| Por Felipe Held, especial para a GE.Net
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Em poucos meses, brasileiro Ricardo Navajas levou a Venezuela à inédita participação olímpica, mas não está satisfeito. Planeja agora um pódio em Pequim-2008. |
A maior conquista do vôlei venezuelano até 2008 havia sido
a medalha de ouro conquistada nos Jogos Pan-americanos de
Santo Domingo, em 2003, quando a equipe masculina surpreendeu
e passou inclusive pelo Brasil, comandado pelo técnico Bernardinho.
Mas bastaram sete dias da nova temporada para o vôlei da Venezuela
alcançar um feito ainda mais notável: se classificar para
uma edição de Jogos Olímpicos pela primeira vez na história,
tanto na categoria masculina como na feminina.
E grande parte desse mérito se deve a um brasileiro:
Ricardo Navajas, contratado em maio de 2007 para assumir o
comando da equipe masculina, inicialmente para a disputa do
Pan do Rio de Janeiro em julho.
Principal destaque de um grupo praticamente em crise, Navajas
recuperou o moral do time e obteve a classificação para Pequim-2008
ao superar na final do Pré-olímpico das Américas ninguém menos
do que a Argentina, anfitriã do torneio e favorita
à vaga, por 3 sets a 1 e de virada.
Após retornar de Formosa, cidade onde faturou seu primeiro
título como treinador da Venezuela, Navajas falou com exclusividade
à reportagem da Gazeta Esportiva.Net e revelou um sonho
ainda maior: levar o vôlei masculino venezuelano ao pódio
das Olimpíadas. “Coloquei agora ao grupo o objetivo de conseguir
uma medalha olímpica. Não é impossível e todos os atletas
se propuseram a ajudar”, comentou o treinador, que ganhou
destaque no Brasil comandando o Suzano durante quase uma década
e conquistou, entre outros títulos, o octacampeonato do Paulista
e o tri do Brasileiro.
Assumidamente adepto do estilo linha-dura, Navajas deu consistência
a um grupo superestimado após o ouro pan-americano em 2003,
mas que sofria com uma série de resultados ruins justamente
por causa do ‘salto alto’. A solução para essa evolução foi
“o comprometimento dos atletas”, simplificou o brasileiro,
que refuta receber sozinho as glórias. “Não é mérito meu,
mas de toda a comissão técnica. Eu só ajudei”, minimizou.
No bate-papo com a GE.Net, Navajas falou também sobre
a importância do governo do presidente da Venezuela (outro
comandante linha-dura), Hugo Chávez, para o vôlei do país,
mas desvinculou seu trabalho do modelo bem-sucedido adotado
por Cuba, de Fidel Castro, país que já foi grande potência
na modalidade e usou o esporte como propaganda do governo. "Aqui é diferente.
Trata-se de país muito rico, com um povo liberal e democrático",
resumiu o treinador.
O técnico brasileiro também confessou se inspirar na seleção
brasileira masculina de vôlei e disse se espelhar em grandes
nomes do esporte. “Bebeto de Freitas, José Carlos Brunoro,
Josenildo Carvalho, Zé Roberto Guimarães, Felipão, Wanderley
Luxemburgo...”, enumerou Navajas, mas sem citar Bernardinho.
Confira:
Gazeta Esportiva.Net: Qual a razão para o seu trabalho
ter dado certo tão rapidamente?
Ricardo Navajas: O comprometimento do grupo com a
comissão técnica. Os jogadores se propuseram a ajudar e as
coisas começaram a sair. Mas também não posso deixar de lado
o trabalho feito pelo Chiquita (Carlos Almeida, ex-levantador
do Suzano e com passagens como treinador em algumas equipes
no Brasil) na preparação física e do Thiago (Silva)
no trabalho de levantamento de estatísticas, principalmente
no jogo contra a Argentina.
GE.Net: E qual a importância deles para a comissão
técnica?
Navajas: O Chiquita foi levantador na minha época
do Suzano e chegou para me ajudar. Depois virou técnico e
fez um trabalho muito sério, mas hoje respeita muito a opinião
do treinador principal e quase não me contraria, pois acredita
no meu trabalho. Nós nos damos muito bem, por sinal, e foi
o Chiquita quem indicou o Thiago, que na época era moleque
e era preciso pegar um pouco no pé dele. Mas briguei bastante
e consegui levar os estatísticos para a Venezuela, o que foi
fundamental para o trabalho.
GE.Net: Depois da vitória da Venezuela sobre o Brasil
no Pan de 2003, muito se falou sobre a queda no desempenho
da equipe porque os próprios jogadores teriam se superestimado.
Como você trabalhou com isso?
Navajas: O nível técnico caiu muito, tínhamos muito
pouco quando eu cheguei. Mas a solução para isso foi ganhar,
pois sem vitórias não acontece nada. No entanto, os jogadores
se apegaram muito à disciplina tática e se prepuseram a trabalhar,
dizendo que fariam tudo o que eu mandasse. Não é mérito meu,
mas de toda a comissão técnica. Eu só ajudei.
GE.Net: E como evitar que aconteça o mesmo agora,
com a classificação inédita para as Olimpíadas?
Navajas: Não tem muita dificuldade, basta acabar
rapidamente com o excesso de frescuras e cortar o mal pela
raiz. Coloquei agora ao grupo o objetivo de conseguir uma
medalha olímpica. Não é impossível, mas para isso teremos
que sair do centro, de toda a badalação, e montar uma estrutura
no interior. Mas todos os atletas se propuseram a ajudar,
até porque já tiveram a experiência ruim após o Pan de Santo
Domingo, quando sumiram do mapa e caíram para 20º no ranking
da Federação Internacional. É preciso continuar trabalhando
para que seja tirado um resultado positivo, caso contrário
volta-se à situação de 2003. É uma opção que eles têm.
GE.Net: A classificação também do time feminino
para Pequim foi uma surpresa para você? Como você enxerga
esse crescimento do esporte venezuelano?
Navajas: Eu não acompanhei muito o time feminino,
mas soube que o Peru teve um problema de contusão e isso facilitou.
Mas, claro, isso não tira o mérito da Venezuela. Quem mandou
as peruanas se machucarem? Eu tive dois problemas graves de
lesão no nosso time e, se tivéssemos sido derrotados, ninguém
falaria que perdemos porque eu não tive o oposto titular.
Não interessa.
GE.Net: E quais foram os problemas de contusão que
você teve no Pré-olímpico?
Navajas: Meus dois opostos. O Thomas Ereu precisou
operar o ombro e não jogou, enquanto o Luís Diaz teve uma
entorse muito feia na Itália (atua no Antonveneta Padova)
e só pôde jogar contra a Argentina. E ainda assim, por causa
das dores, só jogou com 60% de seu potencial.
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Revolução também no esporte: Chávez condecorou seus times de vôlei após a conquista das vagas olímpicas inéditas e até arriscou umas jogadas |
GE.Net: Quem você elegeria como o destaque do seu time?
Navajas: A entrada do oposto Ferrera foi fundamental,
pois ele estava atacando bola alta e rodou praticamente todo
o ataque. Tem também o Jorge Silva, que era líbero, mas eu o
passei para a posição de ponteiro achando que ele poderia jogar
nas duas posições. O capitão Andy Rojas também nos ajudou bastante
nos treinos. Não tem muito o que falar da equipe; os jogadores
não deram trabalho. O pedido para que eu fosse o técnico partiu
deles, então o grupo sabia que precisava de alguma coisa mais
séria na Venezuela.
GE.Net: Então, o que se pode esperar da Venezuela
nas Olimpíadas?
Navajas: Uma equipe com bastante agressividade em
busca da medalha. No vôlei é preciso ser assim, e se não tivéssemos
agredido contra a Argentina teríamos perdido o jogo. Mas tem
que ser uma agressividade esportiva, pois não adianta ser
um enérgico descontrolado.
GE.Net: E o sucesso da seleção venezuelana vem se
refletindo nos clubes do país? Como está sendo a divulgação
do esporte na Venezuela?
Navajas: Lá não tem Liga e todos os atletas jogam
na Europa. Esse é o maior problema da Venezuela. Mas não me
preocupei com a revelação de novos jogadores nesses seis,
sete meses em que fiquei lá. Preferi me concentrar neste grupo,
que pode estar junto no próximo ciclo olímpico. Do atual elenco,
quase ninguém vai sair, pois é uma geração que atualmente
tem entre 23 e 24 anos, com idade para disputar pelo menos
duas Olimpíadas.
GE.Net: Há alguma interferência do governo no esporte?
Navajas: O presidente (Hugo Chávez) disse
que vai se colocar à disposição para dar o incentivo necessário
para os times que forem às Olimpíadas. Isso é muito importante
para o crescimento do esporte no país.
GE.Net: Os investimentos governamentais no esporte
são a chave do sucesso? Pode se apostar que esse sucesso será
dourado?
Navajas: Sempre falei que se o poder público não
estiver ao lado do esporte, é muito difícil se obter o sucesso
– a não ser que você esteja nos Estados Unidos, que conta
com um incentivo universitário e privado muito forte. Mas
vivemos na América do Sul e, sem o investimento público, não
é possível sair do lugar. A seleção brasileira de vôlei mesmo
é um exemplo disso. Se o poder público estivesse mais direcionado
e investisse nos esportes, nos clubes e nas cidades, as coisas
poderiam ser diferentes... mas isso não acontece e são raras
as cidades que se sobressaem. Suzano é uma delas, mas isso
é muito raro no Brasil.
GE.Net: Muitas pessoas associam o investimento do
governo venezuelano com o que ocorreu em Cuba. Há alguma repetição,
principalmente no vôlei, esporte em que os cubanos têm muito
êxito?
Navajas: Não, são coisas completamente diferentes.
A Venezuela é um país muito rico, com um povo liberal e democrático.
É um Estado livre, onde todos os cidadãos têm o direito de
ir e vir sem problemas. Não é um país em que o atleta não
pode sair para jogar em outros campeonatos, tanto que quase
todo o meu time joga na Itália. A Venezuela é democrática
e não tem nada a ver com Cuba.
GE.Net: A sua carreira é marcada por "peitar o sistema".
Você sente que seu estilo combina com a Venezuela, que vem
seguindo essa mesma linha na geopolítica?
Navajas: O sistema é comum e normal e não tenho problemas
com isso. Meus atritos são com atletas indisciplinados. Nunca
tive impasses com atletas que se dizem profissionais e agem
como tais, disciplinados, que nunca se importaram com o meu
estilo. Mas se o cara não tem disciplina, prefere um cara
‘gente fina’. Isso não bate comigo, pois não sou um ‘cara
da galera’ e não concordo que o esporte, em que milhões são
investidos, seja levado assim. Um atleta profissional sabe
disso, basta ver que a seleção brasileira se disciplinou e
passou a ganhar tudo.
GE.Net: E você se inspira na seleção brasileira?
Navajas: Claro, pois é preciso se espelhar em quem
ganha. Como a seleção é a vencedora, temos de prestar atenção
nela. Lógico. Sempre me inspirei em pessoas como Bebeto de
Freitas, José Carlos Brunoro, Josenildo Carvalho, Zé Roberto
Guimarães, Felipão, Wanderley Luxemburgo... são pessoas vencedoras.
Ganha quem tem disciplina. Não precisa ser legal com ninguém.
O atleta que cumpre com suas obrigações não tem problemas,
pode perguntar com quem trabalhou comigo. Mas os que não são
muito chegados a esse estilo vão reclamar. Trabalhei com o
Ricardinho, por exemplo, e nunca tivemos problemas.
GE.Net: E quais são os seus objetivos depois das
Olimpíadas?
Navajas: Inicialmente gostaria de conquistar uma
medalha olímpica em Pequim. Depois disso, quero classificar
a Venezuela para a Liga Mundial, o que seria muito importante
para a população do país. |