futebol seja esporte. A gente quer se divertir assistindo jogos na televisão e toda hora tem pancadaria. Tenho vergonha de ser brasileiro. Para evitar ficar com mais vergonha, vou continuar jogando meu tênis e me dedicando ao sonho de ser um atleta de verdade”

Nessa semana recebi um convite que muito me honrou. Vou dar um depoimento ao “Museu da Pessoa” ( http://www.museudapessoa.net/ ) instituição patrocinada pelos Correios e que está fazendo um trabalho belíssimo sobre a história do futebol e a participação dos brasileiros. Falarei por 90 minutos sobre as memórias que guardo sobre o futebol e as campanhas do Brasil nas Copas que acompanhei.

Na idade desse tenista – eu ainda torcia pela Seleção – chorei com a palhaçada da Copa mais comprada de todos os tempos: a de 1978 – patrocinada pelo peronismo na Argentina. Sofri com os 3 gols de Paollo Rossi – que eliminou o maior e melhor time que acompanhei em minha vida: aquele de 1982 que tinha Zico, Sócrates e Falcão – além de outros jogadores maravilhosos. Vi a Nike protagonizando o resultado da Copa de 98, na França, quando o país atravessava uma das piores crises políticas e econômicas de sai história.

Hoje, ao ouvir o jovem tenista na clínica, assumindo que o futebol não é um esporte que empolga – e, em outro momento da sessão, confirmou que se sente estranho no meio de amigos por se dedicar ao tênis e não ao futebol (cobrança social) – tive a certeza que existe uma força cega e primitiva permeada por uma cultura de origem que vive a intersubjetividade social do nosso povo. Romper com esse vício de raízes corrompido por interesses, fraudes e corrupções não é algo simples. Demandará tempo e trabalho.

Fazer esporte e construir a identidade de atleta,estou certo, são processos diametralmente opostos àqueles que telinha tenta nos vender às 4as e domingos em horário nobre e na fala de fanfarrões nos programas na hora do almoço.

Esporte de verdade, amigos, está na luta íntima e na busca da intimidade – longe de pancadarias televisivas e batalhas campais. A filosofia e o conceito de atleta pedem socorro. E isso, confesso, me deparo diariamente na clínica.

Assim como esse jovem tenista denuncia um panorama perverso – que gera um crescente desinteresse das massas – outros seres humanos lutam por um espaço de apoio e reconhecimento através da prática esportiva. Alguns, inclusive, campeões olímpicos e mundiais de suas modalidades.
Gente, vamos abrir um pouco a cabeça e repensar o sentido de esporte nesse país.
Por favor!

FUTEBOL : a exposição das feridas de um povo

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Confesso que acompanhei, atônito, as cenas de barbárie na Arena Joinville – estádio que frequento com regularidade por conta da família de minha mulher morar na cidade e também pelo meu carinho pelo JEC (Joinville Esporte Clube). Felizmente não estava por lá para acompanhar, de perto, a guerra nas arquibancadas entre os torcedores do Atlético Paranaense e Vasco da Gama.

Esse ano a violência parece ter piorado um pouco mais nos estádios de futebol. Foram tantas as brigas, atos de vandalismo, depredação e extrema covardia – que perdi a conta de quantas vezes pensei: “o futebol, por aqui, acabou faz tempo!”. E não adianta colocar a culpa na polícia (ou não falta dela). Vários jogos que terminaram em brigas generalizadas contaram com um contingente alto de policiais militares.

Hoje, por fim, perdi a paciência. Não vou mais analisar psicologicamente o comportamento desses bandidos nos estádios. Até porque, não me parece que sejam questões psicológicas nem sociais que estimulam essa violência toda. Chega de conteúdos projetivos – fusão com a identidade do clube – abandono da própria identidade em prol do grupo. Nada disso. Se esse país fosse minimamente sério, honesto, responsável e coerente, os imbecis estariam presos e não ameaçando famílias e crianças nos estádios de futebol do país.

Reforço meu recado aos leitores: se você tem amor a vida, não vá aos estádios de futebol. Passe essa mensagem à frente. Converse com seus amigos, familiares, pense, repense, reflita: vale a pena perder um olho, uma perna ou até, quem sabe, a própria vida por conta de futebol? Quantas vidas já foram perdidas dentro dos estádios e nas proximidades das praças esportivas?

Navegando pela internet, encontrei as imagens da batalha de Joinville nos principais jornais do mundo. Todos absolutamente preocupados com a Copa do Mundo e os atos de barbárie que poderão surgir em 2014. A Inglaterra conseguiu reduzir significativamente a violência nos estádios. Como? Simples. Os indivíduos que se envolviam em brigas são fichados e devem se apresentar à delegacia de polícia mais próxima de sua casa duas horas antes dos jogos de seu time e liberados duas horas depois. Por que é tão difícil desenvolver um processo desse tipo por aqui? Novamente, simples: os clubes são reféns das torcidas organizadas. E aqui, me parece desnecessário explicar essa relação de poder entre grupos organizados e instituições esportivas.

Tenho percebido uma tendência à elitização do futebol brasileiro. Algumas pesquisas foram realizadas e concluíram que o nível socioeconômico dos torcedores de futebol tem aumentado de forma contundente. Provavelmente por conta do aumento gradual do preço dos ingressos (especialmente na Copa do Mundo) – o perfil dos torcedores está mudando. Por outro lado, isso não garante que a segurança voltará aos estádios. Elitizar o futebol é jogar a sujeira para baixo do tapete. Típico dos processos políticos de dominação e impossibilidade de resignificação da cultura de um povo.

A violência nos estádios é a mesma das ruas – dos bares, das praças e do trânsito. Dos arrastões das praias e congestionamentos.
Temo que viveremos, com a Copa, uma das maiores vergonhas históricas de um povo. Talvez o iminente vexame seja necessário para que algo – efetivamente, possa mudar por aqui.

Perivaldo: em qual espelho perdestes sua face?

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Lateral direito talentoso do Botafogo, Palmeiras e Seleção Brasileira no final da década de 70 e início de 80, Perivaldo hoje mora na Feira da Ladra, em Lisboa. De dia, ele vende roupas que acha em latas de lixo e compra em saldões e à noite dorme em um pequeno papelão numa praça próxima ao local. O sonho de Perivaldo, agora, é retornar ao Brasil para reencontrar a família.

O fim de carreira desse jogador é apenas mais um capítulo – uma pequena fração – daquilo que tão frequentemente ocorre com os ex-jogadores de futebol: perdem a identidade quando estão distantes dos gramados. E com Perivaldo não foi diferente. Muitos deles embarcam na tentação do álcool e das drogas para amenizar – ainda que por poucos momentos – a dor da falta do existir.

Conceito básico de cultura e da Psicologia Social, “o ser humano é aquilo que faz”.  Portanto, quando deixa de fazer, tem sua autoimagem dissipada na correlação social e diante do mundo. Os trabalhos psicológicos no esporte devem ser iniciados nas categorias de base junto aos assistentes sociais. É preciso fortalecer esses garotos que, logo cedo, idealizam um futuro eterno e repleto de magia, sonho e riquezas.

As fotos e a reportagem de Perivaldo jogado nas ruas de Portugal deveriam servir como (mais) um alerta aos dirigentes do futebol brasileiro que se esquecem da responsabilidade social que tem (e não reconhecem) sobre esses rapazes que, na esmagadora maioria, não contam com recursos intelectuais, financeiros, educacionais e até familiares. Pior: depositam as esperanças de vida nos campos de futebol – cada dia mais áridos e inóspitos.

Aos atletas que tiveram sucesso e fama, esse quadro é ainda mais caótico. Assim como num sonho de magia, vestem a camisa da Seleção Brasileira e – no pesadelo mais sórdido, acordam sem identidade – no chão duro da indiferença e abandono.

Estou convicto que a única chance que o futebol tem de resgatar suas bases e origens como uma modalidade de respeito e consistência ética – é a possibilidade de se considerar humanos os atletas que são explorados pelo inconsciente bruto das massas e pela fome insaciável de viver além de seus limites e domínios.

O convite que o caso de Perivaldo nos faz é justamente esse. A carreira de jogador de futebol é curta, o dinheiro acaba, a fama some como neblina e a face não se encontra mais com qualquer forma de espelho.

Sinto pela alma de Perivaldo e de tantos outros atletas que – distantes de suas bases frágeis, sucumbem num território desconhecido, impessoal  e desvalorizado nas curvas sem fim da catástrofe psicossocial produzida incessantemente pela indústria do futebol.

O perigoso senso comum no esporte

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Final de ano é assim: atletas começam a ligar para o consultório desesperados para marcar horário por conta de competições de final de ano e para o início de 2014. Fico sabendo da demanda quando o atleta está na minha frente e diz sobre suas expectativas a curtíssimo prazo em relação ao trabalho(quase que num toque de mágica). Obviamente que alerto que a Psicologia do Esporte – assim como qualquer outro processo psicológico, exige tempo e dedicação. Resultados milagrosos não ocorrem no espaço clínico e aqueles que os prometem são aproveitadores de ocasião.

Aqui, pergunto: esse senso comum e banalizado surge de onde? a resposta me parece simples ! – do COTIDIANO – das notícias de comandantes do BOPE palestrando – dos clubes que contratam “psicólogos” para palestras pontuais. Aí, o que ocorre? o atleta se vê próximo a um grande desafio e quer correr para o consultório – na esperança que o psicólogo seja um curandeiro ou um fazedor de milagre – sim, amigos, tipo um “rain maker” (fazedor de chuva).

Eu não conheço a dança da chuva (nem quero). Só desejo que esse quadro superficial mude o quanto antes e compartilho essa mensagem na esperança de sensibilizar aqueles que trabalham com atletas para fortalecer todas as ciências da saúde no esporte. Por hora, temos um imenso senso comum – que, pelo visto, está cada vez mais comum!

Futebol, imediatismo e incoerência

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Após o anúncio de Dorival Junior como novo treinador do Fluminense, faltando cinco rodadas para o fim do Brasileirão, tive a total certeza  que o futebol virou, de fato, uma tenda capitalista das mais perversas. E contra fatos, não há argumentos.

Treinadores não deveriam aceitar (se sujeitarem – tornarem sujeitos ativos dessa barbaridade)a um convite de grego desses. Por mais dinheiro que possa estar envolvido – depõe contra a classe e reforça o papel capitalista e ignorante exercidos por boa parte dos dirigentes de futebol.

O pessoal brinca com o tal “projeto” que o Luxemburgo sempre costuma dizer em suas apresentações nos clubes, quando, de fato, projetos de verdade deveriam existir e ser fortalecidos, creditados e apoiados pelas instituições. Esse conceito, certamente, o treinador se refere aos times europeus. Por aqui, estamos bem longe dessa realidade e possibilidade.

O mesmo ocorre quando um psicólogo do esporte aceita dar duas ou três palestras a um time no momento de crise ou, quem sabe, chamar o pessoal da BOPE para realizar a “preparação psicológica”. Aliás, nunca vi tantas aspas em “psicólogos” como nos últimos tempos. Estou até pensando em comprar uma e sair por aí. Aceitar esse tipo de convite reforça o imediatismo perigoso e depõe contra a ciência e as pessoas que trabalham de forma séria – tanto técnicos, como psicólogos.

Na Europa a coisa é bem diferente. A programação realizada pelo Cruzeiro, por exemplo, muito se assemelhou com a dos principais clubes europeus. Uma pré-temporada extensa – com estudo dos atletas a serem contratados – administração coerente e ótimos resultados no principal torneio nacional de 2013. Essa verdadeira epopeia de Dorival Jr pelos times do Rio de Janeiro em 2013 (Flamengo, Vasco e Fluminense) é apenas um retrato – daqueles 3×4 – de um cenário preocupante e limitado tanto no plano administrativo – como no deplorável vale tudo que se transformou o futebol nesse país.

Mudar esse quadro não é nada fácil. Penso que os treinadores deveriam ter um código de ética e conduta entre si. Começarem a negar esse tipo de convite – assim como os conselhos regionais e federais de Psicologia deveriam fiscalizar essas aberrações que a gente vê por aí com o nome de “trabalho psicológico”. Muitas vezes, quem realiza a intervenção – nem tem o diploma de psicólogo.

O momento é de mudanças e, se não houver uma maior união entre todos aqueles que atuam no futebol (me incluo nesse time), ficaremos reféns de uma gente que – hoje tem certeza que, com um bocado de dinheiro é capaz de comprar o profissional que quiser – na hora que desejar.

Hoje me deparei com uma frase num blog de esportes que diz: “o brasileiro é um povo ingrato” – no contexto de não reverenciar seu atletas e profissionais. Concordo com o leitor e complemento que essa ingratidão é proveniente de uma imensa baixa estima e carência de referências e auto afirmação. Creio que, muito mais que ingrato, o povo brasileiro é órfão. Assim diz a história, colonização e exploração. Só que hoje somos explorados (e deixamo-nos explorar) por nós mesmos. É hora de dar um basta. Em nome da ciência, do esporte, atleta e ser humano.

Homenagem a Felipe Massa: um grande atleta e ser humano

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O brasileiro tem uma distorção absolutamente perversa e patológica diante da visão de seu povo e de seus representantes. Se o sujeito não é multi-ultra-mega campeão, ninguém reconhece o valor. E essa sina parece não mudar jamais.

Existe, diria, uma espécie de lavagem cerebral no imaginário afetivo e social do nosso povo, uma sede, necessidade, uma criança faminta que precisa de heróis para sobreviver.

Belluci enfrenta o legado de Guga – Rubinho e Felipe, o legado de Senna e Piquet – e tantos outros excelentes atletas que sempre são postos em comparações absolutamente indevidas e desnecessárias com ídolos do passado. Reverenciar os feitos dos ídolos e heróis do passado é extremamente saudável. Viver aprisionado à sombra deles apenas reforça a imensa dificuldade de se reconhecer e valorizar o talento e a dedicação dos nossos atletas do presente.

Agora, vejam só: a Ferrari fez uma imensa festa e várias homenagens na despedida de Felipe Massa – após tantos anos de dedicação e luta para defender a equipe. Vice-campeão mundial em 2008 – Felipe sempre demonstrou seu amor pela equipe – passou por dificuldades imensas – sofreu um acidente terrível – deu a volta por cima e, ao encerrar seu ciclo na equipe italiana, foi ovacionado por milhares de torcedores que se renderam ao piloto e ser humano que fez sua última parada em Maranello nesse domingo.

Não vou nem comentar o que a gente lê por aqui – para não reforçar nossa intensa síndrome de vira lata – já tão reforçada pelo comportamento cultural do brasileiro (não apenas no esporte, mas na política, educação e em tantas outras áreas).

Hoje quero render minha homenagem ao Felipe – além de um atleta brilhante, sujeito correto, pai dedicado, filho exemplar – demonstra toda sua preocupação com o futuro do automobilismo brasileiro e tenho certeza de que, qualquer que seja seu futuro nas pistas – agora na Williams -  já deixou lições que, infelizmente,os olhos dos brasileiros – com tanta fumaça e neblina, não conseguem enxergar.

Valeu, Felipe! A vida está apenas começando. Os desafios, também!
Parabéns por todas as suas conquistas – do kart à fórmula 1. Dentro e fora das pistas, meu reconhecimento, admiração e amizade.

Em tempo: o troféu na foto foi mais uma homenagem da Ferrari com todas as conquistas de Felipe na carreira através dos anos de parceria com a equipe italiana. Com o motor Mercedes, na Williams, fica a torcida por um ano vitorioso e novamente cheio de superações!

A estrela solitária agoniza

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Os psicólogos cognitivos costumam chamar de “crença central”. Os psicanalistas, de neurose. Os torcedores, que nada tem a ver com isso, ficam loucos da vida. O Botafogo, hoje eliminado da Copa do Brasil após uma verdadeira aula (surra, para dizer a verdade) de futebol ministrada pelo Flamengo, demonstra – e não é de hoje, que não consegue destruir certo imaginário institucional de derrotas e fracassos. Existe, em General Severiano, uma construção sócio-histórica que parece determinar o comportamento de atletas, treinadores e todos aqueles que vestem o uniforme com a estrela solitária.

O Botafogo, assim como outras equipes brasileiras, padece diante de uma muralha aparentemente intransponível de uma casa que nunca termina sua reforma. No meio do ano, começam as chuvas e tempestades e a instituição fica sem teto nem cobertura. Acaba morrendo todo mundo afogado. O fôlego dos atletas termina e os jogadores correm de um lado para o outro como se não encontrassem o campo de jogo. Treinadores são demitidos – outros são contratados. Jogadores são desligados – outros, contratados. Como numa maldição (o futebol é cheio dessas lendas) – a reincidência trágica de modelos de comportamento é a principal algoz do alvinegro carioca.

Seria, hoje, um prato cheio para Nelson Rodrigues que, certamente, deitaria e rolaria em cima desse panorama folclórico e organizacional dos mais graves e bizarros. A equipe comandada por Seedorf mergulhou num caos previsível e congruente com a construção solidificada de crenças absolutas que parecem determinar, com antecedência, a sorte do clube nos campeonatos.

Derrubar esse muro não é tarefa fácil – muito menos, simples. É preciso compreender, tijolo a tijolo, as vivências e fatos que consolidaram essa repetição frenética e agonizante que mais se parece um labirinto de perguntas que jamais encontram destinos, soluções ou alternativas. O fato é dado. Ele existe e ponto.

Depois da goleada sofrida pelo Riva, Flamengo, por 4 a 0, vai ser difícil o Botafogo ficar, inclusive, entre os primeiros colocados do Brasileirão. Não sei, ao certo, se Osvaldo de Oliveira continuará à frente do comando do time. O que sei é que, uma vez mais, padrões de comportamento atrelados ao passado da equipe continuarão se repetindo até que um grupo – um conjunto de dirigentes, psicólogos, diretores, administradores – assuma a questão de frente, encare a existência dessa força estranha que acompanha – incessantemente, o comportamento dos atletas nos momentos mais agudos. Um abismo que parece não ter mais fim.

A torcida do Botafogo não merece viver essa repetição frenética do fracasso e também não precisa compreender sua dinâmica. O papel dela é torcer. E, daqui para frente, isso será uma tarefa bem complicada!

A estrela solitária precisa de companhia e, acima de tudo, ajuda. Ela anda triste e mal compreendida. Botafogo e a síndrome do fracasso neurótico – cada vez mais neurótico, infelizmente.

Toquinho e os possíveis efeitos da elevação da ativação mental

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Tenho acompanhado com certa proximidade os desdobramentos da luta entre Toquinho e Mike Pierce pelo UFC.  Antes de iniciar a presente reflexão, friso que não estou aqui  para julgar nem absolver o golpe que garantiu a vitória de Toquinho. Meu ofício está relacionado com a leitura dos aspectos psicológicos possivelmente envolvidos em ações esportivas de diversos segmentos e modalidades.

Em esportes que mobilizam altos índices de energia de ativação interna – como no caso do MMA – ansiedade e concentração nem sempre constituem uma equação exata. O POMS – protocolo de mapeamento do perfil psicológico e dos estados de humor – estuda, entre outros fatores, a tendência de manifestação de um estado intitulado  “confusão”. Esse parâmetro é traduzido pela dificuldade que o atleta demonstra em responder – de forma adequada – aos estímulos do ambiente. No caso de uma competição, é comum o esportista não apresentar o desempenho tático e técnico aprendido após treinamentos exaustivos. Esse fato quase sempre está ligado a um perfil psicológico que tende a gerar respostas perigosas e quase sempre danosas ao rendimento esportivo.

O caso de Toquinho, hoje banido do UFC pela conduta concebida como “deplorável” e “inaceitável” por Dana White, pode ser mais um entre tantos outros em que a falta do controle adequado dos estímulos psicológicos e emocionais gerou um prejuízo de grandes proporções para a carreira do atleta.

Toquinho relatou que “não sentiu o toque de Mike Pierce” para encerrar o combate e demonstrou dificuldade para compreender – simultaneamente – a chegada do juiz e a queda de seu oponente. Foram menos de dois segundos na chave de joelho após o adversário acusar o golpe e aceitar o resultado da luta. Um tempo pequeno para o processamento dos movimentos e gerenciamento da concentração num momento de elevadíssima ativação mental e força física.

A expressão comportamental de Toquinho deve ser analisada com ponderação.  A olhos vistos, certo é que o atleta feriu um código de conduta dos mais importantes: o respeito com a integridade física do adversário.  O que levou Toquinho a essa atitude  pode ser compreendido através de um conjunto de variáveis técnicas e psicológicas. Na esfera psicológica, uma espécie de “ausência cognitiva” – ou o que o protocolo POMS concebe como “confusão” pode ter catalisado o golpe prolongado e equivocado naquele instante.

Na hora de julgar e punir, as imagens são analisadas e compreendidas apenas pelo fator formal, lógico e sociocultural. Não li, até agora, nenhuma análise que colocasse o foco visual e a energia de ativação interna elevada como protagonistas do erro do atleta. No melhor estilo foucaultiano de “vigiar e punir”, Toquinho foi expulso do UFC e irá trilhar outros caminhos profissionais.

O que mais angustia, nesse caso, é imaginar que Toquinho possa estar se perguntando até agora: “ como foi que fiz aquilo, meu Deus?”