Atletismo/Bastidores - ( - Atualizado )

Ascensão é apontada por psicólogo como causa de crise de Pistorius

Bruno Bataglin e Lucas Besseler, especial para a GE.net São Paulo (SP)

Logo após a notícia do assassinato da modelo Reeva Steekamp pelo namorado, a lenda paralímpica Oscar Pistorius, o mundo passou a imaginar quais os motivos que levaram o sul-africano a jogar toda a carreira de sucesso para o alto e disparar quatro tiros contra a bela companheira. Para o psicólogo esportivo João Ricardo Cozac, colunista da Gazeta Esportiva.Net, mais importante que razões do crime cometido por Pistorius é analisar todo o histórico que levou a lenda do atletismo a apresentar comportamento tão agressivo.

Para Cozac, a falta de acompanhamento psicológico durante a carreira de atletas é a grande culpada por estes não saberem lidar com o sucesso ou o fracasso e tomarem decisões que acabam influenciando negativamente em sua vida pessoal.

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Pistorius é detido após assassinar Reeva em sua mansão: velocista diz que confundiu a namorada com ladrão
“De cinco a dez anos para cá eu tenho percebido o desenvolvimento de quadros emocionais bastante fragilizados, no meu consultório, e tenho notado que muito dessa fragilização tem a ver com a dificuldade que eles encontram nesse enquadramento institucional esportivo, tanto no Brasil quanto no mundo”, diz o psicólogo.

Segundo o profissional, acostumado a lidar com esportistas, a decisão de seguir uma vida de treinamentos e competições constantes acaba afastando os atletas de seus alicerces, de situações e pessoas que antes julgavam fundamentais e que de um instante para outro não estão mais presentes em suas vidas.

“Falta apoio familiar, uma maior inserção social. Normalmente o atleta de alto rendimento tem que abandonar tudo e isso gera uma lacuna no desenvolvimento dele. Uma dificuldade de relacionamento institucional com clubes, patrocinador. Essa lacuna desenvolve quadros depressivos, patologias, ansiedade generalizada, melancolia, etc. Uma série desses quadros são gerados pelo esporte de alto rendimento”, analisa, citando um caso famoso de um atleta brasileiro que não soube lidar com o fato.

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Antes de crime, Pistorius nunca deu pistas de relacionamento conturbado com Reeva Steekamp
“É muito comum que esses atletas percam a identidade de origem. Alguns se perdem tanto que partem para drogas, violência doméstica. Não é à toa que você pega um Adriano, que constrói uma bela carreira, ganha muito dinheiro e cadê seus amigos na Vila Cruzeiro? Então ele volta até lá”, diz.

No caso de Pistorius, a situação é ainda mais complicada por conta da ascensão explosiva que a sua carreira sofreu. Um dos melhores velocistas paralímpicos da história, o sul-africano passou a competir em alto nível com atletas sem deficiência e entrou para a história do esporte ao ser o primeiro biamputado a participar de provas de velocidade dos Jogos Olímpicos.

“No caso do Pistorius tem que ser observada a rápida ascensão, a mudança do status psicossocial. A dissolução da identidade primordial do ser humano Pistorius. Essa explosão meteórica, nesse período de cinco anos, que trouxe ele não só para competições paralímpicas, mas também olímpicas. Ele foi melhor que 33 atletas de alto nível do mundo. Como ele gerenciou essa mudança de status? A questão não é tanto da deficiência, e sim do ser humano em si”, diz.

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Em Londres-2012, Pistorius entrou para a história do esporte ao competir e superar atletas não-deficientes
Para Cozac, a solução é o acompanhamento psicológico integral desde o início da carreira dos atleta, ensinando-os a lidar com as situações que terão pela frente antes de realmente encará-las. “Falta muito a preparação psicológica na formação dos atletas. Faltam psicólogos, assistentes sociais. Se hoje eles não são de alto rendimento, eles podem passar a ser e precisam de um respaldo para aguentar as cobranças, quando as pessoas passam a vê-lo como mito”, afirma.

Além disso, o psicólogo acredita ser possível lidar com atletas agressivos. Para ele, o fato, visto como negativo, pode ser usado para aumentar o nível de competitividade de esportistas.

“Uma agressividade interna. Uma energia de produtividade, vinda do campo emocional. Quando você não tem um acompanhamento psicológico, ele tende a canalizar essa agressividade de uma forma equivocada. Você não deve aniquilar a agressividade de um atleta jamais, mas você deve trabalhá-la para que ela gere uma energia favorável, uma “energia propulsora” de sua performance. Se você fizesse um trabalho para aniquilar essa energia, você acabaria com o desempenho dele. Então há que canalizar”, afirma.

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Pistorius chora ao ouvir a acusação oficial de assassinato, um dia após atirar na namorada
Acusado de assassinato premeditado, apesar de garantir ter disparado quatro tiros contra Reeva após confundi-la com um ladrão, Pistorius irá a julgamento às 4h (de Brasília) desta terça-feira, em um tribunal em Pretória, na África do Sul.

Caso as autoridades consigam comprovar que o velocista planejou a morte da namorada, o atleta pode ser condenado a prisão perpétua. A defesa, porém, está confiante em conseguir pena branda por acreditar que as evidências apontam para a versão de Pistorius.

Cozac, no entanto, acredita que a popularidade e o desempenho do sul-africano nunca serão os mesmos caso ele seja inocentado nos tribunais. “O tiro que o Pistorius deu na namorada é um tiro que ele deu na carreira dele, no status de mito que ele construiu no esporte e no seu país”, conclui.

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Para Cozac, carreira e vida de Pistorius nunca mais serão as mesmas mesmo em caso de inocência no caso

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