Carolina Canossa,
especial para a GE.Net
“Disssspppaaaarrrraaaa”. É este
grito, carregado de sotaque e semelhante aos proferidos
em um treinamento militar, que o húngaro Ákos Angyal repetiu
diversas vezes por dia desde que a seleção brasileira
de canoagem começou a usar a cidade de São Bernardo como
concentração permanente, em abril de 2005. Na água, os
atletas se esforçam para baixar os tempos nas raias improvisadas
na represa Billings.
| Divulgação/Rodrigo Ramirez |
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Húngaro Ákos Angyal (em pé
ao centro) comanda seleção
de caiaque e ganha elogio dos atletas também
por sua psicologia
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Ao lado do brasileiro Pedro Sena,
Ákos tem a missão de fazer com que a modalidade seja
um dos destaques nacionais nos Jogos Pan-americanos,
que serão realizados no Rio de Janeiro em julho. O estrangeiro
treina os atletas do caiaque, que já tem relativa tradição
no país, com 11 medalhas em Pan. Sena, por sua vez,
tenta levar a canoa pela primeira vez ao pódio.
A vinda do treinador ao Brasil deve-se
ao fato de ele ter nascido em um dos países onde a canoagem
tem mais representatividade, a Hungria, onde as competições
do esporte costumam lotar as arquibancadas. Na história
das Olimpíadas, os húngaros já conquistaram 17 medalhas
de ouro, 26 de prata e 24 de bronze, sendo a nação que
mais acumula pódios na canoagem.
“É um esporte muito popular na Hungria,
quase como o futebol aqui”, explica Ákos, com um português
bastante razoável para quem não tem nem dois anos de
Brasil. Ele é apontado como o responsável pela união
dos atletas da modalidade, graças ao seu jeito amigo
e disciplinador ao mesmo tempo.
“Primeiro foi um treinador
nacional (Carlos Bezerra) e depois veio o polonês (Zdzislaw
Szubski). O Bezerra era um treinador mais da linha amigo
do atleta. Já o Szubski veio com uma linha de general,
uma coisa mais rígida. E o Ákos é a mistura: um cara
muito compreensivo, que sabe lidar muito bem com os
problemas dos atletas sem deixar de tirar o seu máximo
dentro da água”, relata o experiente Sebastian Cuattrin,
que no Rio vai disputar seu quinto Pan.
Sena diz que a chegada de Ákos foi
benéfica até mesmo para a canoa. “Desde abril de 2005
formou-se uma família e isso fez com que todo mundo
se unisse. Antes, o caiaque era de um lado, a canoa
de outro e isso não agregava valores. Unimos as duas
forças do esporte e isso fez com que os dois lados crescessem”,
analisa.
A canoagem brasileira vai participar
dos Jogos Pan-americanos com nove atletas: Sebastián
Cuattrin (K1 1000m K4 1000m), Guto Campos (K2 500m e
K4 1000m), Edson Silva (K4 1000m), Roberto Maheler (K4
1000m), Jonathan Silva (K2 1000m), Givago Bitencourt
Ribeiro (K2 1000m), Nivalter Santos (C1 500m e 1000m),
Vilson da Conceição (C2 500m e 1000m) e Vladimir Moreno
(C2 500m e 1000m). De olho em uma boa participação na
disputa, os atletas treinaram cerca de cinco horas diárias
no ABC paulista. Depois embarcaram para a Europa, onde
mediram forças em duas etapas da Copa do Mundo. No começo
de junho começarão a concentração definitiva no Rio
de Janeiro.
“A gente fez uma periodização
especial para o Pan e agora o treinamento vai ser bem
mais duro para que eles cheguem ao Rio no auge. Queremos
que eles cheguem ao Pan em condições de enfrentar qualquer
adversário”, comenta Sena.
Na estadia na Hungria e Croácia,
os brasileiros tiveram a oportunidade de medir forças
com alguns dos principais adversários no Pan, caso de
Canadá, Estados Unidos, Chile, Argentina e Porto Rico.
Em terras croatas, todos os brasileiros passaram para
as semifinais da competição, mas apenas o sergipano
Santos chegou a uma decisão A, ficando com o sexto lugar
no C1 200m.
“Fomos para tentar medir qual
o nível que nós ficamos e tentar depois fazer conclusões
e mudar o programa de treino para o Pan”, explica Ákos.
Na Hungria, o time nacional masculino chegou a quatro
finais B: K4 1000m (oitavo lugar), K1 1000m (nono lugar),
C1 1000m (oitavo lugar) e C2 1000m (nono lugar). A conclusão
é que o Canadá, classificado a diversas finais A, será
o maior adversário no
Pan do Rio.
| Entenda
a canoagem |
| Nos Jogos Pan-americanos,
assim como nas Olimpíadas, são utilizados dois barcos:
a canoa e o caiaque. As canoas são barcos abertos,
conduzidos por competidores apoiados nos joelhos.
Os remos têm apenas uma pá. Caiaques são barcos
fechados, cujos competidores estão sentados e utilizando
remos de duas pás.
A competição é dividida de acordo com o tipo
de embarcação e a distância do percurso. Caiaques
e canoas são divididos em várias categorias, com
comprimento, largura e peso distintos.
O número que vem depois da letra (K para caiaque
e C para canoa) indica o número de atletas que
conduz a embarcação: K-1 para uma pessoa, K-2
para duas pessoas, K-4 para quatro pessoas, C-1
para uma pessoa, C-2 para duas pessoas, C-4 para
quatro pessoas.
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Mesmo assim, as expectativas para
o Pan são altas. “Acredito que vamos quebrar o tabu
de nunca ter ganhado medalhas, porque nos treinos eles
vêm baixando os tempos, que já estão excelentes para
a canoa olímpica brasileira”, destaca Sena. Ákos concorda
e mantém o otimismo. “Meu grupo cresceu nos últimos
dois anos. Das cinco provas no Pan, em quatro eles têm
chances de ganhar medalhas. A única que há dúvida é
no K2 1000m. Só não sei falar agora qual dessas vai
ser de ouro”, brinca o estrangeiro.
Apesar do frio maior que no Rio
de Janeiro e da água doce e profunda (a água salgada
da Lagoa Rodrigo de Freitas é mais leve e rasa), a represa
Billings é considerada ideal para a preparação brasileira.
Mesmo perto da via Anchieta, os treinos são realizados
em espaço absolutamente tranqüilo, onde é possível ouvir
o som de animais, e pescadores amadores ficam à beira
da água. “Este lago é de grande tamanho, para
fazermos a base do treino e ganhar quilometragem na
remada. O vento é muito forte e conseguimos fazer a
qualidade do treino”, explica.
Único medalhista de ouro na
canoagem brasileira em Jogos Pan-americanos, Guto Campos
garante que a modalidade está em ascensão. “Tecnicamente
melhorou muito, todos os atletas estão com uma harmonia
muito grande com o treinador”, afirma o atleta, que
quer aproveitar o sucesso do Pan para ganhar um patrocínio.
“É o que eu sempre digo: o caiaque é um outdoor ambulante,
dá para aparecer muito a marca, mas ainda é pouco divulgado.
Nas entrevistas pós-Pan é nossa hora de mostrar um retorno
para o patrocinador”, espera.
Ákos, porém, ressalta que
o Brasil ainda tem muito a evoluir se quiser alcançar
o patamar húngaro de excelência na canoagem. “É muito
importante apoiar o grupo brasileiro não com dinheiro,
mas sim organizando as coisas. Tudo tem que estar no
lugar quando for preciso, não pode atrasar. O Brasil
ainda tem muito a melhorar nestas questões de logística.
Aqui, os suplementos ainda não chegam no tempo exato”,
avalia o treinador, fazendo comparação com uma guerra.
“Em um combate, o grupo que
está com a logística atrasada não tem comida, não tem
armas. Por isso, não consegue lutar direito e perde.
O mesmo acontece no esporte”, compara o húngaro, que
acredita que o mesmo acontece no restante da sociedade.
“A organização é muito mais exata no meu país. Lá, somos
mais fechados, temos preocupação. Aqui ninguém está
muito preocupado para o futuro”, destaca.
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