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10/03/2004

Guga: “Não tenho nada a ganhar. Faço isso pelo tênis brasileiro”

Foto Divulgação

“Não tenho nada a adquirir com uma atitude como essa, mas precisava fazer alguma coisa”. Pensando no tênis brasileiro, o catarinense Gustavo Kuerten (foto) confirmou na tarde desta terça-feira, em coletiva em Florianópolis, que não jogará a Copa Davis, enquanto a gestão Nelson Nastás permanecer à frente da Confederação Brasileira de Tênis (CBT).

Guga classificou a sua atitude como um ato para aproveitar a era Guga e tentar mudar o atual quadro do esporte no país. “Se eu continuasse parado e as coisas continuassem assim, poderia passar cinco, dez anos passar esta era Guga e voltar para o esquecimento de novo. Não é isso que quero e a minha decisão engloba muito mais gente”, avaliou.

O catarinense tenta usar sua imagem e credibilidade para reverter a situação drástica do tênis, que carece de investimentos e um trabalho consistente nas categorias de base. “Faço isso mais em prol do tênis. Eu não tenho nada a adquirir com uma atitude como essa, a não ser usar minha imagem e o respeito que adquiri para mostrar que tem muita gente descontente”, disse.

Guga afirma que tem conversado com muitos outros tenistas e vem recebendo apoio em suas opiniões. “Sinto que tenho uma abertura legal com outros, o descontentamento não é só meu, os juvenis, os profissionais, os técnicos estão todos descontentes. Alguém tinha de fazer algo. Sei que não terá uma mudança da água para o vinho agora, mas a longo prazo vai ser importante”, apontou.

Há sete anos na Davis, Guga negou que o maior problema com a CBT são as acusações de desvios financeiros e má utilização de verbas públicas, como vem acusando o grupo de oposição ao atual presidente. “De conta, não sei nada, não estou envolvido e não estou questionando. Não é o meu papel, tem outras pessoas correndo atrás e isso vai vir à tona. O que quero é mudança na parte técnica, em como são as feitas as coisas. Não existe clareza, um trabalho que as coisas vão funcionar bem, defender as coisas da melhor forma possível”, ressaltou.

O brasileiro espera agora que as pessoas reflitam sobre o atual momento do esporte, para que possam ocorrer mudanças. “Senti que era o momento de tomar uma atitude, pode ser a curto ou longo prazo, mas o que quero é o que presidente tome mais inicativa, faça o tênis crescer, tenha respeito com os atletas da Davis, que é quem defende e bota a cara para bater. Isso que precisamos e isso que defendo”, encerrou.

Veja abaixo como está a posição dos principais tenistas brasileiros para o duelo:

Tenista

Ranking

Decisão

Gustavo Kuerten

16º

Não joga Davis. Foi o primeiro a anunciar publicamente o boicote

Flávio Saretta

46º

Não joga Davis

Ricardo Mello

132º

Tenista da equipe de Saretta (PlayTennis), ele deve acompanhar o companheiro de academia

Marcos Daniel

192º

Deve boicotar, mas ainda não anunciou a decisão publicamente

André Sá

198º

Não joga Davis

Franco Ferreiro

232º

Treinado por Ricardo Acioly, ex-capitão da Davis, deve ficar fora da Davis

Francisco Costa

265º

Não joga Davis

Bruno Soares

266º

Não joga Davis

Alexandre Simoni

304º

Não joga Davis

Júlio Silva

353º

Deve boicotar, mas ainda não anunciou a decisão publicamente

Pedro Braga

367º

Não joga Davis

Ronaldo Carvalho

400º

Não joga Davis

Cronologia

2/julho/2003 – Federação Catarinense (FCT) lidera movimento e entra na Justiça para reinvidicar atas das assembléias de 2000, 2001 e 2002, documentos contábeis dos mesmos anos e pagamento de taxas da Copa Davis do duelo entre Brasil e França, em 2000
7/setembro/2003 – FCT ganha apoio de outras oito federações e entra com pedido para cancelar assembléia da CBT.
21/setembro/2003 – Brasil perde do Canadá por 3 a 2, e cai para a Zona Americana da Copa Davis. Reunião entre jogadores, Nastás e o capitão da Davis, Ricardo Acioly no hotel pede mudança no comando da entidade. Nastás se revolta com atitude de Acioly.
9/dezembro/2003 – Assembléia ordinária (referente a 2003) e extraordinária (referente a 2001 e 2002) da CBT é suspensa pela Justiça, com liminar obtida pelo grupo liderado pela FCT. A CBT cassa liminar e realiza a assembléia extraordinária, à revelia das federações.
21/fevereiro/2004 – A dois dias do Torneio de Costa do Sauípe, Nastás anuncia a saída de Acioly do comando da Davis. Oncins assume o lugar, Nastás passa Carnaval em Bruxelas e jogadores são comunicados às pressas pelo novo capitão. Reunião em hotel na Bahia termina com jogadores criticando postura de Oncins, que é pressionado a deixar o cargo.
22/fevereiro/2004 – Guga e o técnico Larri Passos criticam publicamente a postura da CBT na troca do capitão, e reclamam sobre a falta de consulta aos atletas. Guga expõe a sua insatisfação com a gestão Nastás e diz que tênis precisa mudar. Saretta acompanha a opinião do catarinense.
23/fevereiro/2004 – Começa torneio em Sauípe. Polêmica em torno da troca de capitão gera discussões e atletas começam a firmar possível movimento de boicote à Davis.
29/fevereiro/2004 – Guga é campeão em Sauípe e volta a criticar Nastás. “Fui número um do mundo, estou no torneio mais importante do Brasil, sou campeão e o presidente da CBT não está”. Começam ligações entre Saretta, Sá, Guga e Oncins.
9/março/2004 – Guga anuncia que não joga a Davis em virtude das divergências com a atual administração da CBT.
10/março/2004 – Saretta acompanha Guga e movimento ganha respaldo de dezenas de tenistas. Oncins renuncia ao posto de capitão da Davis. Sede da CBT é tomada por policiais, que cumprem mandado de busca e apreensão de documentos contábeis e atas de assembléias.

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