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Motor/Fórmula 1 - (02/09/2009 10h25min00 - Atualizado 02/09/2009 13h47min18 )
Carolina Canossa - São Paulo (SP)

Fernando Pilatos/Gazeta Press
Problemas com o kart 26 logo na largada

Agora eu sei exatamente qual a sensação que Rubens Barrichello teve nos GPs da Austrália, Turquia e Bélgica. Ver a autorização para a largada ser dada e seu carro não sair do lugar é desesperador. A diferença, entretanto, é que eu não estava nas primeiras colocações e muito menos em um Mundial de Fórmula 1. Era apenas uma convidada do piloto da Brawn GP para uma informal corrida de kart na Granja Viana. Eu e mais 23 jornalistas brasileiros.

Apesar de fazer a cobertura de automobilismo há quatro anos, nunca havia experimentado um kart. A estreia, porém, não poderia ter sido melhor assessorada: na pista onde já andaram estrelas do calibre de Felipe Massa, Tony Kanaan, Alessandro Zanardi, além do próprio Rubinho, e com consultoria personalizada de um cara que está na briga para ser campeão da principal categoria do automobilismo mundial. Deu até para sonhar em ser uma das cinco melhores e chegar em casa com um dos troféus feitos especialmente para o evento.

Fernando Pilatos/Gazeta Press
Balaclava torta, mas animada para correr

A principal dica de Rubens: não virar demasiadamente o volante para não rodar o kart, que saía mais de frente. Pesagem feita, significado de bandeiras lembrado, cabelo preso para não prender na correia, macacão uns três números maior (era o menor que havia), balaclava (mal) colocada... Tudo pronto para a tomada de tempos, ao lado de outros 10 colegas que competiriam na mesma bateria.

Eis então a primeira surpresa: o traçado que eu cuidadosamente havia decorado minutos antes, quando cheguei ao kartódromo da Granja Viana, tinha sido modificado. Em resumo, virei praticamente uma kamicase. A maior preocupação então passou a ser garantir a minha segurança e principalmente a dos outros, entre eles, o apresentador Otávio Mesquita, que estava imediatamente à minha frente.

O problema é que as três primeiras curvas eram de alta velocidade. Aí, você se empolga e desce o pé no acelerador. Só que existe o miolo do traçado, com uma curva à direita e depois outra, para te lembrar que pilotar não é simplesmente usar o pé direito. E dá-lhe passagens por cima das zebras para não esquecer o quão importante é a preparação física no automobilismo. Antes de completar a primeira volta, já comecei a planejar um pit stop na farmácia para comprar algo que aliviasse as dores musculares na região da costela.

Fernando Pilatos/Gazeta Press
Conselhos de quem briga pelo título da F-1

O calor de 32ºC em Cotia, São Paulo, era o menor dos problemas diante das duas rodadas nos cinco minutos de classificação. Dona de tamanha inabilidade ao volante, qual não foi a minha surpresa ao descobrir que eu não largaria em último, mas sim na décima posição. O dia já estava ganho!

Talvez por eu ser a única mulher na bateria, talvez por dó ao ver tão fraco desempenho, Rubens me deu atenção especial antes da largada. Indicou o melhor jeito de entrar nas curvas, qual era o melhor traçado e coisas do tipo. A aula, entretanto, começou a ser perdida a partir do momento em que meu kart ficou parado na largada e precisou da ajuda de um mecânico para funcionar. Uns seis segundos foram facilmente perdidos nesta patacoada.

O objetivo passou a ser tomar o menor número possível de voltas dos ponteiros. Para minha alegria, porém, logo na terceira curva houve uma bandeira amarela e todos se juntaram novamente. Foi aí que cheguei ao ápice da minha carreira de piloto ao pressionar um rival e conseguir a minha primeira (e única) ultrapassagem.

Fernando Pilatos/Gazeta Press
Uma ultrapassagem após a bandeira amarela

Duas voltas depois, porém, o trabalho foi por água abaixo quando me desconcentrei com o aviso de problema em algum dos karts. Mais uma nota mental para a galeria: em corridas, qualquer falha REALMENTE é imperdoável. Na parte final da prova, o cansaço passou a tomar conta e a meta tornou-se simplesmente cruzar a linha de chegada ilesa.

Simpático, depois da terceira volta em cima de mim, Rubinho desacelerou e passou a me indicar qual o melhor traçado. Consegui fazer umas três ou quatro curvas da maneira ideal, sem deixar o piloto da Brawn se distanciar (muito). Mas aí a empolgação colocou tudo a perder de novo: no miolo, freei menos do que deveria e... rodei! Mas não deixa de ser uma evolução ter rodado apenas uma vez durante a prova.

No final da corrida, passei a reparar que virava na casa de 1min14s, enquanto os colegas faziam uma média de 1min07s. Já conformada com o vexame, concentrei-me apenas em levar o kart até o final. Enquanto me sentia uma verdadeira representante do Brasil na Fórmula 1 ao circular de macacão e capacete pela área, veio a segunda grande alegria do dia: eu não havia sido a última.

Fernando Pilatos/Gazeta Press
Melhor deixar as pistas e voltar às crônicas na Gazeta Esportiva.Net

Não faço ideia de quando, como e onde ultrapassei o outro repórter, mas isso não era importante. O que interessa é que eu não fechei a raia (cheguei em último, na gíria do automobilismo). Soube depois que este colega foi o responsável pela rodada mais bonita da terça-feira, em plena reta principal.

Capacete e luvas devolvidas, ainda pude acompanhar a segunda bateria na qual a outra menina inscrita fez o melhor tempo de 1min20s antes de abandonar. Bom, pelo menos na categoria feminina, eu venci. Última lição do dia: tudo é uma questão de ponto de vista. "Foi bem para a primeira vez, você fez tudo direitinho", disse-me Barrichello.

Obrigado pela gentileza, Rubinho, mas é melhor deixar esse negócio de mulher nas pistas para a Bia Figueiredo ou para a Danica Patrick. Embora, depois de ver uma Force India fazer uma pole position e chegar em segundo lugar no GP da Bélgica, o automobilismo, parafraseando o futebol, também pode ser uma caixinha de surpresas. Quem sabe, algumas boas me esperem no futuro.