Bristol (EUA) – Como prometi aos leitores, segue o relato de meu “espião”, Rafael Proença, na Corrida da Ponte, que disputou mais uma vez, neste domingo, de Niterói ao Rio. O relato é especialmente importante pelo fato de que este foi o último ano em que a prova teve parte de seu percurso na Avenida Perimetral, que está em processo de demolição para a Olimpíada de 2016.
Acho que a Perimetral já vai tarde, pois é muito feia. Pena é que, pelo que li nos jornais, no chamado “Porto Maravilha” vão construir um gigantesco pier em “Y”, que prejudicará a visão de pontos turísticos e históricos do local. Dizem que há ainda uma pequena esperança que construam o pier em “E”, em vez de “Y”, o que salvaria uma boa parte da paisagem.
Espero que prevaleça o bom senso. Quando às ótimas observações do Rafael Proença sobre a Corrida da Ponte, comecem a ler agora:
“Escrevo ainda sob o calor da Corrida da Ponte 2013, corrida esta que marcou a despedida oficial da Perimetral das corridas de rua do Rio de Janeiro. Tirando bastante proveito das condições climáticas favoráveis – algo não muito comum em terras fluminenses mesmo em se tratando de uma época do ano em que estamos no outono – assinalei meu melhor tempo na distância dos 21 km. Na verdade, segundo meu GPS a distância final foi de 21,65 km, ou seja, duzentos metros a mais do que prometia a organização, mas que de longe deixa de ser uma falha da mesma. Após 1h43m48, completei o percurso que se iniciou no Caminho Niemeyer, em Niterói, e teve a chegada na passarela do Museu de Arte Moderna, no Aterro do Flamengo, já em terras cariocas.
Os 21 km entre Niterói e Rio estão longe de serem fáceis. Se os aproximadamente dois quilômetros de subida do vão central da Ponte não são de assustar, pois não é uma subida muito íngreme, os oito quilômetros finais na Perimetral precisam ser bem trabalhados psicologicamente. Alguns atletas desavisados vão com a única intenção de “correr a Ponte” e se esquecem de que após o décimo quarto quilômetro a mesma se acaba, desembocando na Perimetral, ou para os mais acalourados, a “Perinfernal”. A Perimetral tem um asfalto diferenciado que absorve mais calor aumentando a sensação térmica, além de ser recheada de subidas, descidas e curvas a todo momento. Certamente muitos corredores estarão mais aliviados com a demolição desta, o que, espero, não comprometa as próximas edições da Corrida da Ponte. De minha parte, embora reconheça esse lado “ingrato” do elevado, admito que até gostava dele. Diria que tivemos sempre um bom combate, algumas lutas épicas travadas nesses quatro anos em que me meti a ser um corredor de rua.
Sobre a organização, acho que houve uma queda em relação ao ano passado. Um tropeço crucial foi a divulgação da informação de que haveria um posto de bebida esportiva no sexto quilômetro, o que acabou não se confirmando. Os atletas só encontraram o primeiro posto desta no décimo quinto quilômetro, algo que compromete em muito uma estratégia montada previamente. Em 2012, foram dois postos de bebida esportiva, um primeiro em copo aberto e o segundo em sacolé. Copo aberto sempre é um problema, pois ou você diminuiu a velocidade para beber, ou se dá um verdadeiro banho com aquilo. Este ano, tanto no primeiro, quanto no segundo posto de hidratação com bebida energética – o segundo foi no décimo oitavo quilômetro, algo também não previsto inicialmente – foram oferecidos copos abertos. No mais, já após a descida da Perimetral na Avenida General Justos, último quilômetro da corrida, vi duas pessoas passando mal. Uma delas, uma mulher que se debatia e chorava no chão, provavelmente com câimbras. Mais à frente, um sujeito vestido da cabeça aos pés de super-heroi parecia pronto para desmaiar, enquanto era amparado por alguns outros atletas. Nos dois casos, não vi ninguém da equipe médica por perto. Metros adiante tentamos avisar a alguns membros da organização sobre o que acontecia, mas a velocidade com que um destes sujeitos tentava se aproximar era bem menor do que a situação pedia. O caso dos guarda-volumes também precisa ser resolvido, pois muitos corredores, inclusive eu, precisaram esperar até que seus pertences chegassem nas vans e nos micro ônibus vindos de Niterói. O mesmo já ocorrera na edição passada e a julgar pelas reclamações, também seu deu em 2011.
Ainda assim, tirando os percalços, a Corrida da Ponte deve ser considerada um sucesso, por nos permitir correr por um lugar que 364 vezes ao ano é impossível. E mesmo com as críticas, acho que a Spiridon merece uma nota de 7,5 a 8,0, pois é preciso reconhecer que organizar uma corrida em um local projetado para que não haja circulação de pessoas como a Ponte Rio-Niterói é um desafio e requer um grande aparato tanto de pessoas como de estrutura física. O resultado de hoje serve para colocar mais uma pulga atrás da minha orelha sobre correr ou não a Maratona do Rio em julho, estreando na distância mais nobre das corridas de rua. Pela prova carioca não ser das mais fáceis, tinha pensado em fazer esta estreia em Porto Alegre ou Buenos Aires. Mas coloquei na cabeça que quero os meus amigos e parentes me aplaudindo no quilômetro final e para isso precisarei correr em casa mesmo. Diria que a sorte está praticamente lançada.”