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Antropólogo vê fascismo em proibições a torcidas organizadas

Helder Júnior São Paulo (SP)

O antropólogo Luiz Henrique de Toledo se acostumou a frequentar o Morumbi em sua infância. Naquela época, o entorno do estádio era repleto de barracas que vendiam sanduíches de pernil, as arquibancadas tinham grandes bandeiras com mastro como decoração e os fogos de artifício iluminavam o céu de São Paulo antes, durante e após as partidas de futebol. Uma cultura que se esvaiu – em parte com a justificativa da preservação da paz, para lamentação do pesquisador.

Banda argentina influencia torcidas

“A carnavalização das formas de torcer no Brasil deveria ser preservada. As proibições são obtusas, represálias autoritárias em nome de formas de combate à violência que primam pela subtração da alegria de todos e nesse sentido parecem fascistas”, contrapôs Toledo, que levou a sua formação como são-paulino para os cursos de graduação em Ciências Sociais e de mestrado e doutorado em Antropologia Social da Universidade de São Paulo (USP).

Atualmente, além de torcedor do São Paulo, Luiz Henrique de Toledo é professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e um respeitado pesquisador ligado à temática esportiva. Sua dissertação de mestrado, “Torcidas organizadas de futebol: lazer e estilo de vida na metrópole”, ganhou o Prêmio José Albertino Rodrigues, concedido pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).

Com o seu currículo, Toledo foi procurado pela GE.net para explicar os motivos da aproximação da postura das torcidas organizadas brasileiras ao modo de incentivar seus times das chamadas “barras bravas” argentinas. A banda de rock Attaque 77, da Argentina, havia externado para a reportagem bastante orgulho por ter alguns dos seus hits parodiados por torcidas de diferentes clubes sul-americanos.

Para Toledo, no entanto, o maior problema não é os seguidores do seu São Paulo cantarem que “o sentimento não pode acabar”, como fazem os integrantes da Attaque 77 e também os torcedores argentinos. O antropólogo se mostrou mais preocupado com as atitudes repressivas tomadas contra as organizadas. “Tirar a importância das torcidas é transformar o futebol em um negócio cada vez mais desinteressante e de poucos! Violência se combate com inteligência, investigação e tecnologia, não com repressão reativa”, contestou.

Acervo/Gazeta Press
Antropólogo Luiz Henrique de Toledo defende a carnavalização das formas de torcer, comum nos anos 1980 (foto)
O discurso do antropólogo foge ao lugar comum de que todas as medidas (autoritárias ou não) adotadas contra as uniformizadas dos grandes clubes são necessárias para a manutenção da paz no futebol. Federações passaram a defender mais radicalismo após a morte do garoto boliviano Kevin Douglas Beltrán Espada, vítima do disparo de um sinalizador – artefato proibido em muitos estádios – no empate por 1 a 1 entre San José e Corinthians, pela Copa Libertadores da América.

Também como resposta àqueles que já imaginam um comportamento semelhante aos das plateias de teatros (ou mesmo às de alguns clubes europeus, sempre apontados como exemplares) como a solução para o futebol brasileiro, muitas torcidas do País passaram a se espelhar ainda mais na Argentina. É o caso de quem apoia o modesto e tradicional Juventus da Mooca, que leva instrumentos, faixas e trapos típicos de uma “barra brava” para a Rua Javari. Sem se esquecer de sempre pregar “Ódio eterno ao futebol moderno”, lema encampado em países como a Itália.

Toledo não é tão radical quanto os adeptos dos movimentos contrários ao “futebol moderno”. “Todas as formas históricas têm lá seus opositores e entusiastas. Falar em futebol moderno é demasiado amplo para ser contra ou a favor. Devemos ser favoráveis às tecnologias, ao sossego das transmissões pagas, aos estádios confortáveis, é claro que sim, mas a sociedade deveria ficar atenta ao que vêm junto com esses benefícios, que são as negociatas, os interesses escusos, os lobbies da Fifa e da mídia”, opinou, disposto a estender o debate às arquibancadas.

“Temos que discutir com a sociedade, ao menos com os setores que fazem o futebol, e isso inclui os torcedores, que não podem ser tomados como agentes passivos desse processo, que só serviriam como consumidores. Fico preocupado com esse discurso otimista da mídia, que quer transformar torcedor em consumidor”, atacou Toledo, certamente pensando na cobiça dos gerentes de marketing dos grandes clubes brasileiros, ávidos pela comercialização de programas de sociedade que abrangem áreas cada vez mais Vips e dos mais variados produtos com as suas “marcas”.

Lucas Uebel/GFBPA
Alguns dos torcedores do Grêmio copiam até mesmo os gestos dos torcedores argentinos nas arquibancadas
De qualquer forma, Toledo não teme que as torcidas brasileiras se apropriem do modo de torcer do mais rouco dos “barras bravas” ou do menos animado dos europeus, perdendo a sua identidade. No Sul, por exemplo, há gremistas que já preferem usar o castelhano para cantar, ao invés do português. “Torcer também responde às dinâmicas locais, mas influências entre torcidas (de região para região, de país para país) ocorrem com frequência. O caso do Sul, notadamente em alguns agrupamentos gremistas, faz com que aumente a diferença em relação às torcidas de Porto Alegre. Colorados, inclusive, não incorporam a ‘avalanche’, tida como coisa de gremista”, mencionou.

“No mais, torcidas copiam e circulam entre si formas de torcer há muito tempo. Isso é uma dinâmica característica de qualquer identidade, sempre dialogando com a diferença, com os opositores. Não existe identidade em si mesma. Elementos são apropriados, misturados, moldados, sintetizados e assim se produzem novas identidades. As formas de torcer se alteram com o tempo. É inevitável que isso ocorra. As escolhas e os rumos dessas mudanças são sempre imprevisíveis. Afinal, vemos até brasileiros copiando argentinos!”, concluiu Toledo, surpreso.

Sem frequentar jogos de futebol desde o nascimento do seu filho, o antropólogo não sabe como serão os torcedores que encontrará ao retornar para os estádios – se cantarão como argentinos ou se levarão “foguetes e bandeiras” (como narra a letra de uma canção bem brasileira das uniformizadas). Luiz Henrique de Toledo só quer torcer em paz. “Sou são-paulino e desde sempre convivi com estádios e seus torcedores. As torcidas sempre me fascinaram pela plasticidade e pela transgressão! E, como qualquer garoto, é claro que convivi com a violência. O problema da violência gratuita nos estádios deve acabar para o bem do futebol, mas isso também tem a ver com a dinâmica violenta das grandes cidades brasileiras. Não dá para tratar o tema de modo simplista, eleitoreiro, justiceiro e policial”, ensinou novamente o torcedor.

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