O golpe de Lance

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Bristol (EUA) – No momento em que escrevo, a super-badalada Oprah Winfrey chegou com sua equipe em Austin, Texas, onde mora o super-badalado Lance Armstrong. Luz, câmeras, ação. Equipes jornalísticas do mundo inteiro aguardavam plantadas diante da casa desde a madrugada, enquanto os advogados de Armstrong também chegavam e entravam na residência, para ultimar os últimos detalhes da entrevista que, pela expectativa formada em torno dela, deverá abalar o mundo.

Deverá ou deveria. Aposto que não vai abalar e tudo não passa de mais uma encenação deste renomado homem de negócios que também reuniu as qualidades necessárias para ser um fantástico ciclista. Ajudado para tanto pelo esquema de doping que ele mesmo montou, com a cumplicidade de médicos como o italiano Michele Ferrari, patrocinadores como o United States Postal Service e até a Federação Internacional de Ciclismo, a Union Cycliste Internationale.

Enquanto todos se azafamavam, Armstrong calmamente saía (e voltava) pela cerca dos fundos para uma corridinha. Levava a tranquilidade das pessoas que tem a consciência limpa – ou sabem quem é Oprah Winfrey.

Oprah, afinal, é conhecida de outros carnavais. O que ela faz não é jornalismo, mas super-espetáculos lacrimosos e acredito que tudo está preparado para Armstrong confessar um pouquinho de suas muitas culpas, declarar-se profundamente arrependido, pedir uma nova oportunidade e ser abençoado por Oprah, que o apontará ao mundo como mais um exemplo de um pecador que muda seu caminho e se transforma em santo. (Será que Armstrong vai falar em Deus? Todos sabem que ele é ateu, mas Oprah talvez o converta.)

O New York Times desta segunda-feira traz uma reportagem de primeira página mostrando como Armstrong, entre outras coisas, transformou a simpatia generalizada por ter se recuperado de câncer e criado a Livestrong – uma fundação com o objetivo de encorajar e ajudar as vítimas do mal – em mais uma oportunidade de ganho financeiro.

A Livestrong.org é a empresa sem finalidade lucrativa que cuida da fundação, mas, com nome praticamente igual, existe a Livestrong.com, um web site destinado a vender saúde  e boa forma. Além disso, a Fundação conseguia levar grandes empresas a se comprometerem com largas contribuições para sua luta no combate contra o câncer – enquanto, ao mesmo tempo, as empresas concordavam em contratar Armstrong como porta-voz.

Era uma maneira dele faturar, embora a Livestrong.org não  tivesse finalidade lucrativa.

Todos se regozijam com o fato de Armstrong ter vencido o câncer testicular (que não é daqueles de mas difícil tratamento), mas sua luta contra o mal, aliado à fama que já conseguira no mundo do ciclismo, transformou seu nome em uma super-marca. Há agora grandes ciclistas, como houve no passado, mas nenhum deles, nem mesmo Eddy Merckx, nem mesmo Miguel Indurain, conseguiu ter o apelo que Armstrong logrou obter no mundo corporativo.

Será  que a Oprah Winfrey vai investigar ao menos um pouco do muito que se esconde atrás de um gigantesco frontispício chamado Lance Armstrong? Acho que não.

4 comentários em “O golpe de Lance

  1. Só quero ver que acordo ele vai fazer pra não ser preso por perjúrio já que ele jurou num tribunal que nunca usou nada.
    A Marion Jones pegou uma cadeia de leve, mas pegou, pelo mesmo motivo.Já que ele se dopou e enganou a todos por mais de 10 anos, deveria pegar o mesmo tempo de prisão, este picareta, mentiroso do inferno.

  2. Sr. Werneck, eu chego a admitir a cumplicidade do médico Ferrara, mas é difícil acreditar que o USPS e a Federação Internacional de Ciclismo foram coniventes com as práticas que o Armstrong adotou.

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