Nova baixaria

Bristol (EUA) – Este episódio da renúncia de Michael Garcia, o ex-promotor que estava encarregado de investigar as tramoias da FIFA, revela que a entidade se tornou irrecuperável.

Michal Garcia renuncia depois que o Comitê de Apelações da FIFA decidiu, simplesmente, que ele nada tinha a apelar contra uma decisão de seu superior, o alemão Hans-Joachim Eckert, porque a “decisão” de Eckert (a de não publicar na íntegra o relatório de Garcia sobre as tramoias na entidade) não era uma “decisão”, mas uma “opinião”.

Assim, de sofisma em sofisma, a FIFA continua a enrolar o respeitável público.

Michael Garcia poderia ter recorrido à Court of Arbitration for Sport, mas ela não tem na verdade poder sobre a FIFA e nada adiantaria.

O problema da FIFA só pode ser resolvido por seus próprios membros, que são as Federações de Futebol nos diversos países.

É um problema de cultura e, enquanto as federações continuarem a reeleger Sepp Blatter, nada mudará.

Ou melhor, as baixarias mudarão para um nível ainda mais baixo.

A razão do segundo nível

Bristol (EUA) – Carlos Alberto Parreira, ignorando o bom senso que o aconselha a manter-se calado, voltou a se manifestar, desta vez para dizer que o povo brasileiro já esqueceu o 7 a 1.

Não esqueceu nem vai esquecer.

Há três resultados que ficarão sempre na memória nacional: o 2 a 1 de 1950, o 3 a 2 de 1982 e o 7 a 1 de 2014.

Fui testemunha dos três.

Cada um deles marca, à sua maneira, divisores de água no futebol brasileiro.

AFP

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O 3 a 2 de 1982 tem um lugar especial, porque seus reflexos são evidentes até hoje.

Aquela foi uma brilhante Seleção, tão brilhante ou mais do que a de 1970, sepultada numa tarde em que Toninho Cerezo e Júnior cometeram erros incaracterísticos e Dino Zoff fez uma extraordinária defesa nos últimos segundos naquela cabeçada de Oscar.

Logo depois da partida o senhor João Havelange, então Presidente da FIFA,  chamou Telê Santana de “perdedor nato”.

Era uma observação errada, é claro, tanto que Telê depois foi bicampeão mundial de clubes com o São Paulo, mas foi o sinal de partida para a mentalidade que se instalou entre nossos treinadores, a de “futebol de resultados”.

Jogadores grandes e fortes preferencialmente a jogadores de habilidade.

Quanto o jogador tinha de impulsão? Em quantos segundos ele corria os cem metros?

O futebol de “track and field”.

Parreira fez parte desta filosofia.

Enquanto isto, os europeus começaram a preparar jogadores de qualidades técnicas.

Por isto, estamos hoje no segundo nível do futebol mundial. Como disse César Luis Menotti outro dia, entre as grandes seleções, só o Brasil piorou.

Agora, as super bactérias

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Bristol (EUA) – Primeiro foi a reportagem no New York Times com o casal de americanos que foi ao Brasil assistir à Copa do Mundo e voltou com leishmaniose. O rapaz conseguiu se curar, mas a moça ainda sofre com um caso renitente.

Agora, a Fox Sports noticia que o Instituto Osvaldo Cruz descobriu nas águas da Baía de Guanabara –  onde se realizarão as competições olímpicas de iatismo e wind surfing –   super-bactérias, resistentes ao tratamento com anti-bióticos.

A notícia cita a Associated Press e a coordenadora do estudo, Ana Paula D’Alincourt Carvalho Assef.

Esta diz, literalmente, o seguinte: “Como as super bactérias são resistentes à maioria dos medicamentos modernos, os médicos precisarão recorrer a drogas que raramente são usadas, por serem tóxicas ao organismo humano”.

A notícia da Fox Sports vai por aí, falando de matéria fecal nas águas da baía.

Termina por citar Ben Remocker, iatista canadense, em cuja opinião “o caso é grave”.

 

Gebrselassie na política

AFP

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Bristol (EUA) – Haile Gebrselassie, dono de 27 recordes mundiais em pistas e ruas, além de duas medalhas de ouro nos 10.000 metros, nas Olimpíadas de Atlanta e Sydney, é hoje um dos homens mais ricos da Etiópia.

Ao todo, sua carreira atlética já durou 23 anos e,  aos 41 anos de idade, ele diz que pensa em correr ao menos mais uma Maratona antes de se aposentar.

Dizem na Etiópia que Gebrselassie na verdade é mais velho, com 44 ou 45 anos.

Dono de plantações de café, revendedora de automóveis, complexo de hotéis, complexo de cinemas  e acionista em uma mina de ouro, Gebrselassie não precisa mais do esporte.

Se correr mais uma maratona, será apenas para se divertir.

(Mesmo assim aposto que há diretores de corridas dispostos a lhe pagar um bom dinheiro, só para comparecer.)

Agora Gebrselassie diz que pensa em se tornar político.

Acho que ninguém se surpreenderá. No mundo inteiro, astros do  esporte resolvem entrar em política.

Alguns são bem sucedidos, como Sebastian Coe, na Inglaterra, que foi eleito para a Câmara dos Comuns, tornou-se Barão, Chefe da Candidatura de Londres para a Olimpíada de 2012, Chairman do Comitê Organizador da mesma Olimpíada e Vice-Presidente da Federação International de Atletismo, à cuja Presidência  agora pretende candidar-se.

Ou Romário, Deputado Federal no Brasil e no momento Senador.

Gebrselassie diz ter receio de, uma vez político, perder parte de sua popularidade.

O receio é mais do que fundado. Mesmo um político de sucesso, como Romário, não goza hoje da metade da popularidade que tinha como jogador.

Lição para a NBA

AFP

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Bristol (EUA) – Volta e meio leio gente mal informada no Brasil insistir na tolice de que devemos acabar com o Brasileirão em pontos corridos, com  subida e descida, e seguir o exemplo da NBA, onde tal coisa não existe.

De saída, ignoram que os dois sistemas – campeonato em pontos corridos e copas em mata-mata – podem coexistir, embora sejam diferentes.

Mas agora seria interessante que lessem um  artigo publicado neste sábado, no New York Times, que, em longo arrazoado, diz que a melhor coisa para a NBA seria adotar o formato de subida e descida “seguido no soccer europeu” para seus clubes.

Para haver subida e descida é claro que tem que haver pontos corridos.

Ao final da temporada da NBA os times com menos pontos seriam rebaixados para divisões inferiores.

O artigo diz, literalmente, o seguinte: “A temporada regular melhoraria imensamente, como os campeonatos europeus de futebol provam todos os anos. No momento na NBA as partidas em março ou abril pouco decidem além de estabelecer se um time será o número cinco ou número seis na pré-classificação para a pós-temporada”.

O artigo diz que a NBA “é um monopólio” em que os times sabem que jamais serão rebaixados e muitas vezes preferem perder para  ter preferência no “draft”  para a próxima temporada. O draft é a seleção ou recrutamento de jogadores.

Isto, por exemplo, é que parece que o Philadelphia 76ers já começou a fazer este ano.

Quem  quiser pode ler o  artigo inteiro, que em um de seus dois títulos, diz simplesmente o seguinte: “Soccer shows how NBA could make losing hurt”. Como tornar a derrota uma coisa desagradável.

O título principal diz mais ou menos a mesma coisa: “How the NBA could make losing hurt”.

Assim vai mal

Bristol (EUA) A Olimpíada da NBC, a ser realizada em 2016 no Rio de Janeiro, continua a merecer destaque negativo na imprensa internacional.

Nos últimos dias, como deve ter sido fartamente noticiado aí no Brasil, houve o assalto a duas iatistas inglesas, Hannah Mills e Saskia Clark, que conquistaram a medalha de prata na classe 470 na Olimpíada de Londres, em 2012.

Elas estão ou estavam no Rio por duas semanas, para treinar,  e, ao caminharem de volta ao hotel, foram assaltadas por dois homens armados de facas que as empurraram e agarraram o que carregavam. Não foi muito, mas levaram seus uniformes de licra.

O iatismo já vinha recebendo notícias desfavoráveis por causa da poluição da Baía de Guanabara. O noticiário sobre criminalidade não ajudará em nada a atrair turistas estrangeiros ao Rio.

Por que existe a criminalidade? As causas são óbvias e antigas:

1 – Injusta distribuição de renda.

2 –  Clima de corrupção,  que começa na cervejinha ao guarda da esquina e vai até os mais altos escalões da República.

3 – Consumo crescente e tráfico crescente de drogas.

Não há nenhuma esperança de que tais problemas sejam resolvidos até 2016.

Sem falar na poluição da baía.

Piratas em águas traiçoeiras

Foto: SEBASTIEN BOZON/AFP

Foto: SEBASTIEN BOZON/AFP

Bristol (EUA) – Por que a FIFA, o Comitê Olímpico Internacional, a Federação Internacional de Vôlei e tantas outras organizações esportivas têm sede na Suíça?

Segundo Mark Pieth, que chefiou uma investigação de corrupção na FIFA, é porque o simpático país alpino (no  qual ele por sinal nasceu), tem uma legislação que o torna um “paraíso de piratas”, um  porto seguro.

Ou tornava, pelo menos no campo esportivo, pois uma lei foi aprovada nesta sexta-feira que permite mais escrutínio de contas bancárias de federações internacionais esportivas sediadas no país – e de seus dirigentes.

Boas notícias. Há algum tempo, segundo os leitores certamente se lembram, vimos que os senhores Havelange e Ricardo Teixeira, embora forçados a abandonar seus cargos na FIFA, não podiam ser processados porque a legislação suíça não punia o suborno a dirigentes esportivos.

Aliás, não punem ainda, mas novas leis estão já a caminho.

Mas as  notícias dando conta de maior transparência em transações bancárias na Suíça já não serão tão boas para, entre outros, os senhores Sepp Blatter, Thomas Bach, presidente do COI, e Ary  Graça, o brasileiro que preside a Federação Internacional de Vôlei.

Cavalheiro, este último, que, conforme noticiam os jornais brasileiros, está sendo obrigado a se explicar no rumoroso caso do cancelamento do patrocínio do Banco do Brasil ao vôlei brasileiro, por gestão temerária.

O Presidente do COI se declarou satisfeito com a nova legislação.

Terá sido sincero? Afinal, o COI também já passou por diversas situações que dificilmente podem ser explicadas à luz da ética.

Há muito tempo a Suíça serve de refúgio a contas secretas de políticos e dirigentes esportivos pelo mundo afora.

Talvez novos tempos estejam chegando.

Bons para a moralidade, ruins para os piratas.

 

Diáspora e incompetência

Foto: Josep Lago/AFP

Foto: Josep Lago/AFP

Bristol (EUA) – O prestígio do futebol brasileiro pode ter ido abalado com as derrotas para Alemanha e Holanda na última Copa do Mundo, mas nossos jogadores continuam a aparecer em grande número em todas as partes do mundo, sobretudo no principal mercado, que é o europeu.

Uma estatística divulgada hoje pelo jornal inglês The Guardian mostra que o único país que teve mais jogadores na fase eliminatória, recentemente encerrada, da Champions League, foi a Espanha.

A Espanha teve 75 jogadores, contra 68 do Brasil.

Embora contando como espanhol, Diego Costa na verdade é brasileiro. Há outros brasileiros “absorvidos” por outros países (como o “português” Pepe), mas mesmo assim os números oficiais são impressionantes.

Depois do Brasil aparece a Alemanha com 51 jogadores, França com 37, Portugal com 34, Itália com 26, Argentina com 24, Holanda com 22, Inglaterra com 21, Bélgica com 19,  Rússia idem e assim por diante.

Quer dizer, países de ligas badaladíssimas que são vistas pela televisão no mundo inteiro, como a Inglaterra, colocam muito menos jogadores do que o Brasil na principal competição inter-clubes do planeta.

Competição disputada num continente estranho ao nosso.

Se atentarmos para o tempo em que os jogadores efetivamente estiveram em campo, os números são ainda mais impressionantes.

O Brasil aparece em primeiro lugar, com 377 horas e 39 minutos,  enquanto a Espanha, segunda colocada, vem com 365 horas e 33 minutos.

Se há um libelo mais alto contra a incompetência dos cartolas brasileiros, ignoro.

Coisa de loucos

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Técnico Tite deve voltar ganhando o mesmo salário que tinha quando deixou o Corinthians

Bristol (EUA) – Enquanto vivem a pedir perdão de dívidas e se mostram incapazes de se organizarem em torno de propostas sensatas de administração, os clubes brasileiros continuam  pagando aos treinadores em ação no país salários absolutamente imerecidos.

Que técnico de futebol no Brasil merece ganhar R$ 700 mil por mês?

Nossos  treinadores não são respeitados no futebol internacional. Basta ver o que se passa nos diversos campeonatos europeus, cheios de técnicos argentinos, chilenos, uruguaios e por aí vai, já para não falar dos próprios europeus – ingleses na Espanha, espanhóis  na Alemanha, portugueses na Suíça, etc.

Os técnicos brasileiros que tentaram a sorte no exterior, como Felipão, Parreira, Vanderlei Luxemburgo, deram com os burros n’água. Em sua breve passagem pelo Real Madrid, Vanderlei Luxemburgo foi ridiculamente eleito o “técnico mais bem vestido” e, sem seguida, demitido por incompetência.

Mas agora leio na imprensa brasileira que o Corinthians vai pagar R$ 700 mil mensais a Tite, que Manos Menezes recebia R$ 640 mil e que no Cruzeiro Marcelo Oliveira foi aumentado para R$ 600 mil.

Enquanto isto, o Fluminense perde seu patrocinador e a média de público nos jogos no país continua baixíssima, inferior, por exemplo, à dos Estados Unidos – onde o Futebol Americano, o Basquete, o Beisebol e o Hóquei no Gelo são bem mais populares do que o que eles chamam de “soccer”.

E, enquanto isto, congressistas fazem propostas indecorosas para “parcelar” – melhor dizendo, perdoar – as dívidas dos clubes.

As eternas dívidas, pois nossos clubes nunca se endireitam, nem as pagam.

Mas oferecem rios de dinheiro a nossos técnicos. E cartolas continuam aparecendo para assumir “cargos de sacrifício” na presidência dos clubes.

Correndo na Pampulha

Foto: Sérgio Shibuya/MBraga Comunicação

Foto: Sérgio Shibuya/MBraga Comunicação

Bristol (EUA) – De meu observador pessoal e plenipotenciário para corridas de rua no Brasil, Rafael Proença, recebo o seguinte relatório sobre a recente Volta da Pampulha. Ele a correu com sacrifício porque, por falta de tempo, tem treinado pouco.

 

“Ando meio sumido pois tem me faltado tempo. Espero que tudo esteja bem por aí.

No domingo corri pela quarta vez a Volta Internacional da Pampulha, em Belo Horizonte. Pessoamente, a Pampulha é uma prova sensacional, disputada num lugar agradável e com boa presença de público, embora desde 2011 esta tenha sido a edição com menos pessoas incentivando os atletas nas ruas. Devido à minha falta de tempo, fiz uma corrida dentro do possível, conservadora, e o tempo de 1h32 – meu pior já registrado na Pampulha – acabou não sendo de todo ruim.

A região da lagoa é contornada por grandes ladeiras, o que faz com que haja a formação de uma ilha de calor e reduza bastante a circulação de vento, favorecendo o clima abafado. A organização da Yescom manteve o nível apenas razoável de sempre, desde o “kit”, sem grandes cortesias aos atletas, até os seis postos de hidratação ao longo do percurso de 18 km – nos 4º, 7º, 10º, 12º, 14º e 16º quilômetros. Houve ainda um posto de hidratação com bebida esportiva em sacolés, o que facilita a ingestão, aproximadamente no meio da corrida.

Apesar do dia nublado na Pampulha, não foram muitos os que se aventuraram às ruas para acompanhar a passagem dos atletas. Até mesmo o tradicional banho de mangueira que alguns moradores da região ofereciam aos atletas como forma de amenizar o calor não apareceu esse ano. Em 2013, já havia notado a redução de público ao longo da prova. A Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão da Volta da Pampulha, deveria investir mais na popularização desta que é uma das maiores provas de rua do Brasil. No entanto, a mesma dedica apenas alguns minutos a ela no seu programa esportivo de domingo de manhã. Por sua importância, a Pampulha deveria ser transmitida ao vivo para todo Brasil.

No dia 31 estarei em São Paulo na 90ª edição da São Silvestre. Lembro que o amigo falou que pensava em corrê-la. Virá?”

Agradeço ao Rafael por suas observações, importantes para qualquer organização de prova de rua porque refletem a experiência de quem está lá dentro, no caldeirão.

Espero apenas que a Yescom e os demais organizadores de corrida no Brasil tenham o necessário espírito esportivo para aprender com as críticas, observações e, muitas vezes, elogios.

Quanto à São Silvestre, informo ao caro amigo Rafael Proença que infelizmente não irei disputá-la. Disseram-me que iam me convidar, a mim e à mulher, que já a disputamos no passado, por ser uma ocasião solene, na passagem da 90a. edição, mas não convidaram. Quem sabe, fica para a edição do centenário, quando terei 87 anos.

Já estou treinando.

Dia 1 de janeiro, por sinal, já temos agendada uma corrida aqui mesmo em Connecticut, a Chilly Chilly Run.