Descanse em paz, Jaiminho

Bristol (EUA) – Só hoje, conversando pelo telefone com José Rodolfo Eichler, medidor oficial de maratonas da AIMS (Associação de Maratonas Internacionais), me dei conta de que conhecia o médico Jaime Gold, assassinado esta semana na Lagoa Rodrigo de Freitas quando fazia um treino de bicicleta.

Ele era o Jaiminho, figura tranquila e sorridente, sócio da Corja (Corredores do Rio de Janeiro), nosso companheiro em tantas provas nas ruas ou nos treinos nas Paineiras ou na Floresta da Tijuca, ao tempo em que eu morava no Brasil.

Há muitos anos não o via, nem sabia que ainda corria. Pelo que me informam  agora, aderira também ao ciclismo e, suspeito, até fazia triathlons,   já que era um apaixonado pela boa forma física.

Morreu num país que, como leio hoje, sexta-feira, em uma reportagem de primeira página no New York Times, é o recordista mundial de homicídios.

(Eis aí um recorde que nossos dirigentes e cartolas não querem divulgar neste pouco mais de um ano que falta para a Olimpíada, já que continuam garantindo que tudo vai bem na Cidade Maravilhosa.)

Na verdade, tudo vai mal, embora eu até me espante com a afirmativa do New York Times. Será que o Brasil, com 200 milhões de habitantes,  tem mais homicídios do que a Índia e a China, países com, respectivamente, 1 bilhão e cem milhões de habitante e 1 bilhão e 300 milhões de habitantes?

Mas está lá, no New York Times, com o jornal garantindo que a informação é oficial, das Nações Unidas. No ano mais recente em que se registram estatísticas completas, em 2012, o Brasil teve 50.108 homicídios.

De lá para cá, devemos ter superado nossa própria marca. Ninguém segura este país.

Não é de admirar  que o Brasil também seja recordista de mortes pela ação de agentes da polícia.

Um aspecto notável deste último problema é que parece haver no Brasil uma indiferença da população  quanto à execução sumária de criminosos ou supostos criminosos por policiais.

É como se nosso povo, desiludido com a inoperância ou incompetência das autoridades e do Sistema Judicial, visse nos Esquadrões da Morte – ou que outro nome tenham – um meio de ao menos minorar a insegurança em que é obrigado a viver.

Ainda nesta sexta-feira, acabo de  tomar conhecimento de que uma turista chilena foi esfaqueada na Praça Paris, no coração do Rio, à luz do dia.

Sobreviveu e virou mais um número numa estatística quase irrelevante.

Jaiminho não teve esta sorte. Que descanse em paz.

 

Vidraças partidas

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

Bristol (EUA) – Se uma vidraça é partida em uma casa por uma pedrada ou o impacto de uma bola de futebol e ela for imediatamente reparada, um clima de ordem, arrumação e respeito continuará.

Mas se a vidraça não for reparada, breve outras serão partidas e a impressão de descaso vai se alastrar pela rua e pelo bairro. Haverá um incentivo ao vandalismo e do vandalismo passa-se para os crimes de maior gravidade.

Esta foi a tese levantada em 1982 por dois cientistas políticos americanos, James Wilson e George Kelling, e comprovada por experiências feitas em Palo Alto, na Califórnia, e no Bronx, em Nova York, pelo sociólogo Philip Zimbardo.

A tese foi adotada pelo Departamento de Polícia de Nova York alguns anos depois e de lá para cá o índice de criminalidade na cidade caiu consideravelmente. De cidade perigosa, Nova York passou a ser um exemplo de segurança, como podem atestar os muitos turistas brasileiros que a visitam.

Lembrei-me disto ao ler nos jornais brasileiros a notícia do latrocínio cometido contra o médico Jaime Gold por dois ladrões, que o esfaquearam e fugiram com sua bicicleta, quando ele pedalava ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Agora, o governador do Rio de Janeiro está nos jornais discutindo com membros da Ordem dos Advogados do Brasil sobre a segurança do estado e da cidade.

Segundo o governador, a polícia prende mas a Justiça solta e isto leva ao clima de impunidade.

Segundo a OAB, as leis existentes são suficientemente severas e bem aplicadas.

É o tipo da discussão de loucos, em  que ninguém tem razão.

A segurança no Rio de Janeiro, quer na cidade quer no estado, é precariíssima. Aliás, ela faz parte do clima de descaso de toda a administração pública, da qual o governador é integrante.

Um estado e uma cidade em notório estado de abandono, como comprova a poluição de seus muitos corpos d’água a pouco mais de um ano da Olimpíada, são demonstração cabal de  que vidraças, reais e metafóricas, vivem sendo quebradas e ninguém se dá por achado.

E a Justiça brasileira é lenta, ineficiente, imprevisível e corrupta.

Vidraças continuarão a ser partidas, vidas continuarão a ser perdidas e o diálogo de loucos continuará a ocupar espaço nos jornais, mas providências mesmo não serão tomadas.

 

A influência de Suárez

AFP

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Bristol (EUA) – Luis Suárez saiu machucado ao fim do primeiro tempo na derrota do Barcelona para o Bayern de Munique (derrota, como sabem os leitores, sem qualquer importância) e não jogou contra o Atlético de Madrid, partida em que o clube catalão conquistou por antecipação seu título em La Liga.

Agora, o Barcelona tem ainda dois  títulos a disputar: o da Copa del Rey, contra o Athletic Bilbao,  e o mais importante de todos, o da Champions League, contra o Juventus.

Poderá ser o “triplo” e há no atual time do Barcelona um jogador cuja importância talvez não venha sendo suficientemente reconhecida. É dele que estou falando, do uruguaio Luis Suárez, peça extremamente polêmica.

Se estiver recuperado, contra La Juve Luis Suárez estará enfrentando Chiellini, a quem mordeu durante a Copa do Mundo no Brasil e Patrice Evra, que o acusou de racismo quando ambos estavam na Premier League.

Para mim, aquela acusação de Evra nunca chegou a ser comprovada, mas não é disto que quero me ocupar no momento.

O que quero dizer no momento é que, com Luis Suárez, o time do Barcelona alterou muito o seu estilo. Antes, era um time que não tinha um centro-avante e trocava passes infindáveis, à espera de uma distração ou erro da defesa adversária.

Com Suárez, o Barcelona é um time muito mais vertical. Sabe ainda trocar passes, mas passou a ser também um time de contraataque, um time que chega ao gol adversário em jogadas de penetração,  em velocidade.

Luis Suárez custou a se adaptar ao Barcelona – ou o Barcelona demorou a se adaptar a Luis Suárez. Mas, pouco depois do início deste ano, Suárez passou a jogar mais pelo meio, Messi foi para a direita e Neymar ficou onde já estava, na esquerda.

A partir daí o Barcelona se acertou, os gols começaram a sair, não apenas para Messi (que no ano passado também teve uma queda de produção, agora esquecida) como para Suárez e Neymar.

Acima de tudo, o que mais me chama a atenção é que não parece haver entre Messi, Suárez e Neymar – um argentino, um uruguaio e um brasileiro – o menor traço de ciúme ou inveja.

Ninguém parece querer brilhar mais do  que o outro – e isto é fundamental para o Barcelona.

Uma d’Artagnan e seus Três Mosqueteiros.

thumb_DSC01572_1024Bristol (EUA) – Peço perdão aos leitores pela ausência de quase dois dias e pelo fato de  alguns comentários por eles enviados terem desaparecido. É que  fui a uma cidade vizinha acompanhar/participar de um Duathlon e comentários de leitores sumiram em meio a um oceano de “spams” – esta praga da moderna cibernética.

O Duathlon no caso (e duathlon consiste de três etapas: corrida, ciclismo, corrida) é o de Glastonbury, no estado de Connecticut, um dos mais tradicionais do país, organizado pela Hartford Marathon Foundation, que serve como o Campeonato do Nordeste dos Estados Unidos.

Pela terceira vez minha filha Rebecca Werneck Stephenson, que em breve fará 43 anos, foi a vencedora feminina da prova, além de ser ainda a recordista  do percurso.

Quando escrevi acima que acompanhei/participei do duathlon é porque aproveitei para correr uma das etapas, com  5,5 quilômetros, como treino para o triathlon de Cape Cod, em Massachusetts, que estarei disputando no mês que vem.

Minha mulher, Dawn Werneck, disputou a prova em sua totalidade e foi a campeã em sua faixa etária, de 60 a 69 anos.

Não satisfeita, uma parte de minha família que reside em Connecticut (a outra parte reside na Carolina do Sul) participou também do duathlon no sistema “relay”, representada neste caso por meu neto Timothy Werneck Stephenson e meu genro Greg Stephenson. Timothy, de 12 anos, fez a primeira perna, de cinco quilômetros de corrida, e a última perna,  de 5,5 quilômetros de corrida. Meu genro Greg Stephenson fez a perna de ciclismo, com 28 quilômetros.

Meu outro neto residente em Connecticut, David Werneck Stephenson, não participou, porque está em temporada de atletismo em sua escola (ele corre a milha) e amanheceu com uma contusão no tendão de Aquiles.

Minha neta (melhor dizendo, nossa neta) Hannah Werneck Stephenson foi relegada à condição de mera espectadora por um problema de idade: a prova é vedada a menores de 12 anos e ela acaba de fazer dez.

Rebecca foi a 23a. na classificação geral entre homens e mulheres, numa prova com 320 participantes, num dia quente e um percurso com muitas subidas e descidas.

Foi, por sinal, o primeiro dia quente deste ano em Connecticut, um estado que Mark Twain, nele residente, tornou famoso com o dito: “Você não gosta do  tempo aqui? Espere um minuto”.

Realmente, o estado vai de extremamente frio, com nevascas de metros de altura, a muito quente, com chuvas diluvianas, furacões, dias de sol ardente, ventanias e às vezes, como um gostinho especial, tornados. Há de tudo, às vezes no mesmo dia.

Seus trajes precisam variar de esquimó completo no inverno a folha de parreira no verão.

O vencedor geral masculino foi David Demres, com 1:21:19. Ele correu os primeiros cinco quilômetros em 16:51, pedalou os 28 quilômetros em 44:01 e correu os últimos 5,5 quilômetros em 19:28.

O tempo geral de Rebecca foi 1:33:25. Ela correu os primeiros cinco quilômetros em 20:28, pedalou os 28 quilômetros em 48:57 e correu os últimos 5,5 quilômetros em 22:05.

Por motivos  que ignoro, os vencedores, como vocês podem ver na foto, sempre recebem como troféu uma enorme espada. Rebecca já tem três e corre o risco de, transformada em d’Artagnan de saias, ver os filhos duelarem como Três Mosqueteiros.

 

Chamem o Papa

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Bristol (EUA) – Em minha modesta opinião, o papa Francisco deve ser chamado com urgência para acabar com a selvageria no futebol sul-americano, aí incluído o brasileiro, e sobretudo o de sua terra natal, a Argentina.

Afinal, o Sumo Pontífice acabou com as décadas de hostilidade entre americanos e cuabanos.

Conseguiu botar líderes palestinos e judeus rezando juntos. Agora está empenhado em resolver o impasse do estabelecimento da Palestina como Estado.

O homem é fã declarado de futebol.

Se ele não acabar com a irresponsabilidade dos cartolas sul-americanos e a criminalidade das torcidas organizadas no continente, ninguém mais acaba.

 

Ancelotti e Guardiola

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Bristol (EUA) – Podem anotar: o italiano Carlo Ancelotti vai cair como técnico do Real Madrid. Ele mesmo já se mostra conformado com o inevitável, embora diga que gostaria de ficar.

Mas o presidente Florentino Pérez já decretou: a história do Real Madrid exige  títulos, sempre.

Este ano, o Real Madrid nada ganhou com Ancelotti.

É verdade que La Liga não acabou, mas só um milagre tira o título do Barcelona.

Outros  que estão na mira de dirigentes e torcedores do Real Madrid, embora não tão ameaçados: o galês Gareth Bale e o português Cristiano Ronaldo.

Sim, a cotação de Cristiano Ronaldo caiu muito.

Já o catalão Pep Guardiola está firme no Bayern, embora eliminado da Champions League.

Ele deu uma curiosa declaração: “Messi é o melhor de todas as épocas, comparo-o a Pelé”.

Notem aí que não fez referência a Maradona.

E se Guardiola compara Messi a Pelé, fica a pergunta: Messi é o melhor de todos os tempos sózinho ou junto com Pelé?

Outro fato interressante é que Guardiola gostaria muito de ter Neymar no Bayern. Mas o preço…

 

Vitória de Pirlo

AFP

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Bristol (EUA) – Ora, direis, Pirlo foi substituído antes do fim da partida, mas aproveito o comentário de um leitor no “post” abaixo para um jogo de palavras.

A classificação do Juventus de Turim foi uma vitória dele, Pirlo, por saber dosar o  ritmo da partida, tanto quando foi de Alvaro Morata, ex-jogador do Real Madrid, desprezado pelo clube espanhol, mas autor de gols que decidiram a classificação, em Turim quanto em Madrid.

Como foi também uma vitória para Gianluigi Buffon, que estará na final da Champions League em Berlim, onde foi campeão do mundo com a Itália em 2006 – ao lado de Pirlo.

E uma derrota para Cristiano Ronaldo, que passou  todo o segundo tempo sem conseguir dar um único chute a gol.

O futebol italiano vive uma crise, mas a presença de La Juve na final da Champions League depois de tantos anos poderá soprar vida nova na península.

Ao fim, classificação justa do time italiano, que teve duas excelentes oportunidades de gol no segundo tempo (além do feito por Morata), com Marchisio e Pogba, enquanto o Real Madrid ficava mesmo, como verdadeiro perigo, numa cabeçada de Gareth Bale por cima do travessão.

Um ano decepcionante para o Real Madrid e suspeito que Carlo Ancelotti esteja com seus dias contados.

Assim como Gareth Bale. Talvez até Cristiano Ronaldo…

Nada falou mais alto do pânico do Real Madrid no fim da partida do que aquele lateral que Iker Casillas foi cobrar e que acabou revertido para o adversário, por cobrança defeituosa.

Como estamos falando de um time italiano, o gol de Morata me lembrou o de Paolo Rossi em 1982, contra o Brasil.

O terceiro gol, amigos, o terceiro gol.

Foi uma bola alta sobre a área (hoje, cobrança de Pirlo) que a defesa rechaçou (hoje, Casillas, de soco) mas um jogador (agora, Sérgio Ramos, naquela ocasião Junior) se deixou ficar plantado na área.

O resulado em 1982 é que a bola foi a Paolo Rossi e ele marcou. Agora, a bola foi a Pogba que, em condição legal, deu a Morata para marcar.

Nada de novo sob o céu do futebol.

Vitória de Pirro

AFP

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Bristol (EUA) – Neymar poderia ter conseguido um hat-trick e evitado a derrota do Barcelona diante do Bayern de Munique mas, com o gol à disposição, preferiu o passe para Messi e consolidou-se a vitória do time alemão.

Vitória que de nada serviu, a não ser restaurar um pouco do orgulho dos pupilos de Guardiola.

O técnico será certamente criticado por ter repetido a marcação com apenas três zagueiros diante da trinca formada por Messi, Suárez e Neymar.

Mas suas opções eram limitadas.  Fechar-se na defesa e procurar o contra-ataque? Diante de um Barcelona  que na verdade não precisaria atacar?

O Bayern conseguiu um gol com Benatia no primeiro tempo e teve chances para marcar pelo menos mais dois, inclusive naquela finalização de Lewandowski em que a bola não entrou por milímetros.

O desprendimento de Neymar, ao fim da partida, lembrou-me a época em que o Real Madrid exibia uma trinca de ataque formada por Di Stéfano, Puskas e Gento.

Ferenc Puskas, o “Major Galopante”, era ícone do futebol mundial mas sabia que o Real Madrid tinha um dono, Alfredo Di Stéfano.

Puskas contava que, mais de uma vez, poderia ter feito gols mas preferiu passar a bola para Di Stéfano.

Ele deveria saber que o argentino havia sido o fator determinante no encerramento da carreira de Didi no Real Madrid.

Não acredito que seja este o caso no Barcelona, pois o  que mais desperta a atenção é a camaradagem entre Messi, Suárez e Neymar, sem que ninguém queira ser mais estrela do que o outro.

Assim foi que Luis Suárez,  que vinha sendo a maior figura em campo, deu dois gols para Neymar fazer.

Neymar então no finzinho quis dar um gol para Messi, mesmo porque Suárez não estava em campo no segundo tempo, aparentemente para ser poupado.

O segundo gol de Neymar já tinha liquidado  com as esperanças do Bayern.

Antes da partida, Pep Guardiola afirmou que continuará no Bayern, recusando sondagens do Mamchester City.

Mas, no segundo tempo, quando substituiu Müller, chegou a ser vaiado por parte da torcida alemã.

É certo  que o Bayern entrou nestas semi-finais sem peças importantes como Franck Ribéry e Arjen Robben, mas talvez haja gente influente no clube  achando  que  Guardiola foi  teimoso demais ao repetir a mesma marcação com três zagueiros.

Sem Suárez (autor de um sensacional drible sobre Benatia) em campo no segundo tempo e o Barcelona acomodado, o Bayern salvou um pouco de seu orgulho e saiu  com a vitória.

Mas foi uma vitória de Pirro, pois quem estará na final da Champions League é o Barcelona.

Pirro, o grego, já dizia: “Vitórias assim, é melhor esquecê-las”.

 

 

 

O fenômeno Messi

Foto: AFP

Foto: AFP

Bristol (EUA) – Tenho acompanhado o debate entre os leitores sobre as qualidades de Messi e comparações com Pelé.

Devo dizer que considero Messi um gênio do futebol, embora nunca tenha mostrado, pela Seleção da Argentina, o  que mostra pelo Barcelona.

Pelé, ao contrário, foi fenomenal tanto pelo Santos quanto pelo Brasil.

Comparações entre jogadores de épocas diferentes são difíceis. Lembro-me, a a propósito, de como o locutor e comentarisa Luís Mendes respondeu quando lhe perguntaram quem tinha sido melhor, Pelé ou Leônidas.

Luís Mendes respondeu: “Leônidas não foi melhor do que Pelé e Pelé não é melhor do que Leônidas”. Ficou firmemente sentado no muro.

Volta e meio leio também que Zico foi o maior jogador da história do Flamengo, mas para mim Zizinho, apelidado em sua época de “mestre Ziza”, foi melhor do que ele. A diferença é que Zico sempre foi ídolo no Flamengo, enquanto Zizinho teve por lá uma passagem conturbada.

Foto: Gazeta PressPelé por sinal diz que Zizinho foi o maior jogador que viu.

Os defensores hoje tem mais preparo físico do que na época de Pelé. Mas é verdade também que os atacantes da época de Pelé não se beneficiavam dos mesmos métodos de treinamento que beneficiam um atacante moderno como Messi.

Então o que você precisa olhar é a superioridade técnica que um Pelé mostrava sobre os defensores de sua época (como no lance contra a Seleção da Alemanha, enviado pelo leitor Azevedo Lage), em relação à superioridade técnica que Messi mostra  contra os defensores atuais (e, repito, quando joga pelo Barcelona, não pela Seleção da Argentina).

A diferença é em favor de Pelé.

Encerro dizendo que Messi me encanta não apenas por seu futebol como por seu comportamento. Não se atira espetacularmente ao chão, supostamente fulminado por um raio, ao menor contato de um adversário – como Neymar e tantos outros fazem – e, quando marca um gol, não inventa comemorações ridículas, a exemplo de tantos colegas que repelem o abraço dos companheiros e partem na direção das câmeras de televisão, para um repertório ensaiado de dancinhas, requebros, cambalhotas e piruetas.

Mas, nestes dois ítens, Pelé também dava uma boa lição. Vi-o, muitas vezes, em vez de se jogar ao chão, arrastar adversários que o seguravam pela camisa ou pelo calção,  e, em matéria de comemoração, patenteou o salto com o murro no ar, enfático sem ser espalhafatoso.

Ainda outra coisa em que Pelé foi um modelo: nunca vi um jogador mostrar constantemente, em muitos anos de carreira, maior paciência no atendimento de fãs e caçadores de autógrafos em geral.

Que diferença para tantas “celebridades” do atual futebol.

Noite de gala

AFP

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Bristol (EUA) – Quem assistiu à partida desta quarta=feira entre Bayern de Munique e Barcelona foi premiado com um grande espetáculo e uma vitória obtida com três gols da mais alta categoria.

Mesmo derrotado, o Bayern jogou muito bem e teve a coragem de procurar, logo de início, enfrentar o Barcelona de igual para igual, no campo do adversário, dando-se mesmo ao luxo de, durante boa parte do tempo, ter apenas três zagueiros.

Era uma ousadia, três defensores no homem a homem contra o trio composto por Messi, Suárez e Neymar.

Que outro técnico no mundo, além de Pep Guardiola, ousaria tanto?

Se Lewandowski faz o gol no lance que a bola apenas raspou a ponta de sua chuteira, talvez a temeridade de Guardiola fosse premiada.

Mas quando se tem um Lionel Messi no time adversário, deve-se recear um rasgo de gênio a qualquer momento. Ele começou a desmontar o Barcelona depois de receber um ótimo passe de Daniel Alves, que recuperara a bola quando o Bayern tentava sair para o ataque. Chutou com a precisão de uma máquina, trazendo a bola para o pé esquerdo.

Pouco depois, o ponto alto da noite, em que Messi deixou Boateng sentado no chão depois de um sensacional drible dentro da áres. Nem mesmo o mais de 1,90m de altura de Neuer impediu que Messi o cobrisse com imensa categoria, colocando a bola talvez no único espaço disponível.

Desta vez, com o pé direito.

O Bayern procurou um gol que seria muito importante, por ser marcado no campo do adversário, mas um contra-ataque do Barcelona permitiu a Neymar – que vinha muito bem na partida, mas que arriscara a expulsão, ao reclamar desabridamente do juiz e, pouco depois, com um cartão amarelo,  jogar-se dentro da área, em busca de um pênalti – exibir sua categoria. Matou a bola à perfeição e, com ela colada aos pés, teve a tranquilidade para negacear a finalização, enganando Neuer e colocando a bola no fundo das redes.

Derrotado por 3 a 0, ainda assim o Bayern merece elogios. Pagou pela ousadia, diante de um Barcelona em noite de gala.