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28/05/2007
Fotos Divulgação
Carolina Canossa, especial para a GE.Net

“Disssspppaaaarrrraaaa”. É este grito, carregado de sotaque e semelhante aos proferidos em um treinamento militar, que o húngaro Ákos Angyal repetiu diversas vezes por dia desde que a seleção brasileira de canoagem começou a usar a cidade de São Bernardo como concentração permanente, em abril de 2005. Na água, os atletas se esforçam para baixar os tempos nas raias improvisadas na represa Billings.
Divulgação/Rodrigo Ramirez
Foto Divulgação

Húngaro Ákos Angyal (em pé ao centro) comanda seleção de caiaque e ganha elogio dos atletas também por sua psicologia

Ao lado do brasileiro Pedro Sena, Ákos tem a missão de fazer com que a modalidade seja um dos destaques nacionais nos Jogos Pan-americanos, que serão realizados no Rio de Janeiro em julho. O estrangeiro treina os atletas do caiaque, que já tem relativa tradição no país, com 11 medalhas em Pan. Sena, por sua vez, tenta levar a canoa pela primeira vez ao pódio.

A vinda do treinador ao Brasil deve-se ao fato de ele ter nascido em um dos países onde a canoagem tem mais representatividade, a Hungria, onde as competições do esporte costumam lotar as arquibancadas. Na história das Olimpíadas, os húngaros já conquistaram 17 medalhas de ouro, 26 de prata e 24 de bronze, sendo a nação que mais acumula pódios na canoagem.

“É um esporte muito popular na Hungria, quase como o futebol aqui”, explica Ákos, com um português bastante razoável para quem não tem nem dois anos de Brasil. Ele é apontado como o responsável pela união dos atletas da modalidade, graças ao seu jeito amigo e disciplinador ao mesmo tempo.

“Primeiro foi um treinador nacional (Carlos Bezerra) e depois veio o polonês (Zdzislaw Szubski). O Bezerra era um treinador mais da linha amigo do atleta. Já o Szubski veio com uma linha de general, uma coisa mais rígida. E o Ákos é a mistura: um cara muito compreensivo, que sabe lidar muito bem com os problemas dos atletas sem deixar de tirar o seu máximo dentro da água”, relata o experiente Sebastian Cuattrin, que no Rio vai disputar seu quinto Pan.

Sena diz que a chegada de Ákos foi benéfica até mesmo para a canoa. “Desde abril de 2005 formou-se uma família e isso fez com que todo mundo se unisse. Antes, o caiaque era de um lado, a canoa de outro e isso não agregava valores. Unimos as duas forças do esporte e isso fez com que os dois lados crescessem”, analisa.

A canoagem brasileira vai participar dos Jogos Pan-americanos com nove atletas: Sebastián Cuattrin (K1 1000m K4 1000m), Guto Campos (K2 500m e K4 1000m), Edson Silva (K4 1000m), Roberto Maheler (K4 1000m), Jonathan Silva (K2 1000m), Givago Bitencourt Ribeiro (K2 1000m), Nivalter Santos (C1 500m e 1000m), Vilson da Conceição (C2 500m e 1000m) e Vladimir Moreno (C2 500m e 1000m). De olho em uma boa participação na disputa, os atletas treinaram cerca de cinco horas diárias no ABC paulista. Depois embarcaram para a Europa, onde mediram forças em duas etapas da Copa do Mundo. No começo de junho começarão a concentração definitiva no Rio de Janeiro.

“A gente fez uma periodização especial para o Pan e agora o treinamento vai ser bem mais duro para que eles cheguem ao Rio no auge. Queremos que eles cheguem ao Pan em condições de enfrentar qualquer adversário”, comenta Sena.

Na estadia na Hungria e Croácia, os brasileiros tiveram a oportunidade de medir forças com alguns dos principais adversários no Pan, caso de Canadá, Estados Unidos, Chile, Argentina e Porto Rico. Em terras croatas, todos os brasileiros passaram para as semifinais da competição, mas apenas o sergipano Santos chegou a uma decisão A, ficando com o sexto lugar no C1 200m.

“Fomos para tentar medir qual o nível que nós ficamos e tentar depois fazer conclusões e mudar o programa de treino para o Pan”, explica Ákos. Na Hungria, o time nacional masculino chegou a quatro finais B: K4 1000m (oitavo lugar), K1 1000m (nono lugar), C1 1000m (oitavo lugar) e C2 1000m (nono lugar). A conclusão é que o Canadá, classificado a diversas finais A, será o maior adversário no Pan do Rio.
Entenda a canoagem
Nos Jogos Pan-americanos, assim como nas Olimpíadas, são utilizados dois barcos: a canoa e o caiaque. As canoas são barcos abertos, conduzidos por competidores apoiados nos joelhos. Os remos têm apenas uma pá. Caiaques são barcos fechados, cujos competidores estão sentados e utilizando remos de duas pás.

A competição é dividida de acordo com o tipo de embarcação e a distância do percurso. Caiaques e canoas são divididos em várias categorias, com comprimento, largura e peso distintos.

O número que vem depois da letra (K para caiaque e C para canoa) indica o número de atletas que conduz a embarcação: K-1 para uma pessoa, K-2 para duas pessoas, K-4 para quatro pessoas, C-1 para uma pessoa, C-2 para duas pessoas, C-4 para quatro pessoas.

Mesmo assim, as expectativas para o Pan são altas. “Acredito que vamos quebrar o tabu de nunca ter ganhado medalhas, porque nos treinos eles vêm baixando os tempos, que já estão excelentes para a canoa olímpica brasileira”, destaca Sena. Ákos concorda e mantém o otimismo. “Meu grupo cresceu nos últimos dois anos. Das cinco provas no Pan, em quatro eles têm chances de ganhar medalhas. A única que há dúvida é no K2 1000m. Só não sei falar agora qual dessas vai ser de ouro”, brinca o estrangeiro.

Apesar do frio maior que no Rio de Janeiro e da água doce e profunda (a água salgada da Lagoa Rodrigo de Freitas é mais leve e rasa), a represa Billings é considerada ideal para a preparação brasileira. Mesmo perto da via Anchieta, os treinos são realizados em espaço absolutamente tranqüilo, onde é possível ouvir o som de animais, e pescadores amadores ficam à beira da água. “Este lago é de grande tamanho, para fazermos a base do treino e ganhar quilometragem na remada. O vento é muito forte e conseguimos fazer a qualidade do treino”, explica.

Único medalhista de ouro na canoagem brasileira em Jogos Pan-americanos, Guto Campos garante que a modalidade está em ascensão. “Tecnicamente melhorou muito, todos os atletas estão com uma harmonia muito grande com o treinador”, afirma o atleta, que quer aproveitar o sucesso do Pan para ganhar um patrocínio. “É o que eu sempre digo: o caiaque é um outdoor ambulante, dá para aparecer muito a marca, mas ainda é pouco divulgado. Nas entrevistas pós-Pan é nossa hora de mostrar um retorno para o patrocinador”, espera.

Ákos, porém, ressalta que o Brasil ainda tem muito a evoluir se quiser alcançar o patamar húngaro de excelência na canoagem. “É muito importante apoiar o grupo brasileiro não com dinheiro, mas sim organizando as coisas. Tudo tem que estar no lugar quando for preciso, não pode atrasar. O Brasil ainda tem muito a melhorar nestas questões de logística. Aqui, os suplementos ainda não chegam no tempo exato”, avalia o treinador, fazendo comparação com uma guerra.

“Em um combate, o grupo que está com a logística atrasada não tem comida, não tem armas. Por isso, não consegue lutar direito e perde. O mesmo acontece no esporte”, compara o húngaro, que acredita que o mesmo acontece no restante da sociedade. “A organização é muito mais exata no meu país. Lá, somos mais fechados, temos preocupação. Aqui ninguém está muito preocupado para o futuro”, destaca.

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