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10/01/2008
Montagem sobre foto AFP

Por Felipe Held, especial para a GE.Net

Foto AFP
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Em poucos meses, brasileiro Ricardo Navajas levou a Venezuela à inédita participação olímpica, mas não está satisfeito. Planeja agora um pódio em Pequim-2008.
A maior conquista do vôlei venezuelano até 2008 havia sido a medalha de ouro conquistada nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, em 2003, quando a equipe masculina surpreendeu e passou inclusive pelo Brasil, comandado pelo técnico Bernardinho. Mas bastaram sete dias da nova temporada para o vôlei da Venezuela alcançar um feito ainda mais notável: se classificar para uma edição de Jogos Olímpicos pela primeira vez na história, tanto na categoria masculina como na feminina.

E grande parte desse mérito se deve a um brasileiro: Ricardo Navajas, contratado em maio de 2007 para assumir o comando da equipe masculina, inicialmente para a disputa do Pan do Rio de Janeiro em julho.

Principal destaque de um grupo praticamente em crise, Navajas recuperou o moral do time e obteve a classificação para Pequim-2008 ao superar na final do Pré-olímpico das Américas ninguém menos do que a Argentina, anfitriã do torneio e favorita à vaga, por 3 sets a 1 e de virada.

Após retornar de Formosa, cidade onde faturou seu primeiro título como treinador da Venezuela, Navajas falou com exclusividade à reportagem da Gazeta Esportiva.Net e revelou um sonho ainda maior: levar o vôlei masculino venezuelano ao pódio das Olimpíadas. “Coloquei agora ao grupo o objetivo de conseguir uma medalha olímpica. Não é impossível e todos os atletas se propuseram a ajudar”, comentou o treinador, que ganhou destaque no Brasil comandando o Suzano durante quase uma década e conquistou, entre outros títulos, o octacampeonato do Paulista e o tri do Brasileiro.

Assumidamente adepto do estilo linha-dura, Navajas deu consistência a um grupo superestimado após o ouro pan-americano em 2003, mas que sofria com uma série de resultados ruins justamente por causa do ‘salto alto’. A solução para essa evolução foi “o comprometimento dos atletas”, simplificou o brasileiro, que refuta receber sozinho as glórias. “Não é mérito meu, mas de toda a comissão técnica. Eu só ajudei”, minimizou.

No bate-papo com a GE.Net, Navajas falou também sobre a importância do governo do presidente da Venezuela (outro comandante linha-dura), Hugo Chávez, para o vôlei do país, mas desvinculou seu trabalho do modelo bem-sucedido adotado por Cuba, de Fidel Castro, país que já foi grande potência na modalidade e usou o esporte como propaganda do governo. "Aqui é diferente. Trata-se de país muito rico, com um povo liberal e democrático", resumiu o treinador.

O técnico brasileiro também confessou se inspirar na seleção brasileira masculina de vôlei e disse se espelhar em grandes nomes do esporte. “Bebeto de Freitas, José Carlos Brunoro, Josenildo Carvalho, Zé Roberto Guimarães, Felipão, Wanderley Luxemburgo...”, enumerou Navajas, mas sem citar Bernardinho. Confira:

Gazeta Esportiva.Net: Qual a razão para o seu trabalho ter dado certo tão rapidamente?
Ricardo Navajas:
O comprometimento do grupo com a comissão técnica. Os jogadores se propuseram a ajudar e as coisas começaram a sair. Mas também não posso deixar de lado o trabalho feito pelo Chiquita (Carlos Almeida, ex-levantador do Suzano e com passagens como treinador em algumas equipes no Brasil) na preparação física e do Thiago (Silva) no trabalho de levantamento de estatísticas, principalmente no jogo contra a Argentina.

GE.Net: E qual a importância deles para a comissão técnica?
Navajas:
O Chiquita foi levantador na minha época do Suzano e chegou para me ajudar. Depois virou técnico e fez um trabalho muito sério, mas hoje respeita muito a opinião do treinador principal e quase não me contraria, pois acredita no meu trabalho. Nós nos damos muito bem, por sinal, e foi o Chiquita quem indicou o Thiago, que na época era moleque e era preciso pegar um pouco no pé dele. Mas briguei bastante e consegui levar os estatísticos para a Venezuela, o que foi fundamental para o trabalho.

GE.Net: Depois da vitória da Venezuela sobre o Brasil no Pan de 2003, muito se falou sobre a queda no desempenho da equipe porque os próprios jogadores teriam se superestimado. Como você trabalhou com isso?
Navajas:
O nível técnico caiu muito, tínhamos muito pouco quando eu cheguei. Mas a solução para isso foi ganhar, pois sem vitórias não acontece nada. No entanto, os jogadores se apegaram muito à disciplina tática e se prepuseram a trabalhar, dizendo que fariam tudo o que eu mandasse. Não é mérito meu, mas de toda a comissão técnica. Eu só ajudei.

GE.Net: E como evitar que aconteça o mesmo agora, com a classificação inédita para as Olimpíadas?
Navajas:
Não tem muita dificuldade, basta acabar rapidamente com o excesso de frescuras e cortar o mal pela raiz. Coloquei agora ao grupo o objetivo de conseguir uma medalha olímpica. Não é impossível, mas para isso teremos que sair do centro, de toda a badalação, e montar uma estrutura no interior. Mas todos os atletas se propuseram a ajudar, até porque já tiveram a experiência ruim após o Pan de Santo Domingo, quando sumiram do mapa e caíram para 20º no ranking da Federação Internacional. É preciso continuar trabalhando para que seja tirado um resultado positivo, caso contrário volta-se à situação de 2003. É uma opção que eles têm.

GE.Net: A classificação também do time feminino para Pequim foi uma surpresa para você? Como você enxerga esse crescimento do esporte venezuelano?
Navajas:
Eu não acompanhei muito o time feminino, mas soube que o Peru teve um problema de contusão e isso facilitou. Mas, claro, isso não tira o mérito da Venezuela. Quem mandou as peruanas se machucarem? Eu tive dois problemas graves de lesão no nosso time e, se tivéssemos sido derrotados, ninguém falaria que perdemos porque eu não tive o oposto titular. Não interessa.

GE.Net: E quais foram os problemas de contusão que você teve no Pré-olímpico?
Navajas:
Meus dois opostos. O Thomas Ereu precisou operar o ombro e não jogou, enquanto o Luís Diaz teve uma entorse muito feia na Itália (atua no Antonveneta Padova) e só pôde jogar contra a Argentina. E ainda assim, por causa das dores, só jogou com 60% de seu potencial.

Foto AFP
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Revolução também no esporte: Chávez condecorou seus times de vôlei após a conquista das vagas olímpicas inéditas e até arriscou umas jogadas
GE.Net: Quem você elegeria como o destaque do seu time?
Navajas
: A entrada do oposto Ferrera foi fundamental, pois ele estava atacando bola alta e rodou praticamente todo o ataque. Tem também o Jorge Silva, que era líbero, mas eu o passei para a posição de ponteiro achando que ele poderia jogar nas duas posições. O capitão Andy Rojas também nos ajudou bastante nos treinos. Não tem muito o que falar da equipe; os jogadores não deram trabalho. O pedido para que eu fosse o técnico partiu deles, então o grupo sabia que precisava de alguma coisa mais séria na Venezuela.

GE.Net: Então, o que se pode esperar da Venezuela nas Olimpíadas?
Navajas:
Uma equipe com bastante agressividade em busca da medalha. No vôlei é preciso ser assim, e se não tivéssemos agredido contra a Argentina teríamos perdido o jogo. Mas tem que ser uma agressividade esportiva, pois não adianta ser um enérgico descontrolado.

GE.Net: E o sucesso da seleção venezuelana vem se refletindo nos clubes do país? Como está sendo a divulgação do esporte na Venezuela?
Navajas:
Lá não tem Liga e todos os atletas jogam na Europa. Esse é o maior problema da Venezuela. Mas não me preocupei com a revelação de novos jogadores nesses seis, sete meses em que fiquei lá. Preferi me concentrar neste grupo, que pode estar junto no próximo ciclo olímpico. Do atual elenco, quase ninguém vai sair, pois é uma geração que atualmente tem entre 23 e 24 anos, com idade para disputar pelo menos duas Olimpíadas.

GE.Net: Há alguma interferência do governo no esporte?
Navajas:
O presidente (Hugo Chávez) disse que vai se colocar à disposição para dar o incentivo necessário para os times que forem às Olimpíadas. Isso é muito importante para o crescimento do esporte no país.

GE.Net: Os investimentos governamentais no esporte são a chave do sucesso? Pode se apostar que esse sucesso será dourado?
Navajas:
Sempre falei que se o poder público não estiver ao lado do esporte, é muito difícil se obter o sucesso – a não ser que você esteja nos Estados Unidos, que conta com um incentivo universitário e privado muito forte. Mas vivemos na América do Sul e, sem o investimento público, não é possível sair do lugar. A seleção brasileira de vôlei mesmo é um exemplo disso. Se o poder público estivesse mais direcionado e investisse nos esportes, nos clubes e nas cidades, as coisas poderiam ser diferentes... mas isso não acontece e são raras as cidades que se sobressaem. Suzano é uma delas, mas isso é muito raro no Brasil.

GE.Net: Muitas pessoas associam o investimento do governo venezuelano com o que ocorreu em Cuba. Há alguma repetição, principalmente no vôlei, esporte em que os cubanos têm muito êxito?
Navajas:
Não, são coisas completamente diferentes. A Venezuela é um país muito rico, com um povo liberal e democrático. É um Estado livre, onde todos os cidadãos têm o direito de ir e vir sem problemas. Não é um país em que o atleta não pode sair para jogar em outros campeonatos, tanto que quase todo o meu time joga na Itália. A Venezuela é democrática e não tem nada a ver com Cuba.

GE.Net: A sua carreira é marcada por "peitar o sistema". Você sente que seu estilo combina com a Venezuela, que vem seguindo essa mesma linha na geopolítica?
Navajas:
O sistema é comum e normal e não tenho problemas com isso. Meus atritos são com atletas indisciplinados. Nunca tive impasses com atletas que se dizem profissionais e agem como tais, disciplinados, que nunca se importaram com o meu estilo. Mas se o cara não tem disciplina, prefere um cara ‘gente fina’. Isso não bate comigo, pois não sou um ‘cara da galera’ e não concordo que o esporte, em que milhões são investidos, seja levado assim. Um atleta profissional sabe disso, basta ver que a seleção brasileira se disciplinou e passou a ganhar tudo.

GE.Net: E você se inspira na seleção brasileira?
Navajas:
Claro, pois é preciso se espelhar em quem ganha. Como a seleção é a vencedora, temos de prestar atenção nela. Lógico. Sempre me inspirei em pessoas como Bebeto de Freitas, José Carlos Brunoro, Josenildo Carvalho, Zé Roberto Guimarães, Felipão, Wanderley Luxemburgo... são pessoas vencedoras. Ganha quem tem disciplina. Não precisa ser legal com ninguém. O atleta que cumpre com suas obrigações não tem problemas, pode perguntar com quem trabalhou comigo. Mas os que não são muito chegados a esse estilo vão reclamar. Trabalhei com o Ricardinho, por exemplo, e nunca tivemos problemas.

GE.Net: E quais são os seus objetivos depois das Olimpíadas?
Navajas:
Inicialmente gostaria de conquistar uma medalha olímpica em Pequim. Depois disso, quero classificar a Venezuela para a Liga Mundial, o que seria muito importante para a população do país.

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