Futebol/Campeonato Brasileiro Série B - ( - Atualizado )

Ídolos do Guarani pedem mudanças para o time renascer após calvário

Lucas Besseler, especial para a GE.Net Campinas (SP)

Se dentro dos gramados o Guarani acumulou neste sábado o seu oitavo rebaixamento em onze anos, turbulências políticas também abalaram o alviverde campineiro no mesmo período. Vendo os fatores extra-campo influenciarem no desempenho do time, inconstante campanha a campanha, o atacante Fabinho e o ex-meia Zenon, ídolos do clube, lamentam mais um rebaixamento e cobram mudanças na administração do time para novos vexames serem evitados e o Bugre voltar a ser protagonista na elite nacional.

Desde 2004, quando acabou o Campeonato Brasileiro entre as quatro equipes que disputariam a segunda divisão nacional no ano seguinte, o Guarani oscila bons e maus momentos durante uma mesma temporada.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Acostumado com campanhas ruins nos últimos anos, torcedor bugrino se prende à paixão para não abandonar o time
Apesar de acumular oito rebaixamentos desde 2001, o Bugre tem no período quatro acessos, dois vice-campeonatos nacionais (Série C em 2008 e Série B em 2009) e dois vice-campeonatos estaduais (Série A2 em 2011 e no Paulistão deste ano).

Um dos jogadores que viveu essa inconstância do clube na pele é Fabinho, hoje atleta do Cruzeiro. Após subir para a Série A com o time em 2009, o atacante quase foi rebaixado para a terceira divisão paulista em 2010, sendo emprestado para a Portuguesa na primeira metade do Campeonato Brasileiro do mesmo ano, onde o Bugre acabaria entre os quatro últimos colocados.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Fabinho variou momentos bons e ruins vestindo a camisa do Guarani
No ano seguinte, retornou para Campinas para comandar o vice-campeonato paulista da Série A2 que culminou no retorno à elite estadual. Líder do elenco, segurou as pontas com o time que ficou sete meses sem receber e livrou o Guarani do rebaixamento à Série C na última rodada. Neste ano, voltou a sorrir com o surpreendente vice-campeonato Paulista.

“Não tem explicação. Eu já tinha vivido isso e tentei evitar. Desde quando acabou o Paulista eu fui o primeiro a alertar. Já no vestiário do primeiro jogo eu disse que a gente teria que abrir o olho porque em muitos anos muito time bom, que fez boa campanha no primeiro semestre, acabou ficando na zona de rebaixamento”, lamenta o ídolo bugrino, em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.net.

Para o atacante, que deixou o Brinco de Ouro rumo ao Cruzeiro ainda nas primeiras rodadas da Série B, o fato de o técnico Vadão não conseguir repetir a equipe vice-campeã paulista prejudicou a campanha bugrina. “O time perdeu jogadores, umas lesões atrapalharam e o clube não estava preparado pra isso”, analisa.

Rebaixamento deste sábado foi o oitavo do Guarani em 11 anos

Relembre como foi a partida que rebaixou o Guarani à Série C

Diretoria bugrina lamenta rebaixamento, mas crê em 2013 da superação

Seguidas quedas de presidentes marcam crise política bugrina nos últimos anos

Apesar disso, o atacante credita a inconstância alviverde dentro de campo à turbulência política fora das quatro linhas. Nos últimos treze anos, nenhum dos quatro presidentes do Guarani conseguiu concluir o seu mandato. Coincidentemente, o período bate com o início da série de rebaixamentos do Bugre.

Após assumir a direção do clube em 1988, Beto Zini não suportou a pressão da oposição que o acusava de terceirizar o futebol do clube e vender jogadores como Amoroso, Luisão, Djalminha e Edilson por valores muito abaixo do real e renunciou em 1999.

Presidente interino em meio à crise instaurada pela saída de Zini, José Luis Lourencetti acabou sendo eleito no mesmo ano. Mandatário nos primeiros rebaixamentos dos anos horríveis do Bugre, renunciou em 2006 após parceria com a empresa fantasma italiana Turbo System. Foi ele também o presidente que mais acumulou dívidas à frente do clube, sendo apontado hoje como o principal culpado pela crise financeira do Guarani – estima-se que a dívida alviverde total se aproxime dos R$ 150 milhões.

Comandante bugrino no vice-campeonato brasileiro de 1986, Leonel Martins de Oliveira surgiu como a solução para a má administração de Lourencetti. Ultrapassado e teimoso, porém, isolou-se com seus apoiadores na presidência, e revezou bons e maus momentos dentro de campo. Após passar sete meses sem pagar os salários do elenco, foi o primeiro mandatário deposto pelos sócios do clube no final do ano passado.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Isolamento de Marcelo Mingone (à esquerda) culminou na saída do técnico Vadão (à direita) do Guarani
Seu sucessor na presidência, Marcelo Mingone teve início promissor à frente do Guarani. Apostando em jogadores experientes para a disputa do Paulistão, viu o técnico Vadão comandar o time rumo ao vice-campeonato estadual. O sucesso, porém, levou Mingone a isolar-se no comando do clube, fato que culminou na saída do diretor de futebol Cláudio Corrente, nome forte bugrino e responsável pela montagem do elenco.

Sem o seu diretor, o elenco foi enfraquecido para a disputa da Série B do Campeonato Brasileiro e não suportou a saída do auxiliar técnico Gersinho e do treinador Vadão, também por motivos políticos, caindo para a terceira divisão na última rodada. Mingone, no entanto, já havia deixado o Guarani três semanas antes, prevendo mobilização da oposição para a sua saída após acusações de irregularidades nas vendas do zagueiro Neto, do atacante Bruno Mendes e de jogadores das categorias de base.

“Esse cenário político prejudica porque todos os jogadores que passaram e os que estão aí acabam não sabendo quem está no comando do clube de verdade, quem vai honrar os compromissos com o time. É muita tristeza quando o nome do Guarani está envolvido com a justiça, quando o presidente não está cumprindo com os salários. Isso atrapalha dentro de campo”, lamenta Fabinho.

Camisa 10 bugrino na maior conquista da história alviverde, o meia Zenon também culpa a sequência de má administrações no Brinco de Ouro pelas más campanhas bugrinas no século XXI. Apesar disso, o ex-jogador ressalta o fato de crises políticas não serem exclusividades do clube campineiro.

“Muitas lambanças aconteceram no Guarani em termos de diretoria. Salários atrasados, dívidas, esse tipo de coisa influencia no desempenho dentro das quatro linhas. Mas isso não é exclusividade do Guarani. O futebol hoje apronta para muitos clubes”, analisa, comparando a atual situação bugrina com a de outro alviverde paulista. “O Palmeiras, mesmo, passou por isso”, lembra.

Gazeta Press
Campeão brasileiro em 1978, Zenon (com a criança) não acredita em novo título nacional do Guarani
Ídolos só acreditam em retorno à Série A com mudança de mentalidade

Tanto para o antigo quanto para o atual ídolo bugrino, o renascimento do Guarani no cenário nacional só será possível em caso de mudança geral na administração e na mentalidade do clube.

“O pensamento tem que ser no clube. Quem estiver lá dentro tem que lutar por um Guarani forte de novo, mas esses problemas políticos acabam atrapalhando. O Guarani tem que estar sempre brigando por títulos, mas pra isso não pode existir briga de vaidades, briga entre diretores. As pessoas tem que deixar a vaidade de lado pelo bem do Guarani, só assim ele vai ser grande de novo”, acredita Fabinho.

O argumento do atacante é reforçado por Zenon. Para o ex-meia, que atuou no principal time dos 101 anos de história do Guarani e acostumou-se a enfrentar fortes equipes bugrinas nos anos 80, o alviverde campineiro só será forte novamente se for completamente reestruturado.

“Muitas diretorias não fazem um trabalho satisfatório. Isso acarreta em coisas sérias. Troca de treinador, reformulação errada de elenco, dívidas, contratações que não fazem diferença alguma. Tudo isso atrapalha e tem que mudar pro Guarani voltar a crescer”, avalia.

Apesar disso, Zenon diverge de Fabinho em um fato. Diferente do atacante, o ex-meia acredita que nenhum outro elenco bugrino irá repetir o feito que realizou junto a nomes como Careca, Neneca, Capitão, Bozó e Renato Pé Murcho em 1978.

“Ficar na Série A é possível. O atual campeão brasileiro já ficou na Série C, por exemplo. O futebol é reversível, se o clube souber suportar as crises, principalmente depois de uma decepção como a deste ano. Mas ganhar o título nacional é impossível. O Campeonato Brasileiro atual é feito pra oito clubes no máximo, os outros são participantes”, conclui.

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