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Em busca do limite, apenas
por esporte
NENHUMA MARCA MASCULINA CAIU EM 2000, MAS ISSO PODE
SER POSITIVO
ALEC DUARTE
O atletismo está chegando ao final do século convivendo
com uma situação inusitada: nenhum recorde mundial masculino
em provas disputadas ao ar livre foi quebrado em 2000,
fato que não ocorria desde 1907 — ou há 93 anos. Mesmo
assim, a Iaaf (Federação Internacional de Atletismo)
está satisfeita. Como é possível?
Voltemos um pouco no tempo para entender os motivos
que levam a entidade máxima do atletismo mundial a desconsiderar
a ausência de recordes num ano olímpico, quando se esperava
a quebra de pelo menos uma dezena de marcas.
A explicação principal para o desempenho aparentemente
pífio passa pelo uso de substâncias proibidas, algo
que não preocupava os dirigentes no longínquo dia 30
de dezembro de 1870, quando o britânico Thomas Griffiths
estabelecia, na prova de 20 milhas, o primeiro recorde
homologado oficialmente. Hoje, a Iaaf mergulhou numa
autêntica cruzada contra a utilização de drogas por
esportistas. E considera a batalha parcialmente vencida
ao perceber que as marcas estão deixando de ser superadas
artificialmente, com o auxílio de substâncias.
Criar mecanismos eficientes na detecção das drogas é
o objetivo principal da Iaaf. Curiosamente, a mesma
tecnologia que por um lado ajuda os dirigentes a manter
o jogo limpo dentro das pistas também auxilia os atletas
que insistem em driblar a vigilância e, arriscando a
própria vida, ingerem produtos proibidos para conseguir
vantagens absolutamente fora das regras.
A nova bossa no assunto é o surgimento de drogas que
passam despercebidas nos exames antidoping, testes que
sempre correm atrás daqueles que criam as substâncias
para driblar a ordem pré-estabelecida.
Outro ponto inusitado do atletismo neste fim de século
é que a mesma tecnologia também é benéfica para os esportistas.
Roupas e calçados especiais, além de notáveis avanços
nas programações de treinamentos e alimentação, têm
contribuído de forma decisiva para que as marcas continuem
a cair.
Afinal de contas, esse é o princípio básico do atletismo,
desde que ele começou a ser praticado de forma competitiva,
na Grécia Antiga. A superação do homem, a idéia de que
o corpo não tem limites e a busca da marca que o transforme,
ainda que por poucos instantes, no melhor atleta do
mundo.
Sempre foi assim, antes mesmo do advento das drogas.
A superação é a moeda do atletismo, mas o profissionalismo
exacerbado — e pensar que o índio norte-americano Jim
Thorpe teve a medalha cassada porque recebeu US$ 25
por um jogo de beisebol no princípio do século — e a
pressão de patrocinadores fez com que alguns atletas
buscassem outras alternativas para brilhar.
O grande desafio da ciência e da alta tecnologia, no
próximo milênio, é criar um super-homem capaz de superar
marcas de forma limpa, sem a adição de drogas proibidas.
Numa ponta, os objetivos têm sido alcançados. A prova
é o alto rendimento de atletas como Michael Johnson,
Paul Tergat, Roman Rasskazov e Valeriy Spitsyn (todos
eles passaram raspando pela quebra de recordes mundiais
na temporada).
No próximo século, o atletismo está pronto para repetir
as histórias de heróis como Paavo Nurmi, Emil Zatopek,
Adhemar Ferreira da Silva e Carl Lewis, entre tantos
outros. Desde que seja unicamente na esfera esportiva.
Se marcas deixarem de cair, o homem finalmente terá
descoberto seu limite: a tênue fronteira entre a vida
saudável e o mundo das drogas.
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