| Por Felipe Held,
especial para Gazeta Esportiva.Net
Desacreditado no Brasil, apesar de toda a confiança
passada por Emerson Leão, o goleiro Doni vem provando
com a camisa da Roma que a aposta do atual chefe corintiano
não era mero blefe. Goleiro menos vazado do Campeonato
Italiano, superou a desconfiança que cercou sua transferência
do Juventude para o ex-time de Falcão e é peça fundamental
na equipe do técnico Luciano Spalletti.
Em boa fase e muito mais maduro, o goleiro já foi sondado
pelos dirigentes italianos para defender a seleção nacional,
mas vê com otimismo a possibilidade de ter o bom momento
reconhecido por Dunga e vestir a camisa verde e amarela
em um futuro próximo.
Em entrevista exclusiva para a Gazeta Esportiva.Net,
o ex-jogador de Corinthians, Santos e Cruzeiro fala
sobre as dificuldades que passou no futebol brasileiro,
dos erros que cometeu e sobre o futuro. Voltar ao país
não passa pela carreira do jogador. Aos 27 anos, Doni
sonha em se firmar na Europa e pendurar as chuteiras
no Velho Continente, embora não tenha mágoas de sua
passagem no Brasil.
“Vendo hoje, acho que tudo valeu a pena. Os bons momentos
serviram e os maus também, porque agora eu tenho uma
cabeça boa pra tocar a minha vida. Aconteceu tudo o
que tinha que acontecer”, comentou o goleiro, que diz
estar realizado em ‘um dos maiores times do mundo’.
Ainda que esteja a viver o melhor momento da carreira,
Doni faz um balanço da curta trajetória nos gramados
tupiniquins. “Como todo mundo fala, ‘é preciso apanhar
para aprender’. Fiz muitas coisas que não deveria ter
feito, até por causa da minha idade. Mudando de clube
também, como eu já falei para outros jornalistas. O
meu erro maior no Brasil foi ter saído do Corinthians
para ir pro Santos”, confessou, no bate-papo com a GE.Net.
| Foto: Divulgação |
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Doni pensa em carreira longa na Itália
e descarta defender outro país
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Gazeta Esportiva.Net: Aqui no Brasil, você não conseguiu
se firmar nas equipes em que jogou e teve inclusive
a sua qualidade questionada. No entanto, você foi para
a Roma e hoje é um dos destaques da equipe. Por que
você acha que isso aconteceu, visto que, teoricamente,
o Campeonato Italiano é de uma qualidade superior ao
Brasileiro?
Doni: Tudo tem muita ligação com a minha trajetória
no futebol. Com 21 anos, eu já jogava no Corinthians.
Acho que goleiro precisa de experiência para poder se
firmar. Quando cheguei na Roma, me adaptei bem, já tinha
uma certa idade e já tinha passado por muitas coisas
no Brasil. Foi um ponto fundamental. O futebol brasileiro
é muito ofensivo, tanto é que os goleiros brasileiros,
jogando no Brasil, podem se destacar numa partida em
que acabam levando dois ou três gols. O Italiano é um
campeonato forte, as equipes pensam muito em tática,
técnica... Acabei me adaptando bem e rápido. A experiência
que adquiri me fez chegar à Itália com uma cabeça diferente,
querendo dar uma mudada na minha carreira.
GE.Net: Você acha que cometeu erros em sua
passagem pelo futebol brasileiro?
Doni: Como mundo fala, ‘é preciso apanhar para
aprender’. É claro que cometi alguns erros, talvez até
profissionalmente. Fiz muitas coisas que não deveria
ter feito, até por causa da minha idade. Mudando de
clube também, como eu já falei para outros jornalistas.
O meu erro maior no Brasil foi ter saído do Corinthians
para ir pro Santos. Antes da transferência, tinha conseguido
três títulos e estava numa boa fase (nota da redação:
pelo Corinthians, Doni foi campeão do Torneio Rio-São
Paulo e da Copa do Brasil, em 2002, e do Campeonato
Paulista, em 2003). A minha ida pro Santos foi em
um momento errado, derrubou um pouco a minha carreira.
Foi um conjunto de coisas que fizeram a minha passagem
no Brasil não ter sido tão boa como vem sendo aqui.
GE.Net: No entanto, você também foi muito
elogiado pelo Émerson Leão quando trabalharam juntos
no Santos e no Cruzeiro. Ele foi importante na sua carreira?
Doni: O Leão e o Valdir de Moraes me
elogiavam muito, me ajudaram muito na minha carreira,
inclusive me dando alguns conselhos. Ele é um grande
treinador, e o admiro muito. Sempre torço pro time que
ele comanda; hoje ele está no Corinthians e eu torço
em dose dupla. Se você ouve pessoas como eles e outros
grandes treinadores e ex-goleiros falando bem de você,
é porque está num bom caminho e tem qualidade. Caso
contrário, elas também não falariam nada.
GE.Net: E quanto ao Antônio Carlos? Vocês também
são bastante amigos...
Doni: O Antônio é um cara experiente
no futebol, já passou por muita coisa. Hoje, falo que
ele é um ‘treinador-jogador’, que entende muito de futebol
e ainda está jogando. É um amigo, que me ajudou muito.
É muito bom ouvir coisas boas partindo dele, que até
hoje, com 37 anos, é um grande jogador.
GE.Net: Sua contratação pela Roma surpreendeu
todo mundo. Como foi essa transação?
Doni: Quando eu estava no Juventude,
fui indicado pelo próprio Antônio Carlos para os diretores
do clube italiano (na época, Doni e Antônio Carlos
defendiam o Juventude). Eles me avaliaram por meio
de DVDs, gostaram, o treinador se interessou por mim
e me fez uma proposta. Na época, faltavam 15 dias pro
mercado europeu (de agosto de 2005) se fechar,
mas também faltava pouca coisa pro meu passaporte italiano
sair. Fui apresentado no último dia que os clubes tinham
para apresentar jogadores.
GE.Net: Você sofreu algum tipo de ‘preconceito’
quando chegou aí por ser um goleiro brasileiro?
Doni: Ninguém me conhecia. Aqui, os
torcedores só conhecem os jogadores brasileiros que
jogam na seleção – se você não tem passagens pela seleção,
não é conhecido. Houve uma desconfiança quando eu cheguei,
porque antes só o Taffarel e o Dida já haviam jogado
aqui. Cheguei na mesma época em que o Júlio César, que
não teve um bom começo na Inter de Milão. No começo
foi difícil, mas deu tudo certo.
GE.Net: E isso vem ajudando a abrir o mercado
de goleiros brasileiros?
Doni: Hoje, a imagem dos goleiros brasileiros
mudou bastante. Antes, ninguém queria. Depois que o
Dida abriu as portas pra gente, você vê: além de mim,
também tem o Gomes no PSV, o Hélton no Porto, o Júlio
César na Inter, o Moretto no Benfica... O mercado está
se abrindo, graças ao Taffarel e ao Dida. As dificuldades
que eu tive no começo, outros goleiros não encontrarão
quando vierem pra cá. Hoje, vários empresários daqui
me ligam falando que estão indo ao Brasil para observar
goleiros... isso era raro, praticamente impossível,
e hoje já vem acontecendo.
GE.Net: Nota-se pela Roma, que, além de você,
também tem o Júlio Sérgio...
Doni: Hoje ele é terceiro goleiro,
atrás do (Giancarlo) Curci. O Júlio vem treinando
bem, já há quase sete meses. Eu já tinha trabalhado
com ele no Santos e no Botafogo de Ribeirão Preto, quando
éramos juvenis. No começo, ajudei-o bastante nas traduções,
mas hoje ele está muito bem adaptado e já se sente em
casa.
GE.Net: E com os outros brasileiros do elenco,
como é o seu relacionamento?
Doni: Temos uma relação boa. Além do Mancini
e do Taddei, tinha outro zagueiro brasileiro aqui, era
o Rodrigo Defendi. Ele veio do Tottenham, ficou seis
meses aqui e agora está sendo emprestado a outro clube.
Mas é legal que tenha outros brasileiros, porque podemos
nos unir até mesmo fora de campo, por estarmos em outro
país. Isso ajuda, até porque o Mancini vem jogando bem,
o Taddei é o xodó da torcida... É bom pro mercado brasileiro.
GE.Net: Como você avalia o seu desempenho na
Roma?
Doni: Vem sendo bom. Quando cheguei, assinei
um contrato de dez meses. Comecei como terceiro goleiro,
mas em duas semanas eu já fui relacionado para o banco
de reservas, em um mês eu fiz meu primeiro jogo, e em
dois mese já era titular. Na época, o time não estava
bem, mas dei sorte de entrar e time e eu crescermos
juntos. Acabamos fazendo uma bela campanha. Na época,
conseguimos aquela série de 11 jogos sem derrota. Nesta
temporada, venho bem. Joguei todos os jogos da Série
A e da Champions League e sofri poucos gols.
O time também vem bem, é um conjunto. Creio que estou
fazendo um bom trabalho, ainda mais este ano, porque
estou mais bem adaptado. A cada jogo que passa, meu
desempenho vem melhorando bastante.
GE.Net: O Wendel (preparador de goleiros da
seleção) andou falando que você poderia ter chances
com o Dunga, e na Itália também foi cogitada a sua presença
na seleção brasileira. Quais as suas expectativas?
Doni: A minha expectativa é boa, até porque
eu venho tendo um bom desempenho aqui na Roma; venho
jogando bem há um ano e meio. Depois de o Wendel ter
citado meu nome em algumas entrevistas, a minha esperança
aumentou. Estou procurando fazer bem o meu trabalho
e espero uma oportunidade. De repente, pode acontecer
alguma coisa na próxima convocação. A expectativa é
grande, acho que a seleção nunca esteve tão perto como
agora. O Dunga é um treinador de cabeça aberta, que
vem dando oportunidade a todos. Isso dá mais motivação
pra trabalhar.
GE.Net: E caso você não seja
convocado em breve? Por já estar garantido na equipe
da Roma, ter a confiança da torcida e o passaporte italiano,
você já pensou em se naturalizar e defender a seleção
italiana?
Doni: Os jornalistas daqui já me fizeram
essa pergunta; a imprensa local até cogitou essa possibilidade,
mas não é verdade. A minha idéia de ir para a seleção
brasileira. Se eu não for convocado, não tem problema.
Há outros jogadores que defenderiam a seleção de outro
país, cada um é cada um, mas ou eu defendo a brasileira
ou não defendo nenhuma. Gosto da Itália, mas, no meu
ponto de vista, só é legal jogar pela seleção aquele
jogador que nasceu no país e foi criado ali. Minha vontade
é a seleção brasileira, mas tudo continua como está
no caso de eu não ser convocado.
GE.Net: E voltar a jogar no Brasil? Você deixaria
a Itália se pintasse alguma proposta muito boa por aqui?
Ou então no futuro, perto do fim da sua carreira...
Doni: Hoje eu tenho 27 anos. Aqui na Itália,
você vai encontrar goleiros jogando com 37, 38 anos...
tem até quem jogue até os 41. Por aqui ter esse mercado
tão longo pro goleiro, eu pretendo ficar por aqui mesmo
e posso alongar a minha carreira. Vendo a minha situação
hoje, não tenho intenção de voltar a jogar no Brasil.
Digo isso hoje, mas daqui a cinco ou seis anos, posso
ter outro pensamento.
GE.Net: Você guarda alguma má lembrança do
futebol brasileiro?
Doni: Tive bons e maus momentos no Brasil.
Tive passagens boas no Botafogo e no Corinthians, uma
fase ruim no Santos e uma passagem legal pelo Juventude,
onde eu gostei de jogar. Não existe nenhum fato que
fez com que eu não estivesse jogando aí até hoje. No
final, deu tudo certo. Estou num grande clube da Europa
e do mundo. Vendo hoje, acho que tudo valeu a pena.
Os bons momentos serviram e os maus também, porque agora
eu tenho uma cabeça boa pra tocar a minha vida. Aconteceu
tudo o que tinha que acontecer. Estou muito feliz aqui,
profissionalmente e pessoalmente.
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