Futebol/Copa 2014 - ( )

Oito anos após Weggis, "família Parreira" encontra melhor Suíça

Tossiro Neto Teresópolis (RJ)

As bandeiras quadradas, vermelhas e com uma cruz branca ao centro, penduradas no teto do rinque de patinação no gelo, sugerem outro local. Não se está na Suíça, mas sim na carioca e menos fria Teresópolis, a 25 quilômetros da Granja Comary, onde a Seleção Brasileira treina para mais uma Copa do Mundo, oito anos depois do fracasso de 2006, consequente - para muitos - da carnavalesca preparação no pequeno vilarejo suíço de Weggis.

Trata-se, mais precisamente, de parte da área de entretenimento do Le Canton, um luxuoso complexo hoteleiro de dois milhões e meio de metros quadrados, localizado no pobre distrito de Vargem Grande, no km 12 da estrada que vai para Nova Friburgo, região sem água tratada até 2012. Na "Suíça Brasileira", como o resort se define, além de patinação (R$ 40 a hora) e pista de neve artificial (na qual é possível esquiar ao preço de R$ 120), as crianças encontram muitas outras opções de diversão dentro do Parc Magique, como montanha-russa, roda gigante, barco viking, cinema 5D, entre outros.

Francês que serviu Parreira não põe fé em feitos como de 98 e 2006
Pistas de neve e gelo em Teresópolis ainda são pouco conhecidas
Suíça fez pré-Copa em Weggis, mas sem o carnaval verde-amarelo
Veja fotos do hotel suíço em que a família de Parreira se hospedou

Nos poucos dias em que lá estiveram hospedados, no último fim de semana de maio, os cinco netos de Carlos Alberto Parreira (atual coordenador técnico da Seleção) escolheram brincadeira menos aventuresca. Comandada pelas mães Danielle e Vanessa, a escalação formada por Letícia (a mais velha, de nove anos), Lucas, Rafael, Isabela e a caçula Laura passou as tardes mais nas pistas de boliche. No domingo, eles almoçaram a tradicional feijoada do hotel na companhia do avô, que usou uma rara janela de quatro horas de folga retribuindo a visita deles ao centro de treinamentos da equipe, pela manhã.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Complexo hoteleiro onde se hospedaram os cinco netos do coordenador técnico da Seleção Brasileira fica em Vargem Grande, um pobre distrito de Teresópolis, local em que a equipe se prepara para a Copa do Mundo
Concebido inicialmente para ser um mero hotel familiar, em 1983, a obra do juiz e empresário João Uchôa Cavalcanti Netto, que era encantado pela arquitetura europeia - em especial pela dos cantões (estados) suíços -, passou por quase três décadas de ampliações. Em 2010, dois anos antes de falecer aos 78 e deixar aos filhos uma herança bilionária, autorizou a execução de projetos que dariam ainda mais magnitude ao Le Canton. Não bastassem os 153 apartamentos do hotel principal, as pistas de gelo e de neve e o parque temático, ergueram-se um castelo medieval e um hotel-fazenda suíço anexo, com mais 34 acomodações de luxo.

Atualmente, nos dois milhões e meio de metros quadrados, há de tudo que se possa imaginar. Heliponto, spa, academias, quadras esportivas, restaurantes, bares, queijaria suíça, salões de jogos, centro hípico, parque aquático... Uma infinidade de alternativas para descansar ou se divertir, desde que se reserve uma "diária" com duas noites obrigatórias. Para um adulto, ela não fica por menos de R$ 1.258 mais taxas. Mas o resort tem uma promoção a partir desta quarta-feira, especial para a Copa do Mundo: diárias a partir de "apenas" R$ 983, com gratuidade para duas crianças de até cinco anos ou uma de até 12 anos, no mesmo quarto.

AFP
Parreira era o treinador da Seleção em 2006, quando o atacante Ronaldo se apresentou acima do peso
Por ser em Teresópolis o principal local de preparação da Seleção antes e durante o torneio, é bem provável que os cinco netos de Parreira voltem a se hospedar no Le Canton. Como também fez, recentemente, o já aposentado Juninho Pernambucano, titular em dois jogos na Copa de 2006. Copa em que Parreira, como treinador, não conseguiu formar um grupo que imitasse a campeã "Família Scolari", de quatro anos antes. Em 2006, na suíça Weggis, em vez de paz e concentração, o agora ajudante de Luiz Felipe Scolari só encontrou problemas.

O local escolhido para a preparação antes do Mundial da Alemanha até prometia tranquilidade. O vilarejo de quatro mil pessoas, situado no cantão de Lucerna, no sopé da montanha Rigi, sempre foi destino sobretudo de idosos e adultos que, no inverno, gostam de esquiar. No verão de oito anos atrás, no entanto, transformou-se em um carnaval fora de época. Durante a estadia de duas semanas da equipe no Park Weggis, bancada por um empresário da região, os 14 treinos tiveram média de seis mil pagantes. Foram várias as tentativas de invasão ao campo que havia sido construído somente para aquela ocasião. Uma mulher teve sucesso, driblou a segurança e se atarracou no sorridente Ronaldinho Gaúcho, enquanto o meia fazia alongamento.

Os jogadores diziam gostar daquele oba-oba. Tanto é que perdiam quase uma hora depois das atividades para conceder autógrafos. Em uma folga dada pela comissão técnica de Parreira, alguns foram a uma danceteria de Lucerna, cidade próxima a Weggis e de mesmo nome do cantão. Entre eles, Ronaldo, Roberto Carlos, Adriano, Robinho, Émerson e Júlio César, atual titular da meta brasileira. O grupo tirou fotografias cercado de mulheres, e Ronaldo, que se apresentou pesando 95 kg, oito a mais do que em 2002, chegou a brincar como DJ. No dia seguinte, disseram ter aproveitado a folga para descansar, mas foram desmentidos pouco tempo depois com a publicação das imagens em um tablóide suíço.

AFP
Jogadores disseram que haviam usado a folga para descansar, mas foram desmentidos pouco depois com a publicação das imagens em um tablóide suíço, nas quais apareciam na danceteria de uma cidade vizinha
Depois da eliminação para a França nas quartas de final, com gol originado em um lance de desatenção principalmente de Roberto Carlos - ele ajeitava o meião e deixou Thierry Henry desviar para a rede uma cobrança de falta -, muitos personagens da época reconheceram que aquela não havia sido a preparação ideal. Inclusive Parreira, antes defensor do período na Suíça. Oito anos depois, avô de mais quatro crianças e agora coordenador da Seleção, ele busca evitar que o erros se repitam. Além de dosar a entrada de pessoas na Granja Comary, a CBF também tenta controlar para que as emissoras de televisão não transmitam os treinos na íntegra, como foi possível, pela primeira vez na história, fazer em Weggis.

"Vamos tentar evitar esses dois extremos, de abertura total e fechamento total. Vamos procurar uma maneira em que os jogadores sejam atendidos, porque o importante é que a gente treine com tranquilidade e segurança, e que vocês (jornalistas) também sejam atendidos na cobertura. Aqui é diferente, não tem condições para receber mil, duas mil pessoas por dia. Isso, quem diz, é a própria segurança. Não sou eu, não é o Felipão, não é o Murtosa", tratou de avisar, logo no primeiro dia de preparação em Teresópolis, longe da família.

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