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08/02/2005

Por Marcos Guedes, especial para GE.Net

Casemiro Mior chega da Europa trazendo na bagagem, além da experiência de dirigir o Nacional da Ilha da Madeira por quase dois anos, uma enorme admiração pelo colega Luiz Felipe Scolari. Amigo do treinador da seleção portuguesa, o brasileiro agradece a ajuda que recebeu do pentacampeão e garante: "Dá para dividir a era pré-Felipão da pós-Felipão em Portugal".

Padrinho à parte, Mior quer conduzir o Furacão a uma boa campanha na Libertadores 2005. Enquadrado no perfil desenhado pela diretoria, ele chega ao comando do atual vice-campeão brasileiro "pelo desafio de dirigir um clube grande". Em seus 15 anos de carreira de treinador, o homem de 47 passou apenas por pequenas equipes do sul do Brasil e países como Venezuela, Hong Kong e Portugal.

Embora não deixe de lamentar, o técnico encara com naturalidade a perda dos principais jogadores na campanha do Campeonato Brasileiro. "Futebol é um negócio e não há muito o que fazer", explica. Por telefone, ele falou sobre esses e outros assuntos à reportagem da Gazeta Esportiva.Net. Confira a entrevista:

Gazeta Esportiva.Net: Casemiro, você ainda é pouco conhecido no cenário do futebol nacional. Conte um pouco da sua experiência na carreira.
Casemiro Mior:
Já tenho uma experiência grande como treinador. No Brasil, trabalhei mais no sul mesmo, em equipes como o Veranópolis e o XV de Campo Bom. Em 1996, apareceu, através do Brunoro (José Carlos, à época diretor de esportes da Parmalat), a oportunidade de trabalhar no time da empresa na Venezuela, onde fiquei um ano. Anos depois, passei quatro temporadas em Hong Kong e cheguei a dirigir a seleção olímpica. Nos últimos 20 meses, estava no futebol português.

GE.Net: Como foi sua passagem por Portugal?
CM:
Cheguei ao Nacional (da Ilha da Madeira) por indicação do Felipão. O técnico do time foi para o Sporting, a vaga foi aberta e eles me convidaram. A passagem foi muito boa. Apesar de estar na primeira divisão há algum tempo, o time nunca havia conseguido brigar pelas primeiras posições. A melhor classificação deles era a de 1989, sob o comando do Paulo Autuori, quando eles ficaram com o décimo lugar. No ano passado, ficamos em quarto e conseguimos a classificação para a Copa da Uefa.

GE.Net: O que te fez aceitar a proposta do Atlético para voltar?
CM:
O desafio de vir para um clube grande. Por mais que eu tivesse um bom ambiente e o contrato em vigor lá, não podia desperdiçar a chance de vir para o meu país, para um grande clube e ainda disputar a Libertadores. Não que o dinheiro não seja bom, mas não foi a parte financeira que pesou. Eu vim por acreditar numa grande organização, que tem crescido, tem suas diretrizes, um líder, que é o Petraglia, e toda uma direção por trás.

GE.Net: O Fleury comentou que você ficou satisfeito com a estrutura do Atlético. Ela é realmente acima da média?
CM:
Eu tenho certa experiência, conheço estruturas como a do Grêmio e do Inter, e posso dizer: aqui é acima de qualquer expectativa. O CT é muito bom, o estádio é moderno, bonito, prático. Isso tudo mostra o quanto o clube cresceu nos últimos anos.

GE.Net: Dá para comparar com o que você viu na Europa?
CM:
É diferente porque o clube no qual eu estava não tem essa dimensão. Até por ser localizado em uma ilha, tinha dificuldades de espaço. Para você ter uma idéia, o estádio tem capacidade para apenas três mil pessoas e, na Copa da Uefa, tínhamos de mandar os jogos no do Marítimo (Estádio dos Barreiros). Agora, é claro que clubes como Porto, Benfica e Sporting têm mais condições.

GE.Net: O Atlético perdeu jogadores-chave depois do Campeonato Brasileiro. Como você vê o time para a disputa da Copa Libertadores?
CM:
Pelo sucesso que o time atingiu no ano passado, acabou despertando o interesse de clubes do Brasil e do exterior. Futebol é um negócio, a oferta/procura é muito grande e não há muito o que fazer. A equipe é bem diferente da do Brasileiro, mais da metade da equipe titular saiu, mas a direção está empenhada em repor essas peças com qualidade. Vamos procurar montar uma nova equipe e fazer um bom trabalho.

GE.Net: Como a torcida reagiu à perda de jogadores como Washington e Jádson?
CM:
A torcida, é claro, sentiu a saída dos jogadores mais ligados ao clube. Sentiu a perda do Washington, que era o goleador e, principalmente, a saída do Jádson e do Ivan, que eram muito ligados ao Atlético. Mas não tem jeito. Como eu falei, o futebol é um negócio hoje em dia.

GE.Net: E os garotos do Atlético? Têm futuro?
CM:
Sim, não resta dúvida. Temos observado o Fernandinho e o Evandro, que estão na seleção sub-20, fazendo um bom trabalho. Temos também jogadores em outras seleções de base, como o Ricardinho. Esses atletas se juntarão a outros, já afirmados, como é o caso do Dagoberto, e esperamos que a mistura dê resultado.

GE.Net: Você considera o time inexperiente para a disputa da Libertadores?
CM:
Nós também temos jogadores experientes, como o Diego, o Rogério (Corrêa) e o Cocito. Acho que a equipe não é tão inexperiente assim.

GE.Net: O Atlético foi campeão brasileiro em 2001, mas foi muito mal na Libertadores do ano seguinte. Você acha que o time aprendeu com aquela campanha?
CM:
A equipe atual é diferente daquela, apenas alguns atletas estavam aqui em 2002, mas a nível de clube, acho que houve um aprendizado. O mais importante é perceber que a Libertadores é uma competição diferente. Os brasileiros precisam aprender a encarar essa competição como fazem os outros sul-americanos.

GE.Net: A receita, então, é dar total prioridade à Libertadores?
CM:
De certa forma, sim. Vamos priorizar e colocar todo o nosso arsenal nesse campeonato para que possamos jogar com força máxima.

GE.Net: Mudando um pouco de assunto, Casemiro, você esteve em Portugal por um bom tempo. Como a presença do Felipão no comando da seleção é encarada por lá?
CM:
Não posso dizer que ele seja uma unanimidade. Mas, com certeza, ele será o treinador de mais sucesso da história da seleção portuguesa. A Eurocopa contribuiu muito para isso, o carinho e o respeito que ele conquistou no país são realmente impressionantes. Acho que dá para fazer uma divisão entre a era pré-Felipão e a era pós-Felipão em Portugal.

GE.Net: Você é amigo do Felipão?
CM:
Sim, me considero amigo dele. É uma pessoa que me ajudou bastante.

GE.Net: E a chegada do Wanderley Luxemburgo no Real Madrid? Pode abrir ainda mais as portas para os treinadores brasileiros na Europa?
CM:
Tenho certeza que sim. O Felipão é um dos nomes a nível de seleção européia e o Wanderley no Real vai abrir muitas portas. Antes, o mercado só era aberto para técnicos brasileiros na Árabia e no Oriente Médio, e não em um campo como o do futebol europeu. O trabalho que eu fiz em Portugal, por que não, também pode ajudar.

GE.Net: Você pretende voltar para o futebol europeu um dia?
CM:
Só Deus sabe. Quem sabe eu não possa voltar depois de conquistar a Libertadores e consiga abrir mais portas?

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