| Olhos
atentos à história
Além de dirigir a ONG Ana Moser Sports
– Voleibol Escolar, a ex-jogadora também
participou do Circuito Sesc de Esportes. A iniciativa
envolve diversos atletas de renome como Janeth,
Hugo Hoyama, Gustavo Borges e Nelson Prudêncio,
e atrai alunos das escolinhas da entidade e interessados
de fora. Nesta sexta-feira, foi a vez de Ana Moser
repetir o que já havia feito nas unidades
Santana, Sorocaba e Campinas, e ministrar mais
uma clínica.
Segundo Afonso Corrêa Alves, um dos organizadores,
cerca de 120 pessoas comparecem às palestras,
e 40 ou 50 participam das sessões práticas.
“O objetivo é desmistificar o atleta,
é quebrar a barreira entre o mito e o público”,
explicou Afonso, na clínica ministrada
na unidade Pinheiros.
Eram cerca de 45 homens e mulheres, alguns não
tão jovens, que se sentaram na quadra e
ouviram atentamente à apresentação
de Ana Moser, descrevendo toda sua trajetória.
Acompanhada de dois instrutores de seu projeto
social, ela fazia algumas piadas para seus pupilos,
e revelou que, em suas palavras, “o bronze
em Atlanta foi o momento mais importante da carreira”.
Antes de comandar uma série de exercícios,
ela criticou muito a falta de estrutura que afundou
o vôlei cubano (“elas passavam meses
treinando no Japão, na Europa”) e
brincou com a rivalidade que existia com Regla
Torres e Carbajal, já que as agressões
“eram apenas verbais. Eu não sou
violenta”. Risos generalizados para os que
viram duelos de dedos em riste, cadeiradas e toalhadas.
Para quem estava ali, pouco importava as agressões,
o importante era estar perto de Ana Moser. A estudante
Ana Cláudia B. dos Santos, de 26 anos,
veio para acompanhar duas amigas, e só
ficou de fora porque veio de calça jeans.
“Ela sempre foi um ídolo”,
revelou, desanimada por ter que acompanhar do
lado dos bancos nas laterais.
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Por Emanuel Colombari, especial para a GE.Net
Até quem não entende de vôlei sabe da importância de Ana
Moser para o esporte. Com 17 anos de seleção brasileira no
currículo, três Olimpíadas, uma medalha de bronze em 96, quatro
finais de Grand Prix e dois títulos de Mundiais Interclubes,
entre outros feitos, a ex-atacante assumiu um novo compromisso
social na formação de atletas.
Pouco antes de começar uma série de exercícios para o Circuito
Sesc de Esportes, onde ministra clínicas de sua modalidade,
ela falou com a reportagem da Gazeta Esportiva.Net,
e pôde analisar o desempenho das seleções (especialmente a
feminina) nos Mundiais quase simultâneos, no Japão. Ana comentou
ainda a situação das atletas e do vôlei no Brasil, temendo
um futuro sem clubes, apenas com seleções no país. E revelou:
não gostaria de entrar na comissão técnica de José Roberto
Guimarães. Pelo menos agora.
Gazeta Esportiva.Net: Como jogadora da seleção até
99, como você avalia o desempenho das seleções masculina e
feminina nos Mundiais de vôlei?
Ana Moser: Bom, o Mundial masculino está rolando.
O Brasil passou pela primeira fase, que era o certo. Agora,
a grande definição vai ser na segunda fase, pra ver se fica
entre os quatro. E deve ficar. É superfavorito para manter
a hegemonia que tem tido nos últimos anos. O feminino quase
chegou lá. Está com um grupo forte, muito bom, e que é novo,
ainda tem muito a ganhar em maturidade e já está com bons
resultados. Quase deu para a gente ficar em primeiro, o que
seria uma coisa inédita. Elas conseguiram ter um padrão de
jogo, talvez o melhor dos últimos tempos. Este trabalho tem
dois anos, começou depois das Olimpíadas de Atenas. Temos
que acompanhar o desenvolvimento deste grupo até o Pan-americano,
onde elas devem chegar bem, e pra ver como elas vão chegar
nas Olimpíadas de Pequim.
GE.Net: Com relação as Olimpíadas, a derrota no Mundial
foi a segunda ‘traumática’ para a Rússia, repetindo o que
havia acontecido em Atenas. Você acha que isso pode despertar
uma rivalidade com as russas, a exemplo do que acontecia com
Cuba na década de 90?
Ana Moser: A rivalidade você tem com os melhores
times. A derrota para a Rússia em Atenas não tem nada a ver
com esse jogo de agora. Além de serem dois grupos diferentes,
as duas seleções perderam jogando até o fim, mas neste jogo
elas caíram de pé. O outro realmente foi traumático, elas
demoraram um tempo para recuperar. Eu mesma fiquei um bom
tempo sem conseguir ligar para o pessoal da seleção, não sabia
nem o que dizer. Isso eu, que tinha ficado de fora. Imagine
elas! Mas este grupo não. Temos que ver o que fazer para vencer
a Rússia, que realmente é um time que está se mostrando forte.
Mas também temos outros adversários: Itália, Cuba... A gente
não deve levar para esse lado de trauma, nem de rivalidade
excessiva. Rivalidade há, lógico. São os melhores times, e
têm que estar mesmo se preocupando um com o outro.
| Foto: Antonio
Cottet/ Gazeta Press |
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GE.Net: Não se ouve mais falar em atacantes de ofício,
como quando você jogava. Quem você vê como a nova Ana Moser
na seleção?
Ana Moser: Cada jogadora tem um estilo. Hoje, o Brasil
está com boas jogadoras de extrema... Tem a (oposto) Sheilla,
que joga mais pela saída, mas vem muito pelo fundo; tem também
as três ponteiras: a Mari, a Jaqueline e a Paula. Quatro com
a Sassá. Acho que vai ficar muito entre essas quatro jogadoras,
que vão ficar se revezando, já que são jogadoras muito parecidas,
e que têm um bom nível de recepção, importante para uma ponteira:
poder ajudar bastante na recepção e segurar as bolas de segurança
no ataque. Elas estão crescendo, estão amadurecendo. O time
está muito bom.
GE.Net: A Walewska, a Fofão e a própria Sheilla estão
indo para a Itália, repetindo um fenômeno que já acontece
na seleção masculina. Você acha que isso fortalece a seleção
feminina? Isso pode acabar enfraquecendo a Superliga?
Ana Moser: As duas coisas. Fortalece a seleção, porque
elas vão jogar um campeonato muito mais forte que a Superliga,
com mais equipes boas, mais jogos difíceis, e contra essas
jogadoras que enfrentam na época de seleção. A própria Waleska
declarou que melhorou muitíssimo o bloqueio dela jogando na
Itália. Não por treinamento, mas por experiência. Enfraquece
sim a Superliga, mas a culpa é da própria Superliga e do vôlei
de clubes no Brasil, que têm que buscar uma reorganização
para voltarem a ser atrativos. A cada ano, você vê um número
menor de equipes, principalmente no feminino, o que é muito
ruim. Daqui a pouco, nós vamos virar um país de seleção, sem
clubes.
GE.Net: Quando a sua geração começou e acabou conquistando
a medalha de bronze nas Olimpíadas de Atlanta, o vôlei brasileiro
ainda não tinha a estrutura que tem em Saquarema, RJ. Como
você acha que seriam os resultados daquela geração com esse
apoio que o vôlei tem hoje?
Ana Moser: Acho que totalmente iguais. Não mudaria
nada, porque a gente tinha estrutura de treinamento aonde
a gente ia, buscava essa estrutura. Acho uma bela obra, mas
não é primordial para o desenvolvimento das equipes. Lugar
para treinar é o que não falta no Brasil.
GE.Net: O vôlei brasileiro tem uma deficiência de
levantadoras?
Ana Moser: Enquanto a Fofão jogar, não. Enquanto
ela jogar, estamos bem. A Fernanda (Venturini), que parou,
e ela são jogadoras acima da média. A gente fica mal-acostumado
mesmo. As outras que a gente tem no Brasil são levantadoras
boas, que estão na média. A diferença é muito grande. Acho
que se a Fofão continuar jogando até Pequim, o time só vai
continuar crescendo. Se ela parar antes, vai haver uma mudança
grande. Vamos ter que reconstruir, e algumas das levantadoras
que estão sendo trabalhadas como opção terão que passar por
um desenvolvimento muito rápido. Mas é tudo uma questão de
esquema, de como se constrói uma equipe. Você vê a equipe
da Rússia: a levantadora (Marina Akulova) é fraca, e não seria
titular do nosso time nem sem a Fofão. E foi campeã mundial!
É tudo uma questão de montar um time dentro da realidade das
peças que tem.
GE.Net: O vôlei, o basquete e o handebol, por exemplo,
têm um considerável suporte financeiro por parte dos
órgãos federais. Por que o vôlei dá tão certo e o handebol
e o basquete têm alguma dificuldade para trazer resultados
favoráveis?
Ana Moser: O handebol é um esporte que está em uma
ascendente. Eu me lembro que, em 88, 92, o handebol não chegava
nem perto de Olimpíadas. Hoje, o masculino já se classifica
na América Latina, brigando com a Argentina. O feminino, eu
não sei direito, mas eu sei que tem bons resultados. É diferente
do basquete, que já esteve lá em cima, mas que não consegue
voltar. Isso faz parte de uma estruturação de tudo, que começa
pelo sistema das federações, da CBB... Daí é que começa: é
essa estrutura que pode fazer um trabalho diferente. Porque
jogador a gente tem. O Brasil está cheio de jogadores na Europa
e na NBA.
GE.Net: Você tem um projeto social bastante desenvolvido,
o Ana Moser Sports – Voleibol Escolar. Você toparia assumir
o projeto de estruturação de um time, ou até o cargo de treinadora?
Ana Moser: Não, não é minha prioridade agora. A
grande mudança da minha vida foi me dedicar a um trabalho
que envolva um número grande de pessoas. Quando eu estive
na seleção (na parte técnica, entre 2003 e 2004), eu tive
um impacto: você tem 24 horas por dia para cuidar de 12, 15
jogadoras. Eu posso dedicar o mesmo tempo e cuidar de três
mil alunos. São atividades bem diferentes, e hoje eu estou
muito ligada a uma. Seria difícil fazer as duas coisas.
GE.Net: Nem se o Zé Roberto te chamasse para a seleção
de novo?
Ana Moser: Eu já estive com ele. Desde quando ele
entrou, em 2003, até pouco antes do Grand Prix e das Olimpíadas
(ambos em 2004). Foi quando eles começaram a viajar e eu não
consegui acompanhar. Nesse ritmo, é preciso acompanhar. Não
é nem questão de chamar ou não. Se houvesse interesse, eu
pediria para ele. Não sei se pela técnica, mas pela amizade,
ele me ajudaria (risos). Mas não é o caso. É uma questão de
prioridade, e eu acho que o momento é outro. |