| Por
Rafael Ribeiro, especial para a GE.Net
Sumido desde que foi flagrado por uso de maconha, Vaguinho,
atacante da Portuguesa, resolveu finalmente quebrar
o silêncio após 41 dias de reflexão.
Nesta entrevista exclusiva, a primeira desde o ocorrido,
o jogador revela arrependimento pelo trago, que garante
ter sido acidental em uma festa de aniversário.
Ele recebeu a reportagem da GE.Net em seu apartamento,
no bairro da Casa Verde, Zona Norte paulistana. Explicou
a opção por desaparecer do clube no último
mês, falou das expectativas para o seu futuro
e até do imbróglio pelo qual passa sua
renovação contratual.
Vágner Luis da Silva nasceu no dia 13 de setembro
de 1981, em Mococa, interior paulista. Revelado pela
Ponte Preta, teve uma passagem sem grande destaque pelo
Joinville. Chegou à Portuguesa no começo
de 2007, como parte do plano de renovação
do elenco proposto pelo técnico Vágner
Benazzi para a disputa da Série A-2 do Campeonato
Paulista. Conquistou o título, foi figura importante
em boa parte da excelente campanha do acesso à
Série A do Brasileirão, mas acabou ganhando
os holofotes não pelos gols marcados e as boas
jogadas.
A vida de Vaguinho mudou radicalmente na tarde do dia
9 de novembro, quando seu nome apareceu na chamada principal
do site da CBF. Não era uma convocação
à seleção brasileira, como aconteceria
com os companheiros Diogo e Leonardo, mas sim a divulgação
do até então único caso de doping
na Série B. E a substância encontrada não
poderia ser mais comprometedora: metabólito do
Tetraidrocanabinol, cientificamente conhecida como cannabis
sativa, popularmente chamada de maconha, em exame realizado
no empate por 2 a 2 da Lusa com o Paulista, pela 27ª
rodada da competição.
Punido com 120 dias de suspensão pelo STJD, às
vésperas do massacre rubro-verde de 6 a 2 sobre
o Barueri, resultado fundamental para que o acesso fosse
confirmado dias depois, Vaguinho reconhece que lhe faltou
maturidade e, por este motivo, planeja mudanças,
notadas até pela confusão atual de seu
apartamento.
O lugar será devolvido após a atual reforma,
pois o atleta planeja morar em um local mais próximo
do Canindé, provavelmente no bairro de Santana.
Sinal dos tempos, afinal, ele está de casamento
marcado para o próximo dia 28. A noiva, ironicamente,
foi esquecida bem na noite da festa que acabou originando
o doping do jogador. Apesar da escapada de Vaguinho,
a garota manteve-se fiel ao saber da verdade e o ajudou
no período de lamentação e tristeza
que seguiu o flagra nos exames da CBF.
Em meio às provas das roupas e os preparativos
finais para a troca de alianças, Vaguinho mantém
a esperança de reduzir a pena imposta pelo STJD,
que lhe tira dos gramados até o dia 7 de março.
Se a pena for mantida integralmente e o atacante permanecer
no Canindé, fica a expectativa da reestréia
no jogo contra o São Paulo, marcado para a 13ª
rodada do Campeonato Paulista. Se depender de Benazzi,
espécie de ‘segundo pai’ do jogador,
a escalação está garantida.
| Foto Djalma Vassão/Gazeta Press |
 |
Gazeta Esportiva.net: Vaguinho, nesta sua primeira
entrevista, uma pergunta é inevitável: o
que de fato aconteceu para você ser flagrado no
antidoping?
Vaguinho: Vim de família pobre, que
trabalhava na zona rural, e tive uma oportunidade de jogar
futebol em Campinas. No início da carreira, eu
não era tão santinho assim, não.
Saía, pegava umas festas, ia para as baladas,
mas nunca fui de fazer nada que me prejudicasse. A única
coisa que via que estava me prejudicando era perder algumas
noites de sono por causa da cervejinha, mas isso aí
a maioria dos jogadores fazem, ninguém esconde.
O que aconteceu desta vez foi que fui à festa,
que era de ambiente familiar, um aniversário de
um amigo, e tinha um barato lá de fumar narguilé...
Fui saber o nome só agora que o advogado da Portuguesa,
o Doutor Valdir (Rocha) me falou. Tinha bastante gente,
mas eu não vou citar nomes. O rapaz que estava
fazendo aniversário também estava fumando. Eu já tinha tomado umas, estava de folga e comecei
a fumar com eles. E depois de uma cervejinha e outra,
senti que estava meio tonto. Achei até que era
por causa da cerveja mesmo, porque não estou
acostumado a beber e se eu bebo quatro cervejas eu já
fico ruim. Senti tontura, mas nem falei nada ao médico
(Julio Stacanti) e ao Benazzi. Até porque se eu
soubesse que tinha usado essa substância, chegaria
neles e falaria numa boa, os dois são pessoas que
têm a mente aberta e você pode chegar e falar
de coisas até particulares que não têm
nada a ver com o clube.
GE.Net: Quer dizer que você não sabia
mesmo os riscos que corria?
Vaguinho: Foi isso que aconteceu e acabei flagrado
no exame antidoping no dia do empate por 2 a 2 com o Paulista.
Até dei azar porque no jogo, não estava
muito bem e as pessoas podem pensar que usei aquilo naquele
jogo. Mas o que ocorreu mesmo foi nesse aniversário.
GE.Net: Na hora, você não reparou
nada estranho, nada que desse mesmo a entender que era
maconha?
Vaguinho: Eu não senti nada. Até
pessoas mais novas que eu sabem que a maconha tem um cheiro
diferente do aroma que estava lá. E você
pode ver nos barzinhos aqui da Zona Norte, até
aqui perto de casa. Tem bares que eles colocam (a narguilé)
lá para quem quiser usar. E eu, como curioso que
sou, fui querer fumar aquele dia e acabei sendo pego.
Mas acho que a vida não acaba por aí, não.
Ainda sonho em voltar a jogar e gostaria
que fosse pela Portuguesa. Mas teve um pequeno problema
lá entre a Portuguesa e meu procurador...
GE.Net: Já que você citou o assunto,
apesar do bom relacionamento com a diretoria, a renovação
está sendo complicada. Ouvindo a Portuguesa, tudo
parecia estar caminhando para um acerto rápido.
Quais os empecilhos encontrados no meio do caminho? O
que o seu procurador (Oldegard Filho) está pedindo?
Vaguinho: Essa história do procurador
agora eu vou começar a falar. Eu não tinha
procurador e o pessoal do Joinville me indicou o seu Oldegard,
que é um agente Fifa, coisa que poucos são
hoje aqui no Brasil. Conversei um pouco com ele e entendo
que é uma pessoa muito fina, muito centrada naquilo
que quer. Pode ver que ele tem vários jogadores,
como o Fernandinho (lateral-esquerdo do Cruzeiro) e o
Alecsandro (atacante, também da Raposa), que são
destaques. Deixei bem claro no clube que minha prioridade
sempre seria a Portuguesa. Vamos ver o que acontece.
GE.Net: Depois do doping, você se preservou
bastante e chegou ao ponto de se recusar a aparecer na
foto oficial do acesso. Por que esse tipo de comportamento?
Vaguinho: A gente vinha trabalhando, fazendo
um ano excelente. Surgiram várias propostas do
exterior e de times grandes, até do Brasil também,
e então aconteceu isso comigo na reta final. Fiquei
chateado. Eu quis me desligar totalmente, fui para uma
cidadezinha onde ninguém me conhece, fiquei lá
com minha noiva retirado. Não vi nenhum programa
de esportes para não ficar com aquilo na
cabeça. Já vi o que aconteceu com muitos
jogadores, que quiseram meter a boca, foram na imprensa
falar. No meu caso foi um acontecimento inesperado e eu
preferi ficar um pouco afastado para não me exaltar
nas declarações. Estava nervoso, nervoso
comigo mesmo por ter desperdiçado uma oportunidade.
Agora é bola para frente, estou com casamento marcado
para o dia 28. Não foi um ano muito negativo, foi
mediano. O Vaguinho estava escondido lá no Sul
e agora novamente as pessoas aqui de São Paulo
viram que eu estava fazendo um trabalho correto e tenho
tudo para voltar em 2008.
GE.Net: Pode-se dizer que a amizade com o técnico
Vágner Benazzi ajudou um pouco a amenizar os reflexos
da suspensão? Ele usa até o termo ‘filho’
ao se referir a você...
Vaguinho: O Benazzi é uma pessoa que me
ajuda muito. Ele sempre pede para o Dirceu (massagista)
vir falar comigo, perguntar se está tudo bem. O
professor é uma pessoa diferente, que se preocupa
com o atleta e é muito diferente de outros treinadores.
O Benazzi me chama de filho e eu sempre vou tê-lo
como um pai. Quando ele estava no Avaí, me pediu
para ir para lá. O carinho é muito grande.
GE.Net: Além dele, mais alguém te
deu força nesse momento difícil de reclusão?
E sua família, como reagiu ao fato?
Vaguinho: Quem me deu mais força foi minha
noiva, que ficou comigo o tempo todo. Poderia ter me abandonado.
Dia 28 agora, ela poderia não estar casando comigo,
mas ficou do meu lado. E no momento em que aconteceu isso
(doping), ela não estava presente. Fui lá
na festa sem pensar em comunicá-la porque pensei
que não seria nada demais, até porque ela
conhece outras pessoas que estavam lá. Até
minha mãe, que é uma pessoa meio alterada,
meio ‘estouradona’, ao contrário do
meu pai que já é mais sossegado, ficou do
meu lado, me ajudou, ficou preocupada. Meu sogro, minha
sogra, meus familiares me apoiaram muito porque sabem
a pessoa que eu sou. Nesse caso foi bem tranqüilo.
Meus amigos verdadeiros me ligaram. Este período
afastado foi bom para ver quem realmente está do
meu lado.
GE.Net: Para quem chegou de forma discreta no começo
do ano, até que você respondeu bem dentro
de campo, dividindo os holofotes com o Diogo e sendo aclamado
pela torcida mesmo depois do flagra no doping. Fica o
sentimento de frustração por deixar o time
justamente no momento mais importante da Lusa desde 1996?
Vaguinho: Eu queria estar lá, no dia da
foto oficial, como foi no Paulista da Série A-2.
Estive chateado, mas depois fiquei feliz pelo ano maravilhoso
da Portuguesa, um trabalho excelente em todos os termos.
Quando você faz as coisas corretamente, com certeza
você alcança o objetivo. A Portuguesa precisa
continuar nesse caminho, nessa luta, nesse empenho.
GE.Net: Teme ficar alguma seqüela do episódio
no comportamento da torcida? Como espera encontrá-la
para a próxima temporada?
Vaguinho: Como atleta profissional, tenho de
ir a campo e esquecer tudo, fazer o melhor pela Portuguesa.
Tenho certeza de que se eu não estiver correspondendo,
os torcedores vão chiar mesmo, vão falar,
mas tenho a certeza de que, em 2008, vou permanecer na
Portuguesa e a torcida não vai vaiar. Vai aplaudir
como sempre aplaudiu e presenciar cada vez mais as jogadas
que deixei de fazer no restante do campeonato.
GE.Net: E os planos para 2008? Afinal, além da
indefinição com a Portuguesa, também
existe a pena do STJD para cumprir...
Vaguinho: Esse doping atrapalha no sentido de
ter mais esse período para cumprir ainda (78 dias,
mas cabe recurso). Não sei o que os advogados vão
fazer para poder diminuir essa punição.
Dia 2, vou me reapresentar e terei mais 25 dias de contrato
para cumprir. Mas vamos ver, isso é o Oldegard
que vai discutir lá com a Portuguesa. Pelo que
eu sei, para entrar com o recurso é rapidão.
GE.Net: Mesmo conhecida por cobrar de forma dura,
a torcida lusa reagiu positivamente ao seu caso, gritando
o seu nome nos jogos finais. Como foi acompanhar tudo
isso à distância? Seus companheiros também
fizeram uma homenagem...
Vaguinho: Eu fiquei sabendo. Alguns amigos meus
me ligaram lá da arquibancada para que eu pudesse
ouvir. Fiquei sabendo que o time entrou com uma faixa,
que a torcida gritou o nome. Isso que faz a gente permanecer,
a querer ficar. Não tem como largar a Portuguesa
rapidamente e sair com o serviço feito pela metade.
Não assisti ao jogo, mas fiquei muito emocionado.
GE.Net: Como você avalia a atuação
do departamento jurídico? Conseguiram uma pena
de 120 dias, considerada pequena por especialistas em
casos que envolvem o uso de drogas.
Vaguinho: O Doutor Valdir, além de advogado
da Portuguesa, se tornou um amigo desde que eu cheguei.
Coloquei o caso nas mãos dele, conversamos bastante.
Eu estava ciente que iria pegar uma punição,
mas é claro que a gente queria brigar pela absolvição.
O departamento jurídico colocou até um advogado
do Rio de Janeiro, um dos melhores tratando dessa questão
de doping. Fizeram um esforço muito grande, ajudaram
bastante. Eu só fiquei um pouco chateado porque
o médico não foi lá no dia do julgamento.
O depoimento dele poderia até ajudar um pouco mais,
mas eu não tenho do que reclamar. Vou ter que pagar
por esse erro. Estou do lado do Doutor Valdir. O médico
não foi porque de certo tinha uma coisa importante
para fazer no dia. Só mando um recado para a torcida,
que pode ter a certeza de que em 2008 vão ver o
Vaguinho vestindo a camisa da Lusa, porque é uma
camisa que caiu muito bem para mim.
GE.Net: Ficou uma mágoa com o Doutor Stacanti
ou da diretoria, então?
Vaguinho: De certo o médico estava ocupado
lá no dia e a Portuguesa achou que, pelo fato de
ter um advogado do Rio seria o suficiente. Mas, acho que
o depoimento do médico, seria uma ajuda muito grande
ali na hora da defesa. Mas não tenho mágoa
nenhuma. Gosto demais do Senhor Iauca (Luís, vice
de futebol luso), do presidente Manuel (da Lupa). Não
tem nenhuma rixa, tenho uma admiração muito
grande pelo André (Heleno), do Carlos (Justino),
Adriano (Azevedo) – todos diretores de futebol.
Não tenho bronca nenhuma da direção,
só elogios a fazer e sei que eles estão
do meu lado, já conversamos sobre isso. A questão
da renovação fica para o Oldegard falar
com eles.
GE.Net: O curioso é que logo após
o estouro do seu caso surgiu o doping do Romário,
flagrado com 41 anos pela primeira vez (por uso de substância
proibida encontrada em tônicos capilares). Acompanhou
a história?
Vaguinho: A gente fica meio assim de falar do
Romário. Depois do Pelé, ele é o
maioral aqui no futebol. E é um ídolo também,
admiro desde criança. Tem substâncias aí
que estão até em alimentos. Se você
comer, não pode entrar em campo ou é pego
no doping. Acho meio estranho. Deveria ser só algo
que a pessoa usou na partida. O que a pessoa faz cinco,
seis dias antes, precisa ser revisto. Às vezes,
você está em casa, tem uma convulsão,
está com alguma doença que precisa ir na
farmácia imediatamente senão pode vir a
falecer, aí você vai deixar de tomar, ficar
doente, para poder jogar? No caso do futebol existem substâncias
que não ajudam tanto assim no rendimento, só
atrapalham. É preciso pensar direito antes de punir
as pessoas. O próprio Romário tomou um negócio
para o cabelo que não tem nada a ver. Você
acha que aquilo lá ia fazer o Romário correr
mais, fazer mais gols do que ele já fez?
GE.Net: Ficou uma lição desse episódio,
algo para você aprender daqui para frente?
Vaguinho: Eu estou chateado comigo mesmo por
ter ido a um lugar inapropriado. Já havia mentido
para ir nessa festa, então isso foi uma traição
comigo mesmo. Já que não era para ter ido
lá, preguei essa peça em mim mesmo para
aprender. A gente fica vacinado nas coisas para não
fazer novamente
GE.Net: Você já até teve uma
experiência desagradável antes e pensou em
abandonar a carreira. Conte como foi essa história.
Vaguinho: Isso aconteceu quando saí da
Ponte Preta. Fui emprestado, voltei para Campinas, consegui
pegar o meu passe e fui para o Joinville. Fiquei um ano
lá e gostaria de levar o time para a Série
B junto dos meus companheiros e não conseguimos.
Daí eu já fiquei um pouco chateado de ver
um estádio daquele, uma cidade daquelas jogando
a Série C. O Joinville merecia estar na Segunda
ou na Primeira pela estrutura que tem. Eu vi que estava
lá e não aparecia nada e por isso pensei
em largar. Foi sofrido para seguir esse caminho e, graças
a Deus, o Benazzi apareceu na minha vida, me levou para
a Portuguesa. Não pensei duas vezes em aceitar.
O clube vivia um momento difícil, era o começo
de 2007, tudo estava triste, caído por estar na
Série B. Mas com a chegada do Benazzi, as coisas
foram mudando.
GE.Net: O gosto pela bola falou mais alto, então...
Vaguinho: Futebol é gostoso demais jogar,
tem pessoas que gostam da gente. Vendo você atuar,
as pessoas ficam alegres. Alguns ficam o dia inteiro dentro
de casa, vão ao estádio ver o time do coração
jogar e voltam felizes pela vitória. Futebol é
emocionante, é gostoso de praticar. E já
que escolhi essa profissão, agora, tenho de ser
bem centrado, bem mais profissional do que já fui
para poder seguir novamente.
GE.Net: Ficar marcado em um clube como a Portuguesa
valeu a pena no final? Acredita que o doping será
menos lembrado do que o título da A-2 e o acesso
no Brasileiro?
Vaguinho: É gostoso demais fazer parte
da história. Eu tenho esse DVD que o pessoal
fez, sobre o título da A-2. Foi emocionante.
Vamos estar velhinhos e ter a fita para mostrar aos
filhos, aos netos. Para mim isso que importa. É
motivo de dar parabéns à Portuguesa por
ter feito nesse ano o que muitos clubes não estavam
fazendo.
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