Consumou-se a desfaçatez

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Bristol (EUA) – Outro dia o jornalista congolês Serge Rhukuzage, autor do blog “Carioca Plus”, enviou um comentário recomendando a leitura de um artigo em Le Monde sobre as relações entre Sepp Blatter, Presidente da FIFA, e seu Secretário-Geral, Jérôme Valcke.

Achei muito interessante, sobretudo levando-se em conta que Valcke é Secretário-Geral da FIFA de Sepp Blatter como Sepp Blatter foi Secretário-Geral da FIFA de João Havelange.

Hoje, meu amigo Alexandre Médicis me envia um e-mail que tinha sido passado a ele por Eliezer Baranek, com um artigo publicado no New York Times pelo colunista Roger Cohen.

Devo dizer que, como sou admirador de Roger Cohen, já tinha lido o artigo. Roger Cohen, baseado em Londres, é casado com a escultora brasileira Frida Baranek – que, suponho, vem a ser parente de Eliezer.

Reproduzo o artigo,  que menciona inclusive o jogo França x Brasil na final de 1998, que Roger não pôde assistir porque foi despachado para a Nigéria – onde, pela televisão, constatou que os comentaristas locais desconfiavam muito da lisura do que se passava em Paris.

O que há de inegável  em tudo é que a FIFA e seus cartolas chegaram a um tal grau de descrédito que em hoje ninguém mais pode acreditar em nada do que esta súcia diz e faz.

No caso específico do Brasil, temos um ex-presidente da CBF preso, enquanto seu sucessor abandona a Suíça às pressas e seu antecessor, também às pressas, procura vender sua mansão em Boca Ratón, certamente com medo de vê-la confiscada pelo governo americano.

Boca Ratón, Traffic – nomes que, em si, já são uma admissão de culpa.

Sepp Blatter certamente é a personificação do descaramento e a impressão geral é que novas e comprometedoras revelações ainda virão à tona.

Confirmou-se a desfaçatez de sua reeleição, mas os números do primeiro escrutínio mostram que ele se baseia agora apenas naquelas federações nacionais que se aproveitam de suas benesses – legítimas ou ilegítimas.

A história continuará. No Brasil é preciso que as investigações prossigam. Está hoje claro que, num processo que já era antigo mas se agravou  em 1974, quando o senhor João Havelange galgou o comando da FIFA, temos vivido um gigantesca corrupção em nosso futebol, numa promiscuidade envolvendo cartolas e locutores de campo que, valendo-se de sua proximidade com os jogadores, tornaram-se empresários e aliados dos dirigentes, com comissões e subornos a rolar por todos os lados.

Que esta vergonha, nacional e internacional, leve ao menos a um fato positivo, que seria a aprovação da MP que trata das dívidas dos clubes e poderá permitir um reforma profunda de que nosso futebol tanto precisa.

Abaixo, o artigo de Roger Cohen:

“LONDON — I was living in Paris in 1998 and had tickets for the World Cup Final but instead had to rush off to cover upheaval in Nigeria and ended up in a Lagos hotel watching France beat Brazil 3-0. The commentators were Nigerian, of course. After a couple of first-half French goals against a listless Brazilian side, they pretty much gave up describing the match. Instead they focused on how much money they thought had changed hands to secure France’s triumph. I laughed as the numbers spiraled upward.

Another unrelated soccer memory stirred at the news of the arrest in Zurich of several top FIFA officials on bribery, fraud and money laundering charges brought by the United States Justice Department. It was of standing 30 years ago at the Heysel Stadium in Brussels with my friends Patrick Wintour of The Guardian and Ed Vulliamy of The Observer. We watched as Liverpool fans charged Juventus fans gathered in the Z-block of the ground. There was a sickening inevitability about what happened as the Juventus supporters were crushed against terrace barriers that collapsed and then a concrete wall.

It is not true that everything has gotten worse in global soccer under Blatter. Safety has improved and, yes, the World Cup has been held in Africa. But just about everything has. To conclude that Blatter should quit rather than embark on a fifth term as FIFA president (assuming his seemingly inevitable election to a fifth term on Friday) feels so blindingly obvious that it’s not worth saying. But then the FIFA president is so thick-skinned it’s actually worth saying twice: Mr. Blatter, your time is up.

Why? Because the corruption charges against current and former FIFA vice presidents and others reflect an organization rotten to its core, operating in the absence of any meaningful oversight, without term limits for a president whose salary is of course unknown (but estimated by Bloomberg to be “in the low double-digit” millions), overseeing $5.72 billion in partially unaccounted revenue for the four years to December 2014, governing a sport in which matches and World Cup venues and in fact just about everything appears to have been up for sale, burying a report it commissioned by a former United States attorney into the bidding process for the next two World Cups, and generally operating in a culture of cavalier disdain personified by Blatter, whose big cash awards to soccer federations in poorer countries have turned the delegates from many of FIFA’s 209 member associations into his fawning acolytes.

Among those charged is Jeffrey Webb, the successor to Jack Warner as the head of the North and Central American and Caribbean regional confederation within FIFA. Warner was also charged. When Warner’s corruption became so outlandish that he was forced to step down a few years ago, Blatter’s FIFA maintained a presumption of innocence. Enough said.
Bribery occurred “over and over, year after year, tournament after tournament,” said Attorney General Loretta E. Lynch, who has supervised the investigation from the days when she was the United States attorney for the Eastern District of New York. That sounds about right. The office of the attorney general of Switzerland has opened a separate criminal investigation into the selection of Russia to host the 2018 World Cup and Qatar the 2022 World Cup.

Just because Russia and Qatar are gas-rich (and back in 1998 a Qatari businessman provided Blatter with a private jet for his first FIFA election campaign) does not mean the process was corrupt. Of course it does not. But that Swiss criminal investigation is thoroughly warranted — and the first requisite for making it thorough, transparent and credible is Blatter’s immediate departure.”

História antiga

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Bristol (EUA) – Cheguei ontem em casa depois de um dia intenso de trabalho como Intérprete Judicial e me sentei para escrever sobre o escândalo na FIFA.

Escrevi e queria prosseguir,  mas subitamente a Internet sumiu. Como tinha um compromisso para jantar, deixei para depois.

Só mais tarde, como o problema continuava, investiguei e descobri que, na verdade, tinha sido salvo pelo “surge protector” que, durante uma trovoada, desconectara meu sistema e até meu telefone.

Foi só apertar de novo o botão e a normalidade regressou.

Sou ruim de tecnologia, mas aqui ficam meus agradecimentos.

Agradeço também às autoridades americanas que estão investigando este escândalo de 150 milhões de dólares na FIFA, embora tenha a certeza de que as quantias envolvidas são bem maiores.

Achei também curioso, como escrevi ontem, que a imprensa internacional esteja falando dos envelopes cheios de dinheiro que antecederam a eleição de Sepp Blatter em 1998.

Ora, repito o que escrevi: o que aconteceu em 1998, quando Blatter, pupilo de Havelange, foi eleito, foi a mera repetição do que aconteceu em 1974, num hotel em Frankfurt, quando Havelange, o mestre, foi eleito.

Em 1974, como em 1998, envelopes cheios de dinheiro circulavam, sobretudo para a compra de votos de delegados africanos.

Em tudo isto que circunda a FIFA, um mistério permanece: como Blatter pode resistir tanto no cargo, quando todos sabem que preside uma instituição corrompida até a medula?

Blatter é  cria de Havelange. Abro aqui um parêntese para dizer que aquela eleição em 1974 foi um divisor de águas na imprensa brasileira. Muitos sabiam do que se passava com a compra de votos, mas apenas alguns poucos, e eu me orgulho de estar entre eles, se insurgiram contra a imoralidade.

Blatter, formado em economia, trabalhava na Federação Suíca de Hóquei no Gelo e na fábrica de relógios Longines. Conheceu Havelange, que queria iniciar a era do “marketing” na FIFA, como realmente iniciou, e  tornou-se uma peça do mecanismo.

Subiu no conceito de Havelange, tornou-se Secretário Geral da FIFA e herdou o cargo de seu mentor.

Como Havelange, Blatter agarra-se à presidência da FIFA como um mexilhão a um rochedo. (Assim como Carlos Arthur Nuzman agarra-se à presidência do Comitê Olímpico Brasileiro, depois de combater, durante anos, o continuísmo de seu antecessor, Sylvio de Magalhães Padilha.)

Mas eu tenho uma teoria sobre Blatter. A de que talvez ele seja o mais esperto  de todos os cartolas que andam por aí,  porque o que lhe interessa mesmo é o poder, com seus privilégios e mordomias, não diretamente o dinheiro de comissões de dez por cento.

Talvez isto explique por que Blatter tem conseguido sobreviver por tanto tempo. Ele deve saber de todas as maracutaias de gente como José Maria Marin, mas deve ter colocado uma “barreira anti-contaminação” ao redor de si mesmo, que lhe permita dizer que de nada sabia ou fingir que de nada sabia.

Hoje, montado em imensas verbas de patrocinadores, Blatter pode comprar os votos de delegados africanos e asiáticos  por meios legítimos, através de apoio à infra-estrutura do futebol em seus países. Não se contagia pessoalmente e fecha os olhos às comissões e cambalachos  que pululam sob seu descaso interesseiro.

Talvez a única forma de removê-lo seja alegando que um chefe de corporação, em  qualquer país do mundo, paga pessoalmente pelo mal de seus subordinados, mesmo quando deles não tem conhecimento.

No Japão, em casos iguais, é ponto de honra cometer o “harakiri” ou jogar-se pela janela.

Os patrocinadores globais de Blatter poderiam ser um meio de removê-lo, se fechassem mesmo  as torneiras de suas verbas, em vez de ficar apenas em ameaças.

Uma coisa porém devo dizer, em nome da seriedade do processo: a realização das Copas de 2018 na Rússia e de 2022 no Qatar precisa ser preservada.

Unir qualquer tentativa de remoção de Blatter com o cancelamente das Copas na Rússia e no Qatar desonrará o processo e dará razão a gente, como Vladimir Putin, que já fala em “imperialismo ianque e europeu”.

 

 

Em maus lençóis

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Bristol (EUA) – A imagem foi icônica: cartolas da FIFA, debaixo de lençóis fornecidos pela gerência, saindo presos às primeiras horas do dia do luxuoso hotel Baur au Lac, em Zurique, para não serem filmados por cinegrafistas.

Mas não adianta: as fotos destes “racketeers”, como os chamou a Procuradora Geral dos Estados Unidos, Loretta Lynch, estão espalhadas pelo mundo afora.

Entre eles o inefável, o muito nosso José Maria Marin.

É bom lembrar que “racketeering”, uma das muitas acusações que pesam sobre os cartolas, foi exatamente o que levou Al Capone à prisão.

Estão em péssima e merecida companhia.

“Racketeering”,  que vem a ser extorsão, e – é claro – falta de pagamento de Imposto de Renda sobre as fortunas ilicitamente ganhas.

Foi isto exatamente o que permitiu à Justiça Americana condenar o célebre gangster, o mafioso de Chicago.

Achei interessante ler na imprensa internacional que, em 1998, quando da eleição de Sepp Blatter para seu primeiro mandato como presidente da FIFA, envelopes cheios de dinheiro subiam e desciam elevadores no luxuoso hotel em que se hospedava a cartolagem da FIFA.

Achei interessante porque já em 1974, quando o senhor João Havelange foi eleito pela primeira vez presidente da FIFA, esta era exatamente a cena  que eu e diversos outros jornalistas brasileiros viam nas subidas e descidas de elevadores do também luxuoso hotel em Frankfurt, onde se realizava o Congresso da FIFA.

Lembremos que o senhor Sepp Blatter foi o Secretário Geral da FIFA ao longo dos diversos mandatos do senhor João Havelange e o sucedeu.

Lição evidentemente bem aprendida.

Ou mal aprendida. Tantas vezes o pote vai à fonte  que um dia quebra.

É uma deliciosa ironia saber  que o FBI e o IRS (Serviço de Imposto de Renda, nos Estados Unidos) usaram exatamente a mesma técnica de pegar gangsters e mafiosos já usada desde Al Capone, Lucky Luciano, Tommaso Buscetta e outros,  para fisgar a cartolagem futebolística.

Os cartolas e cartolões estavam com vergonha de mostrar a cara para os cinegrafistas.

E o senhor Sepp Blatter, se tiver  o mínimo de vergonha na cara, precisa desistir de sua reeleição.

Uma reeleição, como sempre, comprada com os tais envelopes que sobem e descem em elevadores.

O vexame é maior para nós, da América Latina e do Caribe, pois praticamente todos os mafiosos agora presos são de nossa vizinhança ou das ilhas caribenhas.

Há também, é claro, o pitoresco meliante Chuck Blazer, norte-americano, que tinha dois luxuosos apartamentos na Trump Tower, em Nova York, um deles só para seus gatos. Estavam um andar acima de um escritório regional da FIFA.

Foi através de Chuck Blazer, que se tornou delator, que a teia começou a ser armada para apanhar os criminosos.

Sepp Blatter não vem aos Estados Unidos desde 2011, pois tem medo de ser preso.

É imperioso que ele não seja reconduzido a seu cargo.

E o desbaratamento da máfia deve ser mais um argumento em favor da aprovação da MP no Brasil sobre dívidas de clubes, com a intenção de moralizar nosso futebol.

Devo dizer que comecei a cobrir futebol em 1962 e cedo desisti de torcer por qualquer clube, pois notei que há podridão em rigorosamente todos eles, em quase toda a cartolagem.

Vamos esperar que  alguma coisa positiva venha a emergir  deste mar de lama.

 

 

 

Está na hora de uma Gran Fondo

Divulgação

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Bristol (EUA) – A propósito do “post” abaixo, em que falo da Dirty Kanza, uma prova de ciclismo de longa distância que se realizará neste próximo sábado no estado de Kansas, recebi o seguinte e-mail de meu velho amigo, triatleta, maratonista, nadador, jogador de water-polo e tenista Alexandre Médicis:

“Realizou-se aí em New York faz alguns dias uma prova ciclística de 160 quilômetros – GRAN FONDO – (deve ser cem milhas), com cinco mil participantes, com saída na ponte George Washington.

Esta prova teve uma outra, de metade do percurso, 80 quilômetros (50 milhas). Uma moça lá do clube – Rio de Janeiro Country Club – Vicky L. Nunes, participou da prova de 160 quilômetros e tirou o terceiro lugar na faixa de 60 anos para cima.

Interessante saber que o Brasil foi o país que teve o terceiro número de participantes: primeiro Estados Unidos, segundo Canadá e terceiro Brasil.

Segundo a Vicky houve muitos brasileiros no pódio, entre os três primeiros.

Divulgue.”

Está divulgado, Alexandre, agradeço e dou parabéns à Vicky.

Dei uma olhada em Google e descobri o seguinte: esta prova faz parte de uma série (a Campagnolo Gran Fondo) que tem eventos na mesma distância na França e Itália. Ela tem também provas classificatórias no México, na Argentina e na Colombia.

Em Nova York ela foi realizada no dia 18 de maio, com representantes de mais de 70 países, indo até a Bear Mountain e voltando a Nova York. Este é o percurso da prova de Cem Milhas, competitiva. Na prova de 50 milhas, não competitiva, os participantes vão até Bear Mountain e voltam de ônibus.

Uma nova “New York Campagnolo Gran Fondo” está marcada para o dia 31 de julho e as inscrições estão abertas.

Agora, a pergunta: se há tantos brasileiros participando, por que a Campagnolo Gran Fondo não tem uma prova classificatória no Brasil?

Está na hora, não?

 

Se Deus quiser

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Bristol (EUA) – Neste próximo sábado vou participar de duas provas de ciclismo para “Masters”, nas distâncias de cinco e dez quilômetros.

Elas serão numa cidade chamada New Britain que fica aproximadamente a meia hora de minha casa e servirão como preparativo para o triathlon  que estarei disputando em junho em Cape Cod.

Aliás, estaremos disputando, minha mulher Dawn, que é excelente ciclista, e eu.

Mas devo dizer que estas duas provas, meros preparativos, empalidecem diante de outra prova que, no mesmo dia, estará sendo disputada em Emporia, uma cidade no Kansas.

A prova, chamada Dirty Kanza, é em quatro distâncias, com 20 milhas, 50 milhas, cem milhas e duzentas milhas. Duzentas milhas, caros leitores, vem a ser mais de 320 quilômetros.

Para piorar, a prova tem o nome de Dirty (de dirt, “terra, barro”, em inglês), porque é toda disputada em estradas de saibro. Quando chove, é um lodaçal. Quando não chove, é poeira para todo lado.

Provas de ultra resistência estão na moda, como a Marathon des Sables, no deserto do Saara, ao longo de seis dias, e uma competição de natação de 20 milhas (que vem a dar 32 quilômetros) na Macedônia.

Há, é claro, há mais de um século, a travessia do Canal da Mancha. Ela tem cerca de 45 quilômetros, mas na verdade você precisa nadar bem mais, por causa da maré e das correntezas.

Alguns malucos já fizeram a travessia não apenas ida-e-volta, mas ida, volta e ida de novo.

Eu prefiro ficar em meus “sprint triathlons”, nas distâncias de 750 metros de natacão, 20 quilômetros de ciclismo e cinco quilômetros de corrida, como em Cape Cod, em junho, e em Chicago, em setembro, na disputa do Mundial de Triathlon, quando minha mulher e eu também estaremos presentes.

Se Deus quiser.

 

Descanse em paz, Jaiminho

Bristol (EUA) – Só hoje, conversando pelo telefone com José Rodolfo Eichler, medidor oficial de maratonas da AIMS (Associação de Maratonas Internacionais), me dei conta de que conhecia o médico Jaime Gold, assassinado esta semana na Lagoa Rodrigo de Freitas quando fazia um treino de bicicleta.

Ele era o Jaiminho, figura tranquila e sorridente, sócio da Corja (Corredores do Rio de Janeiro), nosso companheiro em tantas provas nas ruas ou nos treinos nas Paineiras ou na Floresta da Tijuca, ao tempo em que eu morava no Brasil.

Há muitos anos não o via, nem sabia que ainda corria. Pelo que me informam  agora, aderira também ao ciclismo e, suspeito, até fazia triathlons,   já que era um apaixonado pela boa forma física.

Morreu num país que, como leio hoje, sexta-feira, em uma reportagem de primeira página no New York Times, é o recordista mundial de homicídios.

(Eis aí um recorde que nossos dirigentes e cartolas não querem divulgar neste pouco mais de um ano que falta para a Olimpíada, já que continuam garantindo que tudo vai bem na Cidade Maravilhosa.)

Na verdade, tudo vai mal, embora eu até me espante com a afirmativa do New York Times. Será que o Brasil, com 200 milhões de habitantes,  tem mais homicídios do que a Índia e a China, países com, respectivamente, 1 bilhão e cem milhões de habitante e 1 bilhão e 300 milhões de habitantes?

Mas está lá, no New York Times, com o jornal garantindo que a informação é oficial, das Nações Unidas. No ano mais recente em que se registram estatísticas completas, em 2012, o Brasil teve 50.108 homicídios.

De lá para cá, devemos ter superado nossa própria marca. Ninguém segura este país.

Não é de admirar  que o Brasil também seja recordista de mortes pela ação de agentes da polícia.

Um aspecto notável deste último problema é que parece haver no Brasil uma indiferença da população  quanto à execução sumária de criminosos ou supostos criminosos por policiais.

É como se nosso povo, desiludido com a inoperância ou incompetência das autoridades e do Sistema Judicial, visse nos Esquadrões da Morte – ou que outro nome tenham – um meio de ao menos minorar a insegurança em que é obrigado a viver.

Ainda nesta sexta-feira, acabo de  tomar conhecimento de que uma turista chilena foi esfaqueada na Praça Paris, no coração do Rio, à luz do dia.

Sobreviveu e virou mais um número numa estatística quase irrelevante.

Jaiminho não teve esta sorte. Que descanse em paz.

 

Vidraças partidas

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

Bristol (EUA) – Se uma vidraça é partida em uma casa por uma pedrada ou o impacto de uma bola de futebol e ela for imediatamente reparada, um clima de ordem, arrumação e respeito continuará.

Mas se a vidraça não for reparada, breve outras serão partidas e a impressão de descaso vai se alastrar pela rua e pelo bairro. Haverá um incentivo ao vandalismo e do vandalismo passa-se para os crimes de maior gravidade.

Esta foi a tese levantada em 1982 por dois cientistas políticos americanos, James Wilson e George Kelling, e comprovada por experiências feitas em Palo Alto, na Califórnia, e no Bronx, em Nova York, pelo sociólogo Philip Zimbardo.

A tese foi adotada pelo Departamento de Polícia de Nova York alguns anos depois e de lá para cá o índice de criminalidade na cidade caiu consideravelmente. De cidade perigosa, Nova York passou a ser um exemplo de segurança, como podem atestar os muitos turistas brasileiros que a visitam.

Lembrei-me disto ao ler nos jornais brasileiros a notícia do latrocínio cometido contra o médico Jaime Gold por dois ladrões, que o esfaquearam e fugiram com sua bicicleta, quando ele pedalava ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Agora, o governador do Rio de Janeiro está nos jornais discutindo com membros da Ordem dos Advogados do Brasil sobre a segurança do estado e da cidade.

Segundo o governador, a polícia prende mas a Justiça solta e isto leva ao clima de impunidade.

Segundo a OAB, as leis existentes são suficientemente severas e bem aplicadas.

É o tipo da discussão de loucos, em  que ninguém tem razão.

A segurança no Rio de Janeiro, quer na cidade quer no estado, é precariíssima. Aliás, ela faz parte do clima de descaso de toda a administração pública, da qual o governador é integrante.

Um estado e uma cidade em notório estado de abandono, como comprova a poluição de seus muitos corpos d’água a pouco mais de um ano da Olimpíada, são demonstração cabal de  que vidraças, reais e metafóricas, vivem sendo quebradas e ninguém se dá por achado.

E a Justiça brasileira é lenta, ineficiente, imprevisível e corrupta.

Vidraças continuarão a ser partidas, vidas continuarão a ser perdidas e o diálogo de loucos continuará a ocupar espaço nos jornais, mas providências mesmo não serão tomadas.

 

A influência de Suárez

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Bristol (EUA) – Luis Suárez saiu machucado ao fim do primeiro tempo na derrota do Barcelona para o Bayern de Munique (derrota, como sabem os leitores, sem qualquer importância) e não jogou contra o Atlético de Madrid, partida em que o clube catalão conquistou por antecipação seu título em La Liga.

Agora, o Barcelona tem ainda dois  títulos a disputar: o da Copa del Rey, contra o Athletic Bilbao,  e o mais importante de todos, o da Champions League, contra o Juventus.

Poderá ser o “triplo” e há no atual time do Barcelona um jogador cuja importância talvez não venha sendo suficientemente reconhecida. É dele que estou falando, do uruguaio Luis Suárez, peça extremamente polêmica.

Se estiver recuperado, contra La Juve Luis Suárez estará enfrentando Chiellini, a quem mordeu durante a Copa do Mundo no Brasil e Patrice Evra, que o acusou de racismo quando ambos estavam na Premier League.

Para mim, aquela acusação de Evra nunca chegou a ser comprovada, mas não é disto que quero me ocupar no momento.

O que quero dizer no momento é que, com Luis Suárez, o time do Barcelona alterou muito o seu estilo. Antes, era um time que não tinha um centro-avante e trocava passes infindáveis, à espera de uma distração ou erro da defesa adversária.

Com Suárez, o Barcelona é um time muito mais vertical. Sabe ainda trocar passes, mas passou a ser também um time de contraataque, um time que chega ao gol adversário em jogadas de penetração,  em velocidade.

Luis Suárez custou a se adaptar ao Barcelona – ou o Barcelona demorou a se adaptar a Luis Suárez. Mas, pouco depois do início deste ano, Suárez passou a jogar mais pelo meio, Messi foi para a direita e Neymar ficou onde já estava, na esquerda.

A partir daí o Barcelona se acertou, os gols começaram a sair, não apenas para Messi (que no ano passado também teve uma queda de produção, agora esquecida) como para Suárez e Neymar.

Acima de tudo, o que mais me chama a atenção é que não parece haver entre Messi, Suárez e Neymar – um argentino, um uruguaio e um brasileiro – o menor traço de ciúme ou inveja.

Ninguém parece querer brilhar mais do  que o outro – e isto é fundamental para o Barcelona.

Uma d’Artagnan e seus Três Mosqueteiros.

thumb_DSC01572_1024Bristol (EUA) – Peço perdão aos leitores pela ausência de quase dois dias e pelo fato de  alguns comentários por eles enviados terem desaparecido. É que  fui a uma cidade vizinha acompanhar/participar de um Duathlon e comentários de leitores sumiram em meio a um oceano de “spams” – esta praga da moderna cibernética.

O Duathlon no caso (e duathlon consiste de três etapas: corrida, ciclismo, corrida) é o de Glastonbury, no estado de Connecticut, um dos mais tradicionais do país, organizado pela Hartford Marathon Foundation, que serve como o Campeonato do Nordeste dos Estados Unidos.

Pela terceira vez minha filha Rebecca Werneck Stephenson, que em breve fará 43 anos, foi a vencedora feminina da prova, além de ser ainda a recordista  do percurso.

Quando escrevi acima que acompanhei/participei do duathlon é porque aproveitei para correr uma das etapas, com  5,5 quilômetros, como treino para o triathlon de Cape Cod, em Massachusetts, que estarei disputando no mês que vem.

Minha mulher, Dawn Werneck, disputou a prova em sua totalidade e foi a campeã em sua faixa etária, de 60 a 69 anos.

Não satisfeita, uma parte de minha família que reside em Connecticut (a outra parte reside na Carolina do Sul) participou também do duathlon no sistema “relay”, representada neste caso por meu neto Timothy Werneck Stephenson e meu genro Greg Stephenson. Timothy, de 12 anos, fez a primeira perna, de cinco quilômetros de corrida, e a última perna,  de 5,5 quilômetros de corrida. Meu genro Greg Stephenson fez a perna de ciclismo, com 28 quilômetros.

Meu outro neto residente em Connecticut, David Werneck Stephenson, não participou, porque está em temporada de atletismo em sua escola (ele corre a milha) e amanheceu com uma contusão no tendão de Aquiles.

Minha neta (melhor dizendo, nossa neta) Hannah Werneck Stephenson foi relegada à condição de mera espectadora por um problema de idade: a prova é vedada a menores de 12 anos e ela acaba de fazer dez.

Rebecca foi a 23a. na classificação geral entre homens e mulheres, numa prova com 320 participantes, num dia quente e um percurso com muitas subidas e descidas.

Foi, por sinal, o primeiro dia quente deste ano em Connecticut, um estado que Mark Twain, nele residente, tornou famoso com o dito: “Você não gosta do  tempo aqui? Espere um minuto”.

Realmente, o estado vai de extremamente frio, com nevascas de metros de altura, a muito quente, com chuvas diluvianas, furacões, dias de sol ardente, ventanias e às vezes, como um gostinho especial, tornados. Há de tudo, às vezes no mesmo dia.

Seus trajes precisam variar de esquimó completo no inverno a folha de parreira no verão.

O vencedor geral masculino foi David Demres, com 1:21:19. Ele correu os primeiros cinco quilômetros em 16:51, pedalou os 28 quilômetros em 44:01 e correu os últimos 5,5 quilômetros em 19:28.

O tempo geral de Rebecca foi 1:33:25. Ela correu os primeiros cinco quilômetros em 20:28, pedalou os 28 quilômetros em 48:57 e correu os últimos 5,5 quilômetros em 22:05.

Por motivos  que ignoro, os vencedores, como vocês podem ver na foto, sempre recebem como troféu uma enorme espada. Rebecca já tem três e corre o risco de, transformada em d’Artagnan de saias, ver os filhos duelarem como Três Mosqueteiros.

 

Chamem o Papa

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Bristol (EUA) – Em minha modesta opinião, o papa Francisco deve ser chamado com urgência para acabar com a selvageria no futebol sul-americano, aí incluído o brasileiro, e sobretudo o de sua terra natal, a Argentina.

Afinal, o Sumo Pontífice acabou com as décadas de hostilidade entre americanos e cuabanos.

Conseguiu botar líderes palestinos e judeus rezando juntos. Agora está empenhado em resolver o impasse do estabelecimento da Palestina como Estado.

O homem é fã declarado de futebol.

Se ele não acabar com a irresponsabilidade dos cartolas sul-americanos e a criminalidade das torcidas organizadas no continente, ninguém mais acaba.