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02/01/2007
Montagem sobre fotos Gazeta Press
Por Felipe Held, especial para Gazeta Esportiva.Net

Desacreditado no Brasil, apesar de toda a confiança passada por Emerson Leão, o goleiro Doni vem provando com a camisa da Roma que a aposta do atual chefe corintiano não era mero blefe. Goleiro menos vazado do Campeonato Italiano, superou a desconfiança que cercou sua transferência do Juventude para o ex-time de Falcão e é peça fundamental na equipe do técnico Luciano Spalletti.

Em boa fase e muito mais maduro, o goleiro já foi sondado pelos dirigentes italianos para defender a seleção nacional, mas vê com otimismo a possibilidade de ter o bom momento reconhecido por Dunga e vestir a camisa verde e amarela em um futuro próximo.

Em entrevista exclusiva para a Gazeta Esportiva.Net, o ex-jogador de Corinthians, Santos e Cruzeiro fala sobre as dificuldades que passou no futebol brasileiro, dos erros que cometeu e sobre o futuro. Voltar ao país não passa pela carreira do jogador. Aos 27 anos, Doni sonha em se firmar na Europa e pendurar as chuteiras no Velho Continente, embora não tenha mágoas de sua passagem no Brasil.

“Vendo hoje, acho que tudo valeu a pena. Os bons momentos serviram e os maus também, porque agora eu tenho uma cabeça boa pra tocar a minha vida. Aconteceu tudo o que tinha que acontecer”, comentou o goleiro, que diz estar realizado em ‘um dos maiores times do mundo’.

Ainda que esteja a viver o melhor momento da carreira, Doni faz um balanço da curta trajetória nos gramados tupiniquins. “Como todo mundo fala, ‘é preciso apanhar para aprender’. Fiz muitas coisas que não deveria ter feito, até por causa da minha idade. Mudando de clube também, como eu já falei para outros jornalistas. O meu erro maior no Brasil foi ter saído do Corinthians para ir pro Santos”, confessou, no bate-papo com a GE.Net.
Foto: Divulgação
Elano

Doni pensa em carreira longa na Itália e descarta defender outro país


Gazeta Esportiva.Net: Aqui no Brasil, você não conseguiu se firmar nas equipes em que jogou e teve inclusive a sua qualidade questionada. No entanto, você foi para a Roma e hoje é um dos destaques da equipe. Por que você acha que isso aconteceu, visto que, teoricamente, o Campeonato Italiano é de uma qualidade superior ao Brasileiro?

Doni:
Tudo tem muita ligação com a minha trajetória no futebol. Com 21 anos, eu já jogava no Corinthians. Acho que goleiro precisa de experiência para poder se firmar. Quando cheguei na Roma, me adaptei bem, já tinha uma certa idade e já tinha passado por muitas coisas no Brasil. Foi um ponto fundamental. O futebol brasileiro é muito ofensivo, tanto é que os goleiros brasileiros, jogando no Brasil, podem se destacar numa partida em que acabam levando dois ou três gols. O Italiano é um campeonato forte, as equipes pensam muito em tática, técnica... Acabei me adaptando bem e rápido. A experiência que adquiri me fez chegar à Itália com uma cabeça diferente, querendo dar uma mudada na minha carreira.

GE.Net: Você acha que cometeu erros em sua passagem pelo futebol brasileiro?
Doni:
Como mundo fala, ‘é preciso apanhar para aprender’. É claro que cometi alguns erros, talvez até profissionalmente. Fiz muitas coisas que não deveria ter feito, até por causa da minha idade. Mudando de clube também, como eu já falei para outros jornalistas. O meu erro maior no Brasil foi ter saído do Corinthians para ir pro Santos. Antes da transferência, tinha conseguido três títulos e estava numa boa fase (nota da redação: pelo Corinthians, Doni foi campeão do Torneio Rio-São Paulo e da Copa do Brasil, em 2002, e do Campeonato Paulista, em 2003). A minha ida pro Santos foi em um momento errado, derrubou um pouco a minha carreira. Foi um conjunto de coisas que fizeram a minha passagem no Brasil não ter sido tão boa como vem sendo aqui.

GE.Net: No entanto, você também foi muito elogiado pelo Émerson Leão quando trabalharam juntos no Santos e no Cruzeiro. Ele foi importante na sua carreira?
Doni: O Leão e o Valdir de Moraes me elogiavam muito, me ajudaram muito na minha carreira, inclusive me dando alguns conselhos. Ele é um grande treinador, e o admiro muito. Sempre torço pro time que ele comanda; hoje ele está no Corinthians e eu torço em dose dupla. Se você ouve pessoas como eles e outros grandes treinadores e ex-goleiros falando bem de você, é porque está num bom caminho e tem qualidade. Caso contrário, elas também não falariam nada.

GE.Net: E quanto ao Antônio Carlos? Vocês também são bastante amigos...
Doni: O Antônio é um cara experiente no futebol, já passou por muita coisa. Hoje, falo que ele é um ‘treinador-jogador’, que entende muito de futebol e ainda está jogando. É um amigo, que me ajudou muito. É muito bom ouvir coisas boas partindo dele, que até hoje, com 37 anos, é um grande jogador.

GE.Net: Sua contratação pela Roma surpreendeu todo mundo. Como foi essa transação?
Doni: Quando eu estava no Juventude, fui indicado pelo próprio Antônio Carlos para os diretores do clube italiano (na época, Doni e Antônio Carlos defendiam o Juventude). Eles me avaliaram por meio de DVDs, gostaram, o treinador se interessou por mim e me fez uma proposta. Na época, faltavam 15 dias pro mercado europeu (de agosto de 2005) se fechar, mas também faltava pouca coisa pro meu passaporte italiano sair. Fui apresentado no último dia que os clubes tinham para apresentar jogadores.

GE.Net: Você sofreu algum tipo de ‘preconceito’ quando chegou aí por ser um goleiro brasileiro?
Doni: Ninguém me conhecia. Aqui, os torcedores só conhecem os jogadores brasileiros que jogam na seleção – se você não tem passagens pela seleção, não é conhecido. Houve uma desconfiança quando eu cheguei, porque antes só o Taffarel e o Dida já haviam jogado aqui. Cheguei na mesma época em que o Júlio César, que não teve um bom começo na Inter de Milão. No começo foi difícil, mas deu tudo certo.

GE.Net: E isso vem ajudando a abrir o mercado de goleiros brasileiros?
Doni: Hoje, a imagem dos goleiros brasileiros mudou bastante. Antes, ninguém queria. Depois que o Dida abriu as portas pra gente, você vê: além de mim, também tem o Gomes no PSV, o Hélton no Porto, o Júlio César na Inter, o Moretto no Benfica... O mercado está se abrindo, graças ao Taffarel e ao Dida. As dificuldades que eu tive no começo, outros goleiros não encontrarão quando vierem pra cá. Hoje, vários empresários daqui me ligam falando que estão indo ao Brasil para observar goleiros... isso era raro, praticamente impossível, e hoje já vem acontecendo.

GE.Net: Nota-se pela Roma, que, além de você, também tem o Júlio Sérgio...
Doni: Hoje ele é terceiro goleiro, atrás do (Giancarlo) Curci. O Júlio vem treinando bem, já há quase sete meses. Eu já tinha trabalhado com ele no Santos e no Botafogo de Ribeirão Preto, quando éramos juvenis. No começo, ajudei-o bastante nas traduções, mas hoje ele está muito bem adaptado e já se sente em casa.

GE.Net: E com os outros brasileiros do elenco, como é o seu relacionamento?
Doni:
Temos uma relação boa. Além do Mancini e do Taddei, tinha outro zagueiro brasileiro aqui, era o Rodrigo Defendi. Ele veio do Tottenham, ficou seis meses aqui e agora está sendo emprestado a outro clube. Mas é legal que tenha outros brasileiros, porque podemos nos unir até mesmo fora de campo, por estarmos em outro país. Isso ajuda, até porque o Mancini vem jogando bem, o Taddei é o xodó da torcida... É bom pro mercado brasileiro.

GE.Net: Como você avalia o seu desempenho na Roma?
Doni:
Vem sendo bom. Quando cheguei, assinei um contrato de dez meses. Comecei como terceiro goleiro, mas em duas semanas eu já fui relacionado para o banco de reservas, em um mês eu fiz meu primeiro jogo, e em dois mese já era titular. Na época, o time não estava bem, mas dei sorte de entrar e time e eu crescermos juntos. Acabamos fazendo uma bela campanha. Na época, conseguimos aquela série de 11 jogos sem derrota. Nesta temporada, venho bem. Joguei todos os jogos da Série A e da Champions League e sofri poucos gols. O time também vem bem, é um conjunto. Creio que estou fazendo um bom trabalho, ainda mais este ano, porque estou mais bem adaptado. A cada jogo que passa, meu desempenho vem melhorando bastante.

GE.Net: O Wendel (preparador de goleiros da seleção) andou falando que você poderia ter chances com o Dunga, e na Itália também foi cogitada a sua presença na seleção brasileira. Quais as suas expectativas?
Doni:
A minha expectativa é boa, até porque eu venho tendo um bom desempenho aqui na Roma; venho jogando bem há um ano e meio. Depois de o Wendel ter citado meu nome em algumas entrevistas, a minha esperança aumentou. Estou procurando fazer bem o meu trabalho e espero uma oportunidade. De repente, pode acontecer alguma coisa na próxima convocação. A expectativa é grande, acho que a seleção nunca esteve tão perto como agora. O Dunga é um treinador de cabeça aberta, que vem dando oportunidade a todos. Isso dá mais motivação pra trabalhar.

GE.Net: E caso você não seja convocado em breve? Por já estar garantido na equipe da Roma, ter a confiança da torcida e o passaporte italiano, você já pensou em se naturalizar e defender a seleção italiana?
Doni: Os jornalistas daqui já me fizeram essa pergunta; a imprensa local até cogitou essa possibilidade, mas não é verdade. A minha idéia de ir para a seleção brasileira. Se eu não for convocado, não tem problema. Há outros jogadores que defenderiam a seleção de outro país, cada um é cada um, mas ou eu defendo a brasileira ou não defendo nenhuma. Gosto da Itália, mas, no meu ponto de vista, só é legal jogar pela seleção aquele jogador que nasceu no país e foi criado ali. Minha vontade é a seleção brasileira, mas tudo continua como está no caso de eu não ser convocado.

GE.Net: E voltar a jogar no Brasil? Você deixaria a Itália se pintasse alguma proposta muito boa por aqui? Ou então no futuro, perto do fim da sua carreira...
Doni:
Hoje eu tenho 27 anos. Aqui na Itália, você vai encontrar goleiros jogando com 37, 38 anos... tem até quem jogue até os 41. Por aqui ter esse mercado tão longo pro goleiro, eu pretendo ficar por aqui mesmo e posso alongar a minha carreira. Vendo a minha situação hoje, não tenho intenção de voltar a jogar no Brasil. Digo isso hoje, mas daqui a cinco ou seis anos, posso ter outro pensamento.

GE.Net: Você guarda alguma má lembrança do futebol brasileiro?
Doni:
Tive bons e maus momentos no Brasil. Tive passagens boas no Botafogo e no Corinthians, uma fase ruim no Santos e uma passagem legal pelo Juventude, onde eu gostei de jogar. Não existe nenhum fato que fez com que eu não estivesse jogando aí até hoje. No final, deu tudo certo. Estou num grande clube da Europa e do mundo. Vendo hoje, acho que tudo valeu a pena. Os bons momentos serviram e os maus também, porque agora eu tenho uma cabeça boa pra tocar a minha vida. Aconteceu tudo o que tinha que acontecer. Estou muito feliz aqui, profissionalmente e pessoalmente.

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